Diário de Campanha - Episódio 0
Cutscene Inicial - O Funeral do Rei Cole.
14 de Novembro de 1620.
O corpo inerte do falecido Rei Cole Farngomery repousa em um caixão suntuoso de mármore e ouro, adornado por uma imponente coroa. Seu rosto, antes forte e determinado, agora apresenta uma expressão tranquila e serena. As roupas que o vestem são dignas de um soberano, bordadas com fios de ouro e pedras preciosas, refletindo a opulência do seu reinado. O traje contorna sua figura avantajada e a pele de seu rosto rechochudo está pálida e imóvel, indicando que já se encontra sem vida.
A Grande Catedral de Ennekastel, na capital da grandiosa nação de Farngomery, é uma obra-prima da arquitetura, repleta de grandiosos vitrais coloridos e luxuosas estátuas e pinturas que adornam as paredes e o teto abobadado. A atmosfera solene é pontuada pelo som dos passos silenciosos dos convidados, entre nobres e membros do clero, que se reúnem para prestar suas homenagens ao falecido rei.
Do lado de fora, uma multidão de plebeus de todas as castas se aglomera, ansiosa por um último adeus ao grande líder que os conduziu durante anos de próspero reinado. Os guardas reais fazem a contenção do perímetro, mantendo a ordem e a segurança do evento.
![]() |
| Rei Cole Farngomery. |
A cerimônia é conduzida pelo santíssimo Arcebispo Auderichis Acerrae,um homem magro e alto de olhos azuis penetrantes. Ele veste uma túnica branca bordada com ouro e um manto roxo escuro sobre os ombros. Em sua mão, segura um báculo com acabamentos prateados e uma pedra vermelha brilhante na ponta. Seu olhar é sério e respeitoso ao se aproximar do caixão do rei para conduzir a cerimônia religiosa. O arcebispo, com voz solene e comovente, se permite tecer algumas palavras em honra ao Rei Cole:
"Rei Cole Farngomery era uma alma antiga e alegre, um líder audaz e corajoso que conduziu nossa grande nação a um novo patamar de prosperidade. Nascido fora dos limites de Farngomery, ele se tornou a resposta perfeita para a antiga regência de seu pai, o Rei Junipero, carregando o fardo de evoluir uma nação consolidada e promissora.
Com sua visão e determinação, o Rei Cole deixou um legado que agora é incorporado por seus filhos, os jovens Príncipes que herdam o trono e a responsabilidade de conduzir a nação a um futuro ainda mais próspero. Sabemos que não será uma tarefa fácil, mas temos plena convicção de que Deus está do lado de vocês, jovens Príncipes, e de vossa majestade Rainha Tupence, para guiá-los no caminho da justiça e da sabedoria."
![]() |
| Arcebispo Auderichis Acerrae |
Os sinos da catedral cessam, dando lugar ao silêncio solene que preenche o ambiente. O Rei Cole Farngomery, um líder inesquecível, parte para a eternidade, mas deixa para trás um legado de conquistas e progresso que será lembrado por gerações futuras.
![]() |
| Príncipe Eric. |
O irmão do meio, Eric, vestido em uniforme formal da Marinha com medidas perfeitamente ajustadas, seus cabelos escuros e curtos eram impecavelmente penteados. Ele se encontrava desacreditado diante da janela, com um olhar distante, como se estivesse absorto em seus próprios pensamentos.
![]() |
| Príncipe Lysander. |
Adam, o segundo mais velho, era um homem bonito, alto e musculoso, com cabelos castanhos longos e roupas elegantes. Ele se encontrava abalado, com as mãos apoiadas sobre a mesa enquanto refletia sobre a morte de seu pai.
Por fim, Ambrose, o mais relaxado dos irmãos, segurava um cachimbo cravejado de pedras preciosas, a última herança que seu pai lhe deu. Ele parecia nostálgico, sorrindo para si mesmo, enquanto consumia uma taça de vinho. Descuidado e desgrenhado, com cabelos loiros mal cuidados e roupas amassadas, Ambrose não parecia se importar muito com a administração do reino ou com a sucessão do trono. Ele vivia o momento e era o oposto de Eric, que se esforçava para manter tudo em ordem.
A sala silenciosa era dominada pelos quatro irmãos, que pareciam tão diferentes em aparência e personalidade, mas que, apesar de tudo, eram unidos pelo sangue e pelo amor que sentiam pelo pai que acabara de partir.
![]() |
| Ambrose Farngomery. |
Eric percebe a tensão no ar e se volta para encarar Henry, mantendo a calma mesmo diante da personalidade impassiva do irmão mais velho. Adam ergue o olhar para encarar o irmão, mas abaixa novamente, visivelmente perturbado com os acontecimentos recentes. Ambrose continua a beber tranquilamente sua taça de vinho e acende o seu novo cachimbo, parecendo não se importar com a presença do irmão mais velho, enquanto Lysander se mantém em silêncio, observando com atenção cada movimento do irmão.
O silêncio paira na sala por alguns instantes, até que Henry quebra o clima tenso com um suspiro impaciente. Ele caminha até o centro da sala, como se fosse dono do lugar, e se posiciona em frente aos irmãos. Todos os olhares se voltam para ele, esperando para ouvir o que ele tem a dizer.
"Terei que ser eu o primeiro a falar?", pergunta Henry, em tom autoritário. Seus irmãos se entreolham, claramente incomodados com a atitude dele. Mas ninguém ousa confrontá-lo, pelo menos não naquele momento. Afinal, o momento era de luto e união entre os irmãos, não de conflitos familiares.
Henry se senta com uma postura ereta, tentando parecer confiante e pronto para lidar com a situação. Ele olha para seus irmãos e diz: "Pois bem então eu começo... Eu sei que fiz o que foi necessário, espero que vocês me apoiem. Eu sempre faço o que é melhor para a família e pra Nação".
Adam, sentado ao lado de Henry, tenta apaziguar a situação, dizendo: "Nós somos irmãos, devemos nos unir nesse momento difícil. Não há espaço para divisão".
![]() |
| Príncipe Henry Farngomery. |
Lysander, por sua vez, não consegue se conter e confronta seu irmão:
"Você não é o rei, Henry. Você não pode simplesmente fazer o que quiser e esperar que o resto de nós o siga cegamente".
A tensão na sala aumenta a cada segundo, os olhares trocados entre os irmãos denunciam uma tristeza profunda, porém em meio à dor, as personalidades de cada um se sobressaem, formando uma teia de emoções que parecem impossíveis de serem superadas.
Eric observava seu irmão mais velho, analisando e tentando prever qual seria sua próxima reação perante a revolta de Lysander. Mas mantinha-se em silêncio. Henry, por sua vez, assumiu uma postura defensiva.
"Não é a coroa que faz um rei! Mas sim a nobreza de suas ações..." Diz Henry se erguendo enquanto ia na direção de seu irmão mais novo desafiador.
"Você foi longe demais, Henry", disse Ambrose, finalmente saindo de seu transe. "Mas o que podemos fazer sobre isso não é? Você é sempre o dono da razão."
"Vamos manter a calma." Diz Adam ficando entre os três irmãos. "Não precisamos brigar entre nós. Precisamos pensar em como lidar com essa situação..."
"Parece que você está sozinho nessa, Henry." Lysander aproveitou a oportunidade para provocar Henry. "Nenhum de nós pode em sã consciência apoiar suas ações."
Henry começou a ficar irritado com as provocações de Lysander e, aos poucos, a tensão foi aumentando ainda mais. "Eu fiz o que tinha que ser feito! Não vou permitir que vocês me julguem sem saber todos os fatos."
Eric finalmente falou: "Henry, você precisa entender que o que você fez foi no mínimo imprudente. Não importa o que tenha acontecido, não podemos apoiar essa atitude."
O Silêncio preencheu a sala, mas ficou claro que os irmãos estavam divididos. A discussão havia chegado ao final, e ficou claro que a relação entre os irmãos não seria mais a mesma. Henry teria que lidar com as consequências de suas ações sozinho, enquanto os outros quatro tentariam seguir em frente, unidos, mas com a consciência pesada por saber que um dos seus havia cometido algo terrível.
Henry solta um suspiro pesado e olha para seus irmãos com desdém .
"Vocês não entendem nada. Estão todos vivendo em suas torres de marfim, ignorando o que realmente importa. Eu fiz o que foi necessário para proteger nossa Nação e vocês são incapazes de enxergar isso", ele diz com amargura.
Adam tenta argumentar, mas Henry o interrompe: "Não adianta, Adam. Vocês nunca entenderão o peso das decisões que precisamos tomar. Eu não esperava que vocês apoiassem minhas escolhas, mas pelo menos poderiam ter um pouco de respeito pelo que estou passando".
Eric toma a palavra: "Não estamos ignorando suas dificuldades, Henry. Mas você precisa entender que suas ações têm consequências, e você precisa lidar com elas. Nós estamos aqui para apoiar você, mas não podemos simplesmente ignorar o que você fez".
Ambrose se levanta lentamente, com uma expressão triste no rosto. "Henry, eu não sei o que dizer. Eu só queria que as coisas fossem diferentes".
Lysander, por sua vez, cruza os braços e olha fixamente para Henry. "Você fez uma escolha egoísta, Henry. E agora tem que lidar com as consequências. Não adianta jogar a culpa em nós. Você é o único responsável por suas ações".
Henry balança a cabeça em negação e dá as costas aos irmãos. "Me pergunto se algum dia um de vocês já foi meu irmão", ele murmura antes de sair da sala, deixando um silêncio tenso e pesado em seu rastro.
Apresentação dos Personagens.
Artemis Lune-Argentée.
![]() |
| Artemis Lune-Argentée |
Ela é leal àqueles que ama e fará o que for preciso para protegê-los, mesmo que isso signifique colocar sua própria vida em risco. Artemis tem cabelos ruivos deslumbrantes que caem em cachos soltos até os ombros, e seus olhos verdes brilhantes são uma de suas características mais marcantes. Sua pele clara e suave é frequentemente adornada com cicatrizes que ela conquistou durante suas caçadas diárias.
Artemis treinou na Academia de Duelos de Sir Locksley em Luthia, onde se destacou como uma das melhores alunas mirins. Seu treinamento aprimorou ainda mais sua habilidade com o arco e flecha, tornando-a uma arqueira excepcionalmente habilidosa. Quando não está praticando suas habilidades de arquearia, Artemis gosta de passar seu tempo livre lendo livros sobre idiomas e outras culturas. Ela é uma menina que sempre busca aprender e evoluir, sempre em busca de novos desafios para enfrentar.
Christof Dior.
![]() |
| Christof Dior. |
Em uma de suas expedições, Christof sofreu um naufrágio que resultou na perda de sua visão em um acordo com a misteriosa entidade conhecida como a Bruxa do Mar, que o ajudou a retornar para casa. Essa experiência mudou profundamente a vida de Christof, fazendo-o se tornar mais amargo e melancólico.
Apesar de sua seriedade, Christof é inteligente e bem-educado. Ele tem uma barba castanha e é careca, além de ter olhos brancos com cicatrizes que são resultado do acordo que o deixou cego. Christof ainda carrega o peso de suas escolhas passadas, mas tenta se redimir ajudando outras pessoas e transmitindo seu conhecimento como professor.
Drake Walker.
![]() |
| Drake Walker |
Abandonado pelo pai, Drake teve que enfrentar a vida sozinho desde muito jovem. Quando sua mãe ficou doente e morreu por falta de recursos financeiros, ele se sentiu impotente e viu que o dinheiro poderia ter salvado sua vida. Desde então, ele tem trabalhado duro para ganhar o máximo de dinheiro possível, tornando-se um mercenário habilidoso e um guarda-costas confiável em expedições.
Apesar de sua personalidade arrogante e gananciosa, Drake tem um senso de lealdade que o leva a proteger seus contratantes e amigos, muitas vezes se colocando em frente ao perigo. Ele também possui uma inteligência aguçada e astúcia que o ajudam a se destacar em situações perigosas e difíceis.
Fransisco Herrara.
![]() |
| Fransisco Herrara |
Apesar de sua vida simples e humilde, Francisco é dotado de um bom coração e um grande senso de compaixão, sempre disposto a ajudar aqueles que precisam. Seus conhecimentos em medicina e botânica o tornam uma fonte de ajuda valiosa em sua comunidade, e ele sempre está disposto a compartilhar seus conhecimentos com quem precisa.
Francisco é um jovem que valoriza muito a vida simples e a conexão com a natureza, e isso se reflete em sua personalidade e em suas escolhas de vida. Ele é uma pessoa querida por aqueles que o conhecem, e um exemplo de bondade e humildade.
Friederich Schnee.
![]() |
| Friederich Schnee |
Ele é forte, treinado em combate, e suas habilidades na Escola de Hexanos o tornam ainda mais perigoso. Schnee tem um forte sotaque germânico, fruto de sua origem nobre, mas também devido à sua formação na escola de magia. Ele tem cabelos curtos e uma longa barba branca, que contribuem para sua aparência marcante.
Por trás de sua bravura e ferocidade, Schnee carrega um peso emocional de ter sido enviado para a escola como um "filho profano" por sua própria família. Esse passado conturbado o tornou mais fechado para o mundo e sentimentos, mas ele ainda tem um coração bondoso e faz o que pode para ajudar os outros em sua luta contra os monstros.
Prólogo - Eu sou a Voz.
Setembro de 1625.
A pacífica floresta de Dormark agora é cenário de terror. Um fedor pútrido e animais mortos são apenas o início dos problemas. Homens são encontrados desmembrados e crianças desaparecem sem deixar vestígios. Os mais afetados são os moradores mais pobres da região, que vivem próximos à floresta e em sua maioria trabalham na Pedreira.
Segundo relatos dos camponeses e moradores mais pobres da região, há uma criatura aterrorizando a Floresta de Dormark. Muitos acreditam que se trata de um ser sobrenatural ou um monstro que está matando os animais da floresta, atacando os homens e levando as crianças. Esses moradores acreditam que a criatura é responsável pelo mau cheiro que emana da floresta, e que ela é a causa de todas as mortes e desaparecimentos misteriosos que vêm ocorrendo na região. Apesar de seus relatos, os nobres e ricos não levam a sério a existência dessa criatura, considerando-a apenas como uma lenda rural.
Enquanto os nobres ignoram as queixas, o Duque Marcel Tempête está em desespero. Sua filha Sarahleen desapareceu e apenas seu cachecol foi encontrado próximo à floresta. O Duque sabe que precisa de ajuda e enviou uma carta para Connor Dormark, sabendo que ele é a única pessoa capaz de ajudar. Agora, todos aguardam ansiosamente pela solução desse mistério.
Capítulo 1 - O Jovem Herdeiro do Verde.
12 de Setembro de 1625.
Francisco acorda antes mesmo do sol nascer, sabendo que precisa se apressar para não ser flagrado por sua mãe. Ela já o repreendeu diversas vezes por sair cedo demais e se aventurar na floresta de Dormark, principalmente agora que a região está sendo assombrada por uma presença sombria e hostil. Mas para Francisco, a floresta sempre foi um refúgio e um lugar de paz em meio aos conflitos urbanos de Kristadelle.
A mãe de Francisco já estava acordada quando o rapaz tentou escapulir pela porta de casa. Com um suspiro cansado, ela o interceptou antes que pudesse sair. "Onde você pensa que vai, Chico?" perguntou a mulher com as mãos na cintura, sua expressão enraivecida.
Francisco se encolheu um pouco diante da reprimenda de sua mãe. Ele sabia que ela se zangaia com ele, mas ele não podia resistir à atração que a floresta exercia sobre ele. "Eu só queria dar uma vorta, mãe", ele disse timidamente, evitando olhar nos olhos da mãe.
"Francisco, eu já disse que a floresta não tá mais segura ultimamente. Você precisa ficar longe de lá até que as coisas se resolvam." A mãe do garoto soltou um suspiro resignado como sempre fazia antes de começar um sermão: "Você sabe que eu só me preocupo com você, filho. Eu não quero que algo aconteça com você lá fora. Promete que não vai mais tentar sair sem me avisar?"
Francisco suspirou em concordância, sabendo que sua mãe estava certa, mas ainda ansiando pela liberdade da floresta. Francisco recebeu um beijo de sua mãe na testa e voltou para o quarto e fingiu se deitar novamente. Esperou alguns minutos até ter certeza de que sua mãe já havia se afastado da porta e se levantou silenciosamente da cama. Olhou pela janela e viu que o sol começava a clarear o céu. Era a hora perfeita para partir.
Com cuidado, ele abriu a janela e se empuleiro na borda da janela. Olhou para os lados para se certificar de que não havia ninguém por perto e saltou para o chão. Assim que o jovem pula a janela de casa, ele começa a escutar latidos. O Rapaz havista vindo em sua direção o seu cãozinho: Fuligem que começa a pular ao redor dele, como se quisesse participar da brincadeira.
![]() |
| Fuligem |
Ele sai de casa furtivamente, com passos rápidos e leves, tentando não chamar a atenção dos cachorros dos vizinhos. Ao chegar na entrada da floresta, o fedor pútrido que tomava conta do local o atinge com força. Francisco prende a respiração por alguns instantes e segue em frente, sabendo que não pode desistir de seu objetivo.
Fransisco seguia adiante pela estrada de terra batida que levava até a entrada da Floresta de Dormark, seu fiel cão Fuligem corria animadamente ao seu lado. O jovem ainda estava inquieto com a possibilidade de encontrar algo perigoso pela frente, mas tentava manter a coragem.
De repente, ele notou um movimento próximo a um arbusto e viu um menino sair de lá. Era Timothy Wurfell, um garoto de rua espevitado que costumava vagar pela região em busca de comida ou distração. Fransisco já havia visto ele algumas vezes pelas redondezas e trocado algumas palavras com o jovem espoleta.
![]() |
| Timothy Wurfell. |
"Ah, estou só dando uma volta. Vou até a entrada da floresta", respondeu Fransisco, meio sem jeito.
"Legal! E essa lindeza aqui é o Fuligem, né? Ele é muito bonzinho, posso fazer um carinho?", disse Timothy, já se aproximando do cachorro e acariciando sua cabeça.
Fuligem parecia gostar do garoto, abanando o rabo e lambendo seu rosto. Fransisco não conseguia deixar de sorrir com a cena.
"Obrigado, ele é meu melhor amigo. Mas preciso seguir em frente agora, eu vou me atrassar", disse Fransisco, tentando se desvencilhar de Timothy.
"Ah, eu entendo. Mas antes de ir, me conta mais sobre a sua irmãzinha, a Mía! Ela é tão fofa, sempre vejo ela brincando na frente de casa", disse Timothy, com um brilho no olhar.
"Bom... você pode ir me acompanhando e no caminho eu ovu te contando?" Disse Fransisco já se adiantando e prosseguindo sua jornada.
"Bom... você pode ir me acompanhando e no caminho eu ovu te contando?" Disse Fransisco já se adiantando e prosseguindo sua jornada.
Enquanto caminhavam pela estrada empoeirada em direção à floresta, Timothy Wurfell não conseguia conter sua curiosidade sobre a irmã de Fransisco.
"Então, Fransisco, sua irmã é muito legal, não é?" Timothy perguntou, com um sorriso travesso no rosto.
Fransisco, que já havia percebido a paixonite de Timothy por sua irmã mais nova, sorriu constrangido antes de responder: "Bem, eu acho que sim, mas ela é minha irmã, você sabe, não posso falar muito dela para você, Timmy".
Timothy revirou os olhos. "Ah, você sabe do que estou falando. Ela é bonita, legal e inteligente. Eu gostaria de conhecê-la melhor", disse ele com uma mistura de timidez e entusiasmo.
Fransisco soltou uma risada. "Ah, então é isso. Não se preocupe, Timmy, eu não vou contar para ela que você gosta dela. Mas se você quiser conhecê-la melhor, talvez você possa vir lá em casa e conhecer minha família. Mía adora fazer novos amigos", sugeriu ele.
Timothy ficou animado com a ideia. "Sério? Você acha que eu poderia fazer isso? Obrigado, Fransisco, você é o melhor", disse ele, pulando de alegria.
Fransisco sorriu, sabendo que Timothy era um garoto doce apessa de travesso. "Não há problema, Timmy. Mas agora, temos que continuar nossa caminhada. Estamos quase chegando à entrada da floresta", lembrou ele.
Timothy concordou e os dois continuaram a caminhar pela estrada empoeirada, conversando sobre outras coisas enquanto o sol começava a subir no céu. Não demora muito para eles avistarem a floresta, Fransisco percebe que Timothy está começando a se sentir desconfortável com a ideia de entrar mais fundo na floresta, o garoto está suando e trêmulo, e decide respeitar seus medos, afinal, ele não quer colocar a vida do garoto em risco. Calmamente ele se vira para Timothy e diz:
"Timothy. Acho que não tem problema, Fuligem e eu seguimos em frente sozinhos."
Timothy respira aliviado e responde:
"Ah, ótimo. Quer dizer... Ainda bem! É que eu tenho que voltar para a cidade agora, tenho algumas coisas para fazer."
Fransisco percebe que Timothy está inventando uma desculpa para se afastar e acha graça da situação. Ele acaricia a cabeça de Fuligem e diz:
"Tudo bem, Timothy. Sem problemas. Até mais."
Timothy acena para Fransisco e se afasta rapidamente, deixando-o sozinho com Fuligem. Fransisco segue em frente, agora com mais cautela e firmeza.
A entrada da Floresta de Dormark é marcada por uma grande placa de madeira rústica, com o nome "Dormark" grafado em letras grandes e escuras. Abaixo do nome, há um texto homenageando o famoso Druida Connor Dormark.
"A Floresta de Dormark, lugar de paz e harmonia com a natureza, é uma das maiores riquezas do Principado de Cristal. Em grande parte graças aos esforços e sabedoria do nosso amado Connor Dormark, que dedicou sua vida a proteger e preservar esse tesouro natural. Seu legado vive em cada árvore, em cada animal e em cada raio de sol que penetra entre as copas. Que sua luz continue iluminando nosso caminho na jornada pela harmonia com a natureza."
A placa é decorada com imagens de animais da floresta, como lobos, ursos e cervos, esculpidos em madeira. A placa é um sinal de boas-vindas para aqueles que entram na floresta, mas também serve como um lembrete da importância de preservar e proteger a natureza.
Ao adentrar a floresta, a atmosfera muda completamente. O que antes era um ambiente tranquilo e relaxante, agora está tomado pela morte e pelo medo. Alguns animais aparecem mortos pelo trajeto, com marcas de violência e ferimentos profundos, enquanto restos homens que adentravam na floresta são encontrados desmembrados e mutilados.
Ao adentrar a floresta, Fransisco sente um arrepio na espinha, como se algo estivesse errado ali. A paisagem mudou completamente, as árvores altas e exuberantes agora parecem ter perdido sua vitalidade, isso era estranho mesmo para época de Outono em que se encontravam. O silêncio é ensurdecedor, quebrado apenas pelo som dos seus passos e pelos suspiros angustiados que ele dá de vez em quando.
O pensamento das crianças desaparecidas o perturba muito, ele sabe que sua irmã mais nova, Mía, costuma brincar perto da floresta e isso o deixa preocupado. Ele teme que ela possa ser a próxima vítima dessa situação sinistra. A ideia de perder sua irmã o aterroriza e Fransisco se sente impotente diante da situação.
O jovem roceiro sabe que é um dos cidadãos que mais sofrem com essas mazelas. Sua família vive na área mais pobre da região e as construções humildes estão próximas à floresta. Além disso, muitos dos amigos de seu pai trabalham na "Pedreira", um lugar perigoso dentro da floresta onde os trabalhadores coletam pedras para construção e mineram riquezas ao lado de presidiários em nome da corte de Kristadelle.
Apesar dos perigos e das ameaças que assolam a floresta de Dormark, Francisco não pode deixar de se sentir atraído por ela. É como se algo o chamasse para dentro, como se houvesse uma energia pulsante e misteriosa no ar. Ele avança, sem saber ao certo o que irá encontrar ou se conseguirá voltar para casa são e salvo. Sentindo a atmosfera densa e misteriosa se fechar em torno dele. As árvores, com suas folhas secas e alaranjadas, criavam uma espécie de cúpula ao seu redor, filtrando a luz do sol que se infiltrava por entre os galhos.
![]() |
| Connor Dormark. |
O homem parecia preocupado, olhando atentamente para as árvores e para o chão. Quando viu Fransisco, ele sorriu levemente mas logo foi falando com sua voz grave porém acolhedora:
"Desculpe, Fransisco, mas há algo que preciso investigar na floresta. Não é seguro para você estar aqui por muito tempo. Mas tenho um presente para você, que entregarei amanhã de manhã", disse Dormark, enquanto vasculhava sua bolsa de couro.
Fransisco sentiu uma pontada de decepção, mas não podia culpá-lo. Sabia que o Druida tinha outras responsabilidades além de ensiná-lo. "Claro, Professor Dormark. Entendo completamente", respondeu o jovem, tentando esconder a frustração em sua voz.
Mas antes que pudesse se despedir, Dormark acrescentou: "Mas não se preocupe, Fransisco. Sempre há algo a ser aprendido na floresta. Preste atenção ao seu redor e deixe que a natureza seja sua professora".
Fransisco concordou com um aceno de cabeça, enquanto Dormark desaparecia entre as árvores, deixando-o sozinho com Fuligem. O cachorro vira-lata rosnou baixinho, como se estivesse incomodado com a presença do Druida, mas Fransisco acariciou seu pelo áspero e falou em voz baixa: "Ele é estranho, mas é um bom homem, Fuligem".
Fransisco admirava muito Dormark por sua sabedoria e conhecimento sobre as plantas e a natureza. Desde pequeno, ele ouvia histórias sobre o velho boticário e os mais velhos da cidade o enxergavam como um guia e mentor, alguém que poderia lhe ensinar tudo o que precisava saber sobre as plantas e como usá-las para curar doenças e aliviar o sofrimento das pessoas.
Dormark era muito respeitado na comunidade, mas ele nunca escrevia seus conhecimentos em livros ou manuscritos. Em vez disso, ele preferia transmitir tudo o que sabia através de conversas e ensinamentos orais. Fransisco admirava essa abordagem única de aprendizado e sempre passava suas manhãs ao lado de Dormark, aprendendo sobre plantas e ouvindo suas histórias sobre as muitas aventuras que viveu em sua vida.
Para Fransisco, Dormark era como um avô que sempre o orientava e o aconselhava. Ele admirava muito a sabedoria e a paciência do velho boticário e queria seguir seus passos, aprendendo tudo o que podia com ele. Por isso, Fransisco ficou desapontado quando Dormark o dispensou sem lhe dar aula naquele dia, mas sabia que o velho mestre estava muito ocupado com seus deveres e que o presente que ele prometera seria uma boa compensação.
Com um suspiro, Fransisco começou a caminhar de volta para casa, sentindo o peso da mochila em suas costas. Mas enquanto seguia em frente, a voz de Dormark ecoava em sua cabeça, lembrando-o de que a natureza sempre tinha algo a ensinar. Na sua lenta caminhada para casa Fransisco observava a natureza.
Ele notou a forma como as folhas das árvores caíam, dançando lentamente até tocar o chão. Ele observou a forma como os pássaros voavam em sincronia, formando um lindo padrão no céu. Ele notou como as flores balançavam suavemente ao vento.
Foi nesse momento que Fransisco percebeu que a natureza sempre tinha algo a ensinar. A queda das folhas ensinava sobre a impermanência da vida, que tudo é passageiro. A dança dos pássaros ensinava sobre a importância da cooperação e do trabalho em equipe. O balançar das flores ensinava sobre a flexibilidade e a capacidade de se adaptar às mudanças.
Fransisco sentiu-se inspirado pela sabedoria da natureza e agradeceu silenciosamente por mais essa lição que recebeu. Ele sabia que precisava continuar aprendendo com a natureza e que essa seria uma jornada constante e enriquecedora.
Fransisco retorna para casa ao final da manhã após sua caminhada pela floresta. Ele se dirige para o celeiro, onde guarda sua mochila e troca suas roupas. O sol já está começando a ficar mais forte no céu e Fransisco sabe que precisa ser rápido para concluir todas as tarefas antes que a noite chegue. Ele começa a trabalhar no campo, onde há diversas tarefas a serem realizadas.
Primeiramente, ele precisa arar a terra para a plantação de milho que acontecerá no próximo mês. Ele prende o cavalo ao arado e começa a puxá-lo pela terra, enquanto a lâmina corta o solo e levanta a terra para permitir que as sementes sejam plantadas. Fransisco trabalha incansavelmente, suando e empurrando o arado para frente, até que a primeira fileira esteja concluída.
Enquanto realizava as atividades na fazenda, Fransisco sentia uma mistura de cansaço e satisfação. A sensação de estar trabalhando duro e fazendo algo útil o deixava orgulhoso, mas também se perguntava se era isso que ele queria fazer pelo resto da vida.
Em seguida, ele começa a podar as árvores frutíferas, retirando os ramos secos e as folhas mortas. Ele usa uma tesoura de poda e se movimenta com cuidado pela plantação, examinando cada árvore e removendo tudo o que pode impedir o crescimento dos frutos.
À medida que o sol ia se pondo no horizonte, ele pensava em suas conversas com Dormark, e como ele gostaria de seguir um caminho diferente do que seus pais haviam traçado para ele. Pensava em como gostaria de explorar o mundo além das terras da fazenda e descobrir novas coisas, mas também sabia que era sua responsabilidade ajudar sua família e cuidar da fazenda.
Ao final da tarde, Fransisco recolhe as ferramentas e se dirige para casa. Ele está exausto, mas feliz por ter concluído todas as tarefas que foram planejadas para o dia.
Enquanto arrumava as ferramentas e os equipamentos no celeiro, Fransisco se sentia cansado, mas também esperançoso pelo que o futuro poderia trazer. Ele sabia que havia muito mais a aprender e a descobrir, e que a natureza e as pessoas ao seu redor seriam suas maiores fontes de sabedoria e inspiração.
Enquanto arrumava as ferramentas e os equipamentos no celeiro, Fransisco se sentia cansado, mas também esperançoso pelo que o futuro poderia trazer. Ele sabia que havia muito mais a aprender e a descobrir, e que a natureza e as pessoas ao seu redor seriam suas maiores fontes de sabedoria e inspiração.
A Lua se sergue no céu e Fransisco volta para casa, pra descansar de mais um cansativo dia de Trabalho. À medida que a noite vai caindo e as estrelas começam a aparecer no céu, ele se sente grato por ter um lugar tão tranquilo e bonito para chamar de lar.
Fransisco estava sentado na varanda quando ouviu a carroça de seu pai se aproximando. Ele pôs-se de pé e ficou observando enquanto o velho estacionava no pátio da fazenda. Seu pai, Emílio Herrara, saiu da carroça cambaleando, parecendo um pouco tonto.
Fransisco se aproximou do pai e o ajudou a subir os degraus da varanda, preocupado com a possibilidade de ele tropeçar e cair. Ele segurou o braço do pai com firmeza, guiando-o até a porta da casa.
