Diário de Campanha - Episódio 1

 CUTSCENE INICIAL - Fora do Confinamento.

A mãe caminhava lentamente pelo quarto, observando a criança deitada na cama, empolgada com a perspectiva de uma nova história. A criança sorria com os olhos brilhantes e um entusiasmo contagiante, enquanto a mãe examinava a prateleira cheia de livros.

"Então, o que será hoje?", perguntou a mãe, esperando uma resposta animada da criança. Ela não ficou desapontada.

"João e o Pé de Feijão! Não, o Gato de Botas! Não, não, não... Cinderella! JÁ SEI! Chapéuzinho Vermelho!"

A mãe sorriu, admirando a imaginação e a indecisão da criança. Ela pegou um livro se sentou na beira da cama, começando a contar a história em voz alta.

"Há muito tempo, em uma floresta encantada, vivia uma pequena menina..."

 A criança ouvia atentamente, seus olhos seguindo as palavras da mãe enquanto a história se desenrolava. A mãe acrescentava detalhes e fazia vozes diferentes para cada personagem, imergindo a criança na aventura.

A câmera começa a subir lentamente, deixando para trás o conforto de um quarto aconchegante e adentrando a imensidão da noite estrelada. A cada momento que passa, o seu ponto de vista vai ficando mais alto, seguindo na direção daquela estrela brilhante no céu, a segunda à direita e depois em frente até o amanhecer.

O silêncio da noite é quebrado apenas pelo som suave do vento que balança as folhas das árvores e o ruído dos grilos que cantam em harmonia. Aos poucos, as luzes da cidade vão ficando para trás, dando lugar a um horizonte sem fim, repleto de estrelas brilhantes.

Enquanto a câmera continua a subir, é possível ver o planeta Júpiter e o majestoso Saturno girando em uma dança celestial. O planeta Marte também aparece, partido em quatro partes simétricas, como se tivesse sido cortado por um facão afiado.

A viagem é tão intensa que é possível sentir a passagem do tempo ficando mais lenta, como se o tempo estivesse cansado de tanta velocidade. O encanto da jornada toma conta do coração, afastando todo medo e deixando apenas a crença no que está por vir.

Finalmente, a câmera chega em uma ilha solitária, cercada pelos mares mais cristalinos que se possa imaginar. É como se tivesse chegado em outro mundo, um lugar mágico onde tudo é possível.

As ondas do mar rugiam com força, batendo contra o casco do imponente navio negro, que ostentava orgulhosamente sua grandeza e poder. Suas velas, maiores do que qualquer outra vista nos mares, tremiam com a intensidade do vento, mostrando que aquela era uma embarcação temível e majestosa. O nome do navio, "The Jolly Rogers", estava pintado em tinta dourada na popa, como um sinal de sua fama e riqueza.

O vento soprava forte sobre o mastro, Onde a bandeira negra tremulava acima de todos no navio. Com a figura de uma caveira em sua face e duas cimitarras cruzadas abaixo dela. 

Enquanto a tripulação barulhenta fazia seu trabalho, um homem idoso se destacava no meio da multidão. O cozinheiro da embarcação, com um gorro vermelho, uma barba grisalha e óculos de lentes gastas, cumprimentava a todos com um sorriso amigável. Sua camisa listrada azul e branca estava manchada de condimentos, mas ele parecia não se importar.

"Bom dia, Varris", disse o cozinheiro, dirigindo-se a um dos piratas jogando cartas. "Está ganhando?"

Varris Noodler, que nasceu com a mão esquerda no lugar da direita e a direita no local da esquerda,  um dos marujos mais experientes do navio, deu um sorriso malicioso. "como sempre", respondeu ele, virando uma carta e jogando-a na mesa. "Mas não vou negar, sua sopa de amendoim é um dos únicos motivos pelos quais continuo jogando com esses bêbados."

O cozinheiro riu, parecendo satisfeito com o elogio. Em seguida, ele se voltou para um grupo de piratas musculosos, que jogavam dados no canto do convés.

"Olá Harold, Pequeno Harold, Grande Harold, Harold Caolho", disse ele, cumprimentando cada um com um aceno. "Bela manhã! Primeiro imediato, as suas ordens senhor!"

O primeiro imediato da embarcação, Simon Starkey, um homem com um rosto tão feio que até mesmo ele mesmo parecia ter medo de encarar seu próprio reflexo, estava de pé perto do leme. Ele virou-se para o cozinheiro, com uma expressão amigável.

"Bom dia Smee!", rosnou ele. "Abram o convés para Smee!."

O cozinheiro riu novamente, parecendo imperturbável. "Bom dia Imediato, senhor. Não queria incomodar. Só vim cumprimentar meus amigos aqui no convés."

Starkey sorriou em resposta, mas voltou sua atenção para o horizonte. O cozinheiro deu uma última olhada ao redor, antes de seguir seu caminho ao convés. Enquanto o navio pirata navegava em direção ao desconhecido, a tripulação se preparava para qualquer eventualidade. Mas, por enquanto, eles estavam contentes em passar o tempo bebendo, jogando e trocando histórias de aventuras passadas.

No imponente castelo de popa, é possível observar a cabine do Capitão com facilidade, seu exterior marcado por uma faixa decorativa de caveiras grandes e douradas, ostentando suas mandíbulas em um sorriso sombrio que arrepiava a espinha de qualquer um que ousasse se aproximar da embarcação.

Observando atentamente o cenário, podemos acompanhar o velho Smee subindo em direção ao tombadilho, suas pernas trêmulas demonstrando certa hesitação diante da figura central do navio. Aproximando-se, podemos observar um homem de pé, em frente ao timão, trajando vestes vermelhas gastas, com cabelos encaracolados e negros e um belo bigode e cavanhaque. Seus olhos azuis como miosotis parecem guardar segredos tristes e dolorosos, enquanto um belo chapéu adornado com penas emoldura sua expressão altiva.

No entanto, é seu braço direito que mais chama a atenção, finalizado por um gancho de prata, que brilha ameaçadoramente à luz do sol.

"Estamos chegando em breve, capitão", diz o Senhor Smee, aproximando-se timidamente do líder da tripulação.

"Como se houvesse alguma novidade nisso", responde o capitão, com um ar de desdém na voz. "Voltas e mais voltas e sempre a mesma maldita ilha".

"Bem, Capitão, não custa nada tentar, não é?", tenta argumentar Smee.

"Só o preço da minha paciência", responde o capitão, em tom irritado. "Assuma o timão, Smee. Estarei na minha cabine".

O capitão se dirige a sua cabine com passos decididos, e assim que ele fecha a porta com certa violência podemos ver inscrita em letras suaves  e douradas: "Capitão James Gancho".

Dentro da cabine luxuosa, o Capitão James Gancho se permite um momento de descanso após mais uma frustrante busca pela saída desejada dessa maldita ilha. Ele retira seu chapéu adornado com penas e o coloca com cuidado sobre em um cabide de madeira escura. Enquanto se serve uma dose generosa de rum em um copo, uma voz inesperada ecoa pela sala.

"Fique à vontade..." A voz corta o silêncio como uma lâmina afiada, fazendo o Capitão se sobressaltar e derrubar o copo que se estilhaça em mil pedaços no chão. Rapidamente, ele puxa uma garrucha de seu coldre, apontando na direção da cadeira de couro em frente à mesa.

O ambiente está escuro, mas é possível ver a silhueta esguia da criatura sentada à sua frente. Ela é pequena, mas com uma fisionomia estranha demais parece ser uma criança, pelo menos uma criança humana, mas algo sobrenatural e ameaçador. A voz estridente e sobrenatural da criatura ressoa em seus ouvidos, deixando-o tenso e alerta.

"Quem diabos está aí? É um dos muleques da ilha? Como entrou no meu navio?" exclamou o Capitão, claramente agitado.

"Se acalme, Capitão. Respira (uh) expira (ah). Pode largar essa arma, só estou aqui para negociar", disse a voz.

"Eu prefiro mantê-la erguida até responder minha pergunta. Qual é o seu nome?" respondeu o Capitão, ainda apontando a arma para a silhueta misteriosa.

"Por hora meu nome não é importante, mas o que estou disposto a oferecer é..."

Gancho suspira com pesar. "De que me serve o seu ouro? Estou preso neste maldito lugar, sem esperança de sair." Sua voz soava carregada de frustração e desespero..

"Você me subestima, Capitão. O quê estou para lhe oferecer é muito mais interessante do que ouro", respondeu a voz, com uma risada sombria.

O homem esguio puxou de dentro de suas vestes uma semente, mas não era uma semente comum. Era um feijão esverdeado que emitia uma luminescência. O brilho revelou parte da mão da criatura, que era pequena e tinha uma coloração dourada, como se tivesse sido enfeitada com gramas de ouro. As unhas longas e marrons pareciam quebradiças.

Gancho, ao ver a semente, abaixou a garrucha e gaguejou, embasbacado: "O-oo-onde você conseguiu isto?"

"Agora que tenho sua atenção completa, vamos falar de negócios. Muito em breve irá acontecer uma grande festa, e você é meu primeiro convidado da lista. Eu preciso garantir que outros convidados estejam presentes e saudáveis", explicou a criatura, puxando de sua roupa uma caixa retangular de prata. Ao abrir a caixa, revelou três diamantes vermelhos acolchoados por almofadas pretas.

"É aí que você entra como meu parceiro nessa grande empreitada. Então, Rei Pirata... O que me diz? Temos um acordo?" perguntou a criatura, com uma risada irritante e esganiçada.

Gancho observou os diamantes por um momento antes de responder: "E o que eu ganho com isso?"

"A oportunidade de orquestrar e saborear sua tão aguardada vingança", respondeu a criatura, deixando Gancho intrigado. "Oh, oh, oh!" a criatura ri. "Vejo que fui claro o suficiente para você, Rei Pirata. Você precisa de um parceiro para garantir que sua vingança seja doce, e eu preciso de alguém para me ajudar a reunir os convidados certos para minha... 'Festa'. E é claro, essa semente vai ajudar a selar nosso acordo. Então, o que me diz? Está pronto para fazer negócio comigo?" Ele dá uma risada fina, e aguarda a resposta do Capitão.


Capítulo 1 - Mistérios da Noite.

24 de Setembro de 1625 - 22:46

O Garoto, Timothy, jazia no chão de terra, brutalmente mutilado. Seu grito agonizante ainda ecoava na mente de todos ali presentes. A maioria dos frequentadores da taverna haviam saído para o lado de fora para ver a cena, alguns com expressões de incredulidade, outros com expressões de horror e outros ainda vomitando no chão.

Artemis, a jovem arqueira francesa, estava visivelmente abalada, seus olhos verdes brilhantes arregalados de choque enquanto ela observava o corpo do garoto. 
Christof, mantinha uma expressão séria e estarrecidda em seu rosto
Drake, parecia mais preocupado em analisar a cena em busca de pistas do que com o garoto morto em si. 
Já Fransisco, estava pálido e em choque, suas mãos tremiam enquanto ele segurava sua bolsa de medicamentos

O grupo de clientes, que saiu da taverna para ver o que estava acontecendo, olhava em choque para o corpo mutilado do garoto. Alguns falavam em voz baixa entre si, outros olhavam para os heróis com olhos inquisitivos.

"O que poderia ter feito isso?" perguntou Artemis em choque, sua voz trêmula.

"Não sei," respondeu Christof, sua voz controlada, "mas vamos descobrir."

Drake olhou para os trabalhadores da pedreira e disse: "Alguém conseguiu ver o quem fez isso?"

Um dos trabalhadores, um homem alto e robusto,respondeu: "Não sei, mas com certeza deve ter sido algo da Floresta. Há muitas coisas estranhas acontecendo por lá ultimamente."

A noite estava escura e silenciosa enquanto o grupo caminhava em direção à Capitã Louca, seus pensamentos cheios de perguntas e medos. Quem teria feito aquilo com o garoto? E o que mais eles poderiam esperar encontrar em seu caminho?

Enquanto os quatro Heróis investigavam a cena do crime, o Bleucher, se aproximou deles, com um olhar desconfiado. "O quê vocês estão tentando achar?", ele perguntou olhando em direção aos Heróis. 

"Estamos tentando achar qualquer coisa que nos ajude.", respondeu Artemis, cansada da autoridade repreesiva daquele homem. "E você?", ela perguntou. "Não seja insolente." Disse o homem olhando firmimente para Artemis. "Eu estou seguindo as ordens do meu Lorde, Edmond Barbar Azul", respondeu Archippo com uma voz fria.

Drake olhou para o Bleucher com curiosidade e menosprezo, "Ah é? E você poderia nos dizer mais sobre seu Lorde e o que ele exatamente está planejando fazer?", ele perguntou. "Meu Lorde está se preparando para expurgar todos os maus da Nação..." Ele diz com orgulho como essa Fera que um dia apavorou os recantos de Farngomery... E qualquer outros indesejados", respondeu Archippo com um sorriso sádico, enquanto olhava para dentro da taverna aonde o Profano repousava desmaiado sob os cuidados de Gillian.

Francisco ficou indignado com a resposta do Bleucher, "Expurgar todos os maus? Mas quem decide quem é mau ou não?", ele perguntou. "Meu Lorde decide", respondeu Archippo com um ar superior.

Christof, percebendo que a conversa estava indo para um caminho perigoso, tentou acalmar os ânimos. "Acredito que não seja o momento certo para esse tipo de debate político acalorado.", ele disse.

Archippo ficou visivelmente irritado com a postura dos heróis, "Vocês parecem não querer cooperar", ele disse, guardando sua arma e se afastando dos Heróis. Ele voltou calmamente para a taverna, e se sentou na sua mesa, organizada do jeito que ele a havia deixado.  Ele começou a registrar os eventos da noite em seu grande caderno de couro.

Drake agiu com cautela e velocidade, deixando os outros heróis investigando a cena do crime e seguindo discretamente o Bleucher, até a taverna. Ele esperou pacientemente do lado de fora, observando os movimentos do homem, até que o mercenário entrasse no estabelecimento.

Com um olhar rápido, Drake localizou Schnee sendo cuidado por Gillian no canto da taverna e passou direto por eles, adentrando a área em que Archippo estava sentado. O Bleucher parecia concentrado em anotar informações em um grande caderno de couro, o seu diário de campo, e não percebeu a presença do herói.

Com um movimento rápido, Drake se dirigu até uma mesa próxima e fingiu estar arrumando a taverna, enquanto bisbilhotava as anotações de Archippo. Ele teve que se concentrar para não chamar a atenção do Bleucher, que parecia estar sempre alerta.

Drake se mantinha atento aos movimentos do homem enquanto o mercenário escrevia em seu diário de campo. Ele parecia imerso em seus pensamentos, sem se importar com a presença do herói ali. Foi então que Drake aproveitou a oportunidade para se aproximar da mesa e dar uma espiada no que estava sendo escrito.