![]() |
| Emílio Herrara. |
Finalmente, eles chegaram à porta da casa, e Fransisco ajudou o pai a entrar. Ele o guiou até o sofá da sala e pediu que ele se sentasse e descansasse um pouco. Fransisco estava visivelmente abatido, com uma expressão de tristeza no rosto. Ele sabia que seu pai bebia demais e que isso muitas vezes o tornava irresponsável e imprudente. Ele se sentou em uma cadeira ao lado do sofá, observando o pai com preocupação.
A Família de Fransisco estava reunida na pequena e humilde mesa de jantar para sua refeição noturna. A família Herrara era uma família católica devota e, como de costume, começaram com uma oração antes do jantar.
"Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém", disse Márlene, a mãe de Fransisco, enquanto todos faziam o sinal da cruz. Fransisco começou a servir a comida enquanto Emílio, visivelmente bêbado, ria e fazia comentários bobos e inteligíveis. Mía ria do pai, claramente entretida pela situação.
"Parceirinho, você é o melhor filho que um pai poderia ter", disse Emílio, passando o braço ao redor de Fransisco.
"O Papai tá falando engraçado de novo!", disse Mía, em meio a risadas.
Emílio riu alto e continuou a contar histórias engraçadas de seu dia de trabalho, enquanto Marléne olhava para ele com desaprovação.
"Por favor, Emílio, controle-se. Não é apropriado se comportar assim na mesa", disse sua esposa, claramente irritada. A refeição prosseguiu em um clima tenso, com Fransisco tentando manter a conversa agradável e sua mãe ficando cada vez mais irritada com seu pai.
Após a refeição, Fransisco ajudou a mãe a limpar a cozinha, enquanto Mía e Emílio ficaram na sala conversando e fazendo brincadeiras. Quando finalmente acabou, Fransisco se recolheu para o seu quarto para descansar após um dia corrido.
O sol começava a surgir por trás das árvores quando Francisco e Fuligem se dirigiram mais uma vez para a floresta, o rapaz estava ansioso para encontrar Dormark na cabana. Mas ao chegarem lá, o lugar estava estranhamente vazio e silencioso.
A cabana de Dormark era uma construção modesta de madeira, com uma única porta de entrada e uma janela pequena, que mal permitia a entrada de luz. O telhado de palha parecia ter sido construído com muito cuidado para resistir às intempéries da natureza. A fachada da cabana era rodeada por plantas e árvores, criando uma sensação de intimidade e proteção.
Ao entrar na cabana, Fransisco se deparou com um espaço simples e rústico, mas muito acolhedor. O chão de madeira era coberto por tapetes de pele de folhagens, e as paredes eram decoradas com pedaços de tecido colorido e artefatos de madeira. Na parte central da cabana, havia uma mesa de madeira maciça com diversos frascos e potes espalhados sobre ela.
Havia um aroma inebriante no ar, uma mistura de ervas e especiarias que parecia emanar de todos os cantos da cabana. Ao fundo, havia uma pequena lareira com fogo aceso, que aquecia o ambiente e criava uma atmosfera aconchegante. Em uma das paredes havia uma prateleira com diversos objetos, entre eles um kit de ferramentas de couro, algumas poções e frascos, e uma grande tigela de pedra.
Tudo na cabana parecia estar em seu devido lugar, como se a presença de Dormark fosse suficiente para manter a ordem e a harmonia no ambiente. Era evidente que aquele era um espaço sagrado para o velho druida, e Fransisco se sentia honrado em poder estar ali.
O Jovem olhou em volta e se surpreendeu em não ver Dormark mas sim apenas uma carta que repousava sobre a mesa, escrita com uma caligrafia que parecia ter sido traçada com pressa. Que dizia:
"Preste atenção jovem Francisco.
Terei que me ausentar pelos próximos dias.
Assuntos urgentes requerem minha atenção. Tente não incendiar a minha cabana enquanto eu estiver fora. Você fica responsável pelos assuntos que competem a proteção do verde!
Espero ver você dentro de algumas semanas no mais tardar.
Sinceramente. Connor Dormark.
P.S: O Seu presente está em cima da mesa"
O coração de Francisco acelerou enquanto ele lia as palavras de Dormark, tentando descobrir o que poderia ter acontecido com seu mentor. "Assuntos urgentes requerem minha atenção", dizia a carta. "Tente não incendiar a minha cabana enquanto eu estiver fora."
Francisco ficou confuso e preocupado. O que teria acontecido com Dormark? Por que ele teria que se ausentar dessa maneira? E o que significava ser responsável pelos assuntos que competem a proteção do verde? Mas ao ver o presente deixado por Dormark sobre a mesa, um kit completo de Herbalismo, a tristeza se transformou em esperança. Ele sabia que era hora de começar a aprender sozinho.
O dia que se seguiu foi solitário para Francisco. Cada passo que ele dava pela floresta era acompanhado por um sentimento de confusão e curiosidade. Ele tentava juntar os pontos e descobrir o que Dormark queria dizer com sua mensagem enigmática, mas não conseguia. Francisco percebeu que deveria ser paciente e esperar que seu mentor voltasse.
Enquanto isso, ele passou o tempo estudando seu novo kit de Herbalismo, examinando cuidadosamente cada planta e erva que encontrava na floresta. Ele começou a entender que a natureza tinha uma sabedoria profunda e que cada planta tinha um propósito específico. Francisco estava determinado a aprender tudo o que pudesse sobre os poderes curativos das ervas e se tornar um especialista em proteger o verde.
Fransisco retornou uma última vez para cabana de Dormark, o sol estava começando a se pôr, criando um tom dourado que filtrava pela janela da cabana de Dormark. Fransisco estava inquieto, procurando por qualquer sinal de seu mentor, mas nada apareceu. Fuligem sentiu sua angústia e se aproximou, oferecendo conforto com sua patinha amigável.
Foi quando eles ouviram os passos do lado de fora da porta. Fransisco instintivamente agarrou sua tesoura de jardinagem e se preparou para o pior. A floresta era conhecida por suas criaturas perigosas e Fransisco estava determinado a proteger a cabana de Dormark e Fuligem.
As batidas na porta foram lentas, deliberadas, e pareciam durar uma eternidade. Fransisco enrijeceu, sentindo um frio na espinha. Quando finalmente abriu a porta, ele se deparou com um homem que parecia estar completamente fora de lugar na floresta.
Ele era magro, de rosto estreito, e usava roupas finas que pareciam mais adequadas para um salão real do que para a natureza. O homem parecia tão assustado quanto Fransisco, mas havia uma determinação em seus olhos que sugeria que ele tinha um propósito claro em mente.
Fransisco não sabia o que fazer. Ele nunca tinha ouvido falar Dormark mencionando alguém assim antes. Mas havia algo na forma como o homem falava que sugeria que ele estava dizendo a verdade.
"Boa tarde, senhor. É aqui sim... Precisa de ajuda?" - pergunta Fransisco, mantendo o tom firme e porém respeitoso. Apessar de ainda estar um pouco desconfortável com a situação.
Fransisco coça a cabeça por debaixo do chapéu de palha, preocupado. "Connor Dormark não está aqui no momento. Ele teve que se afastar por uns dias. Mas deixou algumas coisas sob minha responsabilidade."
Galliati Fossati olha para Fransisco com um misto de desdém e desconfiança. "Você? E quem é você exatamente?"
"Meu nome é Fransisco Herrara. O Senhor Dormark me treinou como seu aprendiz e me deixou encarregado de algumas tarefas enquanto ele está fora." Disse o rapaz.
O Valete do Duque suspira, aparentemente aliviado. "Bem, pelo menos é alguém com quem posso falar. Eu não sou muito fã deste lugar, sabe... Tem muita coisa estranha acontecendo na floresta. Mas eu não posso voltar sem entregar esta carta para Connor. É muito importante."
Fransisco estende a mão para receber a carta. Galliati Fossati hesita por um momento, mas acaba entregando o envelope. "Por favor, entregue isso para ele assim que ele voltar. E por favor, reitero que é de extrema urgência."
"Claro, eu vou entregar a carta assim que ele voltar. Não se preocupe." - responde Fransisco, tentando passar confiança.
Galliati Fossati suspira novamente e olha ao redor, como se procurando uma saída. "Bem, eu acho que já é hora de eu ir embora. Essa maldita floresta, cheia de Insetos e ... Argh!."
Fransisco concorda, sabendo bem o quão perigoso a floresta pode ser para alguém que não está acostumado com ela. Ele acompanha o Valete do Duque até a saída da cabana e observa enquanto ele se afasta rapidamente. Depois, fecha a porta com cuidado e guarda a carta em um lugar seguro, esperando ansiosamente pelo retorno de Connor.
Os dias se passam e o jovem aprendiz continua cuidando da floresta e dos afazeres deixados por Dormark. Mas a preocupação só aumenta a cada amanhecer, com o sumiço prolongado do druida. Por cinco dias Fransisco volta a cabana de Dormark esperando reencontrar o Druida. Porém todas as vezes encontra a cabana completamente vazia, sem nenhuma indicação do que pode ter acontecido.
A curiosidade começa a crescer dentro de Fransisco, e ele sente uma grande tentação em abrir a carta deixada pelo Valete do Duque Tempête. Ele sabe que não é certo, mas a cada minuto que passa, a tentação se torna mais forte. Quando finalmente, no sexto dia, ele cede à curiosidade e abre a carta.
O papel da carta era grosso, com uma textura suave ao toque. Sua cor era um bege claro, com bordas douradas que indicavam um certo requinte. Ao ser aberta, uma fragrância adocicada se espalhou pelo ar, talvez proveniente de algum perfume aplicado pelo remetente. A caligrafia presente na carta é muito elegante e bem desenhada, com cada letra claramente formada e espaçada de forma uniforme. A tinta utilizada é preta, mas tem um brilho dourado quando a luz incide sobre ela. Parece ser de alta qualidade e não apresenta falhas ou borrões, indicando que foi escrita por uma mão hábil e experiente. A sensação de Fransisco ao abrir a carta e observar sua caligrafia e tinta é de admiração e respeito, mostrando que o autor é alguém de posição social elevada e muito bem-educado.
Caro Connor Dormark.
Temo ter que recorrer a sua ajuda novamente.
O meu maior tessouro foi tirado de mim,
espero que essa carta chegue em suas mãos o mais rápido possível.
Peço para que me encontre no dia 24 de Setembro
em minha residência.
Discutirei os por menores apenas presencialmente.
Assinado: Duque Marcel Tempête.
Fransisco, apesar de ter resistido por dias, finalmente sucumbiu à tentação e abriu a carta. A sensação ao ler o conteúdo foi uma mistura de curiosidade, receio e uma ponta de esperança. A menção do tesouro do Duque, o apelo por ajuda e a marcação de uma data específica instigaram ainda mais a curiosidade de Fransisco e a necessidade de saber o que havia acontecido com Connor Dormark.
Seus olhos percorrem as linhas do papel, e ele fica ainda mais confuso. O que será esse tesouro do Duque Tempête e como pode estar relacionado com o sumiço de Dormark? Fransisco decide que precisa fazer algo, e começa a planejar uma viagem até a residência do Duque, em busca de respostas.
Capítulo 2 - Do Mar Profundo à Escuridão Interior
16 de Setembro de 1625
O navio balançava violentamente, como se estivesse lutando para se manter à tona em meio à tempestade. As ondas gigantescas batiam com força contra a embarcação, sacudindo-a como se fosse uma folha ao vento. Christof Dior, preso na cabine, sentia o medo lhe consumindo. Ele sabia que aquela tempestade era o fim.
De repente, um estrondo ensurdecedor e o navio se partiu em dois. Christof foi jogado para fora, caindo no mar agitado. A água gelada o envolveu, fazendo-o tremer de frio e medo. Ele lutou para se manter à tona, mas as ondas pareciam querer arrastá-lo para baixo.
E então, em meio aos gritos desesperados dos outros passageiros, Christof ouviu uma voz familiar. Era sua filha, aos dez anos de idade, implorando para que ele voltasse. Ele tentou alcançá-la, mas a correnteza o puxou para longe. A voz da menina se tornou um grito agudo de dor, ecoando em sua mente, conforme o explorador era consumido pela escuridão.
Christof abriu seus olhos mas a escuridão continuava lá. Acordou em sua cama, suando frio e ofegante. Levou alguns segundos para perceber que estava em seu quarto, em segurança. Ele se sentou na cama, tentando controlar a respiração acelerada. Foi quando notou as lágrimas em seus olhos e a sensação de vazio em seu peito.
Apenas então Christof percebeu que havia sido apenas um pesadelo, mas a dor da perda e a culpa ainda estavam ali, presentes em sua mente. Ele fechou os olhos e respirou fundo, tentando afastar os fantasmas do passado. Mas a imagem da sua filha, pedindo por sua ajuda, permaneceu gravada em sua mente.
Christof Dior desperta em sua cama, ainda sonolento, quando ouve a porta de seus aposentos se abrir. Em seguida, a cortina que cobria a janela é puxada, permitindo que a luz da manhã inunde o quarto. Através da janela, é possível ver o porto de Scierfisch lá fora.
O porto é movimentado, com navios de todos os tamanhos e cores atracados. Alguns deles estão sendo descarregados enquanto outros são carregados com mercadorias. Há homens e mulheres trabalhando duro, carregando caixas e sacos em carrinhos de mão. No horizonte, Christof consegue ouviz as ondas do mar quebrando contra as rochas e o cheiro de peixe adentra por suas narinas.
A mãe de Christof, Hilde Dior, está presente junto com alguns criados da família. Ela parece feliz em tê-lo por perto para ajudar nos negócios da família, mas sente a infelicidade crescente em seu filho. Hilde está preocupada com a deficiência de seu filho e frequentemente manda os criados ajudá-lo.
Hilde Dior é uma senhora de 60 anos com uma aparência austera e elegante. Seus cabelos grisalhos são cuidadosamente penteados em um coque baixo, e suas roupas são sempre impecáveis e da última moda. Ela tem um rosto magro, com traços fortes e um queixo pronunciado. Seus olhos são castanhos escuros, penetrantes e sempre atentos a tudo que acontece ao seu redor. Ela mantém uma postura ereta e uma expressão séria, mas também é conhecida por ter um sorriso afetuoso e acolhedor. Hilde é uma mulher de presença marcante e é fácil notar que ela é uma figura de respeito e autoridade.
Apesar de Christof ser grato pelo cuidado que recebe de sua mãe e dos criados, ele também se sente desconfortável com toda essa paparicação. Ele deseja ser capaz de fazer as coisas por si mesmo e sentir-se independente, mas a sua deficiência visual o impede disso. Ele se sente um fardo para sua mãe e para aqueles que o ajudam, e às vezes se questiona se algum dia será capaz de viver uma vida normal como as outras pessoas.
O aroma delicioso de café recém-passado e pão fresco acabado de sair do forno flutua pelo quarto enquanto o café da manhã é servido. O som dos criados se movimentando, colocando a mesa é um sussurro suave que preenche o ambiente.
Os criados começam a ajudá-lo a se vestir. As roupas são feitas de um tecido azul macio e fino, com detalhes intricados em dourado e prata. Christof sente o toque suave do tecido em sua pele enquanto os criados o vestem, amarrando a gola com cuidado e ajustando as mangas.
Finalmente, com ajuda dos criados, Christof desce as escadas para a mesa do café. Ele se sente grato pela ajuda, mas ao mesmo tempo, um pouco constrangido com a atenção que está recebendo. Ele sabe que não precisa de toda ajuda dos criados, sua cegueira o faz se sentir um fardo para os outros.
Na mesa do café da manhã, Christof Dior senta-se em frente a sua mãe. Enquanto toma uma xícara de café quente, ele observa a paisagem pela janela. Hilde percebe a tristeza em seu filho e o questiona:
"Você está bem, meu filho? Sinto que você está deprimido ultimamente."
Christof suspira e vira seu rosto levemente em direção a sua mãe. Seus olhos brancos mirando o além "Eu estou bem, mãe. Só estou um pouco cansado ultimamente."
Hilde não parece satisfeita com a resposta. "Me diga uma coisa meu filho... você não sente vontade de lecionar nas faculdades novamente? Acho que seria bom para você sair e interagir com outras pessoas."
Christof balança a cabeça. "Não, mãe. Eu já passei dessa fase. Estou feliz como estou agora."
Hilde olha para o filho com preocupação. "Eu só quero o melhor para você, Christof. Quero que você seja feliz."
Christof sorri para a mãe. "Eu sei, mãe. E eu sou feliz. Eu só preciso de um tempo para mim mesmo."
O café da manhã transcorria tranquilamente entre Christof Dior e sua mãe Hilde, até que o criado entrou na sala. O homem alto e magro, com um uniforme preto e branco impecável, fez uma reverência antes de falar.
"Com licença, senhora. Eu gostaria de informar a Senhora sobre as atividades do dia da Companhia de Pesca." Hilde olhou para o criado e assentiu, indicando que ele podia prosseguir.
"Hoje teremos uma reunião com os investidores pela manhã, seguida de uma visita à frota de pesca para verificar o progresso dos trabalhos. À tarde, temos uma reunião com a equipe de tessoureiros para discutir as finanças da companhia."
Hilde assentiu com a cabeça, preocupada com o desempenho da empresa nos últimos meses. Desde a morte de seu marido, a companhia estava enfrentando dificuldades financeiras.
"E como foi nosso desempenho em comparação ao último mês?" - perguntou Hilde ao criado.
"A produção tem sido baixa devido às condições climáticas desfavoráveis, mas estamos fazendo o possível para manter a empresa em funcionamento."
"Patrão Christof, permita-me aproveitar sua presença para ler algumas cartas que foram entregados para o senhor." Disse o criado enquanto começava a ler cada uma das cartas, a maioria eram convites para dar palestras e lecionar em universidades, algo comum para um acadêmico de sua fama. No entanto, uma das cartas chamou sua atenção.
"Esta carta é do Gérald Girard" - disse criado.
"O que ele quer de mim?" - Surpreso,Christof indagou.
Hilde olhou para o filho, preocupada com a reação dele ao mencionar o nome do padrasto de sua filha.
"Vamos abrir a carta e descubrir, meu filho. Não há motivo para se preocupar."
Christof assentiu, mas a expressão em seu rosto deixava claro que algo o incomodava. O Criado abre o envelope revelando uma carta de papel simples roxo, dobrado ao meio, e tem a caligrafia desleixada e informal de Gérald Girard.
"Caro Christof,
Espero que esta carta o encontre bem. Eu sei que nossa relação não é das melhores, mas quero dizer que não tenho nada contra você. Eu amo sua ex-esposa e sua filha e quero que elas sejam felizes. Eu mesmo estou me divertindo aqui em Dunateaux, me divertindo com sua Ex-Mulher, você deve lembrar o quanto ela era insaciavel. Espero que o senhor esteja se divertindo também.
Não precisamos ser inimigos, podemos nos considerar irmãos já que temos o mesmo gosto por mulheres. Mas falando sério, espero que esteja bem e que possamos nos encontrar algum dia e conversar pessoalmente.
Atenciosamente,
Gérald"
Christof se sente constrangido ao ouvir o conteúdo da carta. Ele se lembra de quando ouviu falar pela primeira vez de Gérald e de como o homem sempre o tratou mulheres com desdém. Agora, ele se sente insultado ao ouvir como Gérald fala de sua ex-mulher e de sua filha, e se pergunta se o homem sabe o que realmente significa ter uma família. Ele balança a cabeça e pede para o criado parar de ler. Christof não sabe como responder a essa carta, mas sabe que não quer ter nada a ver com Gérald Girard.
Christof tentava voltar a saborear o café da manhã enquanto conversava com sua mãe sobre os negócios da família. O aroma do café recém-passado misturava-se com o perfume das flores do jardim que adentravam pela janela. Mas a tranquilidade da manhã foi interrompida pela chegada do criado responsável por anunciar visitantes. Ele entrou na sala com passos pesados e uma expressão de urgência no rosto. Era um homem baixo e gordo, com a barriga saliente e o rosto suado. Seus olhos arregalados pareciam que iam soltar para fora de sua face.
O criado gordo e baixo entra na sala ofegante e anuncia: "Senhora, Senhor, o Garoto Azul chegou para uma entrega." Ele se aproxima da mesa do café enquanto limpa o suor de sua testa e ajeita os poucos cabelos que tem para cubrir sua calvíce e acrescenta: "O senhor deseja que eu o deixe subir?"
O Garoto Azul era um mensageiro e carteiro lendário, conhecido por sua habilidade em encontrar qualquer destinatário em qualquer lugar de Farngomery. Seus serviços porém, não eram baratos. Se o Garoto Azul aparece em sua porta, é por que alguém precisa falar urgentemente com você
Quando o jovem mensageiro adeentrou na sala, seu olhar foi diretamente para Christof. O jovem é magro e alto, vestindo um uniforme azul-marinho com detalhes em dourado. Seus olhos são azuis, como o mar em um dia claro, e seus cabelos loiros são bem cuidados e encaracolados. Ele mantém sua expressão séria e concentrada, como se sempre estivesse analisando tudo ao seu redor.Ele anda pela sala e sua presença é imediatamente notada por sua postura calada e observadora. Ele se aproxima da mesa se curvando em sinal de respeito e entrega a carta para Christof, que não pode lê-la. Christof não estende a mão para pegar a carta, mas o Garoto Azul continua sem perceber que ele é cego e não pode ler. Há um momento de silêncio constrangedor antes que o mensageiro se dê conta de seu erro e entregue a carta para o Criado que estava ao lado de Christof.
Christof sentiu a curiosidade se misturar com o medo do conteúdo da carta. A aprensão de Christof foi cortada quando escutou o som do envelope sendo lentamente aberto.
O Criado, ainda surpreso com a presença do Garoto Azul, começa a ler a nova correspondência em voz alta, Enquanto o criado lia o Ex-docente sentiu seu coração disparar. O Criado faz uma breve pausa antes de continuar, examinando a carta com mais atenção.
"Para ser entregue as mãos de Christof Dior...", ele começa a ler, sua voz soando clara e firme na sala silenciosa. "...Meu prezado amigo. Não espero que se recorde de meu nome já que fazem alguns anos desde que patrocinei a sua pequena aventura nas Ilhas de Maures."
Christof pareceu levemente surpreso ao ouvir isso, mas não disse nada. Ele permaneceu em silêncio, ouvindo atentamente enquanto o Criado continuava a ler.
"Escrevo-lhe esta carta como um pedido desesperado por ajuda! Meu maior bem foi usurpado de mim, sei que não deve nada a mim mas não sei a quem mais recorrer. Creio que sua experiência como desbravador e pesquisador serão fundamentais para a resolução dessa empreitada."
O Criado olha para Christof novamente, parecendo um pouco confuso. "Parece ser um pedido de ajuda, senhor."
Ele continua a ler. "Rezo para que essa carta chegue em suas mãos. Junto dela as instruções para o nosso encontro e um adiantamento substâncial pelo seu tempo perdido."
O Criado para de ler, examinando a carta com mais atenção. "Ele parece estar oferecendo uma quantia significativa de dinheiro, senhor. E anexada aqui estão instruções para um encontro. Também diz que não é necessário uma reposta por escrito. Acho que o mensageiro está liberado então senhor." O Garoto Azul se despede com uma reverência e silenciosamente deixa a sala, voltando para o trabalho que o aguardava.
Christof permanece em silêncio por alguns instantes, com a carta em mãos, ponderando sobre o que acabara de escutar. Seu coração disparava com a possibilidade de uma nova aventura, mas seu lado racional alertava para os perigos que poderiam vir com ela.
Finalmente, ele quebra o silêncio e diz: "Isso é uma oportunidade única, mas também é uma empreitada perigosa. Eu preciso pensar melhor sobre isso antes de tomar qualquer decisão."
O Criado, que ainda aguardava a decisão de seu patrão, assente em concordância e se retira para cumprir suas outras obrigações. Christof, por sua vez, permanece na sala, absorto em seus pensamentos, decidindo se aceitará ou não a oferta do Duque.
A Senhora Dior ouviu atentamente a carta lida pelo Criado e, assim como Christof, ficou intrigada com a situação do Duque. No entanto, enquanto Christof parecia preocupado em aceitar ou não o trabalho, sua mãe o encorajou.
"Meu filho, você precisa aceitar essa proposta! Imagine só o quanto você pode ganhar com isso", disse ela, animada. "Não podemos deixar passar essa oportunidade. Quem sabe até podemos usar esse dinheiro para investir na empressa ou reformar nossa casa e convidar alguns investidores para jantar."
Christof parecia indeciso, mas a mãe continuou a incentivar. "Além disso, você precisa se distrair um pouco. Esse trabalho pode ser uma ótima oportunidade para você conhecer pessoas novas e talvez até encontrar uma moça interessante para se casar."
Ele suspirou, incomodado pelo comentário final de sua mãe e respondeu: "Mãe, eu entendo o que a senhora está dizendo. Mas essa não é apenas uma questão financeira. O Duque parece estar em uma situação complicada e não sei se estou disposto a me envolver em algo assim."
Sua mãe colocou a mão sobre a dele e disse com carinho: "Eu sei que você é um homem honrado, meu filho. Mas pense bem, essa pode ser a chance de mudar a sua vida. E se não gostar do trabalho, pode simplesmente desistir. O importante é tentar, não acha?"
Christof refletiu sobre as palavras da mãe e finalmente concordou em aceitar a proposta do Duque. "Está bem, mãe. Eu vou fazer isso. Mas espero que tudo dê certo."
A manhã seguinte amanheceu fria e nublada, o vento soprava forte e fazia as embarcações no porto dançarem em movimentos sincronizados. Christof Dior, que havia decidido aceitar a proposta do Duque Marcel Tempete, estava ansioso e empolgado para embarcar em sua nova empreitada.
Ele se levantou cedo e tomou um banho rápido, vestindo uma roupa adequada para a viagem. Dois criados estavam na sua frente, ajudando-o a colocar suas coisas e pertences em uma pequena mala de couro.
Enquanto isso, a Senhora Dior estava em pé no canto da sala, observando tudo atentamente. Ela havia acordado ainda mais cedo que o filho, não conseguindo conter a ansiedade de vê-lo partir em uma nova jornada.
"Não se esqueça de comer bem, meu filho. E cuide-se sempre, mesmo que esteja acompanhado. A vida é cheia de surpresas", disse a Senhora Dior, com uma voz suave e doce.
Christof, que já havia se preparado para enfrentar novos desafios, assentiu com a cabeça e respondeu: "Não se preocupe, mãe. Eu não sou mais criança".
"Pra mim vai sempre ser..." Concluía a mãe enquanto fazia um carinho delicado no rosto barbado de seu filho.
Enquanto isso, os criados carregavam as malas para a carruagem que estava estacionada em frente à casa. O veículo era luxuoso e espaçoso, com assentos de veludo macio e um teto de couro costurado à mão.
Christof subiu na carruagem e se acomodou em um dos assentos, sentindo o balanço do veículo enquanto seguia rumo ao desconhecido. Ele sabia que estava prestes a embarcar em uma grande empreitada, ele conseguia sentir esse tipo de coisa, e a ansiedade crescia a cada momento.
A carruagem seguia por uma estrada estreita, passando por colinas e campos verdes. A paisagem era de tirar o fôlego, com montanhas majestosas e rios cristalinos. A cada curva, uma nova surpresa aparecia, mas Christof não enxergava nenhuma dessas coisas. Apenas contava com o vento em seu rosto como companhia, enquanto tentava se guiar pelos sons e aromas a sua volta.
Capítulo 3 - Além da Pele Pálida.
14 de Setembro.
Ao passar pelo vilarejo de Ottersauge em direção à escola de magia de Zielkfrat, os viajantes costumavam se deparar com o grande mercado que circundava a escola. Conhecido por seus vendedores charlatões, o mercado era um lugar onde muitos tentavam tirar proveito dos viajantes mais facilmente impressionados, vendendo quinquilharias falsas como poções e elixires que não passavam de urina e tinta.
Os vendedores eram variados e cada um tentava atrair a atenção do público com suas artimanhas. Havia um em particular que se vestia com um chapéu cônico e uma barba falsa, alegando ser um mago poderoso que poderia curar qualquer doença com suas poções mágicas. Mas, na verdade, ele era apenas mais um charlatão entre tantos outros.
O mercado de Ottersauge era um lugar frenético, cheio de barracas e tendas montadas lado a lado, que se estendiam em um labirinto de vielas de paralelepípedos. As barracas estavam adornadas com panos coloridos e penduricalhos brilhantes, tentando atrair a atenção dos transeuntes desavisados.
Os vendedores empurravam seus produtos falsos com uma verve quase hipnótica, prometendo resultados milagrosos e benefícios incríveis, se o comprador estivesse disposto a abrir a carteira. Poções supostamente curativas, amuletos de proteção, elixires de amor e até mesmo ovos de grifo, tudo parecia estar disponível no mercado de Ottersauge.
As ruas estavam lotadas de pessoas, algumas pareciam estar em busca de uma barganha, enquanto outras passeavam apenas por diversão. Crianças corriam entre as barracas, tentando pegar os produtos que estavam pendurados nas pontas das tendas.
Um vendedor, que tentava convencer um cliente a comprar um amuleto da sorte, acabou deixando o objeto cair. Para surpresa de todos, o amuleto se partiu em vários pedaços, revelando que não passava de um pedaço de vidro pintado com tinta dourada.
O Vendedor riu com sorrisso amarelo e disse: "Viu? Já deu sorte de não comprar esse cacareco!"
O cliente, que percebeu o engano, começou a discutir com o vendedor, enquanto a multidão se juntava em volta, rindo da situação.
O mercado de Ottersauge era uma verdadeira farsa, um lugar onde a ilusão era mais importante do que a realidade. Mas a verdaidera magia estava presente no coração do vilarejo, na famigerada escola de Zielkfrat.
À medida que nos afastamos do mercado barulhento de Ottersauge, eles se aproximam dos imponentes portões da Escola de Magia de Zielkfrat. Os portões são gigantescos, de madeira escura e imponente, com arcos esculpidos e gravuras místicas. Acima dos portões, o brasão da escola é esculpido em pedra, com um grifo majestoso segurando uma chama branca suas garras.
Ao passar pelos portões, somos saudados por uma vista espetacular. A entrada é uma grande avenida de pedra que leva a um pátio imenso. No meio do pátio, uma grande fonte jorra água cristalina, cercada por estátuas de antigos Hexanos e criaturas fantásticas.
À esquerda do pátio, a torre principal da escola se ergue majestosa. A torre é alta e fina, com uma cúpula brilhante no topo, que parece capturar a luz do sol e refleti-la de volta ao mundo. A torre é cercada por vários prédios menores, cada um com sua própria função - biblioteca, laboratórios, dormitórios, refeitório, etc.
À direita do pátio, o grande campo de treinamento, onde os alunos irão aprimorar suas habilidades mágicas e físicas. O campo é cercado por altas paredes de pedra, com vários obstáculos e espalhados por toda parte. No fundo do campo, uma pequena arena se ergue, onde os alunos poderão competir uns contra os outros em vários duelos.
Os estudantes de Zielkfrat são uma mistura de jovens nobres e órfãos selecionados pela escola. Muitos deles foram enviados para a escola pelos seus pais, como forma de garantir a educação arcana e um futuro próspero. Outros, porém, tiveram que trabalhar arduamente para conseguir se matricular na escola, já que ela exige um alto nível de conhecimento e habilidade mágica.
Os estudantes variam em idade, mas em sua maioria têm entre 11 e 18 anos. Eles são facilmente identificáveis pelo uniforme da escola, que consiste em uma túnica azul-marinho com uma faixa dourada na cintura, combinada com uma camisa branca e uma gravata de seda com o brasão da escola bordado. Alguns estudantes também usam um chapéu preto com a insígnia da escola na frente.
Cada estudante carrega uma mochila, que contém todos os seus livros e materiais de estudo. Entre os livros mais importantes estão "A Caçada. Um Cria Prático para criaturas mágicas de Elric von Hirsch", "A História da Magia em Farngomery" e "Ungentos e Elíxires". Também é comum ver os estudantes carregando frascos de poções e ingredientes mágicos em suas mochilas.
Os estudantes são encorajados a explorar os vastos terrenos da escola e a praticar duelismo sempre que possível. Alguns alunos têm habilidades mágicas mais avançadas do que outros e são encorajados a se desafiar e a explorar seu potencial. No entanto, todos os alunos são instruídos a nunca abusar do seu poder e a usar a magia com a supervição de um monitor.
O refeitório da escola de Zielkfrat era um salão grande e bem iluminado, com janelas altas que deixavam entrar a luz do sol da tarde. O teto era alto e abobadado, com vigas de madeira escura que sustentavam o telhado de ardósia. Mesas compridas e bancos de madeira se espalhavam pelo salão, com espaço para acomodar centenas de alunos. As paredes eram decoradas com tapeçarias coloridas que retratavam cenas de magia e batalhas épicas.
Naquela tarde do começo de outono, o refeitório estava cheio de vida. Os alunos estavam sentados em grupos, conversando e rindo enquanto se serviam das diversas opções de comida que eram oferecidas no bufê. Havia sopa de legumes, frango assado, batatas gratinadas, pão recém-assado e uma variedade de saladas frescas. O cheiro da comida era delicioso e atraente, fazendo com que os alunos se servissem com entusiasmo.
![]() |
| Jacqueline Leroy-Bethencourt e Sacha Beayfay. |
Enquanto isso, dois professores estavam sentados em uma mesa no canto do salão, discutindo sobre um feitiço complexo que estavam tentando desenvolver. O professor Sacha Beayfay, um homem alto e de cabelos longos de aparência delicada, estava gesticulando com entusiasmo enquanto explicava uma teoria pessoal complicada para a professora Jacqueline Leroy-Bethencourt, uma mulher de cabelos vermelhos pressos em um coque, elegante e esguia. Ambos pareciam imersos em sua conversa, esquecendo-se completamente do alvoroço ao seu redor.
De repente, um grupo de alunos começou a cantar uma música animada, acompanhados pelo som de uma flauta. Logo, mais e mais alunos se juntaram à cantoria, criando um coro alegre que ecoou pelo refeitório. O ambiente estava cheio de animação e entusiasmo, e a felicidade dos alunos era contagiante. Era fácil perceber que aquele lugar era muito mais do que apenas uma escola de magia - era uma comunidade vibrante e unida, cheia de energia e vida.
Porém no meio de toda aquela animação, havia alguém sentado em um canto afastado da mesa. Era um homem alto e forte, de aparência intimidadora. Sua pele pálida, dentes afiados e olhos amarelos felinos poderiam causar medo em muitos, mas não parecia estar preocupado com a atenção que pudesse chamar.
Ele observava a cena com uma expressão séria e concentrada, parecendo alheio à animação dos demais alunos. Seus cabelos curtos e a barba branca lhe conferiam uma aparência marcante, assim como sua postura rígida e intimidadora.
Ele parecia entediado com todo aquele barulho e alegria, como se algo o incomodasse profundamente. Mas não era possível saber exatamente o que estava passando em sua mente.
Aos poucos, os alunos foram terminando suas refeições e saindo do refeitório, deixando-o cada vez mais vazio. Foi então que se tornou possível ver com mais clareza quem estava sentado ali, afastado de tudo e todos. Sua expressão fechada e distante escondia a consternação que sentia no momento. Ele havia se formado há mais de um ano na Escola de Zielkfrat, mas ainda não havia sido convocado para nenhum serviço.
Sentia-se como se estivesse preso, incapaz de provar suas capacidades como caçador de monstros. Seus pensamentos estavam repletos de dúvidas e questionamentos sobre suas habilidades, e ele se perguntava se seria capaz de superar suas limitações e realmente fazer a diferença no mundo.
Schnee estava profundamente imerso em seus próprios pensamentos quando um homem se sentou à mesa com ele. Um homem alto de cabelos castanhos que não parecia se preocupar muito com sua aparência, usando roupas escuras. Mas oque chama a atenção mesmo é uma horrenda cicatriz em sua cara. Schnee já havia visto por aí algumas vezes perambulando pelos corredores, e sabia que seu nome era Jannick Hanfstaengl, um Küstenwache.
"Olá, Friederich," disse Hanfstaengl com um sorriso amigável. "Posso me sentar com você?"
Schnee levantou os olhos de sua taça de vinho e olhou para o homem. "Claro." respondeu ele com um aceno de cabeça. Alguns momentos de silêncio se instauraram enquanto Jannick observava o homem em sua frente.
"Deixe me dizer que eu estive de olho em você desde que você se formou, Friederich," disse Hanfstaengl, apoiando-se contra mesa de madeira. "Eu gosto do que vejo. Você tem o potencial de ser um grande caçador."
Schnee ficou intrigado. "O que você quer dizer com isso?"
"Eu tenho uma missão que preciso fazer," disse Hanfstaengl, voltando com seu corpo para trás. "Eu devo artir a essa tarde... E gostaria que o senhor me acompanha-se."
Schnee sentiu uma emoção indescritível subindo em seu peito. Ele mal podia acreditar que finalmente havia sido convocado para uma missão. Ele tentou manter a postura, no entanto, e não demonstrou muita animação.
"Hmm," disse Schnee, coçando a barba. "Eu suponho que eu posso fazer isso. Qual é o monstro em questão?"
"Ainda não temos certeza," disse Hanfstaengl. "Mas é uma criatura esperta o suficiente para sequestrar crianças. Se você aceitar a missão, eu fornecerei mais detalhes."
Schnee sabia que nao queria deixar Hanfstaengl saber o quão animado ele estava. Ele tentou manter a postura e concordou com a missão.
"Tudo bem, eu aceito," disse Schnee, levantando-se da mesa. "Quando vamos partir?"
"Assim que estiver porto," respondeu Hanfstaengl. "O mais rápido possível, de preferência."
Schnee assentiu com a cabeça e saiu do refeitório. Ele mal podia esperar para começar sua primeira missão. Se levantou e se dirigiu até seus aposentos para buscar suas coisas. Mas não Antes de Jannick o parar. "Mas Schnee..." Disse o homem enquanto o brutamontes albino parava e olhava por cima do ombro. "... Só tem uma regra." Um momento de silêncio criou a tensão necessária para Schnee se virar e encarar Jannick de frente. "Deve fazer Exatamente o que eu disser e quando eu disser!". O Jovem profano concordou com a cabeça.
Algum tempo depois Schnee e Jannick estavam de pé, em frente à carroça que seria seu transporte até oseu destino. Schnee estava agitado, verificando suas armas e verificando sua bagagem. Ele não queria parecer inexperiente na frente de Jannick. Enquanto isso, Jannick verificava uma carta, certificando-se de que eles tinham todas as informações necessárias para a missão.
"Então, uma garota sequestrada nas matas Dormark?", disse Schnee, tentando controlar sua animação.
"Isso mesmo", respondeu Jannick, dobrando cuidadosamente a carta e guardando-a em sua bolsa. "Eles acreditam que um monstro pode estar envolvido, então precisamos estar preparados para enfrentar qualquer coisa".
Schnee assentiu, e os dois homens começaram a carregar suas bagagens e armas na carroça. Enquanto faziam isso, um humilde e franzino homem baixinho se aproximou.
"Olá, vocês são os dois Hexanos, certo?" disse o homem, limpando a testa com a manga. "Sou o Louie, e eu serei o cocheiro que levará vocês até o Ducado Tempete."
Enquanto terminam de arrumar suas bagagens, Jannick Hanfstaengl continua dando mais detalhes sobre a missão para Friederich Schnee. Ele explica que o Duque Marcel Tempete, que os convocou, é um nobre de bom coração e investidor da Escola de Magia de Zielkfrat no passado.
"Ele não poupou esforços para nos contratar. A filha dele foi sequestrada e apenas o seu cachecol foi encontrado. As autoridades de Kristadelle não sabem o que fazer, e ele está disposto a pagar bem pelo nosso trabalho", diz Jannick, tentando chamar a atenção do amigo.
Schnee tenta prestar atenção, mas está claramente ansioso e inquieto. Ele mal consegue conter sua excitação para ir à caça de um monstro.
"Quanto será que ele vai pagar?" pergunta Schnee, tentando disfarçar sua ansiedade.
"Ele não especificou, mas pelo que ouvi, será um valor bem generoso", responde Jannick.
Schnee faz um gesto de aprovação, mas sua mente já está focada em sua próxima batalha. Ele não vê a hora de testar suas habilidades.
![]() |
| Louie "Mijão" |
A história por trás do apelido de Louie começou em uma tarde de primavera. Ele estava levando um grupo de estudantes da escola para uma excursão em uma cidade vizinha quando sua bexiga começou a incomodá-lo. Ele tentou resistir por algum tempo, mas eventualmente, teve que fazer uma pausa para se aliviar. Os estudantes ficaram entediados esperando e começaram a inventar piadas e brincadeiras sobre a situação. Quando Louie voltou, eles não conseguiram resistir e chamaram-no de "Mijão".
Desde então, o apelido pegou e Louie nunca mais conseguiu se livrar dele. Apesar de ficar um pouco envergonhado com a situação, ele levava tudo com bom humor e não se importava muito. Para ele, o importante era ser um cocheiro confiável e levar seus passageiros em segurança para seus destinos.
A carruagem puxada por dois cavalos, seguindo em direção ao Ducado Tempete. O caminho sinuoso, levava por entre montanhas e bosques. Durante os primeiros dias de viagem, eles passaram por pequenas vilas, campos de trigo e pastagens verdes, mas agora já estavam mais na metade do caminho, no terceiro dia.
A noite caiu rapidamente, e o brilho das estrelas iluminava o céu escuro. Os cavalos andavam calmamente, enquanto Louie, o cocheiro, cantarolava uma música popular.
♫Oh, o Príncipe Encantado é nosso guia
Com seu poder, nada nos atingirá
Henry Farngomery, rei da bravura
A todos encanta com sua ternura ♫
♫Com sua sabedoria ele nos guia
E em seus braços nos sentimos seguros
O Príncipe Encantado é nossa esperança
E com ele, venceremos qualquer aliança. ♫
Schnee e Jannick estavam sentados no banco de trás, conversando sobre a missão e fazendo planos para a resgatar a filha do Duque Tempete quando de repente, Louie interrompeu a conversa. "Desculpem-me, patrões, mas preciso parar a carruagem. Preciso ir ao banheiro", disse ele com um sorriso sem graça.
Schnee e Jannick trocaram olhares, mas não disseram nada. Louie parou a carruagem à beira da estrada e saltou rapidamente, desaparecendo na escuridão. Schnee e Jannick olharam para o céu, que agora estava coberto por nuvens escuras, e sentiram um arrepio percorrer suas espinhas.
A noite era escura e a estrada era estreita. Schnee estava inquieto, impaciente com a demora de Louie. Jannick, por outro lado, estava preocupado, sua mente vagando em possíveis perigos que poderiam ter ocorrido ao cocheiro na mata próxima.
Finalmente, Jannick decide pegar o lampião e descer da carruagem para procurar Louie. Ele caminha alguns metros em direção à mata e vê uma figura se movendo na escuridão. Com alívio, ele acredita ser Louie e corre em sua direção.
No entanto, assim que levanta a luz do Lampião, Jannick percebe a terrível verdade: Louie está horrendamente ferido. Suas entranhas pendem para fora de sua barriga enquanto ele cambaleia, gemendo de dor. Ele despenca sobre os pés do Hexano. Jannick coloca o lampião próximo ao rosto do cocheiro e vê a expressão de dor insuportável em seus olhos.
Schnee se junta a Jannick, horrorizado com a cena diante deles. Eles percebem que Louie foi atacado por algo terrível, algo que ainda está por perto. O som das árvores e dos galhos se movendo parece se intensificar, e eles se preparam para enfrentar o desconhecido.
Jannick se mantém firme ao lado de Schnee, mesmo diante da situação horrível em que se encontrava. Os rosnados continuavam a ecoar pelo ambiente escuro e ameaçador que os cercava, deixando os homens em estado de alerta máximo. Schnee segurava firmemente sua espada de prata como lhe foi ensinado nos treinamentos, mas não conseguia ver nada além da escuridão que pairava sobre eles.
Jannick toma a iniciativa na situação, protegendo o corpo de Loui e seu companheiro de possível ameaças. Ele instrui Schnee a subir na carruagem e seguir em frente, mas o homem reluta em deixar o amigo para trás. Schnee sabe que a única regra que precisa seguir é obedecer a Jannick, mas não consegue abandoná-lo naquela situação.
Jannick olha nos olhos de Schnee e sem o uso de palavras o convence de que é preciso seguir em frente e deixar a Criatura aos seus cuidados. Ele sabe que a única maneira de um deles sair daquela situação com vida.
Com uma última olhada para trás, Schnee sobe na carruagem e se prepara para fugir. Os rosnados continuam a ecoar, enquanto Jannick segura firme em sua espada. Eles olhavam em volta, mas só viam a escuridão da noite. A fera estava bem escondida, camuflada pela sombra e pelas árvores densas. Schnee viu Jannick se virar para encarar a fera, enquanto puxava um pequeno frasco de vidro do bolso.
Schnee guiou os cavalos para longe, se afastando do perigo. Ele estava desesperado para ajudar Jannick, mas confiava nas habilidades de seu colega de profissão. Enquanto isso, Jannick jogou o elixir do frasco e com um encantamento conjurou um efeito de explosão em chamas, enquanto a silhueta de uma enorme criatura negra avançava para atacá-lo.
Um clarão se espalhou em meio ao combate. A próxima coisa que Schnee viu foram os olhos vermelhos brilhantes da criatura, que atacou Jannick com suas garras afiadas. As chamas do encantamento do líder iluminavam a noite, lançando sombras inquietantes por toda parte. A fera continuava avançando, mas Jannick, mesmo ferido, mantinha-se firme, tentando se proteger com sua espada de prata.
Schnee não conseguiu ver o resultado da batalha, mas pôde ouvir o rugido da fera e o som das chamas cerpitantes. Ele se concentrou em controlar a carruagem e os cavalos, tentando sair dali o mais rápido possível. Mas sua falta de atenção enquanto observava o embate, fez com que ele perdesse o controle da carruagem e os cavalos acabaram indo em direção a uma ribanceira.
A carruagem bateu violentamente na ribanceira, danificando gravemente a estrutura e ferindo gravemente os cavalos e Schnee. Ele se agarrou à carruagem, tentando se manter firme enquanto ela balançava para frente e para trás. A adrenalina corria por seu corpo, enquanto ele tentava desesperadamente se livrar daquela situação.
No calor do momento o Hexano acabou puxando as rédeas com muita brutalidade, os cavalos tentaram frear ao comando com tamanha força que fez com que a roda da carruagem se soltasse. O veículo começou a sacudir violentamente, e os cavalos ficaram agitados, relinchando e puxando freneticamente. Schnee tentou segurar o controle da carruagem, mas não conseguiu, e foi arremessado para longe.
Ele voou alguns metros antes de bater com a cabeça em uma pedra próxima e desmaiou
Schnee acordou com uma sensação de confusão e dor de cabeça intensa. O ambiente ao seu redor estava escuro, com apenas algumas estrelas brilhando no céu escuro da madrugada. O vento frio sibilava baixinho, fazendo as árvores balançarem suavemente ao longo do horizonte. O ar estava impregnado com um leve cheiro de fumaça e madeira queimada, provavelmente resultante do encantamento conjurado por Jannick.
Schnee levantou-se lentamente, observando o caos e a destruição que o cercavam. A carruagem estava em pedaços, com a roda dianteira quebrada e os cavalos mancando ao redor. Os escombros e fragmentos de madeira estavam espalhados por toda parte. O ambiente era sombrio e assustador, e Schnee sentiu um calafrio percorrendo sua espinha. Ele percebeu que estava sozinho, sem sinal de Jannick ou da criatura misteriosa que os atacou.
O céu estava escuro, sem a presença da lua ou das nuvens. Apenas algumas estrelas cintilavam no firmamento, iluminando fracamente a área ao redor. O ar estava frio e úmido, fazendo com que Schnee sentisse um tremor em seu corpo. Ele não tinha ideia de quanto tempo ficou inconsciente ou do que aconteceu depois que desmaiou. O silêncio da noite era perturbador, e Schnee sentiu uma sensação de solidão e desamparo tomando conta dele.
Schnee cambaleia pelos destroços da carruagem, ainda tonto do desmaio. Ele se sente desacreditado com a situação em que se encontra. A dor se espalhanto como fogo pelo seu corpo, enquanto ele observa a destruição ao seu redor. Ele começa a procurar por Jannick, mas logo percebe que ele não está ali.
Foi então que ele avistou um pequeno objeto amassado entre os destroços, um pedaço de papel: a Carta do Duque Marcel Tempete. Ele a segura com cautela, lembrando da missão que foi contratado e da importância de representar Zielkfrat. Ele percebe que agora o Duque está contando com ele como seu representante. Schnee olha ao redor uma última uma vez buscando por Jannick. Sem sucesso.
Ele decide que é hora de seguir em frente. Schnee encontra um dos cavalos ainda vivo, porém muito ferido. Ele pega alguns mantimentos que sobraram da carruagem e sobe no cavalo. Schnee segue em direção ao Ducado, determinado a cumprir sua missão e representar os seus com honra e coragem.
Capítulo 4 - Marcada pela Caça.
24 de Setembro de 1625 - 21:38
Artemis caminha solitária pelas ruas escuras da área mais pobre de Kristadelle, observando as poucas velas e tochas dentro dos casebres de madeira que iluminam o caminho silencioso e escuro.
Artemis estava vestindo um vestido longo e simples de linho, que ela mesma havia costurado, com uma saia que ia até o tornozelo e mangas compridas. Seus volumosos cabelos ruivos estavam amarrados em mas com algumas mechas à mostra que caíam em seu rosto.
Ela usava uma capa verde escura, que era comum entre os caçadores, para proteger-se do frio e do vento, e nos pés, botas de couro resistentes. Apesar de não estar com seus equipamentos de trabalho, sua postura e o modo como caminhava deixavam claro que estava acostumada a se movimentar com agilidade e destreza.
O chão é de terra batida, deixando seus pés sujos a cada passo dado. As casas humildes, feitas de pedra e madeira, ficam muito afastadas uma das outras, e a quase completa falta de pessoas dá um ar de perigo e mistério nessa noite.
Artemis procura por sua amiga Genevive há horas, exaurida de tanto caminhar sem sucesso. Ela mal percebeu o tempo passando e agora é noite. Artemis e Genevive (ou 'Geldriel', como ela gostava de ser chamada ) sempre foram muito próximas. Elas cresceram juntas em Kristadelle e passaram por muitos momentos importantes juntas. Geldriel sempre foi muito reservada sobre seu passado e seus problemas, mas Artemis sempre esteve ao seu lado, pronta para ajudar no que fosse necessário.
No entanto, nos últimos tempos, Artemis tem notado uma mudança preocupante em sua amiga. Geldriel tem se afastado cada vez mais de suas amizades, e passado a se envolver com pessoas duvidosas, como o grupo criminoso conhecido como "A milícia Monocelha", liderado por Cedric Travitrono. Artemis sabe que esse grupo é perigoso e está envolvido em muitas atividades ilegais na cidade.
Artemis acredita que Geldriel esteja se afundando ao andar com esses criminosos, e teme pelas consequências que isso pode trazer para sua amiga. Ela já tentou conversar com Geldriel sobre isso, mas a garota sempre desconversa e diz que sabe o que está fazendo. Artemis não sabe mais o que fazer para ajudar sua amiga, mas não desiste de tentar fazê-la enxergar a gravidade da situação em que está se metendo.
A jovem começa a sentir que é melhor voltar para casa, mas a sensação de perigo que ronda a área faz com que ela pense o pior sobre a situação de Geldriel. Pois as sombras das ruas parecem mais profundas, e o silêncio é quebrado apenas pelo som dos próprios passos de Artemis. Ela se sente sozinha e vulnerável, mas mantém-se firme em sua busca. Mesmo que tenha que vasculhar cada canto escuro, a jovem não vai desistir de encontrar sua amiga.
Caminhando por uma rua estreita e mal iluminada, Artemis se depara com um vulto se movendo no final da rua. Seu coração dispara, e ela pensa em voltar correndo, mas a curiosidade a domina. Ela se aproxima lentamente, e logo percebe que se trata apenas de um gato preto.
Artemis suspira aliviada, mas ainda assim continua em alerta. Ela sabe que a cidade é perigosa à noite, principalmente essa parte mais pobre de Kristadelle. Após mais alguns minutos de caminhada, ela finalmente decide que é hora de voltar para casa.
Na volta para casa a menina estava introspectiva, concentrada em seus pensamentos. Ela já estava cansada de andar pela cidade o dia todo. Foi quando, ao virar a esquina da estrada de terra, ela viu um pequeno garoto de rua de cabelos loiros correndo em sua direção. Era Timothy.
"Artemis! Artemis! Espera!" Timothy gritou, ofegante.
"Timothy? O que faz aqui a essa hora da noite? Não sabe que essa parte da cidade está um perigo!" Artemis perguntou, sorrindo para o garoto espoleta.
"Ah, eu estava brincando com os meninos na praça, e aí te vi passando." O Garoto recupera o folego e abre um sorrisso para Artemis. "Sabe... eu queria saber... Tava só pensando, tudo bem? Bem que um dia você podia me deixar atirar com seu arco." Timothy perguntou, olhando para a amiga com um olhar travesso e brincalhão.
"Quem sabe, quando você for mais velho e mais responsável", Artemis respondeu, dando uma leve encostada no nariz do menino com seu dedo indicador, enquanto ria. Os dois continuaram caminhando enquanto Timothy desparava pergunta sobre os animais que Artemis já havia casado, incansavelmente o rapazinho andava em volta de Artemis, curioso e entusiasmado.
Em determinado momento o garoto parou, como se um tijolo houvesse caído em sua cabeça. Ele parecia ter se lembrando de alguma coisa"Ah é! Quase esqueci! Artemis, a Geldriel está procurando por você. Ela disse para ir encontrá-la na Capitã Louca. Ela disse que era importante", Timothy disse, olhando para a amiga com seriedade.
Artemis franziu a testa. Mas logo respirou em alívio. "Obrigada, Timothy. Eu preciso ir agora", ela disse, já começando a se afastar.
"Espere, Artemis!", Timothy gritou, apontando para a rua escura à frente. "Olhe!"
Artemis se virou para ver um pequeno grupo de homens se aproximando. Ela reconheceu imediatamente a aparência dos rufiões da Milícia Monocelha.
"É melhor você sair daqui rapidamente, Artemis. Ouvi dizer que eles tavam procurando a Geldriel... E bem vocês são unha e carne. Não quero que você se machuque", Timothy disse, olhando para a amiga com preocupação.
Os cinco homens da Milícia Monocelha avançavam em direção a Artemis com passos pesados e ameaçadores. Todos vestiam roupas surradas e empoeiradas, típicas de trabalhadores braçais. Suas botas gastas eram cobertas de barro e poeira, dando a impressão de que haviam acabado de sair de alguma obra ou plantação. Dois deles empunhavam picaretas, enquanto os outros três seguravam foices e enxadas. As sombrancelhas raspadas de forma desajeitada eram a marca registrada da guilda, e em todos os homens era possível ver essa característica. As faces eram marcadas por cicatrizes e barbas mal feitas, o que dava um ar ainda mais rude e ameaçador. A postura agressiva e o olhar feroz indicavam que não eram homens para se mexer.
A Milícia Monocelha era chamada assim porque eles possuíam a peculiaridade de raspar completamente uma das sobrancelhas. Isso servia como um sinal de reconhecimento entre os membros da guilda. Essa prática era uma forma de marcar a identidade do grupo e diferenciá-los dos demais.
Artemis assentiu e correu na direção oposta, só para ouvir o passo dos homens atrás dela acelerando. Artemis então desvia seu caminho da Capitã Louca para direção da área rica da cidade, aonde há vielas e becos que ela poderia usar ao seu favor para despistar os brutamontes que a importunavam.
Artemis corre pelas ruas apertadas, aproveitando a agilidade que ganhou como caçadora para escapar dos homens da milícia monocelha. Ela se move rapidamente, deslizando pelos becos escuros e vielas estreitas que conhece tão bem. Os homens, por sua vez, a perseguem desajeitadamente, empurrando os obstáculos que encontram no caminho e fazendo muito barulho.
A jovem caçadora aproveita cada oportunidade para despistá-los, saltando sobre paredes baixas, se escondendo atrás de barris e móveis abandonados, e tomando caminhos improváveis. Os homens são fortes, mas não muito inteligentes, e ela consegue enganá-los e se esquivar com facilidade.
Dois homens surgiram de lados opostos e correram na direção dela. Ela rapidamente avaliou a situação e, com uma agilidade impressionante, se esquivou dos dois homens enquanto se movia em alta velocidade. Os dois homens bateram de cara um no outro e caíram no chão, gemendo de dor. Artemis se afastou rapidamente, dando risada da situação, enquanto os homens tentavam se levantar, ainda tontos pelo impacto.
A menina então encontra um largo barril de madeira vazio próxima a uma alvenaria e se esconde dentro dele. Artemis sentiu o coração bater forte em seu peito enquanto se encolhia dentro do barril. Ela se concentrou em ouvir os sons do lado de fora, os passos dos rufiões que a perseguiam. Ela podia sentir a respiração curta e rápida enquanto tentava controlar a ansiedade e manter a calma. Ela havia se escondido bem, mas sabia que ainda havia o risco de ser descoberta.
Enquanto ela estava lá dentro, ela ouviu o som de passos se aproximando. Ela respirou fundo, tentando se manter calma e esperando que os homens não a encontrassem. Ela ouviu o som de algo sendo arrastado, e depois o som do prego contra a madeira.
De repente, ela percebeu o que estava acontecendo. Eles estavam pregando a tampa do barril! Artemis começou a entrar em pânico, tentando se mover dentro do espaço apertado. Ela empurrou com força contra a tampa do barril, tentando impedi-los de prender a tampa, mas era inútil. Ela estava presa.
Artemis começou a sentir uma onda de desespero enquanto lutava contra a tampa. Ela sabia que se fosse levada pelos rufiões, não seria uma situação boa para ela. Ela se sentiu impotente, presa e vulnerável. A jovem caçadora tentou controlar a respiração e encontrar uma solução.
Mas era tarde demais. Os homens terminaram de prender a tampa do barril e começaram a rolar o objeto. Artemis se segurou com todas as suas forças para não cair, mas o barril rolou e ela sentiu-se tonta. Ela não tinha ideia para onde estava indo ou o que os homens planejavam fazer com ela. Ela se sentiu completamente indefesa e abandonada, com medo do que poderia acontecer a seguir.
Artemis sentiu-se tonta e enjoada, enquanto era rolada dentro do barril pelos rufiões. Ela tentou resistir, mas a falta de ar e a velocidade do movimento a impediram de fazer qualquer coisa. Finalmente, o barril parou, e ela ouviu os pregos sendo retirados.
A tampa foi aberta, e a luz das velas a cegou momentaneamente. Quando seus olhos se adaptaram, ela viu que estava em um pequeno casebre de madeira.
Ela olhou ao redor e viu Cedric Travitrono, o líder dos rufiões, sentado à mesa, devorando um faisão assado. Ele comia sem modos, com as mãos sujas de gordura e molho. Artemis sentiu repulsa e nojo.
O cômodo em que Artemis se encontra é simples e modesto, com paredes de madeira crua e um chão de terra batida. A iluminação vem de uma única vela em um castiçal de ferro enferrujado, cuja chama tremula com o movimento do ar.
Na parede oposta à porta, há uma estante improvisada feita de tábuas de madeira, que abriga algumas garrafas vazias, uma panela enferrujada e alguns pedaços de pano amontoados. Não há janela no quarto, e o ar fica abafado e úmido, cheirando a comida velha e a suor. Artemis pode sentir a umidade das paredes penetrando em suas roupas e o suor frio escorrendo pelo seu rosto.
Há uma mesa de madeira grosseira no centro do quarto, com duas cadeiras igualmente rústicas dispostas ao redor dela. Um homem está sentado em uma das cadeiras com um grande prato de metal com um faisão assado, que exalava um aroma delicioso. Ele devorava a carne com as mãos, rasgando pedaços grandes e levando à boca com voracidade.
O homem tinha uma aparência repugnante, com uma pele oleosa e pálida que parece nunca ter visto o sol. Seus cabelos negros e sebosos descem até a altura dos ombros, emaranhados e mal cuidados. Um bigode e um cavanhaque ralos adornam seu rosto, mal escondendo a sua face feia, embaixo de um nariz longo e espinhento. O destaque de sua fisionomia é, sem dúvida, a grande monocelha que parece uma lagarta preta, dominando a testa do homem.
As suas roupas são escuras e gastas, um dia foram finas e de qualidade, mas agora estão em farrapos. Ele não parece se importar com a aparência, no entanto, e come com as mãos sujas de comida, grunhindo e mastigando com a boca aberta, sem nenhuma consideração para as pessoas ao seu redor.
Seus olhos são pequenos e inquietos, sempre se movendo de um lado para o outro em busca de ameaças ou oportunidades. Há uma aura de perigo ao seu redor, uma sensação de que ele é capaz de fazer coisas terríveis sem nenhum remorso. Ele é o líder da Milícia Monocelha por uma razão, e sua aparência e comportamento desagradáveis são um aviso para todos que se cruzam em seu caminho.
A gordura escorria pelo canto de sua boca, enquanto ele lambia os dedos sujos com gosto. Ele mastigava com a boca aberta, fazendo barulhos desagradáveis e rindo com os outros rufiões enquanto comia.
Artemis saiu cambaleando do barril e mal conseguia se manter em pé. Cedric olhou para ela com um sorriso debochado e disse: "Bem-vinda à minha humilde casa, minha jovem. Espero que você esteja com fome, porque eu tenho algumas perguntas para fazer e eu prefiro falar com alguém alimentado".
Ele empurrou uma tigela de mingau frio e paposo na direção de Artemis, sem jeito a menina engoliu uma colherada, esperando que o gosto não fosse tão horrendo quanto a aparência, mas mal conseguia manter a comida dentro do estômago.
Cedric esperou até que ela engolisse antes de começar a questioná-la. "Então é você, não é? A amiguinha santinha da Geldriel. Onde ela está?"