Enquanto o Bleucher anotava minuciosamente cada detalhe dos acontecimentos da noite, Drake fixou o olhar nas informações que apareciam no diário, tentando se esticar para conseguir ler as informações.De repente, uma oportunidade se apresentou: o Bleucher se distraiu e começou a conversar com um cliente, fazendo com que o caderno ficasse aberto em uma página. Curioso, Drake se aproximou silenciosamente e viu uma tabela com sete linhas, dividida em três colunas.

Na primeira coluna, estavam os nomes das crianças desaparecidas. Na segunda, as idades que variavam de 7 a 13 anos. E na terceira, as datas em que desapareceram. Drake sentiu o coração acelerar enquanto lia a lista de nomes. Jakob Birken, Andrej Birken, Ophelia Kranefuss, Madeline Sanner, Dennis, Casper e Sarahleen Tempête.

Ele reconheceu o nome Tempete como a filha do Duque Marcel que Caçador-de-Monstros havia mencionado a alguns minutos, mas outros eram novos para ele. Ele memorizou rapidamente as informações. Mas não foi rápido o suficiente. Bleucher, que havia terminado de anotar seus pensamentos sobre a noite, viu a ação de Drake.

"O que você pensa que está fazendo?" rosnou Bleucher, levantando-se de sua cadeira e se aproximando de Drake.

"Eu estava apenas dando uma olhada", disse Drake, tentando parecer casual.

"Uma olhada? Você  estava examinando anotações sigilosas sem permissão!", respondeu Bleucher com raiva.

"Eu só queria saber as novidades.", disse Drake, tentando se defender.

"Você parece um jovem forte e com disposição, certo? Você não deveria estar se intrometendo nesses negócios  Se quer me ajudar, se aliste no aquartelamento mais próximo como um Bleucher.", disse Bleucher com um olhar de desaprovação.

Drake suspirou. Ele sabia que não seria capaz de convencer Bleucher do contrário. "Escuta, Açogueiro.. Eu não trabalho para Barba Azul", disse ele, "E nunca vou trabalhar para alguém como ele".

"Você é um inadimplente que não sabe o seu lugar no mundo", disse Bleucher, parecendo ainda mais irritado.

Drake estreitou os olhos. Ele não suportava a forma autoritária do Bleucher. "Eu sei exatamente qual é o meu lugar no mundo", disse ele com firmeza. "E não é trabalhando para homens como você ou Barba Azul".


"Você tem o mesmo ar de desprezo pelos valores que os bandidos e rufiões dessa cidade possuem." Dizia O Bleucher enquanto comparava Drake à Milícia Monocelha. "Não me impressionaria se daqui alguns anos ao invés de servir ao grande Lorde Barba Azul você estivesse trabalhando para homens como Lorenzini. "

Drake dá um riso de canto de boca. "Eu estaria trocando o sujo pelo mal-lavado."

Bleucher rosnou de raiva. Ele levantou o dedo e apontou para Drake. "Você tem sorte de eu não chamar os guardas e entregá-lo agora mesmo", disse ele. "Agora, saia daqui antes que eu mude de ideia".

Drake não precisava ser lembrado duas vezes. Ele saiu da taverna, irritado com o encontro, mas aliviado por ter as informações que precisava do diário de Bleucher.


Schnee desperta em cima da mesa da taverna, sentindo-se desorientado e assustado. Ele tenta se levantar, mas seus movimentos são desajeitados e trôpegos. Gillian, a dona da taverna, estava olhando para ele com espanto enquanto limpava o balcão.

"Você está bem?" perguntou ela, surpresa com a recuperação rápida de Schnee.

Schnee olhou para ela com preocupação. "Eu preciso chegar no Ducado", disse ele, balançando a cabeça para tentar afastar a confusão em sua mente. "O Duque está esperando por mim."

"Você precisa descansar um pouco antes de sair correndo pela cidade. Você acabou de desmaiar na mesa e agora quer ir para o Ducado? Não está em condições, bonitão. Sente-se e tome um pouco de água pelo menos."Gillian tentou impedi-lo.

Mas Schnee parecia determinado, e aos poucos foi se recompondo. Ele se levantou da mesa com dificuldade e começou a andar na direção da porta. Gillian tentou segurá-lo, mas ele conseguiu se livrar dela com falciidade.

Schnee correu para fora da taverna, ainda tonto e desorientado. Mas quando chegou lá fora, sua atenção foi imediatamente atraída pela visão do corpo de Timothy. Francisco, Artemis e Christof estavam examinando a cena, tentando descobrir o que havia acontecido.

Schnee correu até eles, ignorando as dores em seu corpo. "O que... Oque Diabos aconteceu??" perguntou ele, com a voz trêmula de preocupação. "O garoto... O garoto está morto?"

Artemis virou-se para ele, com uma expressão grave. "Parece que sim", respondeu ela. "Você acha que consegue nos ajudar a investigar?"

Schnee engoliu em seco, olhando para o corpo de Timothy com tristeza. Ele sabia que isso significava que sua missão havia se tornado ainda mais perigosa. Agora, ele precisava encontrar o responsável pela morte de Timothy e no fundo ele sentia que o que fez aquilo não foi humano.

Schnee e Fransisco começaram a examinar o corpo de Timothy enquanto Artemis e Christof inspecionavam a área circundante. Schnee abriu cuidadosamente o resto das roupas do garoto e começou a examinar as feridas.

"Veja aqui", disse Schnee apontando para as marcas. "Esta ferida é de uma mordida. A criatura arrancou a parte inferior do corpo de Timothy com uma única mordida. Acho que devemos nos preparar para enfrentar uma fera muito grande e poderosa."

Enquanto isso, Artemis examinava um rastro de pegadas e sangue que levava mais profundamente para dentro da cidade, em direção à área mais rica. A menina observou a pegada e era grande e profunda, indicando uma criatura de grande porte. A forma era semelhante à de um canídeo, mas muito maior, com cerca de seis metros de comprimento. As marcas das garras eram profundas e largas, indicando grande força. Schnee se perguntou que tipo de animal poderia ser capaz de causar aquilo.

"Isso não é um lobo, é algo muito maior", disse Artemis enquanto examinava a pegada. "Pelo tamanho dessas marcas, eu diria que tem cerca de seis metros de comprimento. Precisamos encontrar essa criatura antes que ela cause mais estragos."

Já o rastro de sangue era notável pelo contraste vermelho com o chão de pedra da rua. Ele começava ao lado do corpo do Timothy e seguia para mais dentro da cidade. Schnee examinou as marcas deixadas no sangue e notou que a criatura tinha caminhado em quatro  patas. 


Schnee ajoelha-se ao lado do corpo de Timothy, sentindo o peso da responsabilidade de cuidar do garoto que acabara de morrer. Com a ajuda de Fransisco segurando o Lampião e iluminando o caminho.

Schnee procura por algo que possa ser usado para cavar uma cova, mas não encontra nenhuma ferramenta adequada nas proximidades. Então, ele olha em volta e vê algumas pedras soltas pelo chão e decide que elas seriam úteis para cavar a cova.

Ele se ajoelha e começa a cavar com as mãos, rasgando a terra e removendo pedaços de pedra enquanto trabalha. Ele sabe que não será uma cova muito profunda, mas pelo menos seria o suficiente para cobrir o corpo do jovem Timothy.

Ele continua a cavar com determinação, querendo dar a Timothy um enterro digno e respeitoso. Após alguns minutos, a cova está pronta. 

Schnee se levanta e observa o trabalho que fez, sabendo que era o melhor que poderia fazer dadas as circunstâncias. Ele gentilmente coloca o corpo do menino dentro. Ele fecha os olhos do garoto e murmura uma breve oração.

"Ó Deus, senhor do céu e da terra, aceite a alma de Timothy em seu reino. Que ele encontre paz e descanso, e que seu espírito seja elevado aos seus olhos. Que suas falhas sejam perdoadas e que ele possa encontrar a luz no fim do caminho. Que a dor e a tristeza que agora nos envolve possa ser transformada em alegria e amor, e que possamos encontrar conforto em vossa presença. Que a justiça seja feita pelos que causaram sua morte, e que a paz e a ordem possam ser restauradas nesta cidade."

Schnee sabia que não podia deixar Timothy abandonado na rua, para ser devorado pelos ratos. Ele também sabia que o enterro improvisado era o mínimo que poderia fazer para homenagear a vida do jovem que ele mal conhecia. Schnee coloca a terra de volta no buraco, e com um pedaço de madeira, esculpe o nome do garoto na terra.

Ele se levanta, e olha para Artemis que está próxima observando. "Espero que você saiba que eu farei quem fez isso pagar," Schnee diz, sua voz baixa e carregada de tristeza. "Eu farei justiça por Timothy, assim como pelos outros que foram sequestrados e mortos por esses monstros."

Artemis olha para ele com compaixão, reconhecendo o peso que Schnee carrega sobre seus ombros. Ela sabe que ele está ferido e cansado, e que precisa de tempo para se recuperar. 

Schnee finalmente se levanta do chão após terminar o enterro improvisado e limpa as mãos na calça, sentindo um nó na garganta. "Descanse em paz, Timothy", pensa ele com tristeza. "Não se preocupe, eu vou encontrar quem fez isso com você."

Artemis se aproxima lentamente, observando Schnee com atenção. Ela sabe que ele está chateado, mas é difícil entender a profundidade da sua dor. "Vamos encontrar esses filhos da mãe", diz ela em um tom firme.

Artemis fica parada diante da porta da Taverna Capitã Louca, observando os Rufiões rindo e se divertindo lá dentro, enquanto ela ainda sente o peso do luto pela morte de Timothy. A risada dos bandidos parece uma afronta à dor que ela sente.

Ela aperta os punhos, sentindo a fúria crescer dentro de si. Artemis sabe que os Rufiões estão envolvidos no ataque da criatura que matou Timothy, e que eles precisam dar algumas explicações. É hora de confrontá-los.

Com passos firmes, Artemis entra na taverna, encarando cada um dos Rufiões com um olhar desafiador. Eles param de rir quando a veem ali, com o rosto marcado pela tristeza e raiva.

"Acho que vocês tem algum envolvimento nisso", diz ela, em voz baixa e controlada. "E eu quero saber de vocês. O que vocês sabem?"

Otto se levanta da mesa, mostrando-se como um homem alto e musculoso, com um olhar desafiador para Artemis. Ele cruza os braços sobre o peito enquanto a olha com desprezo, e então fala em tom desdenhoso:"E quem você pensa que é para vir aqui e mandar em nós, garota?"

Drake, que estava observando a cena com atenção, não pôde deixar de intervir. "Acho que você não ouviu a pergunta da moça.", ele disse, cruzando os braços e encarando o Rufião com desdém.

O Rufião soltou um riso cínico. "Seu namoradinho tem que te defender em tudo é?", ele respondeu, olhando para Artemis com desdém. "Mas se você quer tanto saber alguma coisa, eu tenho uma pergunta para você: qual é a sua aposta?"

Artemis franziu o cenho, confusa. "Minha aposta?"

"Sim, sua aposta", disse Otto. "Se você quer que eu lhe dê informações, você tem que me dar algo em troca. Então, qual é a sua aposta?"

Artemis ficou relutante em apostar, mas Otto continuou a provocá-la. "Você não tem coragem de enfrentar-me, garota? Está com medo de perder?"

Drake bufou de impaciência. "O que você quer dizer com 'enfrentar' você? Qual é o jogo?"

"Necromante", respondeu Otto, um sorriso malicioso se espalhando por seu rosto. "Um jogo de azar. Se eu perder, eu lhe darei informações sobre Cedric Travitrono. Mas se eu ganhar..." Otto deu um sorrisso patife e nojento revelando seus dentes podres e amarelados. "Artemis terá que passar uma noite comigo na Capitã Louca."

Artemis ficou indignada com a proposta, e se recusou a aceitá-la. "Você acha mesmo que eu iria me sujeitar a uma aposta dessas? Você é repugnante, Otto."

"Muito bem! Boa sorte com as crianças desaparescidas então... Espero que não encontre elas, ou pelo menos os pedaços que sobrarem!" diz Otto logo antes de soltar uma gargalhada traiçoeira. 

Artemis sabia que estava em uma posição difícil, mas não via alternativa senão aceitar a aposta de Otto. Ela respirou fundo e se levantou da cadeira, encarando o braço direito de Cedric Travitrono. "Está bem, Otto. Eu aceito a sua proposta. Mas eu não sei jogar Necromante", admitiu.

Otto sorriu, triunfante. "Não se preocupe, minha cara. Você não precisa jogar. Eu tenho certeza de que o seu amigo aqui sabe jogar muito bem, não é mesmo?", disse, olhando para Drake.

Drake assentiu, confiante. "Sim, eu sei jogar Necromante. Posso assumir o meu lugar na mesa", disse, puxando uma cadeira.

Os amigos de Otto começaram a ficar inquietos, murmurando entre si. "Talvez não seja uma boa ideia, Otto. E se você perder e contar algo sobre o Cedric? Ele vai ficar furioso", disse um deles.

Otto riu, bruto. "Eu nunca perdi uma partida de Necromante na vida. Não vou perder agora", disse, pegando um baralho de cartas e distribuindo as mãos.

A mesa estava posta, com os baralhos de Necromante em cima. Otto Krench e Drake Walker estavam sentados em lados opostos da mesa, prontos para começar a partida. Drake parecia confiante, enquanto Otto mantinha uma expressão fria e calculista.

Drake começou puxando a primeira carta, revelando a ilustração de  um um lago tranquilo cercado por árvores, com água verde-azulada, está é a carta 5 de Água. Otto pegou a próxima carta, e revelou um 2 de Vazio que a carta apresenta um cenário desolado, com uma única árvore solitária em um deserto sem vida. Não há nada ao redor além de areia e um sol escaldante. A figura humana na ilustração parece solitária e exausta, refletindo a sensação de solidão. 

"Sorte de primeira rodada... Só isso." Reclamou Otto.

 Drake parecia feliz com a sua vantagem, mas Otto não deixou isso abalar sua concentração. Na terceira carta, Otto puxou um 8 de Fogo, enquanto Drake puxou um 4 de Vegetação.

A Carta de Otto continha a ilustração de um homem encapuzado com um sorriso sinistro em vestes vermelhas chamuscadas, segurando uma tocha acesa.

Enquato a ilustração da de Drake mostrava diversas vinhas se entrelaçando em um emaranhado. Há uvas penduradas, prontas para serem colhidas, e pequenas flores brotando.

"Hahaha! Meu Piromaníaco pulverizou as suas vinhas muleque!" riu Otto enquanto equilibrava o jogo.