Artemis engoliu em seco e tentou pensar em uma desculpa plausível. "Hããã... Não! Eu sou apenas uma caçadora. Estava procurando por algumas presas para caçar, mas acabei me perdendo na cidade. Quanto a essa Geldriel, eu não sei de quem você está falando."
Cedric bufou de desdém. "Não me faça perder meu tempo, garota. Eu sou um homem muito ocupado. Agora, onde está Geldriel?"
Artemis tentou se manter firme, mas sabia que não conseguiria resistir por muito tempo. Ela sentiu uma onda de medo quando percebeu que estava completamente vulnerável nas mãos desses criminosos brutais. Cedric terminou de devorar seu faisão assado com voracidade e, em seguida, limpou a boca com as costas da mão. Seus olhos se fixaram em Artemis, e ela sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
"Se você é só uma caçadora perdida, o que você estava fazendo escondida dentro daquele barril?", perguntou Cedric, com sua voz grossa e rouca.
Artemis engoliu em seco antes de responder: "É sério senhor Monocelha. Eu me chamo Emma e... e... Eu estava apenas passando pela estrada quando esses homens me agarraram e me colocaram dentro do barril."
Um dos dois Rufiões parados atrás de Cedric suspira esurpresa e fala com a voz preocupada. "Nossa moça! Desculpa pela confusão. Acho que os rapazes se confundiram." O outro Rufião ao lado dele concorda balançando a cabeça com um olhar de pena e confusão.
Os olhos de Cedric estreitaram-se, e ele olhou para seu capangas com uma expressão de desgosto. Os dois rufiões trocaram um olhar confuso, sem entender a raiva do líder.
"Idiotas. Ela tá só enrolando a gente, com uma mentira bem boba diga-se de passagem.", rosnou Cedric, voltando sua atenção para Artemis. "Seu nome não é Emma, e não acredito nem por um segundo que você não saiba o paradeiro Geldriel."
Artemis engoliu em seco, sentindo o medo apertar em sua garganta. "Eu juro que não sei nada sobre isso. Por favor, me deixem ir."
Mas Cedric não se convencia tão facilmente. "Não vamos deixá-la ir, pelo menos não até que possamos ter certeza de que não é uma espiã. Vocês dois, vasculhem-na em busca de pistas."
Os dois capangas se aproximaram de Artemis, com expressões de dúvida em seus rostos. Eles começaram a revistá-la, mas a jovem tentou resistir.
"O que vocês estão procurando?", perguntou Artemis, tentando parecer inocente.
"Qualquer coisa que possa nos levar até Geldriel", respondeu Joshua, dando uma olhada para Cedric, que permanecia sentado em sua cadeira. Enquanto isso, Cedric observava a cena com um olhar desconfiado. Ele não gostava daqueles dois rufiões, que pareciam incapazes de entender a gravidade da situação.
"Chega disso", interrompeu Cedric, impaciente. "Ela não tem nada para nos dar. Mas isso não significa que podemos deixá-la ir. Joshua, leve-a para o quarto dos fundos e mantenha-a lá até que possamos decidir o que fazer com ela."
Joshua assentiu e agarrou o braço de Artemis com força, arrastando-a para fora da sala. A jovem lutou para se soltar, mas era inútil. Ela foi jogada em um quarto escuro e úmido, onde permaneceu presa, sem saber qual seria seu destino.
Artemis sentiu-se desesperada quando a porta do quarto foi trancada. Ela correu até a janela, que era apenas um buraco no teto coberto por telhas esburacadas. A jovem espiou o lado de fora, mas tudo o que viu foi a noite escura. Ela suspirou e então decidiu empurrar a estante pesada até a janela, na esperança de que isso ajudasse a alcançá-la.
Artemis respira fundo e coloca toda a força que tem para empurrar a estante. O móvel é pesado e teimoso, resistindo a cada impulso que ela dá. Seus músculos se contraem com esforço enquanto ela se esforça para movê-lo, e gotas de suor começam a escorrer por sua testa. O chão range e treme sob seus pés, mas a estante parece enraizada no lugar. Ela para por um momento para respirar, antes de se preparar para outro empurrão. Com um gemido de esforço, ela se lança novamente contra a estante, sentindo uma leve vibração no móvel. Artemis sorri para si mesma, sabendo que está fazendo progresso.
Depois de algumas tentativas Artemis finalmente conseguiu mover a estante, mas então notou um pedaço do piso de madeira solto. Intrigada, a jovem arrancou a madeira, revelando um pequeno compartimento secreto. Dentro do compartimento, encontrou um estojo de couro preto.
O estojo de couro preto é pequeno e bem trabalhado, com detalhes em relevo que parecem formar um padrão intrincado. Ele é macio ao toque e bem acabado, indicando que foi feito por alguém habilidoso. Ao abri-lo, Artemis encontra uma zarabatana de prata brilhante, com gravuras em relevo que parecem mostrar cenas de batalhas entre demônios. Ao lado dela, há cinco dardos de aparência mortal, com pontas afiadas e finas, perfeitamente equilibrados e leves. E, por fim, um pequeno frasco contendo um líquido translúcido amarelado, que exala um cheiro estranho e forte.
Artemis pegou o estojo e se sentou em um canto do quarto, pensando no que fazer a seguir. De repente, ela ouviu passos do lado de fora da porta. Derek e Joshua estavam de guarda do lado de fora do quarto.
"O que você acha que ela tá fazendo lá dentro?", disse Derek para Joshua em voz alta.
"Eu não sei, mas se ela escapar o chefe nos degola", respondeu Joshua.
"O que está acontecendo aí dentro?" - perguntou um dos brutamontes, batendo na porta com força.
Artemis respirou fundo e tentou pensar em uma desculpa. "Só estou tossindo. Tenho uma tosse crônica, não é nada demais."
"Essa tosse é muito barulhenta." - respondeu o outro, desconfiado.
Artemis pensou rápido e insistiu na mentira. "É a Febre do Rouxinol Caricá. Ela é altamente contagiosa e pode ser fatal. Vocês precisam ficar longe de mim."
"O que diabos é essa doença?", perguntou um dos brutamontes, com uma nota de preocupação em sua voz.
Artemis tossiu novamente antes de responder: "Você não conhece a Febre do Rouxinol Caricá? É uma doença rara, mas altamente contagiosa."
Os brutamontes trocaram olhares nervosos, preocupados com o risco de contrair a doença. "O que acontece com quem a pega?" perguntou o mais alto deles.
"Os sintomas são horríveis", respondeu Artemis com um tom de voz assustador e melancólico. "Você começa a sentir uma coceira insuportável por todo o corpo, seguida por uma dor de cabeça aguda e náusea. Depois, as manchas vermelhas começam a se espalhar pelo corpo, e você começa a ter febres altíssimas."
Os brutamontes pareciam ainda mais preocupados e curiosos e exitantes em abriar a porta, dando a Artemis o tempo que precisava para sua fuga. Ela continuou a descrever os sintomas, acrescentando mais detalhes terríveis à medida que subia na estante para escapar pelo buraco no teto.
"O pior de tudo", disse ela com uma voz rouca, "é que, uma vez que você contrai a doença, não há cura. É uma sentença de morte."
"Contrair?" Disseram os brutamontes ao mesmo tempo. Sua expressão deixava claro que eles não faziam idéia do significado da palavra, mas sabia que não soava bem.
"É, contrair. Sabe... Pegar essa doença. Ela é contagiosa, na verdade eu pressumo que vocês já a tenham contraido. Afinal ficamos na mesma sala por um tempinho não é?" Com isso, Artemis alcançou o buraco no teto e desapareceu, deixando os brutamontes aterrorizados do outro lado.
"Meu deu Derek... Eu acho qu- Eu acho que eu to sentindo a dor de cabeça. Minha cabeça..." Disse um deles.
"Cara! Iss- Isso é...Isso é uma mancha no meu braço?" Gritava o outro enquanto examinava o próprio corpo em dessespero.
"Meu deu Derek... Eu acho qu- Eu acho que eu to sentindo a dor de cabeça. Minha cabeça..." Disse um deles.
"Cara! Iss- Isso é...Isso é uma mancha no meu braço?" Gritava o outro enquanto examinava o próprio corpo em dessespero.
Do lado de fora, Artemis respirou fundo e olhou para o céu noturno, ela não pôde evitar rir de si mesma, orgulhosa de ter enganado aqueles brutamontes estúpidos com sua história inventada sobre a doença contagiosa.
Do telhado do casebre, Artemis olhou para o céu noturno e apreciou a vista da área pobre de Kristadelle. Ela viu as luzes fracas das lamparinas acesas em outras casas e as estrelas brilhantes no céu. Artemis sempre gostou das estrelas, elas pareciam representar uma luz no fim do túnel, um sinal de esperança em meio ao caos que cerca o dia a dia.
Enquanto olhava ao redor, Artemis notou os outros três Rufiões jogando um jogo de azar chamado "Necromante" na soleira da porta do casebre. Eles pareciam estar se divertindo e nem sequer notaram a fuga de Artemis. Cedric, no entanto, estava ausente. Ela se perguntou onde ele poderia estar, mas decidiu que não importava. Ela tinha conseguido escapar e era isso que importava agora.
Artemis desceu do telhado com cautela, procurando não fazer barulho. Ela olhou ao redor para ter certeza de que não havia ninguém por perto e, em seguida, começou a se mover rapidamente em direção à Taverna da Capitã Louca.
A Capitã Louca ficava na parte mais afastada da cidade, perto da floresta de Dormark. A construção de dois andares era uma das poucas na área pobre de Kristadelle que parecia estar em bom estado de conservação, mesmo que as tábuas de madeira das paredes estivessem desbotadas e desgastadas pelo tempo. O telhado de madeira também parecia precisar de reparos, mas ainda assim, a taverna tinha uma aparência acolhedora.
O janelão de vidro no primeiro andar era o ponto mais interessante da fachada. Ele era grande e estendia-se por quase toda a extensão da parede, oferecendo uma vista privilegiada da floresta de Dormark. Artemis podia ver o reflexo da luz do luar brilhando no vidro, mas não conseguia ver nada do interior da taverna a partir dali. Havia uma cortina de veludo escuro puxada, bloqueando a visão.
Artemis se aproximou da Taverna com cuidado, observando a área ao redor. Havia poucas pessoas por perto, o que era incomum para esse horário da noite. Ela podia ver alguns trabalhadores da pedreira nas proximidades, todos cansados e calejados do dia de trabalho. Suas roupas empoeiradas e rostos suados denunciavam o trabalho pesado que faziam. Alguns deles caminhavam em silêncio, enquanto outros conversavam animadamente, ansiosos pela cerveja barata e aguada da Capitã Louca que ajudava a descontrair depois de um dia longo e árduo.
Capítulo 5 - O Coração do Mercenário.
Data: 24 de Setembro de 1625 - 22:12
A Pousada Les Mouches Propes erguia-se majestosamente na área nobre de Kristadelle. Com suas paredes de pedra, janelas de vidro e telhados de ardósia cinza, era claro que essa era uma estalagem de alta qualidade e luxo. Na placa da construção, um estandarte dourado ostentava o nome da pousada, com um desenho de duas moscas sobrepostas.
O pequeno jardim da frente era bem cuidado, com arbustos aparados e canteiros de flores coloridos. A entrada principal tinha uma porta dupla de madeira maciça, ladeada por dois castiçais de prata com velas acesas, iluminando o caminho para os hóspedes.
Drake Walker desceu as escadas da Pousada Les Mouches Propes com a expressão de quem não havia dormido bem. Ele parecia desconfortável em meio à decoração luxuosa e a atenção excessiva dos funcionários da pousada. Afinal, ele não era um nobre e muito menos um aristocrata como a maioria dos hóspedes. Drake apenas precisava de um lugar para ficar e a Les Mouches Propes foi a primeira opção que encontrou.
Enquanto saía da pousada, Drake olhou em volta, observando a área rica da cidade de Kristadelle. As ruas eram mais limpas e bem iluminadas, e as casas pareciam ser mais cuidadas. Ele se perguntou se algum dia seria capaz de se dar ao luxo de ficar em um lugar assim, mas sacudiu a cabeça para afastar esses pensamentos. Ele sabia que não podia se dar ao luxo de ficar confortável, não quando precisava do dinheiro para sobreviver.
Drake lembrou das palavras que ouviu naquela manhã: a cerveja mais barata da cidade estava na Capitã Louca. Os rumores diziam que a Taverna era frequentada por todo tipo de pessoa, incluindo mercadores, contrabandistas e aventureiros. Ele pensou que, se houvesse algum trabalho a ser feito na cidade, talvez pudesse encontrar ali. Além disso tavernas são conhecidas por serem lugares onde informações valiosas poderiam ser adquiridas, e Drake sabia que, como mercenário, informações podiam ser tão importantes quanto dinheiro.
O Jovem mercenário estava atrás de um serviço e não tinha muito dinheiro no bolso. Ele não queria retirar nenhum centavo de suas economias, então decidiu que iria até lá e ver se conseguia algum trabalho.
O Jovem mercenário estava atrás de um serviço e não tinha muito dinheiro no bolso. Ele não queria retirar nenhum centavo de suas economias, então decidiu que iria até lá e ver se conseguia algum trabalho.
Enquanto caminhava pelas ruas movimentadas de Kristadelle, Drake sentiu os olhares curiosos e desconfiados dos poucos moradores ricos que ainda se encontravam nas ruas. Drake era um mercenário, e a reputação dele se extendeu para essas áreas pelo visto. Mas ele manteve a cabeça erguida e continuou em frente.
Drake se dirigiu para área comercial da parte rica de Kristadelle, olhando em volta com curiosidade enquanto passava pelos edifícios altos e elegantes. A area era repleta de lojas elegantes e bem iluminadas que vendiam roupas de alta costura, joias e outros itens luxuosos.
As calçadas eram largas e pavimentadas com pedras polidas e uniformes, iluminadas por lampiões de rua elegantes e bem cuidados. As lojas exibiam as suas vitrines impecáveis, cada uma competindo pela atenção dos transeuntes.
As placas de madeira ou de metal dos estabelecimentos eram gravadas com as inscrições elegantes dos nomes dos lojistas, algumas com letras douradas, outras em relevo. Ele estava aproveitando a tranquilidade do momento quando um som agudo cortou o silêncio da noite: o som de vidro quebrado.
Instintivamente, Drake olhou para o barulho e viu um grupo de garotos de rua atirando pedras nas janelas de uma padaria. Os garotos rapidamente entraram na loja, pegaram brioches e docinhos que sobraram da fornada e saíram correndo, rindo.
Drake observa os garotos roubando a loja e sente um misto de emoções. Por um lado, ele entende a necessidade de sobrevivência que pode levar as pessoas a fazerem coisas que não são certas. Ele próprio já foi muito pobre e conhece bem as dificuldades dessa realidade.
Por outro lado, ele tem uma forte aversão à injustiça e a roubos que prejudicam os outros. Drake sabe que a vida de roubos tem muito riscos e que pode ter consequências graves para quem é pego.
Ele sente empatia pelos garotos por terem escolhido esse caminho, mas também uma certa raiva pela situação em que se encontram. No fundo, Drake teme voltar a pobreza e sabe que, em tempos difíceis, pode ser tentado a fazer coisas que não aprovaria. Por isso, ele segue em frente, mantendo-se atento ao seu próprio caráter e decisões.Timothy olhou surpreso para Drake Walker, mas logo seu rosto se iluminou com um sorriso de felicidade ao ver seu amigo.
Drake já tinha visto essas cenas várias vezes antes. Ele conhecia a maioria dos garotos de rua da cidade, incluindo Timothy, que acenou para ele quando o viu. Ele parecia estar se sentindo animado e entusiasmado com a presença de Drake.
"Hey, Drake!" gritou Timothy. "Você viu a nossa exibição de habilidade?"
Drake acenou de volta com um sorriso irônico. O Garoto se aproximou enquanto catava os pãezinhos caídos do chão e perguntou:
"Você pode me contar aquela história que você falou do cara que era o dobro do seu tamanho?"
Drake olha para Timothy, com um sorriso no rosto, enquanto o garoto segura um monte de pãezinhos roubados em uma mão e oferece um a Drake com a outra. Ele aceita o pão e começa a mastigá-lo enquanto responde:
"Não acho que você gostaria de ouvir tudo o que eu fiz em minhas lutas, Timothy. Eu já fiz algumas coisas questionáveis em nome do dinheiro."
Timothy dá de ombros e diz: "Tudo bem, eu só quero ouvir sobre as lutas mais incríveis. Você já lutou com alguém realmente famoso? Alguém que todos sabem o nome?"
Drake ri enquanto come outro pãozinho. "Eu não sou tão famoso assim, Timothy. Mas já lutei com alguns caras bons. Você já ouviu falar de um lutador chamado 'O Trovão de Neblina'? Ele era duro como pedra, mas eu consegui nocau-"
Timothy eufórico como sempre corta Drake e pergunta enquanto pula animado. "Você já cegou alguém, Drake? Eu conheci um cara cego mais cedo. Fiquei curioso."
Drake revirou os olhos. "Não, eu não ceguei ninguém. E você deveria ter mais cuidado por aí."
Timothy riu. "Eu sei, eu sei. Mas você falou ontem que está procurando trabalho, num é?. E eu tenho uma sugestão: por que não experimenta o Clube de Combate Cobold? Adoraria ver você lutando contra o Kajin... " Timothy respira empolgado.
"Você precisa ver o Kajin lutar, Drake! Ele é simplesmente incrível! Ele é rápido como o vento e seus golpes são tão fortes! Chamam ele de o Dragão de Kristadelle" disse Timothy, enquanto imitava alguns dos movimentos de Kung-Fu de Kajin com entusiasmo.
"Vamos ver, Timothy. Talvez eu apareça lá um dia desses."
E assim, os dois se despediram, e Drake seguiu seu caminho até a Capitã Louca, pensando na proposta de Timothy. Chegando na área pobre, Drake não demorou muito para localizar a velha taverna nas fronteiras da cidade.
Enquanto Drake estava prestes a chegar na Capitã Louca, ele notou uma garota avoada na frente da porta da taverna. Em um primeiro momento, ele não reconheceu quem era, mas algo nela parecia familiar. Ele parou e começou a refletir sobre onde havia visto aquela garota de cabelos escarlates antes.
De repente, ele se lembrou dao seu primeiro dia em que chegou em Kristadelle e aquela mesma garota havia pulado em cima de uma poça de lama, sujando sua calça favorita. Ele se lembra de ter pensado no momento: "Uma ótima maneira de receber boas-vindas", Foi uma lembrança vívida, e ele ficou grato por ter conseguido se lembrar. Drake sempre teve uma boa memória, especialmente quando se tratava de pessoas que o afetavam de alguma forma.
Drake ficou tão concentrado em suas memórias que nem percebeu que a garota já havia entrado na taverna. Quando decidiu seguir o exemplo dela, algo roubou sua atenção novamente: um mendigo manco que caminhava sozinho pela estrada empoeirada em direção à entrada da cidade. Sua aparência era cansada e desgastada pela vida difícil. Fedia a cachorro molhado. Ele usava uma bengala para se apoiar, enquanto sua perna manca arrastava-se com dificuldade pelo chão.
Assim que ele entrou na cidade, três homens de sombrancelha raspada surgiram do nada, como se tivessem saído de uma toca. Eles cercaram o pobre homem e começaram a provocá-lo, tentando tirar algo de valor dele. O mendigo estava encurralado, indefeso diante dos brutamontes.
Foi quando Drake interveio e correu em direção ao grupo, seus punhos apertados de raiva e indignação. "Deixem-o!", ele gritou.
Os rufiões se viraram para encará-lo, com olhos desafiadores. O mais alto e musculoso deles avançou em direção a Drake, dizendo: "O que é que temos aqui? Um defensor da justiça? Deixe-nos em paz e siga o seu caminho, garoto."
Drake não se intimidou. Ele estava determinado a proteger o homem manco, não importava o que acontecesse. Ele se preparou para o combate, seus músculos tensos e sua mente concentrada.
O rufião mais próximo avançou para cima dele, mas Drake conseguiu desviar habilidosamente e acertar um soco poderoso no estômago do agressor. O outro rufião tentou atacá-lo por trás, mas Drake percebeu a tempo e conseguiu derrubá-lo com um chute rápido.
O terceiro rufião ficou paralisado, sem saber o que fazer. Ele viu seus amigos sendo derrotados por um garoto tão jovem e aparentemente despreparado. Drake aproveitou a oportunidade para desarmá-lo e imobilizá-lo com um golpe preciso.
Os rufiões estavam agora em seu poder, e Drake não hesitou em mostrar-lhes quem estava no comando. Ele olhou para cada um deles com frieza, sua respiração ofegante. "Isso é o que acontece quando vocês mexem com os mais fracos. Aprendam a lição", disse ele, antes de virar as costas e seguir em direção ao mendigo.
Enquanto os Rufiões fugiam como os covardes que são. Drake se aproximou do homem, sentindo um cheiro desagradável de cachorro molhado em suas roupas. Ele se agachou ao lado do mendigo e perguntou: "Você está bem? Precisa de ajuda?"
O homem se levantou com dificuldade, apoiando-se em sua bengala. "Obrigado, jovem. Meu nome é Reginald. Eu vim da cidade de Alva em busca de um novo começo aqui em Kristadelle. Mas parece que a vida continua difícil em qualquer lugar que se vá."
"Prazer Reginald. Drake. É só erguer a cabeça e bater a poeira que as coisas melhoram não é?" Dizia o rapaz enquanto a adrenalina da luta passava.
"Prazer Reginald. Drake. É só erguer a cabeça e bater a poeira que as coisas melhoram não é?" Dizia o rapaz enquanto a adrenalina da luta passava.
"Obrigado pelas palavras, jovem. Mas as coisas que andam falando sobre essa cidade me deixam inquieto. Não seria nada bom se crianças estivessem mesmo desaparecendo na cidade, você não acha?"
Drake se indagou por alguns momentos. Ele tinha ouvido alguns rumores sobre isso, mas não sabia ao certo o que estava acontecendo. "Não sei lhe dizer amigo", admitiu ele. "Eu também sou novo por aqui."
Antes de se despedir de Reginald, Drake se certificou de que o homem ficaria bem. "Cuide-se, Reginald", disse Drake. "Boa sorte em sua busca por uma nova oportunidade."
"Obrigado, meu amigo", respondeu Reginald, sorrindo apesar das dificuldades que enfrentava. "Deus o abençoe e o guie em sua jornada."
Drake assentiu com a cabeça e deixou o sem-teto para trás. Ele continuou sua caminhada em direção à Capitã Louca onde finalmente poderia desfrutar de uma cerveja barata. Mas antes de prosseguirmos para o encontro de Artemis e Drake dentro da Capitã Louca, permita-me voltar algumas horas do dia de hoje para narrar o encontro de outro dois heróis.
Capítulo 6 - Onde o Vento faz a Curva.
24 de Setembro de 1625 - 12:24.
O sol já estava em seu auge quando Christof Dior chegou à bifurcação que levava à cidade de Kristadelle. O cocheiro que o trouxe estava apreensivo e não quis avançar mais. O homem também o alertou sobre os perigos da Floresta de Dormark, que ficava no caminho até o Ducado Tempete. Apesar disso, Christof não se abalou e desceu do coche, decidido a seguir caminhando até seu destino.
Porém, sua cegueira era um obstáculo que não podia ser ignorado. Ele se sentia perdido e desorientado, sem saber para que lado seguir. O peso de sua valise de couro com seus aparatos e a ausência de visão o deixavam ainda mais vulnerável.
Ele respirou fundo e começou a tatear o chão com sua bengala, tentando encontrar uma trilha ou algum sinal que o levasse na direção certa. Seus sentidos estavam aguçados, tentando compensar sua falta de visão. O som dos pássaros e do vento eram seus guias, mas ele não conseguia se orientar completamente.
Enquanto isso, a cidade de Kristadelle já começava a se movimentar com a chegada do entardecer. As luzes das tavernas e das lojas se acendiam, enquanto as pessoas se preparavam para mais uma noite na cidade. Ainda era cedo, mas já era possível ouvir o som de menestréis tocando em alguns estabelecimentos e o cheiro de almoço começando a ser preparada.
Christof continuava a andar, sentindo-se desorientado e desamparado. Ele resmungava para si mesmo, lamentando a falta de visão que o impedia de se locomover com mais facilidade. Enquanto seguia pela estrada, ele não percebeu uma placa de madeira pendurada no galho de uma árvore, e acabou batendo com a testa nela.
A placa era grande e tinha uma cor vermelha vibrante que a fazia se destacar no meio da paisagem. Nela, em letras garrafais, estava escrito:
"Atenção! Crianças desaparecidas!
Toque de Recolher pelo decreto real da Princessa Ella:
Todas as crianças com menos de 17 anos devem estar fora das ruas após as 22 horas.".
Após a pancada, Christof passou a mão na área afetada, tentando aliviar a dor que sentia. Enquanto fazia isso, ele ouviu uma voz infantil dizendo: "Nossa moço, isso deve ter doído muito."
Surpreso, Christof virou-se na direção da voz e percebeu a presença de uma criança ao seu lado. Ele não conseguia enxergá-la, mas podia sentir sua presença. "Quem está aí?" perguntou ele.
Christof se surpreende com a voz e tateia o ar em busca de alguma pessoa. Ele sente uma presença próxima e pergunta: "Quem está aí? Eu acho que estou perdido, pode me ajudar?"
"Claro, moço. O Nome é Timothy, muito prazer." Timothy estende a mão entusiasmado para cumprimentar o homem, mas Christof não aperta. Após uns momentos com a mão estendida no ar o garoto fica irritado: "Ei, qual é o seu problema? Você é mal-educado ou o quê?"
Christof entende a situação pois já passou por ela algumas vezes desde que ficou cego, ele tenta se explicar: "Desculpe meu jovem, eu não fiz por mau. Não consigo ver a sua mão. Na realidade eu não consigo ver nada faz um bom tempo!"
Timothy fica surpreso e envergonhado. "Ah, me desculpe, eu não sabia."
Christof sorri. "Tudo bem, não se preocupe."
Timothy parece ficar entusiasmado com aquela situação e começa dispara diversas perguntas sobre a vida de Christof. "Como é viver sem ver nada? Como você faz para se virar? Como você sabe onde está indo? No seu sonho é tudo escuro?"
Christof tenta responder, mas Timothy não dá tempo para ele formular uma resposta. O garoto grita uma nova pergunta antes mesmo da anterior chegar aos ouvidos do Professor. Christof tenta acalmar a euforia do garoto.
"Está bem... Chega, respire. Me tire uma dúvida antes de eu te responder, meu jovem. Você saberia para que direção é o Ducado Tempete?"
"Está bem... Chega, respire. Me tire uma dúvida antes de eu te responder, meu jovem. Você saberia para que direção é o Ducado Tempete?"
"O Ducado Tempete?" pergunta Timothy. "Você está na entrada da cidade de Kristadelle, moço. O Ducado Tempete fica a leste, mas não é um lugar fácil de chegar. Posso te ajudar a achar um lugar para ficar enquanto você descansa um pouco? Te mostro as melhores estalagens da cidade por um Thaller."
"Obrigado, mas não será necessário," responde Christof, educadamente. "Já estou atrás do horário e preciso chegar ao Ducado o mais rápido possível."
Timothy fica desapontado ao ouvir isso. "Ah, tudo bem então. Mas só pra você saber, o caminho até o Ducado é longo, mais ou menos dez horas caminhando. E se você sentir o cheiro de podridão, é porque está na rota certa e se aproximando da floresta de Dormark."
Christof agradece as informações e Timothy se despede. O homem cego continua caminhando pela estrada de terra, sentindo o cheiro da natureza ao seu redor. O ar fresco da tarde enche seus pulmões e o som dos pássaros o acalma. Ele se lembra dos tempos em que caminhar assim era fácil e divertido, mas agora a idade pesava sobre ele.
A estrada seguia em frente, serpenteando pelas colinas e bosques. Christof seguia em frente, sentindo-se cada vez mais cansado. Havia caminha apenas por uma hora, quando se deu conta de que sua idade não permitia mais tal tipo de esforço. O sol de outono estava se preparando para se por no céu. Mesmo assim, ele sabia que precisava continuar. O Duque estava esperando a sua chegada e Christof sabia o quão descortês seria deixar o nobre homem esperando.
Fransisco, seguia animado pela estrada do Ducado Tempete em sua carroça puxada por uma bela mula chamada "Carmela". Um animal de pelagem cinza lustrosa e suave ao toque.
A mula foi comprada pelo pai de Fransisco em um leilão de animais em uma cidade próxima. Ela foi escolhida por seu pai por sua aparência robusta e seu comportamento tranquilo. Carmela era uma mula de trabalho, mas seu pai a treinou para ser uma excelente companhia para passeios e viagens.
Desde então, Carmela tornou-se um membro da família e acompanha Fransisco em viagens para fora da cidade, seja para transportar mercadorias ou simplesmente para uma cavalgada. O jovem rapaz costuma conversar com sua mulinha enquanto percorrem as estradas, mas não hoje. Hoje o jovem Fransisco apreciava o fim de tarde de outono e a paisagem que se estendia à sua volta.
De repente, ele avista um homem andando sozinho pela estrada. Ele parece exaurido e suado. Intrigado, ele se aproxima e diminuí a velocidade da carroça para poder falar com o homem. "Boa tarde, senhor. Parece cansado, aceitaria uma carona?"
O homem sorri aliviado e diz. "Sabe meu rapaz, eu estou tentado a aceitar o seu convite. Meus joelhos já não são mais os mesmos..."
"Pode subir senhor.", perguntou Fransisco, surpreso. "E para onde você está indo?"
"Estou indo para o Ducado de Tempete", respondeu Christof. Tateando a carroça e tendo que subir sozinho, já que o jovem ainda não reparou que ele era cego.
Fransisco ficou surpreso com a resposta e não conseguiu esconder a emoção. "Eu também estou indo para lá!", exclamou ele. "O que está indo fazer lá?"
"Estou indo em busca de um velho amigo", explicou Christof. "Mas estou atrasado e ainda tenho um longo caminho pela frente."
Fransisco deu uma boa olhada no homem que se sentou ao seu lado na carroça de mandeira e fica surpreso ao ver os olhos brancos de Christof, mas logo se recupera e pergunta: "Nossa, o senhor tem catarata? Eu tenho uma pomada boa para isso aqui na minha bolsa. Quer que eu procure?"
Christof dá uma risada baixa e agradece a gentileza "Obrigado pelo oferta, mas infelizmente não há cura para minha condição. Já passei pelas mãos dos melhores médicos e especialistas, mas a cegueira é algo que não pode ser curado."
"Não se preocupe, meu jovem. Você não tinha como saber, e eu não sou uma criança que precisa de ajuda para tudo. É até bom ser tratado com um pouco mais de normalidade de vez em quando." Responde Christof, sorrindo gentilmente para Fransisco. "E não se envergonhe, todos nós cometemos enganos. A vida é uma aprendizagem constante."
Fransisco sorriu ao ouvir as palavras de Christof, suas feições relaxando por um momento. O jovem se lembrou das palavras sábias de seu amigo Dormark, que o ensinou sobre a dádiva de conhecimentos que a natureza podia fornecer. No entanto, o sorriso logo desapareceu do rosto de Fransisco, dando lugar a uma expressão melancólica. Ele estava preocupado com o sumiço do antigo sábio, e a lembrança da ausência do velho amigo o afligia constantemente.
Enquanto seguiam na carroça, Fransisco mantinha um diálogo animado com Christof, que se mostrava bastante interessado nas histórias e conhecimentos do jovem aprendiz de botânica. Em um determinado momento, Christof percebeu a paixão de Fransisco pelas plantas e, como se abrisse uma porta para compartilhar algo importante, começou a contar sobre sua época como professor universitário e as pessoas que conheceu no campo da botânica.
Foi assim que, aos poucos, Christof começou a se abrir com o rapaz e a contar histórias que há muito tempo guardava para si mesmo. Ele se surpreendeu com a habilidade de Fransisco de ouvir atentamente e fazer perguntas pertinentes, como se estivesse realmente interessado em aprender com ele.
As palavras do Explorador aposentado eram carregadas de emoção, e ele descrevia com riqueza de detalhes suas aventuras pelo mundo em busca de conhecimento e novas descobertas. O jovem fazendeiro ouvia atentamente cada palavra, seus olhos brilhando de admiração enquanto imaginava as paisagens exóticas e as plantas raras que Christof havia visto.
Com o tempo, Christof percebeu que estava compartilhando histórias que havia esquecido que possuía, e isso o deixou feliz. Ele sentiu que finalmente tinha alguém com quem compartilhar suas aventuras e experiências, alguém que apreciava suas histórias e que fazia ele se sentir ouvido.
E por sua vez Fransisco percebeu em meio à conversa que estava aprendendo muito com aquele homem que possuía uma sabedoria e um amor pelo desconhecido que o deixavam maravilhado. Ele agradecia mentalmente pelo encontro inesperado que o levou a conhecer alguém tão singular.
Enquanto conversam, Fransisco descreve as belezas da paisagem ao redor e os aromas que permeiam o ar. Christof se deleita com os detalhes descritos pelo jovem. A viagem de Christof e Fransisco na carroça em direção ao Ducado de Tempete foi extremamente agradável e proveitosa. Eles conversaram por horas a fio, compartilhando histórias e ideias, rindo juntos e desfrutando da paisagem que passava diante deles.
O tempo voou e o que parecia ser uma longa estrada de quase 4 horas, acabou passando em um piscar de olhos. Fransisco ficou surpreso ao avistar a grande cidade de Nouvellécurie, principal cidade do Ducado Tempete, e no coração dela, a Grande Mansão Tempete.
"Olhe, senhor! É Nouvellécurie! Finalmente chegamos!", exclamou Fransisco, apontando para a magnífica construção que se erguia à sua frente, antes de se lembrar que seu companheiro de viagem não podia enxergar. "Eita... Desculpa Senhor Dior, foi sem querer."
"Não tem problemas. Fico feliz em saber que chegamos." Dizia o bom homem que se ajeitava na carroça entusiasmado com a novidade.
A carroça seguiu seu caminho pelas ruas movimentadas da cidade, Nouvellécurie é uma cidade maior que Kristadelle e bem movimentada, situada no começo do Ducado de Tempete. É conhecida por seus belos edifícios de arquitetura antiga e pela riqueza de seus habitantes. A cidade é cortada pelo Rio Pluiebouche, que divide a cidade em duas partes distintas.
A origem do nome da cidade é um tanto controversa. Algumas pessoas afirmam que o nome foi inspirado pelo clima tempestuoso da região, enquanto outros acreditam que o nome foi dado em homenagem a um famoso explorador que ajudou na fundação da região há muitos anos. De qualquer forma, o nome Nouvellécurie se tornou sinônimo de prosperidade e riqueza, atraindo muitos comerciantes e empresários para a cidade.
Os nomes das famílias dessa região são relacionados com eventos climáticos, isso se deve à história da região. No passado, a região era conhecida por suas condições climáticas extremas, com tempestades violentas e ventos fortes sendo uma ocorrência comum.
Como resultado, muitas famílias começaram a adotar sobrenomes relacionados ao clima, como Tempete, Orage (trovoada), Pluie (chuva) e Vent (vento), como uma forma de homenagear as condições climáticas da região e suas tradições. Esses sobrenomes acabaram se tornando comuns em toda a região e são uma parte importante da história e cultura do Ducado de Tempete.
Fransisco e Christof atravessavam as ruas movimentadas da cidade, com as carroças e pessoas indo e vindo. O mercado da cidade estava começando a fechar, com os vendedores gritando em suas barracas e os seus últimos produtos do dia.
"Christof, você já esteve aqui antes?", perguntou Fransisco, olhando em volta.
"Sim, uma vez. O amigo de quem lhe falei morava aqui", respondeu Christof, com um sorriso nostálgico no rosto.
"Ah sim! E quem é esse amigo?", perguntou Fransisco curioso.
"Na verdade, ele é o Duque. Marcel Tempete", respondeu Christof casualmente.
"O Duque?!", exclamou Fransisco surpreso, quase atropelando em uma caixa de frutas com a carruagem.
"Sim, eu conheço ele há muitos anos. Ela patrocionou ma de minhas expedições", disse Christof, rindo da reação de Fransisco.
"Senhor Dior, eu também vim falar com o Duque", disse Fransisco, ainda um pouco abalado pela coincidência.
"Ah, que interessante. O que você precisa dele?", perguntou Christof, curioso.
"Eu não preciso de nada... Ele que precisa de mim. Na verdade não de mim! Do meu professor e mestre... Mas eu vim emm seu lugar.", explicou Fransisco.
"Não entendo Fransisco." Dizia Christof cada vez mais curioso com a situação. "Por que você veio no lugar de seu mestre?"
"Ele recebeu uma carta do Duque convocando-o para comparecer aqui hoje. Mas ele desapareceu, então eu vim em seu lugar. Estou procurando por qualquer informação que o Duque possa ter sobre o paradeiro dele", explicou mais uma vez.
"Curioso", disse Christof. "Eu também recebi uma carta do Duque me convidando para comparecer aqui hoje. Ela mencionava algo sobre uma missão de resgate que precisava de pessoas para ajudar."
"Então estamos aqui por um motivo semelhante", observou Fransisco.
"De fato", concordou Christof. "O Duque está convocando pessoas importantes para ajudar nessa empreitada... Mas bem, Talvez ele saiba algo sobre o paradeiro de seu mestre, Fransisco. Vamos em frente e descobrir", disse Christof, colocando a mão no ombro de Fransisco.
Fransisco sentiu um alívio enorme, sabendo que agora teria ajuda de um amigo influente e mais experiente para lhe ajudar. Os novos colegas caminharam pela estrada de terra, acompanhados do som dos cascos da mula batendo no chão. A cada passo, eles se aproximavam da Mansão Tempete e do Grande Moinho do Duque.
Quando finalmente chegaram nas terras do duque, Christof sentiu o ar mudar. O vento sussurrava pelas árvores, e o som da água correndo no rio próximo se juntava ao som do vento. Ele podia sentir a presença do moinho, mesmo sem enxergá-lo.
Fransisco, por sua vez, apontou para a construção, impressionado com a grandiosidade do lugar. O moinho era imenso, com paredes de pedra cinza e janelas altas que permitiam a entrada de luz natural.
O moinho era uma construção impressionante. Ele girava com a força do vento, movendo as pás que moíam o trigo e produziam a farinha que alimentava toda a região. O som das engrenagens e das pedras de moagem era uma música para os ouvidos de Fransisco, que passou boa parte de sua vida trabalhando em moinhos como aquele.
O pai do Duque, um humilde moleiro, o construiu com suas próprias mãos, com a ajuda de seus três filhos. Juntos, eles moíam o trigo de toda a região e forneciam farinha para as padarias da cidade.
Após a morte do pai, o moinho ficou sob a responsabilidade do seu filho mais velho, Marcel Tempete, que decidiu mantê-lo em funcionamento. Ele reconhecia a importância do moinho para a comunidade, e sabia que manter a tradição do pai era uma forma de honrar sua memória.
Fransisco e Christof continuaram a admirar o moinho, maravilhados com a imponência da construção e com a história que ela representava. Para eles, o moinho era uma parte importante da comunidade, um testemunho do trabalho duro e da determinação daqueles que vieram antes do Duque.
Os dois Heróis finalmente chegaram na Mansão do Duque. Fransisco estacionou sua velha carroça, olhou para sua mula com um sorriso e acariciou seu pelo macio, agradecendo-a por tê-los levado com segurança até o destino.
Eles se encaminharam para a Mansão Tempete que ficava a uns 50 metros de distância do Moinho. Ela era uma obra-prima de arquitetura, com paredes de pedra cinza e janelas altas e estreitas que permitiam que a luz do sol passasse por entre as folhas das árvores ao redor. As torres altas, os balcões ornamentados e o telhado íngreme coberto de telhas azul-indigo davam à mansão um ar majestoso.
O Duque Marcel Tempete nasceu em uma família humilde, mas sempre teve grandes ambições. Desde jovem, ele sonhava em se tornar um nobre influente na sociedade, mas sabia que isso seria difícil de alcançar, uma vez que ele não pertencia à nobreza. No entanto, ele não desistiu de seu sonho e começou a buscar maneiras de alcançá-lo.
Foi então que ele ouviu falar de uma prática comum na época: a venda de títulos de nobreza. Ele juntou todas as suas economias e negociou com um nobre falido a compra do título. Com o título em mãos, o Duque Marcel Tempete começou a investir toda a sua fortuna na construção de sua mansão imponente e na aquisição de terras. Ele se tornou rapidamente conhecido na sociedade, e sua influência cresceu cada vez mais, graças a sua inteligência, astúcia e habilidade em gerir suas posses.
A construção foi realizada por artesãos habilidosos, com o uso de materiais nobres e uma atenção cuidadosa aos detalhes. A mansão tem uma grande sala de jantar, salões com belíssimos afrescos nas paredes, um imponente salão de baile e uma biblioteca com prateleiras altas que abrigam livros raros e valiosos.
A história da Mansão Tempete é a história do Duque Marcel, um homem determinado que não mediu esforços para provar sua posição na sociedade, e que hoje deixa um legado imponente para a posteridade.
Em frente à grande porta da Mansão Tempete, ornamentada com esculturas de tempestade e nuvens. As esculturas de tempestade e nuvens eram impressionantes. Pareciam ter sido esculpidas com perfeição, como se a tempestade e as nuvens fossem realmente ganhar vida a qualquer momento. A tempestade era representada como uma figura masculina imponente, com raios saindo de suas mãos, e as nuvens eram retratadas com detalhes tão realistas que pareciam flutuar na porta. O trabalho de escultura era tão intrincado que cada detalhe da tempestade e das nuvens podia ser visto, até mesmo as gotas de chuva em suas formas. A maçaneta da porta era igualmente impressionante. Era feita de ouro maciço e esculpida em forma de um belo carneiro. O ouro brilhava à luz do sol e parecia quase hipnotizante.
O batedor aldrava dourado da porta da mansão Tempete era uma obra de arte em si. A temática de nuvens, tempestade e chuva se repetia ali também, com uma riqueza de detalhes impressionante. A aldrava em forma de nuvem tinha traços delicados e ondulados, como se tivesse sido esculpida por uma brisa suave. Sobre ela, uma representação em relevo de uma tempestade, com raios, trovões e gotas de chuva caindo em cascata. A própria maçaneta era adornada com um desenho em forma de gota d'água, em perfeita sintonia com o restante da decoração.
O Jovem Roceiro foi até o batedor dourado da porta e bateu três vezes,O som produzido era um "toc-toc-toc" ressonante e metálico, que ecoava pelo hall de entrada da mansão. Era um som que indicava poder e riqueza, e Fransisco não pôde deixar de se impressionar com a grandiosidade daquele lugar..
Enquanto aguardavam, Christof sentiu o vento frio cortar seu rosto e comentou: "Lembro-me de que era uma bela construção, Fransisco. É possível sentir a grandiosidade apenas pela porta e pelo exterior". Fransisco concordou e acrescentou: "Essa mansão é a prova de que dinheiro pode comprar tudo".
Logo a porta se abriu revelando o homem que Fransisco havia recebido alguns dias atrás na cabana de Dormark, seus traços Lombardianos são elegantes e definidos, com um nariz levemente curvo e lábios finos. Ele agora usa uma camisa branca bem passada, com uma gravata de seda azul escura e um terno cinza claro bem cortado. Seus sapatos de couro marrom brilham, e ele tem uma pequena flor vermelha no bolso do paletó. As mãos dele abrem a maçaneta de forma suave e delicada, sem nenhum calo ou marca, sugerindo uma vida de conforto e luxo.
Galliati Fossati, o Valete do Duque, os recebeu com um sorriso, mas assim que percebeu que Dormark não estava entre eles, começou a reclamar e ficar mais nervoso. "Onde está o seu Mestre rapaz?", questionou. "O Duque irá surtar quando souber que um dos heróis que convocou não compareceu". Porém, mesmo assim, convidou os dois a entrarem.
Fransisco tirou seu chapéu de palha, revelando seus cabelos castanhos escuros desgrenhados, enquanto Christof retirou seu sobretudo azul com ajuda do Valete. Galliati Fossati guiou-os pelo interior da mansão, revelando a imponência de cada cômodo, com suas tapeçarias coloridas, móveis de madeira esculpida e obras de arte nas paredes.
Ao chegarem na sala de espera, os dois heróis foram recepcionados por um ambiente luxuoso e aconchegante, com sofás estofados, mesas de centro e um grande lustre de cristal no teto. Galliati Fossati indicou que eles aguardassem ali, enquanto o Duque preparava sua chegada.
Na pequena mesa de centro da sala de espera da Mansão Tempete, havia um conjunto de pratos finamente decorados, que continham uma seleção de queijos franceses, como o brie, camembert e roquefort. Além disso, havia um cesto com pães frescos e crocantes, acompanhados de uma jarra de vinho tinto francês, cuidadosamente selecionado pelo mordomo do Duque.
Sobre a mesa também havia pequenos doces, como macarons de amêndoas, e um jarro de água fresca para aqueles que preferiam algo mais refrescante. A sala era iluminada por velas delicadamente dispostas em candelabros de prata, e o ambiente era calmo e sereno, ideal para um encontro nobre.
Christof sentou-se elegantemente em uma das poltronas da sala de espera, mantendo sua postura rígida e suas mãos repousando em seu colo. Ele parecia estar em seu elemento naquele ambiente requintado, enquanto Fransisco andava em volta da sala, maravilhado com os objetos luxuosos que o cercavam. Ele nota uma grande pintura pendurada na parede atrás de Christof e comenta: "Christof, tem uma pintura muito bonita atrás de você. Parece muito valioso!".
Christof sorri e responde: "Eu não posso ver o quadro, Fransisco, mas posso imaginar sua beleza. Estou mais interessado no que o Duque tem a nos dizer".
Enquanto isso, Fransisco explora a sala com admiração, observando cada detalhe. Ele se aproxima de uma mesa repleta de quitutes e bebidas finas e experimenta algumas delas com entusiasmo. De repente, ele esbarra em um candelabro de cristal e o derruba, fazendo-o se partir em dois.
"Me desculpe, me desculpe!" Fransisco se apressa em pegar as peças do chão, mas é interrompido pelo Valete do Duque, que entra na sala.
"O que aconteceu aqui?" o Valete pergunta com voz severa, olhando para o candelabro quebrado. Fransisco se desculpa novamente, mas o Valete balança a cabeça enraivecido e diz: "O que você fez, seu desastrado! Este candelabro foi presente do Conde de Pierre-Louis de Dunateaux, é feito de prata e custa mais do que você ganha em um ano inteiro!"
Fransisco pegou a bolsa que carregava consigo e rapidamente procurou por algo que pudesse ajudar a consertar o candelabro. "Me desculpe, eu não queria quebrar o objeto tão valioso", disse ele enquanto procurava por algo útil na bolsa. "Mas eu tenho aqui essa pomada feita de ervas aqui e é muito boa, olha só! Ela gruda que nem cola, pastosa demais. Talvez a gente possa juntar as partes do candelabro e dar um jeito nele, sabe?"
Galliati Fossati, o Valete do Duque, suspirou profundamente antes de responder. "Não há necessidade, Monsieur Fransisco. O objeto pode ser reparado posteriormente. Por favor, sigam-me até os jardins onde o Duque os espera." Ele os conduziu para fora da sala de espera e pelo corredor até a entrada dos jardins da Mansão Tempete.
O Valete conduziu ambos os convidados por um corredor luxuoso, passando por várias portas de madeira esculpidas e tapeçarias penduradas nas paredes. Eles entraram em uma sala ampla e bem iluminada por grandes janelas, onde um piano forte ficava no centro.
Enquanto caminhavam pelo corredor, Christof percebeu a tristeza em Fransisco e tentou consolá-lo "Não se preocupe, meu amigo. Não foi culpa sua. Aconteceu algo parecido comigo uma vez, quando eu quebrei um vaso valioso na casa de um museu. É constrangedor, mas as coisas acontecem."
Fransisco sorriu, grato pela compaixão de Christof.
Eles passaram por outra porta, entrando em uma sala de jantar elegante com uma longa mesa de carvalho. A lareira acesa no canto da sala exalava um calor acolhedor. O Valete explicou que essa era a sala de jantar principal da mansão, onde o Duque e seus convidados desfrutavam de banquetes opulentos.
Finalmente, chegaram à porta que dava para o jardim. O Valete abriu a porta e eles saíram para o ar fresco e perfumado das flores. O jardim era espetacular, com caminhos de cascalho que levavam a fontes, labirintos de arbustos cuidadosamente aparados e um grande lago no centro.
Christof respirou fundo o ar fresco, sentindo a brisa suave em seu rosto. Fransisco soltou um suspiro aliviado enquanto olhava a diversidade de flores e plantas ao seu redor.
O Valete sorriu e disse "O Duque está esperando por vocês no final do caminho, junto ao lago. Por favor, sigam-me."
Eles seguiram o Valete, caminhando por um caminho de pedras, passando por uma grande estátua de um leão, até chegarem ao lago. Lá estava o Duque, com uma aparência cansada e abatida. Seus olhos azuis parecem cansados e cheios de preocupação. Ele tem olheiras escuras sob seus olhos e a barba mal feita, indicando que ele não teve tempo para cuidar de sua aparência. Suas roupas, que costumavam ser sob medida e elegantes, agora parecem amassadas e desalinhadas. Sua postura é tensa e seu rosto carrega um semblante de angústia. É notável que ele está passando por um momento difícil.
"Sejam bem-vindos à minha humilde casa" - disse o Duque, estendo a mão para cumprimentá-los. - "Espero que gostem do meu jardim."
"É espetacular, Excelêcia" respondeu Fransisco, sentindo a grama sob seus pés descalços.
Christof concordou com entusiasmo "Gostaria de poder ver essa beleza!" Diz ele, sentido que o Duque está estendo a mão para ele.
O Duque conduziu Fransisco e Christof até uma mesa no jardim, onde havia algumas cadeiras. Ele parecia tenso e eufórico, falando rápido e gesticulando com as mãos. Ao redor da pequena mesa redonda, o Duque tinha organizado várias decorações, incluindo flores coloridas em vasos de cerâmica, velas brancas e pequenas lanternas penduradas em galhos próximos. A mesa estava posicionada embaixo de uma grande árvore.
"Obrigado por ter vindo. Eu entendo que Dormark não possa estar aqui, mas fico feliz que ele tenha enviado representantes para falar em seu nome", disse o Duque.
Fransisco interrompeu: "Na verdade, Duque, Dormark não recebeu sua carta. Ele está desaparecido há alguns dias".
O Duque suspirou incrédulo. "Como assim? Quando? O que aconteceu.".
"O Rapaz não sabe exatamente o que aconteceu, mas está procurando por ele...", disse Christof, tentando acalmar o Duque.
Fransisco aproveitou o momento para perguntar sobre o seu mestre. "Duque, eu queria saber se você tem alguma informação sobre o paradeiro dele. Ele pode estar em perigo,estou muito preocupado..."
O Duque ficou um pouco desconfortável com a pergunta. "Bem, eu não sou muito próximo de Dormark. Conheço-o apenas de nome e já tive alguns negócios tercerizados com ele, mas nada além disso".
Fransisco balança a cabeça, desapontado com a resposta. Ele olha para Christof, buscando algum tipo de consolo ou apoio, mas vê que o amigo também parece desanimado. Com um suspiro, Fransisco volta a atenção para o Duque e diz: "Entendo, Vossa Graça. Agradeço de qualquer forma por ter nos recebido e nos dado a oportunidade de ajudar senhor."
O clima ficou um pouco pesado, mas o Duque tentou mudar o foco da conversa. "Eu que agradeço por virem! Eu convidei diversos colegas, amigos e pessoas que me devem favores para ajudar nessa missão. Mas até agora, só vocês dois apareceram. Eu estou feliz que vocês estejam aqui, mas eu sinto como se estivesse... Entendam eu convoquei indivíduos de todo a nação para ajudar na busca pela minha filha. Ela foi sequestrada e eu preciso dela de volta. Ela é o meu tesouro mais valioso".
Fransisco ficou pensativo após ouvir as palavras do Duque. Ele se lembrou dos casos das crianças desaparecidas em Kristadelle e pensou que talvez a filha do Duque pudesse ter sido vítima do mesmo criminoso. "Me desculpe, Duque, mas eu não pude deixar de pensar nos casos das crianças desaparecidas em Kristadelle. Será que pode haver alguma conexão com o sequestro da sua filha?".
Christof, por sua vez, expressou seus sentimentos de pesar e empatia pelo Duque. "Sinto muito pelo que aconteceu com a sua filha, Duque. Eu imagino o quão difícil deve estar sendo para o senhor passar por isso".
Então, ele começou a questionar o Duque sobre as informações que ele tinha sobre o sequestro. "Mas, se me permite perguntar, o que o senhor sabe sobre o sequestro da sua filha? Alguma pista? Algum suspeito?".
O Duque suspirou profundamente, sentindo a pressão da situação. "Minha filha foi levada há mais de uma semana, há doze dias atrás. A última vez que a vi, ela estava indo para a Floresta de Dormark. Ela tem apenas 11..."
Christof questiona o Duque: "Com todo o respeito, Duque, mas o que uma criança de 11 anos estava fazendo sozinha na floresta de Dormark?"
O Duque responde, contendo suas lágrimas: "Minha filha sempre foi muito independente e adorava brincar na floresta. Ela costumava construir pequenas casas de folhas e galhos, além de adorar procurar por cogumelos e frutas silvestres. Ela era muito cuidadosa e sempre retornava para casa antes do anoitecer. A floresta nunca foi perigosa aos meus olhos, e ela sempre foi acompanhada por um dos nossos guardas, mas naquele dia ele se ausentou por um momento e foi quando tudo aconteceu."
Nesse momento, Galliati Fossati trouxe o cachecol da menina, entregando-o ao Duque. O Duque pegou o cachecol com as mãos trêmulas e olhou para ele com tristeza e esperança. "Este é o cachecol da minha filha... Foi só isso que acharam na floresta. Eu só quero que ela volte para casa".
Fransisco e Christof se entreolharam, compartilhando a preocupação com o destino da menina.
Christof se levantou rapidamente da mesa, colocando a mão no ombro do Duque. "Eu farei o que puder para ajudá-lo a encontrar sua filha. A partir de agora, começo as investigações e não descansarei até que a encontremos". O Duque olhou para ele com gratidão nos olhos.
Fransisco, inspirado pelo exemplo de Christof, também se levantou. "Eu também, Seu Duque. Também irei ajudar na busca."
O Duque ficou emocionado, com lágrimas nos olhos. "Muito obrigado, meus heróis. Eu prometo que serão recompensados generosamente por seus serviços".
Christof balançou a cabeça. "Não vamos falar de recompensas agora. Vamos focar em achar sua filha."
Fransisco concordou com um aceno de cabeça. "Estamos aqui para ajudar, Duque. Vamos trazer sua filha de volta para casa".
O Duque beijou a mão de ambos os heróis, ainda emocionado. "Vocês são verdadeiros heróis." O Duque começou chorar copiosamente, soluçando e com lágrimas escorrendo pelo rosto. Seu corpo tremia e ele se apoiava na mesa, tentando controlar as emoções que pareciam engoli-lo. O cansaço mental parecia ter chegado ao seu limite e agora tudo o que podia fazer era chorar.
Fransisco e Christof se aproximaram, colocando as mãos no ombro do Duque, tentando confortá-lo. Eles trocaram olhares de preocupação, sabendo que a situação era grave.
Enquanto isso, Galliati Fossati ficou parado, observando o patrão com uma expressão preocupada. Ele sabia que o Duque estava passando por uma situação difícil, mas nunca o tinha visto chorar daquela maneira. A meleca descia pelo nariz do Duque e ele não parecia se importar.
Galliati se aproximou da mesa, pegou um lenço de papel e gentilmente ofereceu ao Duque. "Senhor, por favor, use este lenço. Vai ajudá-lo a se limpar", disse ele em um tom calmo e reconfortante.
O Duque pegou o lenço e limpou o nariz com delicadeza. Ele agradeceu a Galliati com um aceno de cabeça e, aos poucos, começou a se acalmar.
Fransisco e Christof continuavam ao seu lado, oferecendo apoio e conforto, enquanto Galliati Fossati preparava algumas bebidas para acalmar os ânimos de todos. O silêncio se instalou o jardim enquanto eles tentavam processar tudo o que tinha acontecido.
Por fim, o Duque se recompôs e agradeceu novamente aos seus amigos pela ajuda. "Por favor, encontrem minha filha. Eu imploro. Ela é tudo o que eu tenho. Farei qualquer coisa para tê-la de volta. Qualquer coisa. Por favor, não falhem."
Todos eles retornam para dentro da mansão e se reúnem em volta da mesa de jantar com o Duque enquanto ele dá informações sobre a filha. Fransisco Herrara escuta atentamente, os olhos fixos no Duque enquanto ele fala. Depois de ouvir tudo, Fransisco pigarreia e olha para os outros.
"Com todo o respeito, Duque, mas talvez seja melhor começarmos a investigação em Kristadelle. É uma cidade com bastante crime, as crianças de lá também tão sumindo né... e pode haver mais informações lá", sugere ele com certa timidez.
O Duque assente com a cabeça, parecendo estar pensando no assunto. "Você tem razão, rapaz. Kristadelle é um bom lugar para começar", diz ele, antes de se virar para Galliati e dar as ordens necessárias para que o cocheiro seja preparado.
Logo depois, o cocheiro aparece na entrada principal da mansão, já pronto para levar os Heróis até Kristadelle. Ele é um homem de meia-idade, vestido com um terno vermelho impecável e uma chapéu da de cor escura. Ele se curva profundamente diante do Duque e dos Heróis, antes de se virar para abrir a porta da saída convidando os Heróis.
Os Heróis se despediram do Duque e se dirigiram para o pátio da mansão, onde o Cocheiro aguardava com o coche. O Duque acompanhou-os até a entrada principal e os agradeceu mais uma vez pela ajuda.
"Ela tem cabelos longos escuros e cacheados, bochechas rosadas, um sorriso perolado e olhos cor de mel. Ela é magra e de pele caucasiana", o Duque diz, descrevendo a filha nas palavras de um pai amável e bondoso.
Christof estendeu a mão e apertou a do Duque, agradecendo pela oportunidade de ajudá-lo. Fransisco, por sua vez, se curvou em uma reverência respeitosa e agradeceu pelo privilégio de servir ao Duque.
O Duque os observou enquanto eles subiam no coche e, por um momento, seu rosto pareceu triste. Ele se despediu mais uma vez, pedindo-lhes que tivessem cuidado em sua jornada.
Com um aceno, os Heróis partiram, deixando a mansão Tempete para trás enquanto o sol se punha no horizonte. O cocheiro os levou pela estrada, enquanto Christof e Fransisco discutiam estratégias e planos para encontrar Sarahleen.
O ar fresco da noite que lentamente caía balançava as folhas das árvores e o som dos cascos do cavalo ecoava pela estrada. Christof e Fransisco olhavam pela janela do coche, sentindo-se determinados a cumprir a missão que lhes foi confiada.
Eles sabiam que o caminho seria difícil, mas estavam determinados a encontrar Sarahleen e trazê-la de volta para casa. A noite estava e cheia de incertezas, mas os Heróis estavam prontos para enfrentar qualquer desafio que surgisse em seu caminho.
Jean-François puxou as rédeas do coche e virou para os Heróis com um sorriso amigável no rosto. "Bom dia, meus senhores! Espero que tenham descansado bem durante a noite. O Duque disse que vocês são homens de muita coragem e bondade. Fico feliz em ter a oportunidade de acompanhá-los nesta jornada."
Fransisco e Christof sorriram para o cocheiro, agradecendo-lhe pelo transporte. Jean-François continuou a falar, com sua voz rouca e agradável: "O Duque é um homem bom, muito generoso e amado pelo povo. E vocês são homens ainda mais bons por ajudá-lo a encontrar sua filha. Espero que possamos chegar a Kristadelle o mais rápido possível!"
Enquanto o cocheiro seguia pelo caminho, ele notou a expressão preocupada nos rostos dos Heróis e perguntou: "Vocês conheciam a menina?"
Fransisco respondeu: "Nunca a conheci senhor."
Jean-François assentiu com um olhar sério, mas rapidamente voltou a ser jocoso: "Ah, sim! Sarahleen, a doce menina do Duque! Eu me lembro dela quando ela ainda era uma pequena joaninha. Espero que a encontremos sã e salva! Mas, falando em salva, vocês já notaram o cheiro da floresta? É insuportável! Antigamente, a floresta costumava a limpar nossos pulmões, mas agora é só cheiro ruim e doença. Chego a querer vomitar quando passo por ali!"
Christof questionou, preocupado: "Doença? O que você quer dizer com isso?"
Jean-François deu de ombros e respondeu: "Não sei dizer ao certo, meus senhores. Só sei que algo mudou na floresta e não é para melhor. Mas não se preocupem, vamos chegar em Kristadelle em breve!"
A medida que a carruagem avançava pelo terreno irregular, as nuvens negras se acumulavam no céu noturno e o crepúsculo cedia espaço à escuridão. O vento assobiava pelos galhos das árvores próximas, fazendo com que as folhas dançassem em uma sinfonia ruidosa.
O cocheiro, com sua lanterna em uma mão e as rédeas firmemente seguras na outra, guiava a carruagem com maestria. Os heróis sentados no banco de trás, podiam sentir o cheiro da grama fresca e o toque do ar gelado em seus rostos.
Conforme a noite se adiantava, a lanterna iluminava o caminho, trazendo uma luz tremeluzente e misteriosa para o interior da carruagem. Os heróis, cansados pela jornada e preocupados com a missão que teriam pela frente, se aconchegaram nos assentos e se prepararam para a longa noite que estava por vir.
Capítulo 7 - A Sombra Ardente de Mangiafuoco
24 de Setembro de 1625 - 22:19
A Capitã Louca é uma taverna simples, mas surpreendentemente bem conservada, com mesas e cadeiras de madeira rústica, lustres antigos de ferro forjado pendurados no teto baixo e uma lareira acesa no canto. A luz fraca das velas em cima das mesas ilumina o lugar, e o cheiro de cerveja e fumaça de tabaco permeia o ar.