Enquanto isso, Artemis observava a partida com crescente desespero. Se Drake perdesse, ela teria que passar uma noite com Otto. Não que ela tivesse algo contra ele, mas a ideia de se deitar com um homem que cheirava igual a latrina dos porcos não lhe agradava. Então, ela decidiu agir. Discretamente, ela se aproximou da mesa de Otto, enquanto ele puxava a Carta 10 da Natureza e Drake puxava a 1 da de Fogo.

"Que cartas bonitas", ela disse, admirando as ilustrações. "Olhe só para esse Carvalho Negro... tão misterioso e poderoso."

Otto mal olhou para ela, concentrado em suas cartas. Drake, por outro lado, parecia bastante distraído com a presença de Artemis.

"Você joga muito bem, Drake", ela disse, sorrindo. "Mas é tão arriscado confiar no azar... eu prefiro ter um pouco de sorte extra."

Drake assentiu, ainda um pouco Confuso. Mas logo entendeu o plano vacilante de Artemis. 

Nesse momento Christof , Schnee e Fransisco voltavam para taverna . Schnee e Fransisco se aproximaram da cena aonde acontecia a partida. Mas Christof se voltou para o balcão, providenciando um quarto para ele se hospedar.

A menina se levantou da cadeira e caminhou lentamente em volta de Otto, que parecia estar mais concentrado nas cartas. Artemis se inclinou sobre a mesa, jogando seus cabelos volumosos e bem perfumados no rosto de Otto, e disse em uma voz risonha totalmente forçada:

"Otto, querido, você poderia me dar uma mãozinha com o meu laço? Ele parece ter enroscado no meu cabelo."

Otto levantou os olhos e olhou fixamente para o belo rosto de Artemis. Ela sabia que tinha a sua atenção. Enquanto ele se aproximava dela para ajudá-la, ela se inclinou ainda mais, tampando completamente a visão de Drake para Rufião

Nesse momento, Drake aproveitou a distração e pegou rapidamente um punhado de cartas do Deck, escondendo-as em sua manga. Otto, ainda distraído pela visão de Artemis, não percebeu a trapaça de Drake.

Artemis se afastou de Otto, satisfeita com o sucesso de seu plano, e voltou para o seu lugar. Ela viu Drake sorrindo maliciosamente para ela, sabendo que eles haviam conseguido o que queriam.

Enquanto isso, Otto começou a puxar sua carta para a próxima rodada, ainda um pouco tonto com a presença sedutora de Artemis. Ele nunca desconfiou que havia sido enganado, e continuou a jogar, completamente alheio à trapaça que acabara de ocorre.

 Otto puxou a carta do Incêndio, e a colocou em sua mesa com confiança. Porém, Drake puxou uma carta do topo do baralho, olhou para ela rapidamente e a colocou na manga. Com sua habilidade incrível de prestidigitação que os anos vivendo na rua lhe conferiram, ele rapidamente trocou a carta que estava na mesa pela carta que estava na sua manga, sem que Otto percebesse. A carta que Drake puxou do topo do baralho era a carta da Enchente, que ele então jogou na mesa, o que lhe permitiu vencer esta rodada rodada.

Na próxima rodada, Otto puxou a carta do Vulcão  e a colocou na mesa com confiança. Mas novamente, Drake usou sua habilidade em prestidigitação para trocar a carta da mesa pela carta que ele tinha em sua manga. Ele então jogou com um Sorrisso canalha na mesa a maior Carta do Jogo: O Necromante.

Otto tremeu em confusão ao ver a Ilustração da carta. Aquela figura sinistra, com um sorriso sádico e olhos vazios. Ele segura uma grande Foice de Prata. O fundo da carta é todo preto, criando uma sensação de mistério e perigo.

Otto estava perplexo e frustrado. Ele olhou para Artemis, que agora parecia satisfeita com a trapaça que ajudou a acontecer. Otto perguntou como era possível que ele tivesse perdido a partida depois de ter jogado tão bem. Drake respondeu com um sorriso no rosto "Acho que dei sorte."

Otto catou as cartas em cima da mesa, irritado com a derrota. Ele se levantou da mesa em um supetão e disse: "Eu não vou jogar novamente com trapaceiros". Drake riu e Artemis soltou uma risada falsa.

Os dois, agora vitoriosos, cercaram Otto, exigindo que ele cumprisse sua parte da aposta e revelasse as informações que havia prometido. Otto ficou na defensiva "Não, pera aí... Vamo tomar uma bebida primeiro né?" Dizia ele enquanto buscava apoio em seus amigos Rufiões, que lentamente começavam a se afastar de Otto com vergonha de sua derrota. 

"Não tente mudar de assunto, Otto", disse ela, encarando-o com seus olhos verdes brilhantes. "Você deve nos dizer o que sabe sobre os desaparecimentos."

"Não sei do que estão falando", respondeu Otto, desviando o olhar.

"Não seja infantil, Otto", interveio Drake, com um tom de voz ameaçador. "Você perdeu a aposta e agora precisa cumprir sua palavra. Ou você vai fazer isso ou teremos que forçá-lo."

Enquanto isso, Fransisco aproximou-se de Haricot, que ainda estava abalado com a morte de Timothy, se tremendo em pânico. Fransisco tocou gentilmente no focinho do cervo e disse: "Calma, Haricot, tudo ficará bem."

O Cervo tremendo falava de forma ofegante com Fransisco."Está tudo errado... tudo errado... A Floresta de Dormark costumava ser um paraíso para os falantes. Mas agora, infelizmente, está se tornando um verdadeiro inferno..." Ele fala enquanto sua voz começa a ficar rouca e chorosa "Já perdi a conta de quantas vezes encontrei bons amigos mortos, animais que não fariam mal a ninguém. O pior de tudo é aquele cheiro... O cheiro de morte e podridão. Para vocês humanos, talvez não seja um grande problema, mas eu consigo sentir esse odor em todos os lugares. E piora ainda mais perto da Pedreira."

Fransisco ouve as palavras de seu amigo com uma expressão preocupada e triste. Ele sabe o quanto a Floresta de Dormark é importante para todos os seres que vivem lá, incluindo os falantes como Haricot.Ele faz um leve carinho em seu pelo enquanto tenta confortá-lo e diz: "Sinto muito, meu amigo. Eu não tinha ideia de que as coisas estavam tão ruins. Mas eu vou ajudar, vou ajudar a floresta inteira" Ele olha para o animal com empatia, sabendo que ele tinha uma responsabilidade como o protetor da floresta até que Dormark retornasse.

Enquanto isso, Schnee estava de pé ao lado de Drake e Artemis, sem prestar atenção nos dois, estava ocupado demais trocando olhares ardentes com Gillian que atendia Christof. O brilho intenso de seus olhos amarelos denotava um forte desejo, e ele mal conseguia disfarçar sua excitação. A cada movimento de Gillian, ele a seguia com os olhos, seus lábios levemente entreabertos. Gillian, por sua vez, parecia não estar prestando atenção em Christof, seus olhos também mostravam uma faísca de desejo. Quando seus olhares finalmente se encontraram, uma corrente elétrica passou entre eles, e eles se olharam por um momento mais longo do que o necessário. 
 Foi apenas com uma fala de Christof  que eles finalmente desviaram o olhar um do outro. "Está me ouvindo Senhorita? O pagamento eu faço agora?", dizia o homem tentando ser atendido, mas a tensão entre taverneira e o hexano permaneceu forte no ar.

Otto finalmente cedeu à pressão de Drake e Artemis, revelando informações aos Heróis, terminou sua bebida e se levantou, olhando para Drake e Artemis com uma expressão séria. "Eu acho que vocês tiveram sorte... ou são trapaceiros. Mas trato é trato, né?" Ele coçou a barba rala pensativamente antes de continuar. "O Cedric amanhã tem uma reunião marcada com o Dono do Jardim da Babilônia. Os rufiões costumam ir lá para dar uma aliviada na semana corrida! Ele deve estar lá por volta do meio-dia."

Drake arqueou as sobrancelhas, surpreso com a informação repentina. "Obrigado pela dica, Otto. Viu.. Não foi tão difícil." Artemis também parecia intrigada. "Mas como vamos saber que você não tá nos enganando?" ela perguntou.

Otto suspirou. "Não é como se eu estivesse feliz em compartilhar essa informação com vocês...  A única forma de vocês descobrirem seu eu to falando a  verdade é vocês indo lá." Ele deu de ombros e se afastou, saindo da taverna visivelmente desgostoso.

Quando Otto está saindo Gillian se atenta para o seu relógio na taverna. Um objeto rústico e simples, com um design funcional e prático, mas ao mesmo tempo bastante charmoso. Feito de madeira escura e trabalhado com acabamento em bronze envelhecido, ele é pendurado na parede atrás do balcão principal da taverna, onde Gillian passa a maior parte do tempo cuidando de seus negócios.

O relógio é movido por um sistema de molas e engrenagens, com um mostrador circular emoldurado por um aro de bronze e números romanos gravados em baixo relevo. As mãos são de metal preto, finas e elegantes, contrastando com o tom marrom-escuro da madeira.

Ao lado do mostrador principal, há uma pequena janela retangular com uma placa de metal que se move para cima e para baixo, indicando a fase da lua. Esse recurso é bastante útil para os frequentadores da taverna, muitos dos quais são marinheiros que dependem da posição da lua para navegar com segurança.

O relógio da taverna de Gillian Gancho não é muito preciso, mas serve bem o propósito de manter o ritmo dos negócios e dar uma noção geral do tempo para os clientes da taverna. Ele não é um objeto de luxo ou ostentação, mas um elemento funcional e decorativo que reflete o estilo simples e despojado da zona pobre da cidade 

Gillian suspirou, já eram 23:02 e ainda havia alguns clientes remanescentes em sua taverna. Ela caminhou até a mesa onde estavam os Heróis e os encarou com uma expressão determinada.

"Desculpe interromper sua diversão, pessoal, mas já está tarde demais para continuar aqui. Vou ter que pedir que saiam agora ou se dirijam pros seus quartos.", disse Gillian com firmeza.

Os Heróis olharam para ela com um misto de surpresa e desapontamento, mas sabiam que ela tinha razão. Já estava ficando tarde, e se queriam estar bem para a reunião de amanhã cedo deveriam descansar agora. Eles se levantaram, esticaram as pernas e começaram a se despedir uns dos outros.

Artemis, com um sorriso empolgado no rosto, virou-se para os colegas na taverna e combinou: "Gente, vamos nos encontrar às 11:30 na entrada do centro da cidade de Kristadelle! Vamos fazer ume equipe incrível! Francisco, Drake, Christof, vocês estão dentro? E Schnee, seria incrível ter você conosco também!" Ela lançou um olhar animado para Schnee, esperando uma resposta.

Os Heróis concordaram enquanto se espreguiçavam nas cadeiras. Schnee olhou para a menina animada e respondeu "Veremos, se eu não estiver muito ocupado eu apareço." Schnee tentava manter sua pose de indiferença, mas sentia-se secretamente animado com o convite. Pela primeira vez em muito tempo, ele se sentia parte de algo maior, algo que poderia ser divertido e emocionante. 

Artemis saiu da taverna contente e seguiu pelo caminho de terra batida que a levaria até a cabana onde morava com seus pais. Ao se aproximar, ela podia ver a pequena casa de madeira com telhado de palha e paredes caiadas de branco. Havia uma pequena varanda na frente, onde algumas plantas estavam penduradas em vasos improvisados. A porta amarela estava fechada, mas ela abriu com cuidado para não fazer barulho, sabendo que seus pais estavam dormindo.

Ao entrar no quarto, Artemis descalçou suas botas de couro e sentiu alívio ao sentir a grama fresca sob seus pés calejados. Ela caminhou até sua cama, que era feita de palha e coberta com uma fina colcha de lã. Seu corpo doía de tanto caminhar pela cidade, procurando sua amiga Geldriel. Por fim, ela se jogou na cama e fechou os olhos, sentindo uma sensação de paz e descanso que a fez rapidamente adormecer.

Christof se despediu de Fransisco e agradeceu por toda a ajuda que o jovem lhe tinha dado ao longo do dia. "Obrigado, Fransisco. Eu não poderia ter feito isso sem você", disse Christof, sorrindo para o rapaz.

"O Senhor vai ficar por aqui mesmo? Sabe tem espaço lá em casa e...", respondeu Fransisco, retribuindo o sorriso com sua preocupação.

"Não se preocupe." Disse o Homem cortando o rapaz. " Eu vou ficar por aqui mesmo.", respondeu Christof, agradecido pelo convite.

Fransisco concordou, compreensivo. "Tudo bem então, Senhor Dior. Tome cuidado e até amanhã." Disse ele enquanto saía da taverna acompanhado de Haricot.  O cervo saia cautelosamente da taverna e se dirigu lentamente para a floresta de Dormark, com medo por sua própria vida. Ele sabia que era um falante e que isso o colocava na lista de potencial vítima do monstro.

Jarden Floconblue guardou seu alaúde com cuidado e subiu as escadas para se despedir de Gillian, a dona da taverna. "Obrigado por me permitir tocar aqui novamente esta noite, Gillian. Foi um grande prazer. No entanto, tenho um encontro com minha amada Baronesa LaFontaine amanhã e gostaria de estar bem descansado. Então, se me permite, vou me retirar agora." Gillian acenou com a cabeça, compreendendo. "É claro, Jarden. Foi uma ótima apresentação. Tenha cuidado, se o Barão pegar vocês dois..." Jarden ri da insinuação de Gillian e a conforta. "Minha cara... Quem você acha que está me pagando para 'cuidar' da Baronesa LaFontaine." 

Drake se dirigiu para um quarto na Capitã Louca, O Bleucher, passou por ele com um movimento brusco, fazendo o mercenário tropeçar um pouco. Drake grunhiu em resposta, mas decidiu não fazer nada. Não queria causar problemas com Gillian, e se dirigiu para o segundo andar enquanto fitava com raiva o Bleucher.

Enquanto Gillian reportava um problema a Schnee "Se você quiser dormir no meu quarto, fique à vontade", disse ela com um sorriso sedutor nos lábios. Schnee respondeu ao convite com um sorriso sacana, deixando claro que havia entendido as intenções de Gillian.

"Agradeço pelo convite, Gillian", disse Schnee enquanto piscava para ela. "Acho que vou precisar de um lugar para descansar de verdade, se é que você me entende." Gillian riu, dando um alisando o ombro de Schnee. "Eu entendo perfeitamente", disse ela com um tom provocativo.

Francisco andava nas pontas dos pés enquanto se aproximava da casa. Tentava ser o mais silencioso possível, mas a ansiedade fazia seu coração bater forte no peito. Sabia que estava atrasado, enfim, chegou à porta da frente, e respirou fundo antes de virar a maçaneta.