Há uma variedade de pessoas sentadas nas mesas, incluindo fazendeiros cansados, trabalhadores sujos da pedreira, peleiros ostentando suas peles e, infelizmente, alguns rufiões da Milícia Monocelha, procurando causar problemas. A maioria das mesas estão desocupadas, exceto por um grupo de quatro homens sentados em uma mesa de canto, jogando o jogo de azar Necromante com um baralho surrado de cartas.
A parede leste da taverna é dominada por um grande janelão de vidro que dá uma vista para a floresta Dormark. Mas hoje, uma cortina de veludo vermelho cobre a janela, bloqueando qualquer visão do mundo exterior. As paredes são decoradas com marcas de tiro, algumas frescas, que foram disparadas pela dona da taverna, Gillian Gancho, como um aviso para qualquer um que tentar começar uma briga dentro da taverna.
Enquanto isso, Gillian está atrás do balcão, esfregando um copo com um pano velho e observando os homens jogando Necromante. Ela é bem jovem, mas ainda mantém um ar de autoridade sobre a taverna. Seus olhos aguçados seguem a ação na mesa de jogo, mas quando Artemis entra pela porta, ela desvia o olhar para a recém-chegada.
Artemis entrou na taverna com cautela, seu capuz abaixado para esconder seu rosto. A luz fraca das velas revelava as mesas e cadeiras dispostas de forma desordenada pela sala. Ela sentiu o cheiro de álcool e fumaça de tabaco que impregnava o ar. Observou a decoração simples, mas bem conservada, com os buracos de bala nas paredes, lembrando-a do aviso de Gillian.
No entanto, a presença dos Rufiões da Mílicia Monocelha a surpreendeu. Ela sabia que não seria fácil encontrar Geldriel em meio a esses criminosos. Artemis murmurou para si mesma, "Isso não pode ser bom".
Seus olhos se fixaram em Otto Krench, o braço direito de Cedric Travi-Trono, enquanto ele jogava Necromante com seus comparsas. Ele era um homem bruto, com um rosto desagradável e um bafo de alho que quase fez Artemis recuar. Uma das suas sobrancelhas estava raspada, tal qual todos os outros membros da milícia, dando um ar ainda mais sinistro ao seu semblante. Suas roupas eram sujas e puídas, um reflexo da vida que ele levava.
Artemis sentiu um calafrio percorrer sua espinha ao olhar para o rosto feio de Otto Krench. Ela sabia que não poderia se dar ao luxo de chamar a atenção dele, ou de qualquer outro Rufião, se quisesse encontrar Geldriel e sair dali sem problemas. Respirando fundo, ela abaixou ainda mais o capuz e se aproximou do balcão onde Gillian Gancho limpava um copo.
Com a voz baixa, Artemis perguntou a Gillian se ela havia visto Geldriel. A dona da taverna olhou para a jovem caçadora com um olhar atento, mas antes que pudesse responder, Otto Krench levantou-se e chamou sua atenção. Artemis se encolheu, tentando passar despercebida pelos criminosos.
Gillian suspirou quando ouviu o chamado de Otto. Ela não gostava muito de atender aos Rufiões, mas sabia que não podia ignorá-los. Pegando alguns copos vazios, ela se dirigiu ao grupo, tentando manter a calma enquanto servia mais uma rodada de cerveja barata.
Enquanto isso, Artemis se encolheu ao ouvir o chamado de Otto. Ela se perguntou se ele tinha notado sua presença, mas logo se tranquilizou quando percebeu que o Brutamontes só estava interessado em beber. A jovem caçadora observou Gillian preparar as bebidas e colocá-las na bandeja, pronta para atender aos Rufiões.
Quando a dona da taverna passou por Artemis, ela falou de forma furtiva e discreta. "Sua amiga mestiça está no andar de cima, segundo quarto a esquerda. Ela tá te esperando." Artemis assentiu discretamente, agradecendo pela informação.
Enquanto isso, Otto chamou a atenção de Gillian. "Ei, sua velha! Cadê aquela bebida que pedi?" ele rosnou, batendo na mesa com impaciência.
Gillian respirou fundo antes de responder. "Já tá indo, já tá indo. Não precisa me apressar", ela disse em um tom irritado enquanto se afastava para pegar a bebida. Artemis observou tudo com atenção, tentando não chamar a atenção dos Rufiões.
Gillian revirou os olhos em resposta ao pedido de Otto, mas pegou os quatro canecos e os encheu no tonel através da torneira. A cerveja derramou em excesso, formando espuma por toda a parte. Ela bufou de frustração ao ver a cerveja pingando pelo chão.
Gillian era uma jovem de 19 anos, com pele bronzeada e cabelos cacheados escuros que caíam sobre seus ombros. Ela era atraente, mas seus traços delicados eram ressaltados pela expressão de raiva e revolta que se apoderava de seu rosto enquanto servia a bebida.
Gillian se perguntava o que fazia ali, em meio a esses criminosos, servindo a bebida barata que odiava para homens brutos como Otto Krench. Seu pai a havia abandonado quando ela ainda era criança, e ela guardava muito ressentimento disso. Ela se viu forçada a trabalhar na taverna para sobreviver, mas não era esse o futuro que ela havia sonhado para si mesma.
Mesmo assim, ela continuava ali, lutando contra o nojo que sentia ao pegar os canecos sujos e encher com a cerveja de péssima qualidade. Ela sabia que precisava continuar, mesmo que aquilo a fizesse sentir-se miserável.
Enquanto ela se movia pela taverna, colocando as canecas na bandeja, passou por Artemis e falou baixo e furtivamente, "Sua amiga mestiça está no andar de cima, segundo quarto a esquerda. Ela tá te esperando." Ela continuou caminhando, ignorando o olhar de desconfiança que Otto lhe lançou quando percebeu a conversa.
Gillian colocou a bandeja sobre o balcão e se afastou, tentando ignorar a presença opressiva dos Rufiões. Ela pensou em como o trabalho na taverna era uma forma de sobrevivência e em como precisava se manter afastada de qualquer problema que pudesse surgir ali. Ela não tinha nenhuma família ou amigos verdadeiros, e os clientes que frequentavam a taverna eram apenas pessoas com quem ela fazia negócios. Mas mesmo assim, ela não podia deixar de sentir uma pontada de inveja quando os via rindo e conversando, enquanto ela continuava presa ao balcão, servindo bebidas baratas.
Enquanto os Rufiões estavam ocupados bebendo e conversando, Artemis subiu furtivamente as escadas até o segundo andar da Capitã Louca. O corredor estava escuro, com apenas a luz fraca de uma vela bruxuleante em uma das extremidades. As portas dos quartos se alinhavam em ambos os lados do corredor, mas a maioria parecia estar trancada e sem movimento.
Artemis se dirigiu para o segundo quarto à esquerda e girou a maçaneta. A porta rangeu enquanto ela a empurrava, revelando um quarto modesto, com uma cama de solteiro e uma pequena janela que dava para a rua. No canto do quarto estava sua amiga mestiça, vestida com um manto escuro e segurando uma bolsa de couro.
Seus olhos verdes pareciam misteriosos e intrigantes, e sua pele clara dava um brilho suave sob a luz fraca da lâmpada. Uma das sobrancelhas estava raspada, mas os pelos já começavam a crescer novamente, dando um ar de rebeldia ao seu rosto.
Geldriel se levantou da cadeira quando viu Artemis entrar no quarto e a abraçou. Ela era uma elfa mestiça, com uma única orelha pontuda, que remetia ao seu sangue élfico. Seu abraço era reconfortante, e Artemis sentiu-se segura nos braços de sua amiga.
"Eu tava tão preocupada, Geldriel! Sua Vigarista Salfraria bobona.", disse Artemis.
"Eu também senti a sua falta", respondeu Geldriel, " Continua precisando melhorar esses xingamentos...."
Artemis soltou-se do abraço de Geldriel e sentou-se na cama, chamando a amiga para se sentar ao seu lado. Ela sabia que havia algo errado, sentia isso no ar desde o momento em que entrou no quarto.
"Geldriel, o que está acontecendo?", perguntou Artemis, sua voz carregada de preocupação.
Geldriel suspirou e olhou para baixo, evitando os olhos de sua amiga. "Você estava certa sobre a Milícia Monocelha, Artemis... Sobre tudo. Você me avisou dos perigos, mas eu não dei ouvidos."
Artemis arregalou os olhos, sua expressão de choque era evidente. Ela nunca havia visto sua amiga admitir estar errada em todos esses anões de convívio "Você sabia quem eles eram... E mesmo assim...."
"Eu sei, mas eu me sentia inferior, Artemis... Nem todo mundo consegue ser a Senhora Perfeição igual a você", respondeu Geldriel, com a voz baixa. "Eles me deram um senso de pertencimento que eu nunca senti antes. E agora estou encrencada."
"Não é tarde demais para desistir e sair da Milícia, Geldriel", disse Artemis, tentando confortar a amiga. "Eu vou te ajudar, eu vou te proteger."
Geldriel balançou a cabeça, um ar de pesar em seus olhos. "Eu já saí, Artemis. É por isso que Cedric está furioso comigo."
Artemis suspirou de alívio, mas a expressão em seu rosto logo mudou quando Geldriel continuou falando.
"Ele sabe que tenho informações sobre os futuros planos da organização. Planos terríveis. Eu não queria contar para você porque sabia que você nunca mais me veria da mesma forma. Eu também tomei parte nesses planos terríveis."
Artemis ficou chocada com as palavras de Geldriel, incapaz de acreditar no que ouvia. "Geldriel, o que você fez ? O que poderia ser tão cruel?"
O momento de silêncio faz as Geldriel encarar a realidade e confrontar seus Demônios. Artemis continua a insistir. "Muito bem, se não que me dizer o que é. Me diga o motivo..."
Geldriel olhou para Artemis com tristeza em seus olhos. "Eu não sei, Artemis. Eu estava tão desesperada por pertencer a algo maior do que eu mesma que acabei fazendo algo que nunca pensei que faria."
"Mas agora você pode mudar isso", disse Artemis, segurando a mão de sua amiga. "Podemos mudar isso. Podemos denunciar a Milícia e sair dessa situação."
"Não é tão simples assim, Artemis", disse Geldriel com um tom sombrio em sua voz. "Cedric sabe que eu fugi e provavelmente virá atrás de mim e de todos que amo. Incluindo você."
Artemis olhou para Geldriel com tristeza em seus olhos, preocupada com sua amiga. "O que você vai fazer, Geldriel?"
Geldriel suspirou e se levantou da cama. "Eu vou fugir, Artemis. Não posso ficar mais em Kristadelle, não é seguro para mim ou para você."
Artemis se levantou da cama também, segurando as mãos de Geldriel. "Eu vou te ajudar, Geldriel. Não importa o que aconteça, eu estarei ao seu lado."
Geldriel suspirou, balançando a cabeça. "Você não entende, Artemis. Eu não sou digna de ajuda. Eu me juntei a uma organização de monstros e acabei me transformando em um. Eu não mereço sua ajuda.... Não depois do que eu fiz com as pessoas daqui."
Artemis se aproximou de Geldriel, segurando suas mãos. "Não fale assim, Geldriel. Nós vamos ajudar as pessoas que precisam aqui em Kristadelle. É isso que temos que fazer. Temos que impedir os planos de Cedric e dos Rufiões."
Geldriel hesitou por um momento, mas então suspirou e assentiu. "Tudo bem, Artemis. Eu confio em você. Eu vou te contar tudo o que sei sobre os planos da Milícia Monocelha."
Geldriel suspirou, balançando a cabeça. "Você não entende, Artemis. Eu não sou digna de ajuda. Eu me juntei a uma organização de monstros e acabei me transformando em um. Eu não mereço sua ajuda.... Não depois do que eu fiz com as pessoas daqui."
Artemis se aproximou de Geldriel, segurando suas mãos. "Não fale assim, Geldriel. Nós vamos ajudar as pessoas que precisam aqui em Kristadelle. É isso que temos que fazer. Temos que impedir os planos de Cedric e dos Rufiões... Mas para isso você precisa me contar, você precisa confiar em mim."
Geldriel respirou fundo antes de começar a falar. Artemis podia ver a preocupação em seus olhos e a confusão pesando em seus ombros. "Cedric tem um plano para sequestrar crianças de Kristadelle, mas eu não sei o que ele planeja fazer com elas. Talvez ele queira pedir um resgate para a Coroa, ou talvez ele tenha outros motivos que eu não sei."
Artemis ficou chocada com a notícia que Geldriel acabara de revelar. Sua mente girava com a gravidade da situação. Crianças inocentes sendo sequestradas para um destino desconhecido. "Isso é terrível, Geldriel. Como podemos parar Cedric e salvar as crianças?"
Artemis estava sentada na cama, encarando Geldriel com incredulidade. A amiga parecia tensa, o rosto sombrio e preocupado. "Não podemos, Artemis. Cedric já está atrás de mim. Eu não sei qual é o plano dele, mas sei que eu não sou a pessoa para impedir. Você é a única que pode... Eu não sou a mocinha, olhe tudo que eu fiz... O Mau que eu ajudei causar... Você é a única que pode impedir isso e sei que vai."
As palavras de Geldriel ecoaram na mente de Artemis, deixando-a atordoada. Ela sabia que sua amiga estava certa, mas a ideia de enfrentar Cedric e sua milícia parecia assustadora demais. "E o que você vai fazer?", perguntou, já deixando cair uma lágrima.
Geldriel se levantou da cama, o silêncio respondendo a pergunta de sua amiga. Ela iria embora. "Para onde você vai, Geldriel?" perguntou Artemis, segurando a mão da amiga.
Geldriel respirou fundo antes de responder. "Eu vou partir daqui a 10 minutos. Eu não estou levando nada além das roupas no corpo, minha adaga da sorte, algumas moedas de ouro, e a pulseira da sorte que você fez para mim com o pé do primeiro coelho que caçamos juntas."
Artemis se aproximou de Geldriel, com os olhos marejados. "Geldriel, para onde você vai?"
Geldriel olhou para Artemis com tristeza em seus olhos. "Estou indo para Paranes. Eu vou tentar ingressar na organização de Lorenzini "Magiafuccuo" Strombolli."
Em toda a cidade de Kristadelle, boatos e rumores cercavam o nome de Lorenzini, o grande Mestre do Crime. Diziam que ele tinha dedos em todos os negócios ilegais da Nação, desde o contrabando até o tráfico de falantes e de pessoas. Alguns alegavam que ele era um feiticeiro sombrio que usava magia negra para obter poder e controle sobre seus inimigos.
Outros diziam que Lorenzini tinha um teste cruel para aqueles que queriam ingressar em sua organização criminosa, o "Magiafuccuo". O boato era de que para ser aceito na gangue, um membro em potencial teria que matar alguém em uma rua movimentada da cidade sem ser pego pela guarda da cidade ou pelos vigilantes. Diziam que, se o membro fosse pego, ele seria torturado até a morte.
Mas esses boatos pálidos diante do pior dos rumores que circulavam sobre Lorenzini. Dizia-se que ele tinha um método especial para marcar seus membros, tanto mentalmente quanto fisicamente. Ninguém sabia exatamente como, mas havia histórias de membros que tinham cicatrizes misteriosas em seus corpos e pareciam assombrados em seus olhos.
Acredita-se que Lorenzini tinha uma rede de espiões espalhados por toda Nação, que o alertavam sobre tudo o que acontecia. Algumas pessoas acreditavam que ele tinha informações sobre todos as pessoa influentes, incluindo suas fraquezas e segredos, e usava essas informações para chantagear e controlar as pessoas.
Muitos temiam o nome de Lorenzini, mas poucos tinham coragem de enfrentá-lo. Alguns diziam que ele era imortal, que não envelhecia nem adoecia. Outros afirmavam que ele tinha o poder de ressuscitar os mortos e convocar demônios para fazer sua vontade.
Em resumo, Lorenzini era visto como uma figura misteriosa e perigosa, capaz de controlar a nação de Farngomery e todos os que viviam nela. E seus boatos e rumores apenas aumentavam o medo e a incerteza sobre o que ele era capaz de fazer.
Artemis sentiu um arrepio percorrer sua espinha ao ouvir o nome de Lorenzini. Ela sabia que havia rumores sobre ele e sua organização, e se fossem verdade, Lorenzini seria ainda mais perigoso do que Cedric. "Você não pode ir, Geldriel", disse Artemis, sua voz trêmula. "Eu ouvi histórias sobre Lorenzini e seu grupo, sobre as coisas que eles fazem... Eu não quero que você corra esse risco .."
Geldriel negou com a cabeça, uma expressão de dor em seu rosto. "Eu não posso ficar aqui e arriscar a sua vida, Artemis. Você é a única esperança de salvar as crianças. Eu confio em você."
"Geldriel, não vá", suplicou Artemis. "Essa é uma vida perigosa, você pode morrer."
Geldriel sorriu tristemente. "Eu sei, Artemis. Mas foi a vida que eu escolhi. E chegou a hora de arcar com as consequências."
Artemis olhou para sua amiga, sabendo que não podia fazer nada para impedi-la. "Eu vou cumprir minha promessa, Geldriel. Vou impedir os planos de Cedric e dos Rufiões. E vou rezar para que você sobreviva em sua nova vida."
Geldriel olhou pela janela do segundo andar de seu quarto na taverna, sentindo seu coração pesar com a decisão que tomara. Ela sabia que, ao ingressar na gangue de Lorenzini, estaria deixando para trás tudo o que conhecera em Kristadelle - inclusive sua melhor amiga.
Ela virou-se para olhar para Artemis, que estava sentada em sua cama, observando-a com tristeza. Geldriel sabia que estava magoando a amiga, mas a sensação de estar presa em Kristadelle era ainda pior.
Com um olhar carinhoso, Artemis se levantou da cama e foi até Geldriel. Ela segurou as mãos da amiga e olhou nos olhos dela. "Eu vou sentir sua falta também. Mas não se preocupe, eu vou ficar bem. E você também vai ficar bem, Geldriel."
Geldriel assentiu, sentindo uma lágrima escorrer pelo seu rosto. Ela abraçou Artemis com força, sentindo-se grata por ter conhecido uma amiga tão leal e corajosa. Depois, ela se afastou, pegou sua bolsa e se dirigiu à janela.
Ela olhou para Artemis pela última vez, antes de saltar pela janela e começar sua fuga em direção a Paranes. Geldriel sabia que estava deixando tudo para trás, mas ela também sabia que precisava seguir em frente para encontrar seu lugar no mundo. E ela estava disposta a fazer o que fosse preciso para encontrar isso.
Capítulo 8 - Uma bebida gelada para uma resposta fria.
Lá embaixo no primeiro andar Drake Walker empurrou a pesada porta da Capitão Louca, a taverna começou a encher desde que Artemis subiu para falar com sua amiga. O cheiro de cerveja barata, urina e tabaco impregnou suas narinas. A música alta e desafinada tocada por um velho acordeonista competia com as gargalhadas escandalosas dos bêbados.
Com dificuldade, Drake abriu caminho pelo salão abarrotado de gente, empurrando os clientes desalinhados que se recusavam a dar passagem. Se sentia perdido sem encontrar uma mesa vaga para se sentar. A dona da taverna, Gillian, aproximou-se dele com um sorriso malicioso, desabotoando o decote da camisa suja.
Ela se aproximou com um sorriso malicioso no rosto, alisando seus cabelos encaracolados. "Bem-vindo, meu jovem. Finalmente alguém de bom gosto na minha taverna. Posso te oferecer uma cerveja gelada? Ou quem sabe algo mais..." Ela olhou para ele com um olhar sugestivo, tentando chamar sua atenção. Mas Drake permaneceu impassível, sem dar nenhuma importância para os avanços da taverneira. "Mesa", ele disse, indicando que precisava de um lugar para se sentar. Gillian suspirou, desapontada com a falta de interesse do rapaz, mas o guiou até uma mesa no canto da taverna.
Gillian percebeu que Drake não estava interessado em suas investidas, mas não desistiu. "Claro, por aqui", disse ela, levando o rapaz até uma mesa vazia no canto da taverna.
Drake se sentou e olhou em volta, observando a movimentação ao seu redor. Mas seu olhar sempre voltava para o balcão, onde Gillian tentava chamar sua atenção do jovem rapaz de cabelos loiros.
"Você é novo por aqui, não é?", perguntou ela, com um sorriso sedutor no rosto.
Drake não respondeu, apenas pediu uma cerveja. Gillian se afastou, ainda tentando chamar sua atenção, mas o rapaz se manteve indiferente.
Enquanto esperava pela bebida, Drake observou os outros frequentadores da taverna. Havia homens jogando necromante, mulheres dançando no pequeno palco e trabalhadores da pedreira chegando cada vez em mais números dentro da taverna.
Drake observou um grupo desses trabalhadores entrando na taverna, todos suados e cansados depois de um dia de trabalho pesado. Eles se juntaram em uma mesa próxima e começaram a reclamar do dia que tiveram.
"Eu nunca vi tanto trabalho em um só dia", disse um dos homens, com a voz rouca. "E aquele capataz, o que ele tem na cabeça? Não para de nos chicotear!"
Outro trabalhador concordou: "Eu odeio aquele bolo de banha açoitador. Não aguento mais trabalhar naquela pedreira."
Drake não pôde deixar de ouvir a conversa dos trabalhadores, que pareciam descontentes com as condições de trabalho na pedreira. Ele ficou pensando no quanto era grato pelo seu trabalho como mercenário aonde o risco de ser chicoteado era bem menor.
Enquanto os trabalhadores continuavam a reclamar, Drake se permitiu relaxar ainda mais, afundando em sua cadeira e esquecendo-se dos problemas do mundo exterior. Ele estava em paz, mesmo na Capitão Louca, a taverna mais barulhenta e caótica da cidade.
Quando sua cerveja finalmente chegou, Drake agradeceu a Gillian e tomou um longo gole. A bebida gelada desceu refrescante pela sua garganta. Ele se permitiu relaxar um pouco, esquecendo-se dos problemas do dia.
Mas Gillian não desistia. Ela se aproximou da mesa novamente, oferecendo mais bebida. "Eu poderia te fazer companhia, se quiser...", sugeriu ela, com uma voz carregada de sedução.
Mas Drake permaneceu indiferente, mantendo seus olhos fixos no copo de cerveja gelada à sua frente. Ele balançou a cabeça negativamente, sem olhar para ela. "Não é necessário. Só quero minha cerveja e um pouco de paz", respondeu ele, com uma voz firme e decidida.
Gillian se afastou novamente, frustrada com a falta de interesse do rapaz. Mas Drake sabia que aquele era seu momento de paz, e nada o impediria de desfrutá-lo. Ele tomou mais um gole de cerveja e se permitiu relaxar completamente.
Drake estava sentado no canto da taverna, observando as pessoas que entravam e saíam. Ele tinha acabado de pedir sua cerveja quando viu Artemis descendo as escadas, com as lágrimas ainda molhando suas bochechas. Ela parecia perdida em seus pensamentos, então ele a chamou.
"Ei! Ruiva, aqui! Venha se sentar comigo e tome algo para acalmar os nervos", disse Drake, sorrindo para ela.
Ela o olhou com surpresa, limpando as lágrimas do rosto. "Oh, Tudo bem... Eu acho!?"
"Eu vim atrás negócios, mas parece que encontrei uma velha amiga pelo caminho", respondeu ele, empurrando uma cadeira com o pé para ela.
Artemis sentou-se e olhou curiosa para Drake. "Desculpe, mas não me lembro de você. Já nos conhecemos antes?"
Drake riu. " Não Lembra? Já se esqueceu de como você cagou toda calça favorita de lama e esterco bem na entrada da cidade, alguns dias atrás? Eu certamente não me esqueci.."
Artemis riu e se lembrou daquele dia, em que tinha pulado em uma poça de lama e o impacto respingou nas calças de um desconhecido. "Ah, sim, agora eu me lembro. Desculpe por isso."
"Sem problemas, mas agora você me deve um prato de comida por causa daquela calça", disse Drake, com um sorriso sacana.
Artemis riu novamente e concordou. "Tudo bem, eu vou te pagar. O que você quer?"
Drake deu pensou e pediu um prato. "Cordeiro com batatas parece uma boa pedida."
Artemis gritou animada para Gillian que estava atrás do Balcão. "Gillian! Manda dois Cordeiro com Batata!". E voltou a atenção para o rapaz na sua frente. E eles conversaram enquanto esperavam a comida chegar. Gillian observava tudo do balcão, sentindo um pouco de ciúmes do interesse de Drake em Artemis.
"Então forasteiro... O que está achando de Kristadelle?" Pegunta Artemis se debruçando na mesa.
"Eu gosto.", disse Drake. "É grande o suficiente para ser emocionante, mas pequena o suficiente para ser aconchegante."
"Sim, eu concordo", concordou Artemis. "Eu cresci aqui, e apesar de tudo, ainda é o meu lar."
"É engraçado que nunca nos apresentamos, não é?" disse Drake, rindo. "Eu sou Drake, e você é...?"
"Artemis", respondeu ela, sorrindo. "Artemis Luné-Argente. Prazer em conhecê-lo, Drake... Então, o que exatamente você faz para viver? Uh! Uh! Pera! Deixa eu tentar adivinhar... Você parece... Um... Um sapateiro! Acertei?."
Drake deu um sorriso de canto de boca e respondeu com uma certa ironia: "Oh, eu sou um consultor de segurança, você sabe, ajudo pessoas a se sentirem mais seguras... até que elas não precisem mais da minha ajuda", o que era uma forma eufemística de dizer que ele era um mercenário. Artemis riu, achando interessante a forma como ele descrevia sua profissão.
Drake notou que a menina parecia ter estado chorando recentemente. "Posso perguntar o que aconteceu para te deixar tão abalada?", ele perguntou, curioso.
Artemis hesitou por um momento, mas acabou cedendo. "Minha amiga vai se mudar para longe da cidade. Nós nos conhecemos desde a infância e agora ela está indo embora. É uma despedida difícil", ela explicou.
Drake assentiu, entendendo. "Compreendo. Perder alguém próximo pode ser difícil. Mas vocês ainda podem se manter em contato, certo?"
Artemis sorriu tristemente. "Claro... Sim dá para manter contato." Ela mentiu. "Mas chega de tristeza, vamos falar de coisas mais leves", ela sugeriu, mudando de assunto.
Finalmente, a comida chegou e foi servida por Gillian, a menina chegou à mesa segurando o prato de Artemis com uma expressão fechada no rosto. Ela jogou o prato com força na mesa, fazendo um som alto que chamou a atenção de outros clientes na taverna. Artemis deu um salto na cadeira, assustada com a atitude brusca da. Artemis notou a reação ciumenta de Gillian e alertou Drake sobre isso.
"Algum problema?", perguntou Drake, com um tom calmo na voz.
"Nenhum problema", respondeu ela, em um tom seco.
Artemis olhou para Gillian e notou o olhar que ela lançou em sua direção antes de sair da mesa, um olhar penetrante e desconfiado, com uma sobrancelha levemente arqueada em direção a Artemis. Seus olhos brilhavam de forma intensa e uma pequena ruga se formava entre suas sobrancelhas, indicando sua clara irritação. Foi então que ela decidiu alertar Drake sobre a situação.
Artemis cutucou o braço de Drake discretamente e sussurrou em seu ouvido: "Acho que a Gillian está a fim de você. Ela jogou meu prato com bastante força". Drake virou-se para olhar para Gillian, que estava ocupada atrás do balcão. Ele soltou um sorriso malicioso antes de voltar sua atenção para Artemis. "Eu sei", ele disse, "mas por enquanto eu gosto de ser bem atendido e das possíveis cervejas grátis que vou ganhar da minha admiradora".
Artemis riu e balançou a cabeça, achando graça na resposta de Drake. "Bom, cada um sabe o que faz. Mas você está perdendo a chance de ter uma namorada bonita, ciumenta e que tem um mosquete debaixo do balcão", ela disse, provocando-o.
Drake apenas sorriu e deu de ombros. "Acho que posso viver sem isso por enquanto", ele respondeu, fazendo Artemis rir novamente.
Enquanto conversavam, Artemis esqueceu suas tristezas anteriores e se divertiu com a conversa. Ela achou Drake charmoso e confiante e sentiu uma conexão forte imediatamente com o rapaz. Gillian observava tudo com um olhar reprovador, mas Drake não parecia se importar com isso. Ele estava se divertindo com sua nova companhia e não havia nada que pudesse estragar seu bom humor.
Enquanto conversavam animadamente, Artemis e Drake foram interrompidos pela chegada de Otto Krench, o brutamontes que ela tentou evitar mais cedo. Otto se aproximou da mesa com passos pesados e um olhar malicioso no rosto.
"Olha só quem temos aqui! A pequena Artemis. Ouvi dizer que você e sua amiga se meteram em encrenca, garota." Ele se agachou e falou bem perto do rosto de Artemis. "Cedric não vai deixar você escapar impune", disse Otto, com um hálito de alho desagradável.
Artemis sentiu uma onda de medo e repulsa, mas antes que pudesse responder, Drake se levantou de repente. "Ei amigo, Acho que você não foi convidado. Por que não se adianta?", disse ele com um tom firme.
Otto riu alto. "E quem é você? O protetor de donzelas em perigo? ", disse ele, desdenhoso.
"Não se importe com ele, Drake. Ele é apenas um valentão que gosta de intimidar os outros", interrompeu Artemis, tentando acalmar a situação.
Mas Otto não estava disposto a deixar as coisas assim. Ele se inclinou sobre a mesa e falou baixinho com um sorriso malicioso: "Eu ouvi dizer que você é uma garota esperta, Artemis. Se você me der uma chance, posso convencer Cedric a deixar você em paz. Mas você sabe como funciona, não é? Você me dá uma noite, e eu dou a você uma chance de sobrevivência."
Artemis sentiu o nojo subindo pela garganta e o medo tomando conta de seu corpo.
Drake olhou diretamente nos olhos de Otto, sem demonstrar medo. "Por que não experimenta falar isso de novo pra ela? Vamo ver se você consegue falar sem nenhum dente nessa latrina que você chama de boca." disse ele, com um tom de voz mais elevado.
Otto encarou Drake com raiva. "Quem você pensa que é, seu bastardo Luthiano? Não é páreo para Otto", disse ele, avançando em direção a Drake.
Drake se manteve firme, sem recuar. "Apenas saia daqui antes que eu perca a paciência", ameaçou ele.
Otto riu alto novamente. "Vamos ver se você tem coragem de me enfrentar, garoto", disse ele, levantando o punho.
Gillian, a dona da taverna, percebeu a tensão no ar e pigarreou alto, chamando a atenção de todos. A sala inteira se calou instantaneamente, sabendo que brigas e lutas eram estritamente proibidas em seu estabelecimento. Não era segredo que Gillian sabia muito bem como lidar com infratores dessa regra: ela guardava um mosquete carregado abaixo do balcão e, quando uma briga começava, ela o puxava rapidamente e atirava na direção do conflito. O som alto e estrondoso do mosquete ecooava na lembrança de todos clientes da taverna, lembrando a todos que Gillian não brincava em serviço.