Entrou silenciosamente, mas seus esforços foram em vão. Sua mãe, sentada na sala, olhou para ele com os braços cruzados e uma expressão de desaprovação no rosto.Francisco sentiu um arrepio na espinha e tentou pensar em uma desculpa. Mas era inútil. Sabia que sua mãe não iria acreditar em nada que ele dissesse. "Eu...eu estava com os amigos," respondeu ele, sem conseguir olhar nos olhos dela. A senhora Herrara simplesmente apontou para o quarto e Fransisco entendeu a mensagem, ela não ia gritar a essa hora da noite.  O Rapaz dormiu intranquilo pensando na bronca que levaria na manhã seguinte.

Capítulo 2 - O Decreto.

Dia 25 de Setembro 1625. - 09:32


Christof Dior acorda com a luz fraca do sol entrando pela janela, ele se espreguiça e sente o cheiro pútrido vindo da floresta de Dormark, o que o faz franzir o nariz. 

Ele podia sentir a umidade no ar, e os sons das folhas sendo arrastadas pelo vento indicavam que havia uma brisa moderada lá fora. A luz que entrava pelas janelas da taverna era fraca e difusa, e dava a impressão de que o sol estava se esforçando para se fazer presente entre as nuvens cinzentas. Era uma manhã que prometia ser sombria e chuvosa, e Christof sentia um leve arrepio percorrendo sua espinha ao imaginar a perspectiva de ter que enfrentar o mau tempo lá fora.

Ele se arruma lentamente, vestindo suas roupas simples de viajante, uma camisa de algodão e uma calça de couro. Seu cabelo grisalho está um pouco bagunçado, mas ele não se importa muito com aparência.

Com sua bengala em mãos, ele desce as escadas, sentindo cada passo com atenção e cuidado. Quando ele chega ao primeiro andar, Gillian está na cozinha, preparando o café da manhã. 


Ela ouve a aproximação de Christof e se vira, surpresa ao vê-lo já acordado. Gillian estava irreconhecível naquele momento. Seus cabelos escuros e encaracolados, estavam agora emaranhados e desgrenhados, cheios de pedaços de condimentos e temperos. Seu rosto, que normalmente exibia uma aparência fresca e jovial, estava agora manchado de farinha e respingos de gordura. Seus olhos, normalmente sedutores e vivazes, estavam agora cansados e irritados, evidenciando a falta de sono e o esforço físico para preparar o café da manhã.

"Senhor Dior, bom dia!", ela cumprimenta, um pouco cansada.

"Bom dia, minha querida", Christof responde, sorrindo mesmo sem poder ver a expressão de Gillian.

Gillian se vira de volta para a cozinha e continua preparando os pratos do café da manhã. Ela fez um esforço para criar algo especial para Christof, incluindo croissants recém-assados, queijos e presuntos da região, e uma geleia de morango caseira. O aroma da comida se espalha pela taverna, enchendo o lugar com um delicioso perfume.

Drake Walker acordou alguns minutos depois e abriu a portado seu quarto, só para se deparar com o Bleucher fazendo a mesma coisa no quarto a frente. Eles se encararam com desgosto, percebendo que a primeira cara que eles veriam naquele dia seria de alguém que eles repudiavam.

Um silêncio tenso permeou o ambiente quando Drake e o Bleucher, ao abrirem simultaneamente as portas de seus quartos, se encararam com desgosto. Embora tenham se afastado um do outro, a rivalidade implícita permanecia. Uma discreta disputa subjetiva entre os dois começou a se formar enquanto se dirigiam para as escadas. Eles estavam determinados a serem os primeiros a descer e chegarem ao primeiro andar.

Drake acelerou um pouco, seus passos ecoando pelas escadas enquanto Archippo seguia logo atrás dele. Eles se olharam de relance, tentando medir um ao outro. O coração de Drake batia forte em seu peito, ele sabia que essa era uma competição que ele tinha que ganhar.

Seu rival, por sua vez, não estava disposto a ficar para trás. Ele aumentou o ritmo, suas pernas se movendo rapidamente enquanto ele lutava para manter o ritmo de Drake.

Os dois homens desceram as escadas em uma corrida silenciosa, cada um determinado a ser o primeiro a chegar ao primeiro andar. No final, foi Drake quem acabou vencendo, chegando ao salão um segundo antes de Archippo. Ele sorriu triunfante, sabendo que tinha acabado de vencer uma pequena batalha contra seu rival.

Drake havistou Christof Dior sentado na mesa, ele começou a perceber que talvez Christof não fosse tão ruim quanto ele pensava. Ele ainda odiava a riqueza e o poder que o professor aposentado possuía, mas começava a ver algumas de suas características positivas.


"Bom dia", disse Drake, olhando em volta para a mesa montada para o café da manhã. "Isso parece ótimo, Gillian fez um ótimo trabalho."

Christof sorriu e convidou Drake para se sentar com ele. "Por favor, junte-se a mim. Temos muito tempo antes de nos encontrarmos com o resto do grupo."

Enquanto conversavam, Schnee ainda estava dormindo no segundo andar da taverna. Eles sabiam que teriam que acordá-lo mais cedo do que o habitual, mas preferiram deixá-lo descansar um pouco mais.

Gillian estava imersa em seus pensamentos na taverna, enquanto os raios de sol iluminavam o ambiente e as primeiras movimentações da cidade se iniciavam. Seu coração ainda doía pelo "toco" que Drake lhe deu no dia anterior, apesar de ter passado a noite com Schnee. Ela não conseguia entender por que ele a rejeitara, sentindo-se frustrada por ter interesse nele, mas percebendo que talvez essa não fosse uma recíproca mútua.
Enquanto preparava o Dejesum para Christof, Gillian percebeu que havia estragado levemente um dos pratos. Ela se amaldiçoou por sua inexperiência na cozinha, mas tentou disfarçar o erro adicionando mais ervas e temperos, esperando que o sabor fosse suficiente para distrair o paladar de Christof.

Enquanto Christof provava os pratos, ele notou que um deles não estava no ponto ideal, mas decidiu não comentar. Gillian percebeu a insatisfação em seu rosto e ficou irritada consigo mesma por ter estragado o café da manhã do cliente. Porém, ela também ficou irritada com Christof por ter feito ela passar por aquilo, pedindo um serviço que ela não estava acostumada a fazer.

Mas, mesmo com a irritação, ela ainda esperava ansiosamente pela aprovação de Christof pelo seu esforço em fazer a refeição. Seu coração acelerou quando ele elogiou o sabor de um dos pratos, mas ela ainda se sentia envergonhada pelo erro que cometera.

 "Minha jovem, isso está delicioso", ele elogiou. "Melhor refeição que eu tive em anos." Christof mentiu.

Gillian sentiu uma onda de orgulho e gratidão por dentro. Ela ainda se lembrava do erro que havia cometido em um dos pratos, a menina não soube reagir ao comentário de aprovação do Ex-explorador e apenas riu nervosa.

Christof tomou um gole de café e se virou para Gillian com um sorriso educado no rosto. "Desculpe-me, mas eu não consegui gravar o seu nome. Como você se chama?"

"Gillian, Gillian Gancho", respondeu ela, dando um gole em sua própria xícara.

Ao ouvir o sobrenome "Gancho", Christof teve uma momentânea lembrança, mas ela desapareceu tão rapidamente quanto surgiu.

"Encantado em conhecê-la, Srta. Gancho. Me diga a quanto tempo você tem a taverna?" Disse aquele homem que adorava uma boa conversa na hora do café.

"Desde sempre", respondeu Gillian com um encolher de ombros. "Sabe como é... vida em Kristadelle não é fácil pra ninguém, nunca foi pra mim. E em momento de aperto eu tive que aprender a me virar sozinha e confiar em mim mesma. Ninguém estendeu a mão para garota abandonada na taverna."

Christof balançou a cabeça em compreensão. "Entendo. Você é uma pessoa forte, uma verdadeira alma guerreira. Eu admiro isso. Mas você deve admitir que é bom ter amigos para contar quando as coisas ficam difíceis."

Gillian suspirou. "Eu nunca fui muito boa em fazer amigos. As pessoas geralmente se afastam de mim por causa da minha falta de 'tato social'. Eu sou durona, eu sei disso. Mas é assim que eu sou."

Christof assentiu, "Eu suponho que seja mesmo, mas talvez você precise tentar ser um pouco mais aberta. Quem sabe, você pode encontrar alguém que realmente te entenda e te apoie." 

O sol subia na cidade de Kristadelle, trazendo consigo o tenente Florence DuBois e sua equipe que se aproximam cautelosamente do perímetro onde jaz o corpo do infeliz Timothy. Com uma expressão de profunda seriedade em seu rosto, o tenente faz um gesto e seus homens começam a retirar o corpo de sua cova rasa.

"O funeral deste sujeitinho está marcado para amanhã no cemitério de Kristadelle. Já foi organizado um modesto velório para ele na Igreja de São Nicolau, embora não seja mais algo que ele mereça!", anuncia DuBois, cujo aspecto descuidado não parece afetar sua autoridade. Com algumas libras extras e uma silhueta não tão atlética, o tenente não poderia ser descrito como um homem de grande beleza, e um dente frontal lascado é prova disso.


Com a taverna Capitã Louca completamente vazia, exceto pelo Heróis e o Bleucher, o Tenente Florence Dubois, se aproximou segurando um pergaminho. Com a autoridade que lhe foi concedida  ele começou a ler em voz alta para todos ouvirem. "Por ordem do Capitão Amion Inanoryie, a guarda de Kristadelle está autorizada a investigar as proximidades do ocorrido e usar os métodos necessários para identificar o culpado ou culpados. Esperamos a cooperação de todos para tornar essa inspeção menos incômoda para todos os envolvidos!"

Christof Dior e Drake Walker observavam atentamente a cena. Christof exibia uma postura séria e concentrada, seus sentidos aguçados mesmo sem a visão, enquanto Drake parecia mais relaxado, com uma expressão confiante no rosto e um olhar perspicaz que analisava cada detalhe do que estava acontecendo. Ambos sabiam que a situação era delicada e exigia cautela, mas cada um tinha sua própria motivação para estar ali.

De repente o Bleucher cruza a porta da Taverna e vai lá fora em direção ao Tenente. "Com licença, Tenente Dubois", disse ele. "Eu sou Archippo Campopiano, um representante de Lorde Barba Azul. Eu gostaria de oferecer a ajuda como um Bleuchers na investigação."

O Tenente Dubois ficou admirado com a apresentação de Archippo. "Fico feliz em ver que vocês finalmente chegaram, Archippo", disse o Tenente. "Sempre tive grande admiração pelos Bleuchers e seu Lorde. Com certeza sua ajuda será valiosa para nós."

Florence adentrou a Taverna com um sorriso bonachão no rosto, mas uma expressão de desinteresse em seu olhar acompanhado de Archippo. Ele se aproximou do balcão, onde Gillian Gancho, a dona da Taverna Capitã Louca, estava. O Tenente se inclinou em direção a ela como se fosse contar um segredo, mas o forte odor de seu corpo mal higienizado era perceptível a metros de distância, uma mistura de suor, tabaco e outras fragrâncias indesejáveis. Gillian sentiu o arrepio percorrer seu corpo quando o Tenente sussurrou, com a voz rouca: "Preciso que você me dê os nomes dos clientes hospedados aqui, minha querida. E o mais rápido possível".

Gillian revirou os olhos com desdém, mas sabia que não poderia desobedecer uma ordem de um oficial da Guarda Real. Ela se afastou do Tenente, procurando no livro de hóspedes os nomes que ele requisitou. Enquanto isso, o Tenente  passou a observar a movimentação da Taverna, parecendo completamente desinteressado em sua missão.

Archippo Campopiano, se recostava na parede, observando com atenção Drake Walker. O ódio entre os dois homens crescia a cada instante, após um desentendimento na noite anterior.

"Você sabe que essa é uma situação complicada, Tenente", disse Gillian, entregando-lhe o livro de hóspedes. "Alguns desses clientes são regulares e não vão gostar de ter seus nomes entregues para a Guarda".

"Não se preocupe, minha jovem", respondeu o Tenente, passando a mão pelo cabelo oleoso. "Nós não queremos causar problemas. Só estamos procurando por um informações, apena isso".

Gillian revirou os olhos novamente, mas não disse nada. Ela tinha um espírito livre e não gostava de se envolver em questões políticas, mas sabia que não poderia desobedecer uma ordem militar.

Enquanto isso, os olhares entre Archippo e Drake continuavam a trocar faíscas. O silêncio entre eles era quase palpável, mas nenhuma palavra era dita. A tensão crescia a cada segundo, até que finalmente Archippo quebrou o silêncio:

"Se eu fosse vocÊ Tenente, começaria por aquele ali.", disse ele, com uma voz grave e autoritária, enquanto apontava sem muito esforço para Drake Walker.

Drake riu com desdém, balançando a cabeça. "Não tenho medo de você. E certamente não tenho nada a esonder.".

A atmosfera na Taverna Capitã Louca estava ficando cada vez mais tensa, com todos os olhares voltados para a troca de farpas entre Archippo e Drake, e a presença imponente do Tenente Florence Dubois. Ninguém sabia o que iria acontecer a seguir.

Friederich Schnee desperta de um sono agitado e desce para o primeiro andar da Capitã Louca, onde se senta à mesa de café da manhã ao lado de Christof Dior. Sua postura é a de um guerreiro cansado, mas ainda assim forte e corajoso, pronto para enfrentar novos desafios. Por trás de sua expressão séria, é possível sentir a tensão em seus músculos e a energia pulsante que o cerca. Sentindo a Tensão no ambiente ele pergunta para Christof enquanto lentamente coloca um croisant queimado na boca. "Oque eu perdi?". Seus olhos felinos parecem transpassar a alma do tenente Florence Dubois, que o observa com desconfiança e preconceito.

O tenente, por sua vez, tenta manter sua postura rígida e austera, mas seus joelhos traem sua apreensão diante da presença de alguém com uma linhagem demoníaca. Ele gagueja momentaneamente ao tentar se expressar, enquanto seus lábios se contorcem em uma careta de desconforto. "B-Bom... Acho que isso é tudo...", balbucia ele, tossindo em seguida para tentar engrossar a voz.

"Senhorita Gancho, agradeço pela sua ajuda em fornecer os registros. Senhor Campopiano pode continuar suas investigações na coroa de Kristadelle. Com licença, preciso retornar à cidade imediatamente com o corpo da criança.". Em um movimento rápido, ele se retira da taverna em companhia de seus homens, deixando para trás a aura de tensão que se instalara com a chegada de Friederich.

Enquanto a poeira abaixa, o caçador de monstros permanece imóvel em sua cadeira, ele franze a testa em confusão, tentando entender a situação. Ele olha em volta, observando os outros remanescentes da taverna com curiosidade, como se estivesse tentando encontrar uma resposta em suas expressões. Depois de alguns segundos, ele dá de ombros e murmura para si mesmo: "Bem, não faço ideia do que está acontecendo, mas pelo menos o café está ótimo.."