Otto, um sujeito briguento e problemático, conhecia bem a fama de Gillian e sabia que ela não hesitaria em atirar. Ele já havia sido alvejado duas vezes no passado, e ainda tinha as cicatrizes para provar. Decidindo que não valia a pena correr o risco novamente, ele mudou rapidamente sua postura agressiva e fingiu estar apenas brincando com Drake. Puxando o rapaz para um abraço forçado, ele o encurralou contra a mesa. Drake se sentiu preso e enojado com o forte odor de alho e suor que vinha do brutamontes. Otto sorriu de forma forçada, tentando passar uma imagem amigável "Só estávamos brincando, Gillian, viu? Somos amigos", disse Otto, tentando convencer a taverna toda de que não havia problema algum.
Gillian levantou uma sobrancelha, mantendo a mão debaixo do balcão por precaução. Ela conhecia Otto há tempo suficiente para saber que ele não era o tipo de pessoa que se dava por vencido tão facilmente. Mas, por enquanto, ela decidiu dar uma chance a ele e deixar a situação se acalmar.
Enquanto isso, Otto sussurrou entre os dentes para Drake, enquanto caminhava de volta para sua mesa: "Você teve sorte dessa vez, mas não conte com sua namorada sempre." Drake permaneceu firme encarando o Rufião. O brutamontes retornou à mesa e voltou a jogar sua partida de Necromante, mas não conseguia se concentrar completamente, ainda irritado com a situação.
Enquanto Otto se afastava, Gillian lentamente tirou a mão do mosquete, mas ainda assim mantendo-a por perto. Ela observou atentamente enquanto Otto se sentava em sua mesa e retomava o jogo de Necromante. Ela sabia que as coisas podiam mudar rapidamente nesta taverna e estava pronta para agir caso necessário.
Drake observou Otto voltando para sua mesa, mas seu olhar foi subitamente desviado para um homem sentado na parte mais escura da taverna. Ele estava vestido em trajes militares e passou despercebido por Drake até agora.
O homem vestia um sobretudo azul com um peitoral de armadura por baixo, uma espada embanhada ao lado e parecia ter cerca de 40 anos. Mas o que mais chamou a atenção de Drake foi o broche que ele usava preso à gola do sobretudo. Era uma peça magnífica, com duas letras douradas repetidas em um fundo azul dentro de um círculo dourado, que reluzia à luz das velas.
O homem parecia alheio a tudo, imerso em seu grande diário de couro, no qual escrevia diligentemente, enquanto olhava para a Floresta de Dormark através do grande janelão de vidro da taverna. A cena era intrigante e despertou a curiosidade de Drake, que não conseguia tirar os olhos do broche.
Uma peça de joalheria refinada, feita com muito cuidado e habilidade. Com um diâmetro de cerca de cinco centímetros, era feito de um metal dourado brilhante e possuía um fundo azul profundo. Em seu centro havia duas letras "B"douradas repetidas, uma sobre a outra, parecendo um monograma. As letras eram intrincadamente entrelaçadas, com muitas curvas e voltas que pareciam formar um desenho abstrato. O broche estava cercado por um anel dourado liso, que ajudava a destacar sua beleza e simplicidade elegante. Parecia ser uma peça importante e de grande valor, com uma história interessante e um propósito significativo. Drake sentiu uma estranha lembrança e vasculhou o que as duas letras significavam até ele lembrar de "Barbebleu" o Barba Azul.
Drake sentiu um calafrio percorrer sua espinha ao reconhecer o broche com as letras douradas sobrepostas. Ele sabia muito bem quem era o homem que o usava, ou melhor oque era. Se tratava de um: Bleucher.
Os Bleuchers eram conhecidos por sua brutalidade e lealdade incondicional a seu Lorde: Edmond Barba Azul independentemente das atrocidades que ele cometesse. Eles eram chamados de açougueiros azuis por causa de sua capacidade de massacrar indiscriminadamente aqueles que se opunham a eles ou a seu mestre. Drake nunca teve nenhum contato com esses mercenários antes, mas ouviu histórias suficientes para saber que eles eram um bando de assassinos sem coração.
Drake conhecia bem a sombria reputação de Lorde Edmond Barba Azul, o tirano que governava com punho de ferro suas terras. Ele sabia das crueldades do homem, famoso por enforcar suas esposas e manipular as massas em seus jogos de poder. Boatos corriam pelos becos da cidade que Barba Azul tinha sangue ogro em sua linhagem, o que explicava a aparência intimidadora de sua larga barba azul. Desde que chegou em Farngomery, Drake ouviu histórias assombrosas sobre o exército de mercenários liderado por Barba Azul, os Bleuchers, compostos por assassinos e bandidos sem lei. Mas para Drake, aquele homem era um patife canalha que merecia o pior castigo possível por suas atrocidades.
Drake virou-se para Artemis, que estava sentada ao seu lado. "Você sabe se a coroa Kristadelle está afiliada a Barba Azul?", perguntou ele, em tom de preocupação.
Artemis balançou a cabeça. "Não que eu saiba. A Princessa Ella não é uma governante excelente mas acho que tem senso o suficiente para não se aliar com Barba Azul."
Drake respirou aliviado, mas sua preocupação não diminuiu. Ele notou que o Bleucher estava sentado a cinco mesas de distância, bebendo tranquilamente sua cerveja.
"Então, por que tem um Bleucher aqui?", perguntou Drake, apontando discretamente para o homem com o broche.
Artemis franziu a testa e inclinou-se para frente, tentando identificar o homem sentado na parte mais escura da taverna. Ela arregalou os olhos quando finalmente o viu, reconhecendo instantaneamente o símbolo na lapela dele.
Artemis se mexeu inquieta na cadeira, nervosa com a presença do homem tão próximo deles. "Eu não sei, Drake. Mas coisa boa com certeza não é..."
Capítulo 9 - Na Trilha dos Mistérios.
Do lado de fora da taverna, o coche do Duque Marcel Tempete se aproximava da Entrada da cidade. Finalmente, após cinco horas de viagem, eles chegaram à cidade de Kristadelle. A luz das estrelas iluminava as estradas de terra tranquilas e calmas, enquanto o cocheiro parou a carruagem na entrada da cidade.
O cocheiro, desceu da carruagem para ajudar os heróis a desembarcar suas malas. "Chegamos, senhores. Espero que a viagem tenha sido confortável."
"Sim, obrigado", respondeu Francisco, com se espreguiçando após a longa viagem. "Você é um excelente cocheiro."
"Obrigado, senhores. Foi um prazer servi-los. Boa sorte em sua missão aqui em Kristadelle."
Com isso, o cocheiro partiu com a carruagem, deixando os heróis diante da entrada da cidade. Francisco e o Senhor Dior se entreolharam, e o jovem caminhou ao lado de Christof, descrevendo os arredores da cidade enquanto eles vagam pela estrada de terra batida adentrando na cidade.
"À sua direita, senhor, está a entrada da floresta de Dormark. Mas eu não recomendo ir pra lá, principalmente essa hora da noite.", disse Fransisco com um tom triste e melancólico. Ele sabia que a floresta era um tesouro para a cidade e seus habitantes, mas nos últimos meses, as coisas mudaram drasticamente. Ele se sentia mal por ver algo tão bonito se transformar em um lugar perigoso e ameaçador.
Christof respirou fundo e inspirou o cheiro pútrido que emanava da floresta. "Entendi, vamos manter distância dela. E à esquerda?"
"Ah, senhor, do outro lado está a taverna da Capitã Louca. É a construção mais próxima daqui", respondeu Fransisco.
"Vamos em direção à taverna, Fransisco.", disse Christof, demonstrando sua independência.
Fransisco ficou preocupado. Para Fransisco a Capitã Louca era um lugar perigoso, com uma clientela nada confiável. "Senhor, talvez seja melhor irmos para outro lugar. A Capitã Louca não é um lugar adequado para alguém da sua posição", alertou Fransisco. Enquanto olhava para as ventimentas de seu amigo e reparava na sua forma aristocrática de se portar.
"Não se preocupe, meu amigo. Já passei a noite em lugares bem piores do que esse", disse Christof, demonstrando sua coragem e desprendimento. Juntos, eles seguiram em frente, com Christof confiando em sua intuição.
Christof sabia que a Capitã Louca era um lugar mal frequentado, mas isso não o incomodava. Ele já havia passado por muitos perigos e desafios em sua vida como explorador e tinha aprendido que, às vezes, as melhores informações podem ser encontradas em lugares improváveis.
Além disso, ele sabia que a cidade de Kristadelle estava passando por um momento conturbado e que as informações sobre a filha desaparecida do Duque poderiam estar escondidas em algum canto da taverna.
Fransisco empurrou a porta da Capitã Louca, e logo os dois foram imediatamente atingidos por um cheiro forte de álcool e tabaco. O lugar estava abarrotado de clientes, e a conversa animada e alta misturava-se ao som de taças batendo e mesas sendo arrastadas. Christof, um pouco desnorteado pelo barulho, confiou em Fransisco para guiá-lo através do lugar.
Fransisco, tenso, olhou ao redor, observando as mesas. Ele viu homens sujos e cansados de tanto trabalho braçal. Eles riam alto, trocavam histórias de suas obras e bebiam cerveja sem moderação. Já em outra, ele viu um grupo de homens vestidos com roupas escuras, olhando com astúcia para as cartas de necromante na mesa à sua frente. A tensão no ar era palpável, e Fransisco podia sentir o cheiro de dinheiro sendo perdido e ganho a cada rodada. Ele sabia que era um jogo arriscado e que muitos homens haviam se afundado em dívidas devido a esse jogo de azar.
O fazendeiro sentiu um arrepio percorrer sua espinha ao pensar em se envolver com aquelas pessoas e apostas.. Ele se aproximou da jovem taverneira de cabelos escuros e encaracolados, que olhou para os dois com curiosidade e um pouco de intimidação. Ela nunca havia visto o homem cego na região e se perguntou o que um jovem fazendeiro da família Herrara estaria fazendo acompanhando um homem de vestes aristocráticas.
"Com licença, madame, você poderia nos indicar uma mesa vaga?", perguntou Fransisco, tentando esconder seu nervosismo.
A jovem taverneira olhou para Christof por um momento antes de responder, "Claro, há uma mesa vaga ali no canto, mas não temos muitas opções de bebidas. O que vocês gostariam de beber?".
Christof respondeu, "Obrigado, mas água potável será suficiente para nós.".
Com isso, Fransisco levou Christof até a mesa no canto, ajudando-o a se sentar. Christof ouviu a conversa alta e as risadas ao redor, sentindo-se um pouco fora de lugar, mas determinado a cumprir sua missão. Ele sentia que aqui era o lugar para se achar as informações que eles precisavam.
"Então, Fransisco, você havia mencionado que muitas crianças desapareceram recentemente. Você tem mais informações sobre isso?", perguntou Christof, com interesse.
Fransisco suspirou, olhando ao redor antes de responder: "Infelizmente, não tenho ideia. Mas acredito que alguém aqui nessa taverna possa ter informações. É só a gente encontrarmos esse alguém"
"Ótima ideia", concordou Christof, satisfeito.
"Podemos fazer algumas perguntas discretas a dona da taverna. Ela conhece todos os boatos e histórias da região. Meu pai costumava fir aqui e ele disse uma vez que os bebados contam segredos e desabafos para quem está lhe dando bebidas."sugeriu Fransisco.
Christof coça a barba satisfeito com a iniciativa de Fransisco e responde positivamente à sugestão do jovem. "Concordo com você, meu amigo. Taverneiros certamente sempre tem muitas histórias para contar. E talvez ela possa nos fornecer algumas informações úteis sobre a região."
Enquanto os homens debatiam seus planos, a jovem caçadora Artemis ouviu sem querer a conversa sobre as crianças desaparecidas. Incapaz de ignorar a oportunidade, ela se levantou abruptamente de sua mesa. Drake, que a olhou confuso sem conseguir acompanhar o raciocínio da jovem caçadora.
Artemis se aproximou da mesa de Fransisco e Christof com uma determinação intensa e perguntou com firmeza: "Com licença, eu não pude deixar de ouvir sobre as crianças desaparecidas. Sabem algo a respeito?" Drake observava a cena curioso, sem entender completamente a situação.
Fransisco e Christof trocam olhares confusos e surpresos ao serem abordados pela jovem caçadora Artemis. Porém, logo se animam com a oportunidade de obter informações sobre as crianças desaparecidas em Kristadelle.
"Encantado em conhecê-la, jovem dama. Eu sou Christof Dior, um explorador aposentado e guia nesta empreitada. Meu companheiro aqui é Fransisco Herrara, e fomos contratados pelo nobre Duque Marcel para encontrar sua filha, a jovem Sarahleen Temepete. Mas acreditamos que as informações sobre os mistério que tem assolado essa região possam nos ser úteis.", disse Christof com sua voz melodiosa e elegante.
Artemis escuta as palavras de Christof e fica feliz em saber que tem alguém procurando pela filha do Duque. Mas sua expressão muda para frustração e irritação. "Sabe... Crianças estão sumindo em Kristadelle há quase um mês, e ninguém fez nada. Agora, só porque a filha de um nobre desapareceu, a ajuda aparece. Isso é desconcertante", ela diz, com um tom indignado.
Fransisco concorda com Artemis, mas tenta acalmá-la e mostrar que a ajuda é sempre bem-vinda. "Compreendo sua frustração, moça, mas agora que estamos aqui, podemos ajudar a resolver esses dois casos.", ele diz, com um sorriso amistoso.
Christof olha para Artemis com um olhar curioso e educado. "Com licença, senhorita. Alguma informação que possa nos ajudar a encontrar as crianças desaparecidas?" Enquanto aguarda uma resposta, Gillian finalmente chega com água fresca para os homens e, com ciúme evidente, dá uma ombrada em Artemis enquanto passa. "Ops, desculpe-me, acho que eu tropecei", diz Gillian, fingindo inocência.
Artemis sente a ombrada de Gillian em seu ombro e seu rosto mostra uma expressão de dor momentânea. Ela massageia o local, tentando aliviar a dor, enquanto observa Gillian se afastando com uma expressão raivosa. Artemis acha graça dos ciúmes da taverneira, mas a força da ombrada foi um pouco exagerada. Enquanto pensa em algo a dizer sobre a taverneira, ela murmura para si mesma: "E eu achando que ser rolada num barril ia ser a parte mais dura do dia."
Artemis hesita por um momento antes de responder a Christof. "Bem, não tenho muita informação além do que já disse", ela diz, olhando de relance para a mesa onde estão sentados membros da Milícia Monocelha. "Mas talvez possamos continuar essa conversa em outro lugar, onde possamos ter mais privacidade." Artemis olha de volta para Christof e Fransisco, esperando para ver se eles entendem sua sugestão sutil.
Drake finalmente se levanta da mesa em que foi deixado sozinho por Artemis e se aproxima da conversa "Artemis... O que houve? Tudo certo por aqui?".
Artemis o tranquiliza"Oh, desculpe-me, Drake! Eu não percebi que o deixei sozinho. Eu sou assim mesmo, mil perdões. Mas eu já estava voltando. Só estava terminando de falar com esses dois aqui." A Menina olhou para os homens sentados a mesa que observavam Drake e os apresentou. "Drake, esses são Christof Dior e Francisco. Eles vão me ajudar a cumprir uma promessa que fiz a uma amiga", disse Artemis, com um sorriso simpático. "É uma história longa e complicada, mas espero poder compartilhá-la com você em breve".
Drake franzia o cenho enquanto olhava para Christof, um homem mais velho de quase 40 anos, com um olhar penetrante, barba bem cuidada, olhos brancos e roupas aristocráticas que pareciam gritar "eu sou melhor que você". Ele tinha um ar de superioridade que incomodava Drake, e a maneira como falava com Artemis só piorava a situação. Mas, para piorar as coisas, Drake nunca confiou em homens carecas, sempre teve a sensação de que eles escondiam algo sob suas cabeças nuas. Ele sentiu um instinto protetor em relação a Artemis e decidiu intervir.
"Com todo o respeito, Artemis", disse Drake, enquanto cruzava os braços, "como exatamente eles pretendem ajudar você?" ele parecia desconfiado com toda aquela situação.
Artemis girou animadamente para encarar Drake, suas mechas ruivas balançando em torno de seu rosto, acentuando seu semblante animado, e disse com um sorriso traquinas: "Sabe, esses dois não são apenas clientes comuns da taverna. Eles estão em uma missão ultra-secreta..." Artemis lançou um olhar furtivo em torno do estabelecimento, como se verificando se alguém estava observando, antes de se aproximar de Drake e sussurrar: "Tem a ver com as crianças desaparecidas! E eu estou tão empolgada para descobrir o que eles descobriram!" A energia contagiante irradiava de Artemis enquanto ela falava, deixando claro o quanto ela estava animada com a ideia.
Ele não estava certo se deveria se juntar a eles. Afinal, Christof parecia representar tudo que Drake não gostava em gente rica, mas então ele olhou para Artemis e viu a animação em seus olhos. Ela estava claramente interessada no que Christof e Francisco estavam fazendo, e a história das crianças desaparecidas parecia intrigante.
Drake estava começando a se sentir um pouco curioso também. Ele sabia que não podia julgar um livro para capa e que talvez fosse bom se abrir para novas experiências, e talvez quem saiba esse nobre senhor cego não estivesse precissando de um"consultor de segurança". Com isso em mente, ele se aproximou da mesa e sentou-se ao lado de Francisco, tentando parecer o mais confortável possível.
"Eu acho que seria melhor esperarmos até amanhã cedo e nos encontrarmos em um lugar mais tranquilo... para discutirmos melhor as pistas que temos", disse Artemis para Christof, olhando-o diretamente nos olhos brancos do homem. "Pode ser na minha casa" ela sugeriu, com seriedade em sua voz. Mas depois de uma pausa, ela sorriu e acrescentou com uma risadinha: "E quem sabe minha mãe possa assar alguns biscoitos para nós. Ela é muito boa na cozinha".
O rosto de Christof se contorceu em confusão diante da sugestão. "Mas por que esperar até amanhã cedo? Não poderíamos discutir essas informações agora mesmo?", questionou ele, ainda desconfiado. Mesmo sem enxergar, ele parecia buscar algo a sua volta, movendo a cabeça de um lado para o outro.
"Se acalma, Christof!", sussurrou Artemis com um tom de voz conspiratório, inclinando-se para mais perto do seu novo parceiro de investigação. "Não podemos falar em voz alta, sabe? Temos que ter cuidado com quem ouve nossas conversas. Tem gente aqui na taverna envolvida no desaparecimento das criancinhas..."
Artemis olhou rapidamente na direção de Otto Krench e tentou indicá-lo discretamente para Christof. Fazendo um leve gesto com a cabeça e sinalizando com os olhos, mas Christof permaneceu calado. Então ela tentou de novo, mas dessa vez, exagerou o gesto, fazendo uma careta e um biquinho como se fosse e agitou a cabeça na direção do Rufião, como se fosse um boneco de ventríloquo. Christof permaneceu imóvel.
Foi então que ela se deu conta de que ele era cego e não estava vendo nada do que ela estava fazendo. Artemis corou de vergonha e balançou a cabeça, rindo de si mesma. "Desculpe, eu esqueci...", disse ela. "Tem um Brutamontes sentando a algumas mesas aqui."
Drake e Fransisco seguiram o olhar discreto de Artemis e avistaram Otto Krench, comemorando ruidosamente sua vitória no jogo de Necromante. Ele pulava da cadeira, batia palmas e gritava animadamente, chamando a atenção de todos na taverna. "Vocês são uns bando de azarados mesmo! Aprendam a jogar de verdade antes de desafiarem o grande Otto Krench!"
Ele riu alto enquanto pegava as moedas de prata que acabara de ganhar na aposta do jogo de cartas. Seus amigos rufiões resmungaram, mas não disseram nada, sabendo que seria inútil argumentar com Otto em sua vitória.
Fransisco olhou fixamente para os homens na mesa ao lado, observando as vestes daqueles brutamontes. Sua expressão denunciava o receio de quem sabe que está diante do perigoso. Ele arriscou um palpite, já temendo a resposta que viria. "Aqueles são Homens da Milícia Monocelha, não são?", disse ele, engolindo em seco.
Artemis concordou com a cabeça e olhou rapidamente para Christof, que permanecia em silêncio. Drake, por outro lado, ficou ainda mais irritado com a presença dos homens da milícia na taverna. O ranger de dentes podia ser ouvido por Fransisco, que afastou a cadeira onde se sentava um pouco do lado dele.
"É melhor que nos mantenhamos discretos mesmo...", disse Christof em um tom preocupado, com um leve tremor na voz que denotava a apreensão que sentia diante da presença dos homens da milícia.
Fransisco olhou para fora da janela da taverna tentando se acalmar e viu que o céu estava escuro, sem estrelas visíveis. Ele estremeceu ao perceber que já devia ser tarde da noite. Lembrou-se então que nunca havia ficado fora de casa por tanto tempo sem avisar seus pais, e a preocupação tomou conta dele.
"Ah, gente.., Deculpa mas acho que já tá na hora de eu ir pra casa. Prometo encontrar vocês amanhã depois do almoço na casa da Artemis." Diz ele se levantando e se afastando. "Aonde fica sua casa mesmo?." Perguntou o rapaz retornando.
"Ah. É só seguir a estrada que leva à Mansão Tremblay... Você conhece né? Aí é só continuar até o final e vai achar uma cabana de porta amarela. É um pouco longe daqui, mas é fácil de encontrar." Artemis gesticula com as mãos, simulando o trajeto da estrada e apontando para direções imaginárias. Ela mantém um sorriso amigável e confiante em seu rosto enquanto dá as instruções.
O novo colega assente com a cabeça, parecendo entender as instruções de Artemis. Ele agradece novamente e se afasta da mesa.
Francisco se afasta abruptamente da mesa, pedindo desculpas aos amigos enquanto se despede rapidamente, com pressa para chegar em casa antes que a fúria de sua mãe chegasse no limite. Ele atravessa a taverna tumultuada, empurrando as pessoas em seu caminho enquanto tenta abrir caminho para a porta.
Ao chegar no balcão, Francisco joga uma moeda de cobre em cima para pagar pela água e pelo serviço. Gillian, a jovem taverneira, observa a moeda com desaprovação. A moeda estava amassada, gasta e enferrujada, claramente não era um pagamento justo pelo que ele havia consumido.
"Calma, Gillian, os seus clientes... Eles merecem uma taverneira sorridente e feliz, Sorridente e feliz.." Gillian repete para si mesma "Sorridente e feliz" enquanto guarda o pedaço em um pequeno pote.
Fransisco finalmente chega à saída da taverna tumultuada, seu único desejo era retornar para casa antes que fosse tarde demais. No entanto, ao abrir a porta, algo surpreendente aconteceu: um cervo vermelho, estava do lado de fora, mordendo a maçaneta da porta.
A criatura de porte elegante e altivo tem um pelo marrom-avermelhado que brilha a luz das velas. Seus olhos são grandes e expressivos, de um castanho profundo e cintilante. Seus chifres estão começando a crescer e têm uma aparência marfim, com um suave tom amarelado. Seu rosto é delicado e bem proporcional, e suas patas são longas e graciosas, terminando em cascos afiados e escuros. Ele veste uma corta no pescoço que segura uma pequena algibeira de couro, que contrasta com sua pelagem
Ao ver a cena inusitada, Fransisco ficou boquiaberto, sem acreditar no que seus olhos viam. O Cervo, notando a presença de Fransisco, se aproximou e falou com sua voz afetada e educada: "Oh, meu caro Fransisco, que alívio vê-lo. Estava tentando entrar por quase cinco minutos, mas com meus cascos, é uma tarefa bastante difícil".
O Cervo foi entrando "Gostaria de agradecê-lo por sua gentileza, Fransisco. Você é tão prestativo! Dormark lhe treinou bem.".
A essa altura, Fransisco finalmente conseguiu se lembrar daquele cervo, se tratava de um falante que ele conheceu a algum tempo atrás na floresta. Haricot era seu nome se a memória de Fransisco estivesse certa. "Não há problema, Haricot. É sempre bom ver um amigo. Mas o que você está fazendo aqui? Não é perigoso para um falante andar por aqui a essa hora da noite?"
Haricot responde com uma voz calma e afetada: "Oh, não se preocupe, meu caro amigo. Eu venho à Capitã Louca com frequência. Gillian é uma excelente taverneira e sempre me serve com muita gentileza, mesmo sendo um falante. Mas de fato, o caminho até aqui está se tornando cada vez mais complicado. Com essas mortes acontecendo na floresta, tanto com animais falantes quanto não-falantes, eu não me sinto mais seguro em lugar nenhum."
Fransisco franze a testa, preocupado com as notícias. Mas Haricot continua: "Eu precisaria da sua ajuda, meu amigo. Como você pode ver, meus cascos não são úteis para muitas coisas e, infelizmente, não posso depender apenas dos meus pequenos chifres para tudo. Você poderia ficar um pouco mais para me ajudar com algumas coisas? Eu prometo que não irá demorar muito tempo."
Fransisco hesita, olhando para a estrada, pensando em sua mãe e na fúria que lhe aguarda em casa. "Eu não sei, Haricot. Eu ainda tenho muitas coisas para fazer em casa e...".
Mas antes que ele possa terminar sua frase, Haricot o interrompe, colocando uma das patas sobre o ombro de Fransisco. "Por favor, meu amigo. Eu preciso da sua ajuda. E você é um dos únicos humanos de confiança por aqui. Além disso, você é um protetor da floresta, treinado por Dormark. Por favor, fique um pouco mais."
Fransisco olhou para a floresta no escuro ao longe e uma sensação estranha tomou conta dele. Ele sentiu como se as árvores estivessem sussurrando em seus ouvidos, e a voz de seu mestre ecoando em sua mente. Tudo que compete ao verde", eram as palavras de Dormark.
O ranger das folhas e o farfalhar das copas se intensificaram, como se as árvores estivessem tentando chamar a atenção de Fransisco para algo importante. Ele fechou os olhos e respirou fundo, sentindo a energia da floresta fluindo através dele.
Quando abriu os olhos novamente, ele percebeu que a sensação havia diminuído, mas ainda estava presente. Ele olhou para Haricot e acenou com a cabeça. "Tudo bem, eu fico para ajudar", disse ele com convicção. "Mas apenas por um tempinho. Eu ainda preciso voltar para casa logo."
Haricot sorri, agradecido. "Muito obrigado, meu amigo. Eu realmente aprecio sua ajuda." Enquanto sue amigo falante adentra na taverna, Fransisco fecha a porta. Sem perceber a presença das crianças de rua ali fora brincando no meio da noite.
Capítulo 10 - A Sina de Schnee.
As crianças eram um grupo de quatro, todas vestindo roupas surradas e desbotadas. Duas meninas e dois meninos, com idades entre seis e dez anos. Elas brincavam de pega-pega em uma área aberta na frente da taverna, correndo e gritando alegremente enquanto tentavam pegar uns aos outros.
Uma das meninas tinha tranças desarrumadas e um rosto sardento, enquanto a outra tinha cabelos curtos e escuros e olhos grandes e brilhantes. Os meninos tinham cabelos emaranhados e pareciam um pouco mais velhos do que as meninas. Eles jogavam pedrinhas no chão e se revezavam tentando pegar uns aos outros.
As crianças pareciam animadas e felizes, sem se importarem com o horário tardio ou com o fato de estarem brincando em uma rua vazia. De repente, elas param e olham para uma silhueta que se aproxima. É Timothy, outro garoto de rua. Ele se junta ao grupo.
"Então, Timothy, como foi seu dia hoje? Deixa eu adivinhar... Passou na fazenda dos Herrara?" perguntou uma das meninas com um sorriso malicioso, enquanto sua amiga ria de forma sapeca ao lado dele.
"Pra sua informação eu fui sim", ele começa. " Caminhei por um bom tempo, passando pelos campos, até que finalmente cheguei lá. Aí, eu vi ela de novo, aquela por quem meu coração bate mais forte. Ela estava ajudando com a colheita e parecia tão bonita como sempre."
Ele dá uma pausa dramática. "Mas, depois disso voltei pra cidade, Ah!... Eu conheci um homem cego, um viajante que parecia ter visto muitas coisas nesse mundo... Bom pelo menos antes de ficar cego..." Ele diz enquanto pensa nos fatos que aconteceram mais tarde no seu dia... "Hum... Depois disso fiquei de bobeira na cidade... Até que eu encontrei a Artemis... E adivinhem só quem ela deixou usar o Arco dela quando ficar mais velho? Muoi!"
E, por fim, Timothy sorri com um ar travesso. "E então, antes de vir para cá, eu decidi fazer uma parada na padaria do Sr. Bacher. E lá, eu acabei...adquirindo alguns dos seus deliciosos pães e tortas sem que ele soubesse. Foi fácil, eu sou praticamente um ninja." Ele pisca um olho para as meninas e dá uma risada. "Mas não contem a ninguém, hein?"
"Ah, Timothy, você sempre exagera nas suas histórias", diz um dos garotos enquanto as meninas riem.
"É verdade, ele é mais mentiroso que o velho Mathias!", exclama outro garoto, mas com um sorriso no rosto.
"Falando nisso ele disse que encontrou um tesouro pirata enterrado no jardim dele", diz o outro dos garotos, animado.
"Ai, para de inventar, Davi", responde uma das meninas. "Não tem nenhum tessouro pirata enterrado em Kristadelle, não tem nem porto por aqui."
"Por isso mesmo que é o esconderijo perfeito!", insiste Davi.
"Eu ouvi dizer que a dona da loja de tecidos está planejando se casar com um duque rico", acrescenta outra menina.
Uma das meninas solta um suspiro sonhador: "Ai, que romântico! Imagina só, ser uma duquesa um dia...". A outra concorda animadamente: "Deve ser tão maravilhoso, ter roupas finas, banquetes todos os dias e viver num castelo". As duas meninas começam a imaginar como seria suas vidas se elas também fossem nobres.
Timothy começa a rir, achando engraçado as amigas sonhando com algo tão distante da realidade deles. "Vocês são mesmo umas sonhadoras, hein?", ele brinca. "Aqui entre nós, eu prefiro viver como um lobo das ruas do que como um nobre qualquer". As meninas riem e concordam, mas no fundo ainda têm aquela vontade secreta de ter uma vida diferente.
O outro menino para as risadas das meninas respondendo a Timothy. "É... mas é difícil viver como Lobo quando se tem alguém nos caçando."A conversa então toma um rumo mais sombrio enquanto todos se calam.
"Eu sinto falta deles", diz um Davi. "Eles costumavam vir aqui e jogar conosco."
"Eu ainda me pergunto o que aconteceu com eles", diz outra menina.
Timothy acrescenta: "Sabe... Mesmo que o Casper fosse um chato de galocha, ele não merecia isso."
As crianças ficam tristes, lembrando dos amigos. Uma das meninas começa a chorar e menciona como Casper costumava dizer que quando crescesse, seria o novo líder da Mílicia Monocelha.