Enquanto isso no fim da estrada de terra, a jovem Artemis dormia em um sono tão profundo quanto o oceano, mergulhada em um mundo de sonhos e descanso merecido. Seus cabelos ruivos, que pareciam ter vida própria, se espalhavam por sua face, enquanto seu peito subia e descia em uma respiração constante e tranquila. A tranquilidade da cena era interrompida pelos roncos estrondosos que ecoavam pelo quarto, como se a própria Artemis estivesse lutando contra as forças do sono

O quarto de Artemis é simples e aconchegante, com paredes de madeira e uma janela pequena que permite a entrada de luz natural. O chão é de tábuas de madeira polida e, ao lado da cama, uma pequena mesa de cabeceira com uma vela acesa em cima. Na parede, há uma prateleira com livros e mais livros e uma caixa de joias de madeira.

A prateleira de livros de Artemis, situada próxima à janela do quarto, é impressionante. Livros de capa dura e amarelados pelo tempo, com títulos em dourado, preenchem cada espaço disponível. A maioria dos livros é da Academia de Duelismo e Arquearia de Sir Locksley, uma das escolas mais prestigiadas do reino.

Entre os livros, é possível encontrar "A História da Arquearia no Reino de Luthia", "A Arte da Esgrima e a Vida dos Mestres Duelistas", "A Física Aplicada à Arquearia", "A Psicologia do Duelista Vencedor" e muitos outros títulos igualmente fascinantes.

Ao lado dos livros de Academia de Duelismo e Arquearia de Sir Locksley, havia uma coleção igualmente impressionante de livros de idiomas e línguas de Thessal (Europa) na estante de Artemis. Havia vários volumes encadernados em couro com títulos em várias línguas: Dunatês (Francês), Datanhol (Espanhol), Lombardiano (italiano), Eiseano (alemão),  Crulio (russo( e até mesmo algumas línguas mais exóticas.

Entre os títulos mais notáveis ​​estavam "Gramática Prática de Luthia", "O Guia Completo do Dantanho", "Dicionário Lombardiano-Dunatês", "Aprendendo Heiseano Facilmente", "Aprenda Crulio em 30 dias", "Iniciação às Línguas dos Oriente" e "O Alfabeto Ahri em 10 Lições Fáceis". Alguns livros pareciam bem usados, com páginas marcadas e anotações nas margens, indicando que Artemis havia estudado diligentemente a maiorida deles.

Artemis acreditava que ao aprender mais idiomas, ela poderia se comunicar com mais pessoas ao redor do mundo e, consequentemente, ajudar mais pessoas em suas jornadas. Ela entendia que a comunicação é a chave para a compreensão e resolução de problemas, e por isso se dedicava a aprender idiomas e linguagens thessaleias para expandir suas habilidades de comunicação. Além disso, Artemis tinha um grande coração e uma forte vontade de ajudar os outros, e acreditava que ao se comunicar melhor com as pessoas, ela poderia entender melhor suas necessidades e ajudá-las de maneira mais efetiva.

A cama está bagunçada e é grande suficiente pra que Artemis consiga rolar de um lado para outro sem cair dela. Em uma das paredes, há um mapa detalhado da região, com rotas de comércio e pontos importantes marcados. O quarto é pequeno, mas transmite uma sensação de conforto e segurança.

De repente, a porta do quarto se abre com um ranger, revelando a silhueta imponente da mãe de Artemis. Sua voz, afiada como uma lâmina, corta o calmaria do quarto, carregada de impaciência e desaprovação:"Menina, já são 11 horas da manhã! Levante-se logo ou eu vou te jogar da cama!"

"Só mais cinco minutinhos mãe..." Disse a menina se cobrindo com o lençol. "Espera aí! A senhora disse 11 horas? O Encontro no jardim da Babilônia! Eu vou me atrassar!"

Artemis pulou da cama como um raio, tropeçando em seu lençol e quase caindo de cara no chão. Com pressa para se arrumar, ela pegou suas roupas e começou a vesti-las de qualquer jeito, colocando a blusa de cabeça para baixo e as calças ao contrário. Ela tentou calçar suas botas apressadamente, mas acabou enfiando o pé no buraco errado, fazendo-a dar um giro desajeitado.

Com o coração batendo freneticamente, Artemis correu para pegar sua aljava e arco, mas acabou derrubando um vaso no caminho, fazendo-o se estilhaçar em mil pedaços. Ela pulou em um pé só enquanto tentava colocar a outra bota, mas acabou tropeçando e caindo em cima da mesa, derrubando todas as suas coisas em um caos desordenado. "Por que tudo tem que ser tão complicado?" ela murmurou para si mesma enquanto lutava para se levantar e sair correndo pela porta.

Entretando seus olhos se desviam para a cama e encontram o pequeno estojo de couro preto, descoberto escondido no esconderijo de Cedric Travi-trono. Um sorriso se forma em seus lábios, uma chama de curiosidade em seus olhos enquanto ela pega o estojo e o guarda em sua bolsa com cuidado.

Com sua energia renovada e determinação inabalável, a jovem corre em direção à porta, pronta para embarcar em uma nova aventura. Com a mente já pensando nos mistérios da noite anterior, Artemis está ansiosa para continuar sua investigação e descobrir o que mais está por vir.

Francisco Herrera saiu correndo de sua casa, deixando para trás sua mãe enfurecida aos gritos. "Espere só seu pai chegar em casa, Chico!", ela vociferava. O rapaz respondeu de maneira apressada: "Desculpa, mainha, mas eu prometi a Dormark que ia cuidar do verde!". Com a porta já fechada, ele mal pôde ouvir os últimos resmungos da mãe: "Verde? Verde vai ser a cor que eu vou ficar se você não voltar aqui agora!"

Enquanto corria em direção ao centro de Kristadelle, Francisco sentia um pouco de culpa. Nunca desobedecera sua mãe de propósito antes, mas sabia que precisava chegar rápido para não atrasar seus amigos. Ao passar pela fazenda de Leonard Saint-Menélás, ele não resistiu e afanou um belo fruto de Kaki para o café da manhã.

Chegando ao centro de Kristadelle, o rapaz se sentou em um banco e começou a revisar suas anotações em um pequeno diário de estudos, tentando absorver o máximo de conhecimento possível. Observando a vida movimentada da cidade, com seus comerciantes abrindo suas lojas e as carruagens passando apressadamente pelas ruas, Francisco sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ele estava preocupado em ter um envontro com seu pai e ter que explicar o que fazia ali, sabendo que seria uma tarefa quase impossível de explicar.


" Fransisco estava distraídos em seus pensamentos quando ouviu os passos apressados de Artemis se aproximando. A Menina corria ofegante na direção do menino e teve que dar uma leve freada com os pés se não atropelaria em cheio o banco em que o Rapaz sentava. "Con... segui... Eu....Consegui!" Ela começou a falar em tom ofegante. Ela recupera o folego enquanto se senta ao lado do rapaz. "Bom dia Fransisco".

O jovem Fransisco contemplou a presença da garota com um sorriso estampado no rosto. Seus cabelos flamejantes se rebelavam livremente ao vento, emoldurando o rosto encantador da jovem. Apressada, ela exibia uma vestimenta quase que desordenada, mas que não diminuía sua beleza natural. Carregando nas costas seu arco o, e uma aljava de couro repleta de flechas pontiagudas em sua cintura.

"Bom dia Artemis" Disse Fransisco enquanto guardava seu diário. "É... Belo Arco!" "

Com um gesto ágil, Artemis deslizou o arco de suas costas, revelando a beleza da arma. O arco era feito de um material escuro e lustroso, aparentemente ébano ou madeira de teixo. Suas extremidades eram adornadas com uma elaborada escultura de prata, representando uma lua minguante. A corda do arco era feita de um material resistente, como o tendão de um animal de grande porte, e estava adornada com pequenos símbolos que reluziam ao sol. A aljava que acompanhava a arma era de couro resistente, com um corte de proteção em forma de meia lua no topo, e continha quinze flechas retas e elegantes, com pontas afiadas o suficiente para penetrar qualquer armadura.

"Obrigado!" Artemis agradeceu com um sorriso, mas sua expressão logo desvanecia quando a lembrança dolorosa da última promessa feita ao pequeno Timothy, antes de seu assassinato, assomou em sua mente. Ela tinha prometido que um dia ele atiraria com seu precioso arco. A garota ficou em silêncio por um momento, contemplando o objeto como se ele tivesse vida própria, antes de voltar à realidade e se dirigir ao jovem roceiro com uma pergunta direta. "Então, onde está o resto do pessoal?"

Foi então possível escutar os passos de Christof, Drake e Schnee ecoando pelas ruas de paralelepípedos de Kristadelle, enquanto se aproximavam do coração da cidade. A conversa que se desenrolava entre os três parecia mais uma aula, com Christof Dior como o professor entusiasmado, ávido por compartilhar a história da cidade com seus jovens pupilos. Drake e Schnee caminhavam ao seu lado, mas pareciam mais interessados em seus próprios pensamentos do que nas palavras do professor aposentado. Christof continuava a falar, ansioso por manter a atenção dos dois rapazes entediados. Era como se ele estivesse guiando-os através do tempo, revivendo a história de Kristadelle a cada passo que davam.

"É incrível, rapazes... Acreditem ou não, há alguns anos atrás, essa região abrigava apenas o Castelo Central, algumas mansões à beira da floresta e algumas casas para os criados do Príncipe Henry. Era apenas uma casa de veraneio onde o príncipe vinha caçar. Foi somente quando a Princesa Ella assumiu o controle da cidade que as coisas começaram a mudar", disse Christof, interrompido abruptamente por Drake.

"Lá estão eles", apontou Drake, apontando para seus amigos Artemis e Fransisco, sentados em um banco.

"Graças a Deus!" Schnee suspirou aliviado, agradecido por não ter que ouvir mais fatos e curiosidades sobre Kristadelle. Enquanto o grupo se aproximava, a cidade pitoresca se revelava diante deles, com suas construções em estilo clássico e jardins bem cuidados, despertando a curiosidade dos visitantes.

As cinco figuras distintas se reuniram na entrada do centro da cidade de Kristadelle, como se fossem peças de um quebra-cabeça que começavam a se encaixar. Os olhares se cruzavam, curiosos e desconfiados, enquanto eles se perguntavam se poderiam confiar uns nos outros. Embora fosse a primeira vez que se encontravam, já haviam trocado informações valiosas na noite anterior, como peças de um quebra-cabeça que começavam a formar uma imagem mais clara.

Artemis, como sempre, estava animada e pronta para agir. "Acho que deveríamos começar visitando as famílias das crianças desaparecidas", sugeriu ela. "Talvez possamos encontrar alguma pista lá."

Fransisco concordou. "Sim, acho que seria uma boa ideia. Talvez possamos ajudá-las de alguma forma também."

Christof, parecia um pouco preocupado com o plano de ir às casas das famílias. "Não sei se é uma boa ideia. Podemos estar invadindo a privacidade delas. Talvez seja melhor falar com as autoridades locais primeiro."

Friederich, não gostou da ideia de falar com as autoridades. "Eles não vão nos dar informações úteis. É melhor tentarmos descobrir as coisas por conta própria."

Artemis sorriu e abraçou Friederich pelo braço. "Você entendeu perfeitamente", disse ela. "Estamos aqui para fazer o que precisar ser feito. Falei que você ia se enturmar fácilzinho!"

Enquanto caminhavam pela cidade, Drake olhou para a padaria onde havia encontrado o corpo do garoto Timothy na noite anterior. Ele se lembrou da promessa que havia feito de ir ao Clube de Combate Cobold, mas achou que poderia fazer isso depois. "Eu vou até o Clube de Combate Cobold", disse Drake de repente, interrompendo a conversa. "Prometi ao Timothy que iria lá."

Christof ficou curioso. "Clube de Combate Cobold? O que seria isso meu jovem?"

"É um lugar onde os caras vão lutar uns contra os outros. Acho que Timothy estava lá ontem à noite", explicou Drake.

Francisco parecia preocupado. "Você acha que pode haver alguma ligação entre o clube e o desaparecimento das crianças?"

Drake encolheu os ombros. "Não sei, mas acho que vale a pena conferir."

Christof pigarreou. "Temos que manter o foco na nossa missão principal. Não podemos nos dispersar em busca de aventuras secundárias."

Artemis sorriu. "Concordo com o Christof, mas acho que é importante seguirmos todas as pistas possíveis. Podemos nos dividir em grupos para dar conta de tudo."

"Eu posso ir até a Fazenda Birken", ofereceu-se Francisco. "Eles são conhecidos da minha família. E foram as primeiras crianças desaparescidas."

Drake assentiu. "Eu vou para o Clube de Combate Cobold. Alguém quer vir comigo?"

Christof negou com a cabeça. "Prefiro não me envolver em atividades ilegais."

Schnee, no entanto, parecia animado com a ideia. "Eu vou com Luthiano! Sempre quis ver uma luta clandestina de perto."

Christof Dior encontrava-se no centro do grupo, seus sentidos aguçados capturando cada detalhe do ambiente ao seu redor. Com sua visão comprometida, ele dependia de seus outros sentidos para conhecer cada um dos quatro heróis que se encontravam à sua frente. Ainda havia uma certa desconfiança em relação aos seus companheiros, afinal, haviam se conhecido há tão pouco tempo. Mas Christof sabia que, para alcançar o sucesso em sua missão, precisava aprender a confiar neles. E assim, ele os observava atentamente, esperando que a união de seus esforços os conduzisse ao caminho certo.

Se virando para Drake, ele perguntou de forma direta: "Jovem Drake... Quais são todas as famílias que estavam na lista do diário do Bleucher?"

Drake respondeu rapidamente: "Birken, Sanner e os Kranefuss."

Christof então se voltou para Artemis e Fransisco, os únicos que moravam na área, e perguntou: "Qual dessas famílias mora mais perto?"

"Os Kranefuss são da baixa nobreza", disse Artemis, lembrando-se do inverno passado quando seus pais venderam algumas peles para a família. "Eles moram mais para o centro da cidade."

Fransisco, que parecia estar pensando, acrescentou: "Eu acho que Christof Sanner tem uma loja de tecidos logo ali na próxima esquina."

Christof Dior acenou com a cabeça em aprovação, seu ouvido aguçado captando cada palavra dita pelos seus companheiros de investigação. Ele estava determinado a encontrar as crianças desaparecidas, e para isso, precisava usar todas as informações à sua disposição. "Então, já que o meu companheiro de nome o Sr. Sanner está tão próximo, por que não nos dirigimos todos juntos para sua loja?" sugeriu ele com uma voz firme e confiante. "Lá podemos interrogá-lo e obter mais pistas sobre o que aconteceu com as crianças. E a partir de lá nos dividimos." A confiança em sua voz ecoou nas mentes de seus colegas, impulsionando-os a seguir em frente. E assim, juntos, caminharam em direção à loja de tecidos de Christof Sanner, prontos para descobrir a verdade por trás do desaparecimento das crianças.
Os heróis concordaram com o plano de Christof. Ele sabia que, para ter sucesso na investigação, precisava trabalhar em equipe e aproveitar as habilidades de cada um deles. Juntos, eles caminharam em direção à loja de tecidos de Christof Sanner, prontos para descobrir mais informações sobre o mistério das crianças desaparecidas.

Capítulo 3 - Rastros na Cidade.

A cidade fervilhava em suas atividades diárias, e enquanto os heróis passavam pelas ruas movimentadas, seus olhos percorriam as vitrines das lojas e as expressões apressadas dos transeuntes. Eles se deixavam levar pelo burburinho dos sons e das cores da vida urbana, apreciando cada detalhe daquele cenário pulsante.

No entanto, ao passar em frente à padaria, os heróis notaram que a vitrine da loja havia sido quebrada, os vidros estilhaçados no chão, e um ar de desordem tomava conta do lugar. O padeiro, um homem magro de cabelos encaracolados escuros e de aparência cansada, varria os cacos de vidro enquanto resmungava  "Essas crianças de rua, não têm respeito por nada!", ele exclamou com raiva, em voz alta o suficiente para que os heróis que passavam pela padaria pudessem ouvi-lo claramente. A fachada da padaria, que antes era impecável e atraente, agora estava marcada pela violência dos ladrões.

A Padaria Tarte de Monde era um estabelecimento antigo de dois andares, construído com tijolos e madeira, com uma grande placa de madeira pendurada sobre a porta de entrada que anunciava o nome do negócio. As janelas tinham pequenas cortinas brancas e um arco adornava a entrada, que era decorada com delicadas flores em vasos de barro. O cheiro adocicado de pão e doces assados saía pelas janelas e flutuava no ar, atraindo a atenção dos transeuntes.

Drake Walker cochichou algo no ouvido de Artemis, que franzindo as sobrancelhas, concordou com um aceno de cabeça. "Timothy era um dos garotos que roubaram a padaria na noite passada", disse ele, em um tom baixo para que o padeiero não ouvisse.

Artemis sugeriu que parassem para conversar com o padeiro. "Talvez ele tenha alguma informação sobre o paradeiro das crianças desaparecidas", disse ela, com um brilho determinado nos olhos.

Os heróis se aproximaram do padeiro, que estava varrendo os cacos de vidro da vitrine quebrada. Raphael Bacher olhou para eles com curiosidade, enquanto continuava a varrer. "Posso ajudá-los em alguma coisa?", perguntou ele, com uma nota de irritação em sua voz.

Artemis se aproximou dele e perguntou: "O que aconteceu com a vitrine da sua loja?"

O padeiro suspirou. "Algumas crianças de rua jogaram pedras na vitrine na noite passada e depois roubaram os meus pães . Eu não sei mais o que fazer para me proteger desses delinquentes."

Drake sussurrou para os Colegas: "Vocês acham que ele pode ter  feito algo com o Timothy como vingança?"

Artemis olhou para Raphael com seriedade. "Uma pena. Mas falando em Crianças de rua... você sabe alguma coisa sobre o assassinato dele na noite passada?"

O padeiro, visivelmente atônito, deixou de varrer os cacos de vidro e apoiou-se no cabo da vassoura para se dirigir aos heróis com curiosidade. "Criança de rua assassinada? Onde? Eu não fique sabendo.", declarou ele, com expressão confusa

Uma mulher surgiu subitamente de dentro da padaria, com seus cabelos castanhos claros emaranhados e um avental empoeirado. Seu pescoço esguio se esticava para cima, como se ela estivesse tentando ficar ainda mais alta do que já era. Com um olhar severo, ela questionou o marido: "O que está acontecendo aqui? Raphael, quem são essas pessoas?"

"Não se preocupe meu anjo, esses nobres senhores e senhorita apenas estão me ajudando a investigar o que aconteceu na noite passada", disse Raphael, enquanto tentava acalmar sua esposa inquieta, mas sua esposa continuou a falar: "Tem certeza que esses aí não são os pais dos fedelhos que quebraram a nossa vidraça?" Ela disse já indo para cima dos Heróis. "Olha só, é bom vocês acharem um jeito de pagar oque essas pestes fizeram!"

Os heróis olharam para a mulher do padeiro, surpresos com sua reação. Raphael olhou para ela, com uma expressão de frustração. "Por favor, minha flor, fique calma. Eles não são pai de ninguém não. Eles só estão fazendo algumas perguntas sobre o assassinato de ontem a noite."

A mulher do padeiro cruzou os braços e olhou para ele com um olhar furioso. "Eu não to gostando nada disso, Raphael."

Raphael tentou acalmá-la novamente. "Eu sei, minha pombinha. Mas essas pessoas não são perigosas. Eles só querem ajudar."

Os heróis trocaram olhares, tentando não rir da cena. Finalmente, Raphael virou-se para eles e disse: "Desculpem minha esposa, ela é um pouco escandalosa demais. Mas, sobre o menino, eu realmente não sei nada. Eu estive em casa a noite toda ontem, dormindo que nem um bebê. Não saí de lá até de manhã cedo."

Os heróis agradeceram ao padeiro e seguiram em frente, ainda rindo da cena cômica com a esposa dele.

A loja de Tecidos e Tecelaria, chamada Tecidos D'Sanner, situada no centro da cidade de Kristadelle, exalava um aroma agradável de tecidos frescos. As paredes de tijolos eram decoradas com estampas de tecidos coloridos e aconchegantes, que iam do chão ao teto. Grandes vitrines exibiam peças de seda, algodão, linho e lã, todas cuidadosamente organizadas em prateleiras polidas e exibidas em manequins vestidos com roupas elegantes.
O piso de madeira escura emitia um leve rangido a cada passo dos clientes, enquanto as cortinas de veludo vermelho adornavam as janelas altas. No centro da loja, um grande balcão de madeira escura e finamente trabalhada exibia amostras de tecidos de alta qualidade, enquanto vendedores atenciosos atendiam aos clientes com um sorriso gentil.

A loja em si era espaçosa, com áreas separadas para diferentes tipos de tecidos, incluindo um canto aconchegante dedicado a roupas de cama e uma seção exclusiva para roupas de inverno. Ao fundo, a oficina de tecelagem podia ser vista através de uma grande janela, onde tecelões habilidosos trabalhavam em teares, produzindo novos tecidos para a loja.
Em suma, a Tecidos D'Sanner era uma loja de tecidos elegante e acolhedora, onde qualidade e beleza andavam de mãos dadas.

A aparência de Christof Sanner contrastava fortemente com o luxo e a elegância da loja. Ele estava sentado em uma cadeira de madeira atrás do balcão, com as costas curvadas e um ar cansado no rosto. Suas roupas, que antes eram elegantes e bem-cuidadas, agora estavam desbotadas e amassadas. Seu colete de veludo marrom tinha manchas de suor, e sua camisa branca estava amarelada. Os cabelos grisalhos e a barba por fazer davam a ele um ar ainda mais cansado e desleixado. Seus olhos estavam fundos e com olheiras profundas, indicando uma possível falta de sono. Mesmo assim, Sanner tentou manter um sorriso no rosto e dar as boas-vindas aos heróis.

"Bem vindos aos Tecidos d'Sanner, espero ser útil a vocês meus senhores nessa simpática manhã!", disse ele, lutando para manter a voz animada.

Os heróis imediatamente captaram o ar de tristeza que envolvia o mercante, com seus olhares atentos e perspicazes. A tensão era palpável na loja de tecidos, até que Friederich Schnee, com sua voz firme e marcante, quebrou o silêncio.

"Senhor Sanner, por favor, nos diga tudo o que puder sobre o desaparecimento de sua filha. Estamos aqui para encontrá-la", disse Schnee com uma voz firme.

Drake, que observava a cena com uma expressão séria, completou: "Podemos ajudar na investigação, mas precisamos de todas as informações que o senhor puder nos fornecer sobre Madelline.".

Ao ouvir o nome da filha, Sanner desabou em lágrimas. Ele lutou para falar, mas finalmente encontrou a força para contar a história. "Eu já contei para guarada real. Já disse tudo que aconteceu mas..."

"Nós não somos da guarda real." Afirmou Schnee.

"Foi há uma semana e três dias", disse o tecelão, soluçando. "Minha filha foi levada dentro da cidade. Estavamos andando pela praça. Eu me distraí por um momento, e ela simplesmente desapareceu."

Fransisco Herrara,, sentou-se ao lado de Sanner e tentou confortá-lo. Enquanto isso, Christof Dior e Friederich Schnee começaram a fazer perguntas para ajudar na investigação.

"Você tem alguma pista do paradeiro de Madelline, talvez algum lugar que ela gostasse de ficar sozinha?", perguntou Dior.

Sanner sacudiu a cabeça. "Eu já falei com todas as pessoas que conheço, mas ninguém viu nada. Eu estou desesperado para encontra-la."

Schnee se aproximou de Sanner e colocou uma mão em seu ombro. "Nós vamos ajudar a encontrar Madelline. Mas precisamos de mais informações. Você pode nos dizer mais sobre ela? Algum lugar que ela goste de ir, alguma pessoa que ela mencionou?"

Sanner limpou as lágrimas e tentou se lembrar de algo útil. "Madelline é uma menina gentil e meiga. Ela ama bichos de pelúcia, especialmente ursos. E ela sempre falava sobre querer viver a fonte na praça central da cidade... Eu vou lá toda manhã, esperando que ela esteja lá. Mas ela nunca está."

Após se abrir sobre a terrível situação de sua filha, Christof Sanner parou de falar e olhou ao redor, percebendo a presença dos heróis pela primeira vez. Ele franziu as sobrancelhas e perguntou com um tom de desconfiança: "Mas quem são vocês? Como saberei que não estão envolvidos no desaparecimento da minha filha?"

Artemis, a primeira a se apresentar, se aproximou dele e falou com calma: "Eu u sou Artemis, sou filha dos peleiros que moram mais ao sul da cidade. Esses são meus compaheiros Drake Walker, Christof Dior , Fransisco Herrara e Friederich Schnee que é um caçador de monstros treinado na escola de Zielkfrat. Somos um grupo que se uniu para ajudar a encontrar as crianças desaparescidas, e prometemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para trazê-las de volta em segurança".

O senhor Sanner olhou para ela por um momento, considerando suas palavras, antes de olhar para o resto do grupo. Depois de alguns segundos de silêncio, ele suspirou e disse: "Muito bem, acredito em vocês. Obrigado por oferecer sua ajuda quando nem a Coroa conseguiu fazer isso."

Capítulo 4 - A Fazenda Birken.

Os heróis saem da loja de tecidos. O sol brilhante ilumina as ruas movimentadas de Kristadelle, enquanto eles caminham em direção à pequena praça no centro da cidade.

Ao chegarem lá, encontram uma área ampla, cercada por alguns arboredos e bancos de madeira desgastados pelo tempo. O som de pássaros cantando preenche o ar, enquanto o murmúrio de conversas e risos pode ser ouvido vindo dos transeuntes nas proximidades.

O grupo se reúne em torno de uma fonte antiga com uma estátua de um deus grego no centro, um pequeno oásis localizado no centro da praça de Kristadelle. Ela é alimentada por águas cristalinas e límpidas que jorram de uma pequena nascente subterrânea que se conecta a um riacho que serpenteia pela cidade. A água é fresca e refrescante, e em dias quentes é um refúgio para aqueles que procuram um pouco de alívio do calor.

A fonte é cercada por uma pequena área de descanso com bancos de pedra cinza clara esculpidos à mão, onde as pessoas podem sentar e relaxar enquanto admiram a beleza da fonte. Há também algumas plantas e flores cuidadosamente dispostas em vasos de barro, que acrescentam um toque de cor e vida ao ambiente.

A estátua do deus grego na fonte é imponente e majestosa. Ela representa a figura de Poseidon, o deus dos mares e dos maremotos. A estátua é esculpida em pedra branca e está posicionada no centro da fonte, com jatos de água saindo de suas mãos erguidas. A figura é representada com um tridente em sua mão direita, e em sua expressão pode-se notar a seriedade e o poder que o deus representa. Seus músculos são esculpidos com perfeição, dando a impressão de força e autoridade, enquanto suas vestes e cabelos esvoaçantes conferem uma sensação de movimento. A estátua é uma obra de arte imponente e atrai muitos turistas que visitam a cidade em busca de sua beleza e história.

Crianças correm e brincam, casais caminham de mãos dadas e idosos sentam-se em bancos admirando a vista. Mas para os heróis, o mistério do desaparecimento da filha de Sanner é o único assunto em suas mentes.

"Eu acho que seria melhor nos dividirmos", diz Christof. "Assim, poderemos cobrir mais terreno e descobrir mais pistas." Todos concordam. "Vamos nos encontrar em frente ao Jardim da Babilônia em uma hora", acrescenta Christof.  Os Heróis concordam mas permanecem em silêncio, ainda um pouco ansiosos com toda aquela empreitada.

 "Bom, eu acredito que deveríamos enviar alguém para falar com os Kranefuss. E, se me permitem sugerir, acredito que eu seja o mais indicado para essa tarefa." Continua Christof enquanto olha com seus olhos brancos em direção ao vazio. "Eu tenho uma longa história de negociações bem-sucedidas com a nobreza... Além disso, tenho um vasto conhecimento sobre a cultura e história de Kristadelle e sei como abordá-los de forma respeitosa e eficiente. Tenho certeza de que, se me derem essa oportunidade, conseguirei alcançar informações para nós."

Drake Walker olha para Christof Dior com uma expressão entediada enquanto ele fala sobre a necessidade de ir falar com os nobres Kranefuss. Ele não é fã de lidar com a nobreza, e o jeito aristocrático de Christof só irrita ainda mais o mercenário. "Tudo bem, va lá falar com os nobres. Eu e Schnee vamos para o Clube de Luta. Acredito que podemos encontrar mais informações lá do que em qualquer salão nobre da cidade..."

Francisco ficou em silêncio a maior parte do tempo, mas quando surgiu a oportunidade, ele timidamente sugeriu: "Eu poderia ir à Fazenda Birken e falar com a família sobre os dois filhos desaparecidos. Eu estive lá com minha mãe na época do segundo desaparecimento para dar meus pêsames, e talvez eu possa descobrir algo que possa ajudar na investigação." Artemis, percebendo a insegurança de Francisco, imediatamente se ofereceu para acompanhá-lo, dizendo: "Eu vou com você. Duas cabeças são melhores do que uma,." O rosto de Francisco se iluminou com a oferta de ajuda, e ele agradeceu a Artemis com um sorriso sincero.