"Ele sempre me puxava as tranças mas...", a menina soluça enquanto enxuga as lágrimas. "Lembro de quando ele me contou sobre seus planos de ser o líder da Mílicia Monocelha, e eu acreditei nele. Mas agora sumiu e não sabemos onde ele tá... E nem o Dennis. Será que algum dia os veremos de novo?"
"Eu gostava de ouvi-lo falar sobre isso", diz outro menino. "Ele parecia tão determinado."
A conversa fica silenciosa por um momento enquanto todos lembram dos amigos desaparecidos. Então, uma das meninas diz: "Quem será que levou eles embora?"
"Não foi 'Quem'... Mas sim 'O que'!" diz Timothy enquanto se vira para a menina, "Eu ouvi falar de uma criatura assustadora que ronda a floresta aqui perto", diz Timothy, com um sorriso no rosto. "Dizem que ela é enorme e tem dentes afiados como navalhas".
Uma das meninas pergunta: "O que mais Timothy"
Timothy, fingindo estar pensativo, responde: "Bem, ela tem olhos laranjas como brasas, dentes afiados como navalhas e garras como facas! Ah, e ela tem escamas verdes, é claro!"
A outra menina pergunta: "E onde ela vive?"
Timothy responde: "Bom, eu ouvi dizer que ela vive nas profundezas da floresta de Dormark, e só sai à noite para caçar. Mas cuidado, ela pode estar por perto..."
Os garotos começam a rir da imaginação de Timothy e das perguntas assustadas das meninas. "Ah, Timothy, você e suas histórias! Não acreditem nesse mentiroso", diz um dos garotos, tentando acalmar as meninas.
Timothy insiste na sua ficçãocomeça a imitar a criatura com movimentos exagerados, rosnando e mostrando os dentes. Ele finge ser atacado pela criatura imaginária, se jogando no chão e se contorcendo. Fazendo todos ali rirem, Timothy se levanta, com os olhos brilhando de empolgação. "Vocês não acreditam em mim?", ele pergunta, indignado. "Eu vi essa criatura na floresta, eu juro! Ela é real!".
Timothy estava tão empenhado em sua performance que não percebeu a figura negra e ameaçadora que se aproximava dele. Mas seus amigos sim, as crianças esticaram seus pescoços para ver do que se tratava, e foi então que eles viram a figura se arrastando em direção a eles, escura e imponente, sua respiração pesada e seus olhos brilhantes e amarelos no meio da noite.
O terror tomou conta dos amigos de Timothy e eles correram o mais rápido que puderam, deixando-o sozinho em meio à sua confusão pessoal. Ele finalmente percebeu a presença ameaçadora e virou-se para encará-la. A figura enorme e escura se aproximou ainda mais, e Timothy percebeu que não era nada que ele pudesse ter imaginado. Era real e era perigoso.
Ele começou a tentar correr também, mas seus pés não pareciam querer obedecê-lo. A figura o alcançou e o agarrou, e Timothy gritou de terror, enquanto se jogava no chão e clamava por sua vida.
Timothy suplica com a voz trêmula: "Por favor, não me devore! Eu não fiz nada!" Mas a criatura não responde, apenas continua a encarava firmemente. Timothy fecha os olhos com medo do que poderia acontecer a seguir, mas quando finalmente os abre, ele vê que a figura não era uma criatura assustadora como ele pensava, mas sim um homem. Um home bastante peculiar de pele alva.
Ele está todo sujo de lama e poeira, suado, cansado e ofegante. Timothy olha para ele com uma mistura de medo e curiosidade. Schnee olha de volta com seus olhos amarelos como os de um gato e pergunta com seu sotaque pesado: "Devorar você? Eu ia acabar em duas mordidas.
Timothy fica confuso com a resposta e responde: "O que? Eu não entendi..."
Schnee solta uma risada para sí rouca cansada e responde em voz alta: "Nada, esqueça. Me diga, é este o Ducado Tempete?"
Timothy ainda está tremendo, mas responde timidamente: "Não, senhor. Estamos em Kristadelle, a cerca de cinco horas de cavalo do Ducado Tempete."
Schnee solta um suspiro enfurecido e deixa Timothy . Ele se levanta, sacode a poeira das roupas e encara Schnee com uma expressão de misto de medo e curiosidade.
Timothy, ainda atordoado com o encontro com o caçador de monstros, decidiu seguir Schnee. "Ei, você está vestindo um uniforme de Zielkfrat, certo?" perguntou Timothy, enquanto seguia o homem cambaleante.
Schnee acenou com a cabeça, mas estava muito cansado para falar muito. Ele estava suado, sujo de lama e poeira, e mancava visivelmente. Timothy continuou a perguntar, curioso: "Você já esteve lá?"
"Sim." Respondeu Schnee.
"Como é a escola?" Indagou Timothy.
"Grande." Retrucou Schnee.
"E os professores?" Insistiu Timothy.
"Bons." Schnee respondeu começando a se enfurecer.
"Eles ensinam feitiços poderosos?" Timothy perguntou pulando energizadas pelas respostas simples do homem.
"Sim." A cada resposta, Timothy se animava mais e mais. Mas, finalmente, Schnee colocou a grande mão na boca do garoto. "Garoto, eu estou muito cansado", ele disse com sua voz arrastada.
Timothy se afastou e olhou para o homem com compaixão. Ele não podia imaginar o quão difícil deve ter sido a jornada de Schnee para chegar até ali. E foi então que ele teve uma ideia. "Ei, se você está cansado, você deveria ir para a Taverna da Capitã Louca", disse ele. "Eles têm as melhores camas e a comida baratinha!"
Schnee olhou para ele por um momento, considerando a sugestão. Ele sabia que ainda tinha um longo caminho a percorrer até chegar ao Ducado Tempete, e a ideia de um pouco de conforto era atraente. "Está certo.", disse ele finalmente. "Aonde fica a Capitã Louca?"
Enquanto isso, no interior da Taverna da Capitã Louca, Haricot, o cervo falante, estava pedindo ajuda a Fransisco para pegar uma moeda em sua algibeira e pedir para Gillian o de sempre.
Fransisco se aproximou do balcão onde Gillian estava atendendo os clientes e sussurrou: "Gillian, Haricot precisa do 'de sempre', pode preparar para ele?".
Gillian, que conhecia bem o cervo falante, assentiu com um sorriso e respondeu: "Deixa comigo".
Gillian então foi para a cozinha da taverna, e não muito tempo um prato de folhas de alface e outras verduras frescas. Ela adicionou algumas nozes e um pouco de mel, que Haricot adorava. Depois de terminar, ela colocou o prato em uma bandeja e levou até a mesa de Haricot.
Haricot, não conseguia resistir ao delicioso prato preparado por Gillian. Ele abriu a boca grande e começou a devorar a salada com tanta voracidade que esqueceu completamente sua elegância. Seus olhos se fecharam de prazer enquanto ele mastigava cada pedaço de alface e cenoura, e seu rabo balançava fazendo cocegas na nuca de um cliente bebado na mesa ao lado. Gotas de molho escorriam pelo seu queixo e ele não se importava em lambê-las.
Com o focinho todo sujo de comida, Haricot pegou o prato com os dentes e o levantou até a altura dos olhos para lamber a última gota de molho. Ele soltou um suspiro de satisfação e depois deixou o prato cair na mesa, esquecendo completamente seus modos.
Fransisco se aproximou da mesa onde seus amigos estavam sentados, Christof, Artemis e Drake Walker, ainda com um sorriso no rosto após ter ajudado o cervo falante. Ele acenou para eles timidamente, tentando não chamar muita atenção.
Christof olhou para Fransisco e arqueou uma sobrancelha. "De volta tão cedo?"
Fransisco encolheu os ombros. "Tive que ajudar um amigo que encontrei.", respondeu ele, tentando ser vago.
Fransisco se sentou e olhou em volta da taverna, aquela sensação de preocupação voltou a preenchê-lo. Ele sabia que algo estava errado, que alguma coisa ruim estava prestes a acontecer. Ele pensou em inventar uma desculpa para sair novamente, mas antes que pudesse fazê-lo, um som grave e melodioso das cordas de um alaúde foi escutado vindo da escada.
A taverna toda parou o que fazia e olharam para escada, aonde um homem alto e magro descia seus últimos degrais, com um alaúde pendurado em suas mãos. Vestido em roupas finas azuis bem cortadas, seu alaúde feito de madeira de mogno pendia em seu ombro em uma alça de couro. Seus longos cabelos loiros encaracolados eram adornados por um chapéu pomposo, e um bigode fino compunha o seu sorisso chamorso.
Jarden era um mentiroso contumaz, mas também era um talentoso músico e cantor. Ele afirmava ser "O Sexto filho bastardo do Rei", uma mentira que ele contava para fascinar seu público e aumentar sua aura de mistério e glamour. O menestrel. Ele era conhecido por sua habilidade em tocar o alaúde e por suas histórias fantásticas.
Jarden Floconbleu faz uma reverência graciosa e cumprimenta a Capitã Louca com um sorriso cortês no rosto. Ele ergue seu alaúde com delicadeza, segurando-o com ambas as mãos e diz com sua voz suave e melodiosa: "Meu nobre povo de Kristadelle da prestigiada taverna da Capitã Louca, é uma honra estar aqui em sua taverna para compartilhar com você as minhas histórias. Que a noite seja longa e repleta de alegria e boas lembranças."
Gillian, sorriu para si mesma ao ver Jarden Floconbleu começar sua apresentação. Ela havia conhecido o menestrel há mais de um ano, e desde então eles haviam construído uma parceria lucrativa e agradável. Gillian adorava ver a reação dos clientes à música envolvente e à personalidade cativante de Jarden.
Enquanto o Menestrel dedilhava seu alaúde com habilidade e paixão, Gillian ia e vinha pela taverna, entregando canecas de cerveja e pratos de comida fumegante aos seus clientes. Ela observava a multidão enquanto trabalhava, e como as pessoas se moviam ao ritmo da música e sorriam de prazer. Quando ela olhou de volta para o palco, Jarden havia mudado de música e estava tocando um ritmo mais rápido e alegre. Gillian não pôde deixar de bater os pés no chão, sentindo a música fluir através de seu corpo.
Ela se perguntou se Jarden iria tocar alguma de suas músicas favoritas hoje à noite, como ele havia prometido da última vez. Independentemente disso, ela sabia que a apresentação seria um sucesso e que sua taverna seria o lugar certo para se estar naquela noite. Gillian continuou a trabalhar, mas com um sorriso no rosto, saboreando o prazer que a música de Jarden e a atmosfera vibrante de sua taverna proporcionavam a todos os presentes.
Os quatro heróis estavam sentados à mesa, enquanto Jarden Floconbleu começava a tocar seu alaúde. Drake o, observava atentamente o público, avaliando cada pessoa que entrava na taverna. Artemis, balançava a cabeça e batia o pé no ritmo da música. Fransisco, olhava fascinado para o Menestrel, admirando sua habilidade com o alaúde. Christof Dior, tinha uma expressão séria em seu rosto enquanto escutava atentamente a música.
Drake, sem sua espada, sentia-se um pouco deslocado e resolveu puxar assunto com os amigos. "Música? Maravilha.", disse ele, olhando para seus companheiros na mesa em busca de opiniões. Artemis sorriu animada e disse "Eu adoro quando ele toca essa música, sempre me dá vontade de dançar!", já Fransisco acrescentou "Parece que ele tira a música direto do coração". Christof, por sua vez, balançou a cabeça e comentou "Ele é um talentoso Menestrel, sem dúvida, mas ainda prefiro uma boa história contada ao invés de uma canção".
Jarden ouviu a fala de Christof e, nome da música, se dirigiu ao homem cego. "Uma história, você diz? Eu adoro contar histórias!", disse o Menestrel, com um sorriso no rosto. Christof assentiu com a cabeça, interessado, e Jarden começou a dedilhar o alaúde para preparar o clima.
A música parou e a taverna ficou em silêncio. Alguns clientes olharam confusos para Jarden, esperando que ele continuasse a tocar, enquanto outros pareciam animados com a ideia de uma história. Jarden, então, começou a falar em um tom baixo e misterioso: "Eu tenho uma história para vocês, meus amigos. Uma história real...".
Jarden se aproximou do centro da taverna, segurando seu alaúde com firmeza enquanto se preparava para contar sua história. Ele tossiu, limpou a garganta e começou seu monólogo:
"Meus caros amigos, eu coletei essa história na cidade alva, onde os terrores que assolam Kristadelle são conhecidos apenas como contos de fadas em comparação. Todos vocês devem estar cientes das crianças desaparecidas em nossa cidade, um mistério que tem sido um fardo em nossas mentes. Mas o que eu tenho a lhes dizer é um terror similar, algo que irá deixá-los sem fôlego."
Jarden dedilhou seu alaúde, produzindo um som macabro que ecoou pela taverna e fez a pele de todos os presentes se arrepiar. O ambiente ficou tenso, e o Menestrel sabia que tinha a atenção de todos.
"Essa história é para os fortes de coração, para aqueles que são capazes de enfrentar os horrores mais profundos da mente humana. Se você não está preparado para isso, sugiro que saia agora. Caso contrário, sente-se e deixe-me levá-los em uma jornada que vocês nunca esquecerão."
Com essa última advertência, Jarden começou a contar o prologo para sua história, usando palavras cuidadosamente escolhidas e a música de seu alaúde para criar uma atmosfera de suspense e medo. Os olhos dos presentes na taverna estavam fixos nele, e as vozes foram silenciadas enquanto ele levava-os a um mundo de trevas e horrores.
A atmosfera da Capitã Louca se transformou em tensão. Gillian, observava a reação de seus clientes, enquanto Fransisco se encolhia em sua cadeira, parecendo inquieto. Artemis, por outro lado, estava animada, balançando os pés em ansiedade com o começo da história.
Drake, por sua vez, ficou alerta quando notou que o Bleucher sentado no canto da taverna, desviou a atenção de seu diário e fixou os olhos na direção de Jarden. Ele estava intrigado com a história, mas também percebeu a tensão no ar e se manteve alerta.
Enquanto isso, Christof, parecia estar preso na história de Jarden. Seus dedos seguiam o ritmo do alaúde, indicando seu envolvimento com o conto.
Gillian observou tudo em silêncio, com as mãos apertadas em volta da cintura, mas claramente impressionada com a habilidade de Jarden em prender a atenção do público.
Jarden dedilha seu alaúde e começa a contar a história:
"A Floresta Uivante assim foi chamada.
Porque uma criatura aterrorizava as matas
Com olhos vermelhos e bocarra afiada.
Atacando animais e pessoas sem trégua.
As crianças eram seu alvo predileto
Muitas foram mortas, sem piedade
E as famílias ficavam em prantos
Implorando por uma solução para tal maldade.
Sua língua era afiada como uma faca,
Ela falava tão doce quanto o mel da abelha,
Enganando as crianças com sua voz sedutora,
Até que fossem levadas para longe, na noite escura.
O monstro viveu na floresta
Sem ser detido, sem ser vencido
Até que um caçador lendário surgiu
E com sua habilidade, o monstro foi ferido.
O Clã Rannum era conhecido por sua coragem
E esse caçador era o melhor de todos
Ele lutou com o lobo até seu requiem
Até que a criatura foi abatida, sem escolhos.
Mas o caçador não queria que a criatura fosse lembrada
Então ele abriu a barriga do lobo e o recheou de pedras
E jogou o corpo no rio para que fosse esquecido
E a cidade pudesse voltar a ter suas festas.
Mas o que o caçador temia
Que existisse uma maldição
E as crianças desaparecem até hoje
Como no nosso lar em constante aflição.
Então, meu amigo, cuidado com a Floresta
E com os mistérios fique atento.
Pois o terror ainda deve viver longe da Cidade Alva
E a maldição pode ser despertada a qualquer momento."
Jarden para de tocar seu alaúde, e a taverna fica em silêncio. As pessoas olham em volta, com medo de que algo possa acontecer a qualquer momento. A atmosfera tensa permanece, mesmo quando Jarden se levanta e se despede. Gillian suspira e agradece a ele, e os quatro heróis se entreolham, processando o que acabaram de ouvir.
Capítulo 11 - Soprar, soprar e sua porta derrubar.
A taverna estava em completo silêncio após o conto de terror de Jarden, com todos olhando ao redor com medo. De repente, a porta se abre com violência e Schnee adentra, ferido e tonto, andando pela taverna com passos vacilantes. As pessoas levam um susto com a sua aparência.
Os heróis encaram Schnee com curiosidade e preocupação, tentando entender o que aconteceu. Com exceção de Christof que perguntava confuso. "O que aconteceu?".
O Bleucher puxa sua espada em um movimento rápido e única assim que ouve o estrondo da porta. E aponta contra o barulho, e não a abaixa desde então.
Enquanto Schnee entra na taverna, Gillian mal consegue desviar seus olhos dele. Seus sentidos são atiçados pela presença do caçador de monstros alemão. Ela se sente atraída por sua aparência pálida, barba branca, e a impressão de força e coragem que ele emana.
Quando Schnee se aproxima do balcão ele diz "Uma cerveja, e um quarto", Gillian aproveita a oportunidade para se aproximar dele. Ela percebe que ele está ferido e tonto, e se oferece para ajudá-lo. Com um sorriso sedutor no rosto, ela fala: "Você parece precisar de cuidados, posso te ajudar com isso." Suas palavras são carregadas com uma intenção clara, deixando claro o que ela tem em mente.
Schnee olha para Gillian com um olhar confuso, mas agradecido. Ele responde: "Danke schön, mas eu estou bem, apenas cansado. Eu só preciso descansar um pouco."
No entanto, antes que Schnee possa sair do balcão, ele cambaleia tonto para trás e acaba caindo sobre a mesa dos rufiões. Os homens se levantam rapidamente, irritados com a invasão e a aparente falta de modos do caçador de monstros. Eles o empurram para fora da mesa, enquanto Schnee, atordoado e exausto, tenta se levantar.
A mesa balançou violentamente, e copos e garrafas voaram para todos os lados, espalhando cerveja por todo o chão. Os rufiões tentaram empurrar o corpo pesado de Schnee para fora da mesa, mas não tinham força suficiente para movê-lo.
Drake , saltou de sua cadeira, sua mente imediatamente avaliando a situação. Ele sabia que Schnee era um caçador de monstros pelo seu uniforme, e sua linhagem demoníaca só tornava as coisas mais perigosas. Artemis Lune-Argentée, também estava em alerta máximo, sua mente pensando em todas as possíveis ameaças que Schnee poderia representar. Francisco Herrara, o roceiro, imediatamente começou a ajudar a limpar a bagunça, enquanto Christof Dior, o explorador aposentado e cego, apenas inclinou a cabeça, tentando captar o que estava acontecendo.
Enquanto isso, Gillian observava a cena com um misto de fascínio e preocupação. Ela sabia que Schnee precisava de ajuda, mas não tinha certeza se ele era perigoso ou não. Ela decidiu abordá-lo com cautela, esperando que ele não fosse uma ameaça.
"Você está bem?", perguntou ela com uma voz suave, se aproximando da mesa. "Precisa de ajuda?"
Schnee não respondeu imediatamente, mas depois de alguns segundos, ele assentiu lentamente, ainda tonto. "Sim...", murmurou ele, com a voz fraca. "Suspenda a cerveja e traga uma pinga-anã!"
Gillian se aproxima de Schnee, suas curvas exuberantes chamando a atenção dele. Ela se inclina para a frente, expondo um decote generoso e perfumado, enquanto passa as mãos pelos cabelos negros como. Seus olhos brilham com malícia enquanto ela olha fixamente para ele.
Com um sorriso sedutor nos lábios, ela desliza as mãos pelo corpo ferido de Schnee, acariciando suavemente sua pele branca e fina. Ela sussurra em seu ouvido, sua voz suave e sensual: "Deixe-me cuidar de você, meu caçador de monstros alemão. Eu posso fazer tudo melhorar."
Schnee sente sua respiração acelerar enquanto ela o toca, atraindo-o para sua beleza magnética. Ele luta para resistir à sua sedução, mas não pode negar a atração que sente por ela.
Enquanto isso, os olhares dos outros clientes da taverna se voltam para Gillian e Schnee, observando com curiosidade a cena que se desenrola. Alguns parecem chocados com a audácia de Gillian, enquanto outros parecem invejar a sorte de Schnee.
Drake Walker observa Gillian com desconfiança enquanto ela se aproxima de Schnee. Ele cutuca Artemis Lune-Argentée e sussurra: "Parece que eu ganhei um concorrente."
Artemis olha para Gillian com um sorriso, aparentemente sem se importar com as intenções dela. "Ah, deixa ela, Drake. Ela só está se divertindo", responde a caçadora.
Fransisco Herrara, que estava observando a cena com certo desconforto, decide intervir. "Eu acho que deveríamos ajudar o rapaz. Ele parece ter passado por maus bocados", comenta o menino.
Christof Dior, que estava sentado em um canto da taverna, escutando tudo com atenção, decide falar. "Oque diabos aconteceu com você rapaz?", diz o explorador aposentado.
Schnee olha para Christof com um olhar cansado e responde: "Fui atacado na Estrada do Vale de Pleine Lune. Eu e meu parceiro caçador nos deparamos com uma criatura desconhecida, mas muito voraz. Meu parceiro tentou enfrentá-la para me dar uma chance de escapar, mas eu acabei ferido e tive que caminhar por dias até chegar aqui."
Artemis olha para Schnee com admiração e diz: "Você deve ser bem forte para conseguir caminhar por dias com ferimentos tão graves."
Francisco acrescenta: "E bem determinado também. Deve ter um motivo importante para estar aqui."
Schnee olha para os Heróis e acrescenta: "Estou aqui em nome da Escola de Zielkfrat. Eu e meu colega fomos contratados pelo Duque Marcel Tempete para ajudá-lo a encontrar sua filha desaparecida."
Os Quatro Heróis se entreolham, percebendo que ganharam mais um aliado nessa missão. Artemis olha para Schnee com um sorriso no rosto e diz: "Bem, parece que temos um novo membro na equipe."
No entanto, o Bleucher, finalmente guardando sua espada e fala com desprezo sobre a ajuda dos Hexanos. "Não precisamos de ajuda de Hexanos, Lorde Edmond Barba Azul já mandou um de seus homens para o caso", ele diz.
Artemis, irritada com o comentário do Bleucher, se levanta da mesa e encara o mercenário. "Não importa quem mandou quem, estamos todos aqui agora e devemos trabalhar juntos para encontrar a filha do Duque", ela diz firmemente. "O que importa é salvar uma vida inocente."
Francisco concorda com um aceno de cabeça, enquanto Christof pensa consigo que talvez a situação parece mais complicada do que eles imaginavam já que um Mercenário de Barba Azul e Zielkfrat foram envolvidas.
Schnee se senta na mesa com o coro ainda dolorido e começa a contar mais detalhes sobre sua missão: "Eu deveria ter encontrado o Duque na Mansão Tempete, mas como podem perceber houve alguns imprevistos no caminho e eu não consegui chegar a tempo..."
Francisco então interrompe: "Eu e o Senhor Dior também fomos convocados para a Mansão do Duque. Ele está completamente arrasado com o desaparecimento da filha e não consegue pensar em mais nada. Nós tentamos ajudar como pudemos, mas ainda não conseguimos obter muitas informações."
Christof completa: "É verdade, ele está em cacos, muito triste e desesperado por sua filha. E eu tenho a sensação de que nosso tempo está curto."
O Bleucher, sentado e atento, começa a tomar notas em seu diário de campo. Ele sabe da importância de documentar todos os detalhes para que possam ser analisados posteriormente.
Enquanto isso, Artemis percebe que sua reunião furtiva não vai adiantar e que os Rufiões agora perceberam sabem que há alguém atrás deles. Ela os vê rindo e cochichando e fica frustrada. Drake, notando a tensão em sua companheira, tenta acalmá-la com um olhar reconfortante.
"Acho que precisamos agir rapidamente", diz Schnee, interrompendo o silêncio tenso que havia se instalado na sala. "Temos que descobrir onde está a filha do Duque antes que seja tarde demais. Alguma ideia de como podemos agir?"
Assim que Schnee terminou de formular sua pergunta, um grito estridente e infantil irrompeu pela taverna, fazendo com que todos se virassem na direção do barulho. O som parecia ter vindo de fora do estabelecimento, mas ainda assim era ensurdecedor. Os heróis se entreolharam confusos, sem saber o que fazer diante daquela situação inesperada. Schnee franziu a testa, visivelmente incomodado com a interrupção.
Os Heróis imediatamente se levantam de suas cadeiras e correm em direção à porta. Fransisco olha ao redor, procurando por algo que possa ser usado para iluminar o caminho na escuridão da noite. Seus olhos pousam no lampião que está pendurado na entrada da taverna.
Ele se aproxima do objeto e o pega com cuidado, verificando se há óleo suficiente para mantê-lo aceso. Satisfeito com o nível de combustível, ele entrega o lampião a Drake.
"Toma Drake. Tá escuro lá fora.", diz Fransisco, preocupado.
Drake aceita o lampião com uma mão trêmula, sentindo a responsabilidade pesar em seus ombros e se recuperando do susto que levaram dentro da taverna.
"Obrigado, Fransisco", diz ele, e começa a caminhar em direção ao grito estridente que ainda ecoa na escuridão.
Conforme os curiosos clientes da taverna vão deixando o local para o lado de fora. Schnee se permite relaxar. A exaustão da missão finalmente o atinge, e ele sente seu corpo fraquejar. Com um suspiro cansado, ele se afunda na mesa em que está deitado.
Gillian nota a mudança em Schnee e corre para ajudá-lo. Ela pergunta se ele está bem, mas Schnee não consegue responder. Seus olhos pesam, e ele se sente afundando em um sono profundo.
Enquanto isso, a taverna começa a esvaziar. Os clientes começam a sair, ainda agitados pelo acontecimento do grito, mas agora se acalmando com o passar do tempo. O Bleucher olha em volta com desdém, desapontado com a falta de ação que ele esperava encontrar em uma cidade pequena como aquela.
Gillian permanece ao lado de Schnee, preocupada com seu estado. Ela tenta acordá-lo, mas sem sucesso. Finalmente, ela decide deixá-lo dormir, pois sabe que ele precisa descansar depois de tudo o que aconteceu. A taverna fica quase vazia, exceto por Schnee e Gillian. O silêncio reina, interrompido apenas pelo respirar tranquilo de Schnee enquanto dorme profundamente. Gillian se senta ao lado dele, mantendo uma vigilância silenciosa.
Lá fora Drake segurava firmemente o lampião enquanto avançava cautelosamente pela escuridão. O vento sopra nas árvores, fazendo com que as folhas se mexam e criem sombras que parecem se mover e dançar ao seu redor. O grupo de heróis avança lentamente, ouvindo apenas o som dos seus próprios passos ecoando pelo ar noturno.
A tensão aumenta a cada passo dado, enquanto o destino do grito estridente permanece desconhecido. Eles sabem que algo não está certo, que algo está muito errado. As árvores altas e densas obscurecem a visão, tornando difícil distinguir o que está além de sua periferia.
Drake ergue o lampião alto e, em um instante, uma luz quente ilumina a cena adiante. Eles podem ver a silhueta escura de um objeto à distância. É difícil de discernir, mas conforme eles se aproximam, torna-se claro que é uma figura inerte e caída no chão.
O coração de Drake dispara ao se aproximar do objeto. Ele hesita por um momento, olhando para baixo, tentando reunir coragem para olhar. Quando finalmente baixa o lampião, o que ele vê é algo que ele nunca poderia ter imaginado.
O corpo de Timothy está no chão, dividido ao meio, com as entranhas espalhadas por todos os lados. O cheiro amargo e putrefato da morte preenche o ar. Drake se afasta, horrorizado, enquanto seus companheiros se juntam a ele.
Artemis olha fixamente para o corpo em choque+, sem dizer uma palavra. Fransisco cobre o nariz e a boca com a mão, lutando contra a vontade de cjorar. Christof, o único que não pode ver a cena diante deles, tateia o chão com as sua bengala e se encolhe ao sentir a viscosidade da carne apodrecida.
O Bleucher parou ao lado dos outros, com seu andar confiante e arrogante, como se soubesse exatamente o que estava acontecendo. Mas sua expressão mudou quando viu a cena à sua frente. Os Heróis estavam em silêncio, e os clientes da taverna se afastavam em debandada. O clima de medo e tensão era palpável no ar, e mesmo Bleucher, que geralmente não se deixava abalar, sentiu um arrepio subir por sua espinha.
"O que diabos está acontecendo aqui?" ele rosnou, olhando em volta para o grupo. "Por que todos vocês estão parados como idiotas?"
Artemis deu um passo à frente, saindo do seu estado inerte. "Encontramos um corpo", ela disse simplesmente.
Bleucher franziu o cenho. "Um corpo? O que você quer dizer?"
Drake então se aproximou, carregando o lampião em direção ao Bleucher. "Encontramos um garoto", ele disse, sua voz tremendo levemente, ainda tentando processar que aquele era o corpo de seu amigo. "Ele foi devorado."
O rosto de Bleucher ficou pálido e ele recuou um passo. Ele nunca havia visto algo assim antes, e a imagem era aterrorizante. Os Heróis estavam visivelmente chocados e perturbados com a cena.
Christof, que geralmente era o mais calmo e tranquilo do grupo, parecia particularmente afetado. Ele podia sentir a tensão no ar e sabia exatamente o que estava acontecendo. Ele fechou os olhos por um momento, respirando fundo.
"Isso não é obra de um sequesetrador", disse ele, sua voz firme. "Isso é algo muito mais sinistro."
Bleucher olhou para ele com desdém. "E o que você sabe sobre isso?"
"Eu sei...", respondeu Christof simplesmente. "Eu sei que estamos enfrentando algo perigoso, e que precisamos ser cuidadosos em nossas próximas ações."
O resto do grupo assentiu em silêncio, todos sabendo que Christof estava certo. Havia algo de muito errado acontecendo naquela cidade, e eles precisavam descobrir o que era antes que fosse tarde demais.
O garoto que havia gritado, estava caído no chão, com a metade inferior de seu corpo faltando. Seus intestinos e outros órgãos estavam expostos, e era evidente que haviam sido arrancados com força. Seus olhos estavam abertos e vazios, como se ainda estivesse olhando para o terror que havia acabado de ocorrer. O sangue jorrava de seu ferimento mortal, espalhando-se no chão e formando uma poça vermelha ao seu redor. Não havia sinal de seu atacante. O terror tomou conta dos Heróis ao perceberem que estavam lidando com algo muito mais perigoso do que um simples garoto de rua pregando peças.
Um uivo estrondoso de um lobo ao longe corta o silêncio da noite, ecoando pela floresta. Com o coração pesado e cheios de incertezas, os heróis se recuperam da cena macabra, com a certeza de que precisam agir rápido para evitar mais mortes. O uivo do lobo parece um presságio sombrio do que ainda está por vir.
E assim termina mais um capítulo da jornada dos heróis, com mais perguntas do que respostas, mais medo do que coragem. O futuro é incerto e perigoso, e eles precisarão estar preparados para enfrentar os desafios que ainda virão.
































Comentários
Postar um comentário