Todos se despedem e partem em direção às suas missões. Artemis e Fransisco caminhavam em direção à Fazenda dos Birken, sob um céu azul cristalino pontilhado de nuvens brancas. O sol da manhã iluminava o caminho com seus raios cálidos e reconfortantes, criando uma atmosfera tranquila e serena. Artemis olhou para o seu companheiro de jornada, curiosa para saber mais sobre a vida na fazenda. "Então Fransisco, como é morar na fazenda?", perguntou ela, com um brilho de fascinação em seus olhos.

Fransisco parecia um pouco tímido ao responder. "Eu não sei dizer, Artemis. Eu nasci e cresci lá. Mas posso dizer que a vida na cidade é muito barulhenta. Eu prefiro o silêncio e a paz do campo", ele disse, sorrindo com doçura. Sua voz era suave e acolhedora, como se convidasse Artemis a mergulhar naquele mundo encantado da natureza.

Artemis concordou com um sorriso. Ela também amava a natureza e seus encantos, mas sua vida na parte mais pobre da cidade a ensinou a apreciar as coisas que a cidade tinha a oferecer. "Sim, eu entendo o que você quer dizer. Mas, sabe, eu também aprendi a amar a cidade, apesar de seus ruídos e agitação. É tudo uma questão de perspectiva, não é mesmo?", ela disse, com uma voz serena e sábia.

Fransisco olhou para Artemis com um brilho de admiração em seus olhos. Ele sabia que ela era uma pessoa especial, com um coração enorme e uma mente aberta para novas experiências. Juntos, eles seguiram em frente, rumo à fazenda dos Birken, prontos para enfrentar o que quer que o destino lhes reservasse.

Artemis e Fransisco avistaram ao longe dois homens, aparentemente criados assistentes da Fazenda Birken, envoltos em uma acalorada discussão. Enquanto se aproximavam, puderam ouvir claramente a conversa.

"E o que você sabe sobre caçar coelhos?", indagou Marius, enfincando sua enxada no solo e encarando Jean-Baptiste com ar desafiador.

"Certamente mais do que você, pelo visto!", respondeu Jean-Baptiste, caminhando com passos firmes pelo terreno próximo.

"Mais um palpite furado de um bundão que nunca conseguiu armar uma armadilha para coelhos", provocou Marius, esboçando um sorriso cínico.

"Quer apostar um thaler que conseguirei mais coelhos que você até o festival da colheita?", desafiou Jean-Baptiste, encarando Marius com determinação.

Marius gargalhou, confiante. "Essa eu quero ver! Um thaler apostado!"

Os heróis se aproximaram sorrateiramente, e quando finalmente foram notados pelos criados, Artemis se adiantou e apresentou-se. "Bom dia, Eu sou Artemis, e este é Fransisco. Viemos falar com o senhor Birken sobre um assunto urgente."

Jean-Baptiste e Marius se entreolharam, aparentemente surpresos pela presença dos forasteiros.  Marius levantou a cabeça e cumprimentou os Heróis com um sorriso cansado no rosto. O sol já estava alto no céu e o trabalho na fazenda já havia começado. "Bom Dia. O Senhor Birken tá lá na varanda de casa, Jean vai acompanhar vocês até lá." Disse ele limpando o suor da testa com um pano velho e furado.

Jean, por sua vez, parecia estar descontente com a tarefa que lhe foi dada e fez questão de demonstrar sua contrariedade. "Por quê eu?" Indagou, balançando a cabeça em desaprovação.

Marius não hesitou em dar uma resposta contundente. "Por quê você tá fazendo corpo mole desde que o dia raiou e mais atrapalhou do que ajudou aqui no terreno!" A voz de Marius era forte e firme, revelando sua autoridade sobre o lugar.

Jean resmungou alguma coisa inaudível, mas não discutiu com seu colega e concordou em acompanhá-los. Durante o trajeto, Jean percebeu Fransisco e sua memória o ajudou a identificar o jovem. "Vem cá. Você não é o filho do Herrara? Fernando?"

"Fransisco." Corrigiu o rapaz, um tanto surpreso. "Sou eu mesmo, senhor...."

Jean sorriu e bateu levemente no ombro do rapaz. "Bem que reconheci." Sua risada ecoou pelo ar enquanto eles chegavam à soleira da porta da casa dos Birken.

A casa dos Birken era majestosa e imponente, erguendo-se altiva em meio ao vasto campo que a circundava. Seu telhado era inclinado, de telhas de barro avermelhadas, e sua fachada era adornada por grandes janelas de vidro que permitiam a entrada da luz do sol. As paredes de pedra cinza eram cobertas por heras e trepadeiras que pareciam querer invadir a casa, dando-lhe um ar rústico e acolhedor.

O sol das onze refletia sobre a varanda, onde o Senhor Birken estava sentado em sua cadeira de balanço. Seus olhos estavam fixos em um ponto distante, enquanto seu cachimbo soltava lentamente sua fumaça perfumada. Suas roupas simples de fazendeiro, amassadas e desgastadas, pareciam ter sido usadas por anos a fio, como se estivessem contando as histórias da sua vida. O vento fazia as folhas das árvores balançarem suavemente, como se quisessem acariciar o rosto do fazendeiro envelhecido, enquanto ele permanecia em silêncio, imerso em seus pensamentos.

Jean-Baptiste não teve tempo de apresentar os visitantes quando o velho se levantou com dificuldade. "Está tudo bem, Jean. Volte para o trabalho." O homem voltou sua atenção para Artemis e Fransisco. "Bom dia, em que posso ser útil?"

Fransisco foi o primeiro a se pronunciar, retirando o chapéu em sinal de respeito e apresentando-se " Bom dia seu Birke. Num sei se o senhor vai lembrar de mim... Sou o filho da Marlene, da fazenda Herrara. Essa aqui é minha amiga Artemis", disse ele, apontando para a jovem caçadora que sorriu amigavelmente enquanto acenava para o Senhor Birken. "Viemos falar dos seus filhos. Estamos investigando o desaparecimento das crianças e como seus garotos foram os primeiros a sumir, pensamos..."

O velho fazendeiro interrompeu Fransisco, abalado. "Olha, garoto, agradeço a intenção, mas não tenho mais forças para falar dos meus meninos". Ele voltou a se sentar na cadeira, com os olhos marejados. "Minha esposa e eu tentamos de tudo. Na primeira semana, quando Jakob sumiu, ainda tínhamos esperança de encontrá-lo. Mas isso vai fazer quase um mês. Pouco mais de uma semana depois, o Andrej sumiu, porque fugiu de casa para continuar procurando o irmão, depois que proibimos que ele saísse."

O homem precisou parar por um momento para tentar controlar sua dor e raiva pelos incidentes e continuou. "Tentamos recorrer à guarda real, mas eles só fizeram algumas rondas nas bordas da Floresta de Dormark, onde o Andrej falou que tinha visto o Jakob pela última vez... Nossas últimas esperanças foram esmagadas quando os guardas trouxeram uma coisa que acharam em nossas terras. O braço de Andrej. Arrancado fora." Os heróis arregalaram os olhos, e Artemis não pôde deixar de dar um suspiro assombrado pela visão de mais uma criança ter sido atacada. "Minha esposa e eu pegamos o que foi devolvido do nosso filho. Cavamos um buraco e cravamos uma cruz atrás da casa... Foi o máximo que conseguimos fazer, sabe... Para honrar a memória deles."

Pouco tempo depois, a Senhora Birken surge na varanda, trazendo consigo uma jarra de laranjada. Mesmo diante da tragédia que se abateu sobre a família, ela aparenta estar lidando bem com o luto. "O Mikael, fiz um suco pra gente...", anuncia ela com um sorriso simpático. Porém, sua alegria logo se desfaz ao avistar os visitantes. "Ih homem, como é que você não falou que nós temos visita! Fransisco tá roubando as fruta dos vizinho de novo?", brinca ela com Fransisco,e apontando para Artemis diz. "Essa aí não é a filha dos peleiros que mora descendo a estrada?" Enquanto a Senhora Birken ajeita a jarra de suco na mesinha, seu marido toma a frente da conversa e a atmosfera se torna tensa. "Eles vieram falar das crianças, Josephine...", diz ele com a voz pesarosa. A lembrança dos filhos falecidos é demais para a mãe suportar, e ela se afasta rapidamente da varanda, os olhos turvos de lágrimas. "Eu... eu vou pegar uns copos a mais pro suco!", murmura ela antes de desaparecer no interior da casa.

O Senhor Birken faz uma pausa, olhando para o horizonte antes de voltar a falar. "Eu entendo a intenção de vocês, mas é difícil para minha esposa falar sobre isso. A lembrança dos nossos filhos mexe demais com ela e a faz sofrer." Ele suspira, claramente desconfortável com a situação.

Fransisco olha diretamente nos olhos do Senhor Birken, a empatia é clara em sua expressão. "Eu entendo que é difícil reviver essas memórias dolorosas, mas pense nos outros pais que poderiam ser poupados do mesmo sofrimento. O senhor pode estar fazendo a diferença, ajudando a prevenir que mais famílias passem pelo mesmo que a sua. Por favor, Senhor Birken, nos ajude a prevenir mais perdas."
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O Senhor Birken suspira profundamente, parecendo refletir sobre as palavras de Fransisco. Ele olha para o rapaz com convicção antes de finalmente responder: "Você tem razão, rapaz. Talvez,. Eu vou falar sobre isso." Ele se levanta da cadeira de balanço e olha para Artemis e Fransisco com uma expressão determinada. "Mas vamos tentar ser breves por favor.""O senhor está fazendo a coisa certa, Senhor Birken. Ajudar a prevenir outras famílias de passarem pelo que o senhor e sua esposa passaram é nobre e corajoso", diz Artemis com um sorriso reconfortante.

Fransisco olha para o chão antes de fazer seu pedido. "Eu sei que é um pedido muito pessoal e talvez até macabro, mas... será que eu poderia ver o braço do Andrej?", ele diz, envergonhado e culpado por fazer tal solicitação.

O Senhor Birken suspirou pesadamente, pensando em ficar revoltado com o rapaz que acabara de lhe fazer um pedido tão insensível. Mas, depois de um momento de reflexão, ele indagou: "Você acha mesmo necessário?". Fransisco, evitando contato visual e envergonhado por ter que fazer tal solicitação, respondeu firmemente: "Acredite, senhor, se não fosse algo necessário, eu não pediria". O jovem sabia que aquilo poderia ajudar em suas buscas, apesar de se sentir tímido e totalmente culpado por tal pedido.

O velho fazendeiro levantou-se de sua cadeira de balanço, indicando que era hora de ir. Os visitantes se levantaram em silêncio e seguiram o velho fazendeiro pelos corredores da casa modesta até os fundos, onde um pequeno cemitério improvisado se encontrava. O caminho não era longo, mas o ar ficou mais pesado conforme se aproximavam do destino.

Atrás da casa, uma pequena cerca de madeira marcava o limite do terreno, onde algumas plantas e flores pareciam lutar contra a natureza selvagem que tomava conta da área. O cemitério era composto por apenas uma cova, marcada com uma pequena cruz de madeira. 

O silêncio só era interrompido pelo som dos grilos e dos galhos das árvores se movendo com o vento. Era um lugar triste, mas não parecia ser um lugar de abandono. O Senhor Birken mantinha tudo cuidado, mesmo que as plantas e flores tivessem dificuldade em crescer naquelas condições. Ele se mantinha em silêncio, permitindo que seus convidados processassem a visão.

Fransisco sentiu um arrepio percorrer sua espinha. O pedido que havia feito parecia ainda mais macabro naquela situação. Ele se sentia tímido e culpado, como se estivesse violando a privacidade da família Birken. Mas sabia que precisava seguir em frente. Artemis, por outro lado, ficou em silêncio, parecendo respeitar a dor que se sentia naquele lugar.

"Eu desenterraria para você rapaz... Mas eu não tenho forças o suficientes para..."  O velho fazendeiro, com seus olhos enevoados pela tristeza, tentou justificar sua impotência diante da situação inusitada. Mas antes que pudesse terminar a frase, Fransisco o interrompeu com sua voz firme e decidida. "Não se preocupe, senhor Birken. Já está sendo compreensível demais conosco." Ele se aproximou da pequena cova improvisada, coberta de terra solta e pedras empilhadas, onde o braço decepado do filho do fazendeiro jazia. Enquanto Artemis olhava em volta, absorvendo cada detalhe da cena macabra, Fransisco se ajoelhou ao lado da cova, sentindo um misto de culpa e curiosidade. Era um pedido brutal, mas ele sabia que ali poderia encontrar respostas para suas investigações.

Com as mãos nuas, Fransisco começou a cavar a terra de cima da cova improvisada no quintal dos Birken. A cada punhado de terra que retirava, ele sentia o peso da responsabilidade do seu trabalho aumentar. Até que finalmente, ele encontrou o que procurava. O braço decepado do pequeno Andrej estava enterrado a poucos centímetros de profundidade. Estava envolto em uma fina camada de terra, mas ainda era possível ver os tecidos expostos e o sangue já coagulado. O cheiro de podridão era forte e Fransisco sentiu um misto de nojo e tristeza ao pegar aquele pedaço de carne fria e rígida em suas mãos. Era a prova que precisava para seguir com sua investigação e tentar encontrar os responsáveis por aquele crime bárbaro.

O braço de Andrej estava coberto de terra e sujeira, com pequenos pedaços de grama e raízes presos em seus dedos. A pele estava inchada e descolorida, com vários cortes e arranhões que indicavam uma violência extrema. Parecia que o braço tinha sido arrancado com brutalidade do resto do corpo, deixando a carne rasgada e exposta. Fransisco observou tudo com uma expressão séria e respeitosa, sabendo que estava lidando com uma cena de crime.

Com cuidado, ele começou a limpar a terra do braço, retirando os detritos e tentando preservar qualquer evidência que pudesse ajudar em sua investigação. Ele examinou cada corte e arranhão com atenção, procurando por sinais de uma arma ou objeto usado para causar a ferida. Ele também avaliou a rigidez do membro, tentando determinar há quanto tempo estava enterrado e se havia alguma evidência de decomposição.

Apesar do estado macabro do braço, Fransisco conduziu a investigação com o máximo de respeito e profissionalismo. Ele sabia que aquela era a única chance de encontrar alguma pista que pudesse ajudar a solucionar o mistério das crianças desaparecidas. E enquanto trabalhava, uma mistura de tristeza e determinação se misturavam em seu coração, impulsionando-o a continuar a busca pela verdade.

Artemis caminhou até onde Fransisco estava sentado em frente à lareira, examinando atentamente o braço de Andrej. 

"Alguma novidade?" perguntou ela curiosa.

Fransisco levantou a cabeça, um tanto distraído. Fransisco respirou fundo antes de começar a falar. "Bem, pelo que pude ver, ele foi arrancado do corpo com grande violência. As marcas de lessão que encontrei indicam que um animal selvagem pode ter feito isso, mas é difícil dizer com certeza."

"Um animal selvagem?" perguntou Artemis, levantando uma sobrancelha. "Eu nunca vi um animal que fizesse isso com um ser humano."

Fransisco concordou. "Sim, é bastante incomum. Mas acho que vale a pena investigar. Talvez haja algum animal em particular que tenha se voltado contra humanos. Ou talvez haja alguma outra explicação, mas precisamos investigar mais a fundo."

Artemis olhou para o braço novamente, tentando imaginar o que poderia ter acontecido. "Isso é muito estranho", disse ela. "Mas vamos descobrir o que aconteceu."

Fransisco ainda de joelhos na terra úmida, com o braço decepado de Andrej em suas mãos. Ele o segurou com delicadeza, reverenciando-o com respeito e gratidão. Atrás dele, Artemis observou o rapaz com admiração enquanto ele enterrava o braço de volta na pequena cova, fazendo o sinal da cruz com devoção.

"Isso é tudo?", perguntou Artemis em um sussurro respeitoso, enquanto Fransisco se levantava e se virava para o Senhor Birken, "Obrigado, Senhor Birken", disse Fransisco, enquanto Artemis ecoava suas palavras de agradecimento. "Suas informações foram de grande ajuda para nossa investigação".

O velho fazendeiro respondeu com um aceno de cabeça, um sorriso triste nos lábios. "Eu espero que vocês encontrem as respostas que estão procurando, meus jovens . E que a paz possa finalmente ser restaurada em nossa comunidade". Com essas palavras, Fransisco e Artemis deixaram a pequena propriedade rural, suas mentes cheias de dúvidas e possibilidades.

Capítulo 5 - O Dragão de Kristadelle.

Drake e Schnee cavalgavam pela estrada de terra, buscando informações sobre o Clube de Combate Cobold. A região mais pobre de Kristadelle se estendia diante deles, uma fileira de casebres sujos e malcuidados. Quando perguntavam aos moradores sobre o local, notavam um estranho silêncio e olhares discriminatórios. Era como se ninguém quisesse se envolver com o Clube de Luta clandestino.

Enquanto se viam perdidos no emaranhado de becos e vielas, uma voz rouca e estridente cortou o ar. "Ei! Ei! Homem das neves, aqui embaixo!" Schnee virou-se para ver a origem da voz e avistou uma figura baixa e grotesca se esgueirando por trás de uma das cabanas.

Ele tinha uma aparência suja e descuidada, com cabelos oleosos e mal cortados e uma barba rala e maltratada. Vestia um trapo sujo e esfarrapado que mal cobria seu corpo magro e encardido. O homem tinha um tapa-olho sobre o olho direito, que lhe dava uma aparência ainda mais sinistra e misteriosa.

Schnee notou imediatamente o cheiro forte e característico que vinha do homem, como se ele não tivesse tomado banho há meses. O odor era uma mistura de suor e urina, deixando claro que ele não era uma pessoa que se importava com sua aparência ou higiene pessoal.

O baixinho estendeu a mão em direção a Schnee e disse: "Eu sei onde vocês podem encontrar o Clube de Combate Cobold. Mas não vou dizer nada sem algo em troca. Vocês têm alguma coisa para me oferecer?" Sua voz rouca e baixa ecoou pelo beco escuro, criando uma atmosfera de mistério e perigo.

Drake olhou com desdém para o homenzinho grotesco e respondeu de forma ríspida: "O que você quer?"

O homenzinho, sem se importar com a grosseria de Drake, respondeu com um sorriso malandro: "Vocês estão procurando o Clube de Combate Cobold, não estão?"

Drake franziu a testa, desconfiado. "E daí?"

O homenzinho continuou com seu sorriso esperto e disse: "Eu posso levá-los até lá. Mas vai custar uma pequena taxa."

Drake cruzou os braços, ainda desconfiado. "Quanto?"

"Vinte Ducados." Disse o homenzinho, fazendo um gesto com a mão.

Drake bufou. "Isso é um roubo."

"É o preço justo pelo serviço." Argumentou o homenzinho. "Além disso, se vocês forem sozinhos, podem acabar se metendo em encrenca."

Schnee, que estava observando a conversa em silêncio até então, se intrometeu: "Eu vou pagar, Drake. Não podemos nos dar ao luxo de perder mais tempo."

Drake rangeu os dentes, relutante, mas acabou concordando. O homenzinho os guiou para um casebre que estava ao lado deles um armazém de dois andares abandonado nos arredores da cidade. Drake ficou mais furioso ao entender de que o homem havia cobrado por uma informação tão fácil e de que aquele caolho safado se tratava do gerente do clube de combate Cobald.

O baixinho caolho, conduziu Schnee e Drake até um antigo casebre abandonado na periferia de Kristadelle. O local estava decadente, com as paredes rachadas e o teto prestes a desabar. O cheiro de mofo e sujeira impregnava o ar, mas Schnee não podia deixar de sentir a excitação de finalmente estar próximo do Clube de Combate Cobald.

"Este é o lugar", disse Bruno, apontando para o alçapão de madeira no chão. "As lutas acontecem lá embaixo, no porão."

Schnee se aproximou do alçapão e tentou olhar para dentro, mas estava escuro demais. Ele se virou para o baixinhoo e perguntou: "Há quanto tempo você conduz esse negócio?"

O nanico deu um sorriso amargo antes de responder: "Eu vim para Kristadelle há alguns anos atrás e comecei com rinhas de animais. Alguns meses se passaram e eu tive a ideia de colocar animais falantes e forjar as lutas, pagando uma parte para os falantes. Mas, obviamente, fui pego nessa farsa e tive que mudar o foco do clube clandestino."

"Então você começou a empregar lutadores humanos?", perguntou Schnee.

"Exatamente. De toda parte do Principado! Mas, infelizmente, a guarda da cidade não aprova as lutas e por isso elas acontecem confidencialmente, aqui no porão deste velho casebre", explicou o homem, com uma mistura de tristeza e orgulho em sua voz.

Schnee assentiu, compreendendo a situação. Drake, por outro lado, estava mais preocupado com o dinheiro que Schnee havia gastado para estar lá. Ele se aproximou do alçapão e disse: "Chega de papo furado. Vamos entrar e ver o que temos aqui."

O caolha suspirou e disse: "Certo, mas eu teria  cuidado se fosse vocês. As lutas aqui embaixo são brutais e não são recomendadas para iniciantes."

Schnee e Drake não se importaram com o aviso e desceram pelo alçapão, descobrindo um mundo totalmente diferente. O cheiro de suor, sangue e rato molhado quase os nocauteia. Os brutamontes machucados ampliam a paisagem precária que a instalação transmite. Drake começa a achar que pagaram demais por aquela porcaria.

Em meio às sombras, Schnee nota um homem sentado, recuperando o fôlego da última luta. Ele é o invicto campeão do Clube de Combate Kobold. Com uma garrafa em uma mão e um trapo velho na outra, ele limpa o suor do rosto e dá um gole na bebida.

O campeão é um homem robusto de traços asiáticos, seus cabelos negros são amarrados em um rabo de cavalo. Ele usa apenas uma calça surrada manchada com sangue alheio, suas mãos enfaixadas e seus pés descalços são os motivos dos hematomas e cortes na maioria dos brutamontes ali sentados.

Drake olha em volta, observando os demais lutadores, todos em estado lastimável, alguns gemendo de dor, outros com olhares vazios. Ele franze a testa e começa a questionar o que eles estavam fazendo ali. Schnee, por outro lado, parece impressionado com o campeão.

O Caolho se aproxima, apresentando o campeão e explicando como funciona o clube clandestino. "Esse é Kajin, o Dragão de Kristadelle. O nosso campeão invicto. Ele já venceu todas as lutas aqui nesse alçapão, e não foi pouco. Ele é um verdadeiro lutador, sabe como se movimentar, tem uma força descomunal e é resistente como um touro." Ele  diz, com um sorriso no rosto, enquanto Kajin dá uma risada cínico e acena com a cabeça em cumprimento.

"Mas, vamos às regras." continua o nanico. "Aqui, no Clube Kobold, não há regras. Vale tudo. Golpes baixos, mordidas, arranhões, o que você quiser. Não há limites para a violência. E é assim que a plateia gosta." Ele explica, olhando para Schnee e Drake.

"É claro, há algumas regras básicas que devem ser seguidas. As lutas são sempre até a morte ou até um dos lutadores não conseguir mais se levantar. Não há trapaças. Se algum lutador for pego trapaceando, ele será punido severamente. Ah, e não esqueça de pagar a taxa de entrada antes de assistir às lutas. Não é nada barato, mas é o preço da diversão." O baixinho finaliza, dando uma piscadela para Schnee e Drake.

Schnee pergunta animado ao campeão "Quanto tempo você lutou para conseguir ser campeão?", mas o homem simplesmente dá de ombros e responde: "Tempo suficiente."

Drake não parece satisfeito com a resposta e olha ao redor, observando os brutamontes desolados. Ele começa a pensar que pagou demais por aquilo.

Schnee sentia-se eletrizado pelo ambiente de luta, mal podia conter a animação em seu peito. No entanto, Drake o cortou com uma única frase, trazendo-o de volta à realidade. "Não estamos aqui para lutar, na verdade...", disse ele, interrompendo a empolgação do caçador de monstros.

Schnee sentiu como se um balde de água fria tivesse sido jogado sobre ele. Ele se lembrou, de repente, da razão pela qual estavam ali: para encontrar informações sobre as crianças. O brilho em seus olhos diminuiu um pouco, enquanto ele se reorientava.

"Estamos aqui por conta de Timothy. O garoto de rua que costumava vir aqui..." Drake Walker não era alguém que gostava de perder tempo, e Schnee já havia percebido isso. Mas o ambiente sujo e cheio de lutadores parecia ter tomado conta do seu julgamento. Felizmente, Drake estava ali para lembrá-lo da sua missão.

Kajin se levanta lentamente jogando pano sujo de sangue e suor no chão. "E o que você sabe sobre o Timothy?" diz enquanto tenta não demostrar o luto pela criança.

Drake olha para Kajin, seus olhos sérios e concentrados. "Timothy era um grande amigo meu. Ele sempre falava sobre você, Kajin. Ele tinha muito respeito por você como lutador. Ele queria ver uma luta entre nós dois, antes de... antes de tudo acontecer."

Kajin fica em silêncio, seus olhos brilhando com um misto de tristeza e raiva. "Não foi certo oque aconteceu com ele.", diz Kajin, visivelmente abalado.

Drake percebe a mudança no humor de Kajin e espera pacientemente enquanto o lutador pensa sobre a situação. Depois de alguns minutos de silêncio tenso, Kajin se levanta e se posiciona diante de Drake. "Então, você vei aqui para lutar, é isso?"

"Não é bem isso que eu quero, Kajin. Eu vim aqui para fazer algumas perguntas sobre a morte de Timothy.", responde Drake, com uma expressão séria.

Kajin ri alto, olhando para Schnee. "Ei, você aí. Quer se juntar à diversão? Dois contra um, para que vocês tenham uma chance?" Ele aponta para Schnee com um sorriso zombeteiro no rosto. Sem nem prestar atenção no  que Drake falava.

Schnee, que estava observando a cena em silêncio, se levanta lentamente. "Já era hora! Se é isso que você quer, eu estou pronto", diz ele, com confiança em sua voz.

Drake balança a cabeça, sem entender muito bem como a situação havia escalonado tão rápido.

Kajin e Schnee seguiam determinados em direção ao círculo de giz que marcava o ringue. A cada passo, a madeira range sob seus pés, ecoando em um silêncio ensurdecedor. Drake vinha logo atrás, seu coração batendo forte em seu peito enquanto observava as manchas de sangue que manchavam a arena improvisada.

Ele tentava se concentrar em sua missão, mas não podia deixar de se sentir intimidado pelo ambiente. As paredes estreitas e sombrias, o cheiro de suor e sangue impregnado em suas narinas e a tensão no ar. Era difícil acreditar que ele estava prestes a entrar em uma luta para obter informações sobre o seu amigo.

Enquanto Kajin e Schnee avançavam com passos confiantes, Drake mantinha uma distância cautelosa. Observava atentamente cada detalhe do ambiente, tentando se preparar para o que viria a seguir. Ele sabia que teria que confiar em seus instintos e em sua habilidade de luta para sair dali com as respostas que precisava.

À medida que se aproximavam do círculo de giz, Drake podia sentir seu coração batendo ainda mais forte. Sabia que não havia mais como voltar atrás. Estava prestes a entrar em uma luta com um dos lutadores mais habilidosos da região e precisava estar pronto para o que viria a seguir.

O ar estava carregado de tensão e os lutadores estavam prontos para entrar em ação. Kajin, com sua confiança exagerada, começou a se movimentar lentamente no centro do círculo de giz, exibindo seus músculos e movimentos fluídos de Kung-Fu. Drake e Schnee estavam se encarando, tentando criar uma estratégia para enfrentar o oponente.

Kajin foi o primeiro a atacar, saltando no ar e desferindo um chute poderoso em direção a Drake. Este, por sua vez, conseguiu se esquivar com um movimento rápido para a esquerda. Schnee, vendo uma abertura, tentou atacar pelas costas, mas Kajin o percebeu e o acertou com um golpe rápido e preciso.

Drake, vendo que Schnee tinha sido derrubado, decidiu atacar. Ele avançou com um chute rápido, mas Kajin foi ágil o suficiente para bloqueá-lo e dar um soco certeiro na barriga do jovem mercenário. Drake sentiu a dor aguda e se afastou para se recuperar.

Enquanto isso, Schnee se levantou, um pouco tonto, mas pronto para voltar à luta. Ele avançou com seus punhos cerrados, mas Kajin foi mais rápido e o derrubou novamente com um chute poderoso. Schnee caiu no chão com força, mas não desistiu. Ele rolou para o lado, se esquivando de um golpe de Kajin e aproveitou a oportunidade para acertá-lo com um golpe de mão aberta na lateral do rosto. Kajin recuou alguns passos, mas não parecia ter sido afetado.

A luta continuou, com cada lutador dando o seu melhor para vencer. Drake estava jogando sujo, tentando acertar golpes abaixo da cintura, enquanto Schnee tentava usar sua força bruta para subjugar Kajin. Mas nada parecia funcionar. Kajin estava sempre um passo à frente, usando sua técnica de Kung-Fu para se defender e atacar ao mesmo tempo.

De repente, Kajin mudou sua postura, assumindo a posição do Tigre. Seus movimentos ficaram mais fortes e devastadores, deixando seus oponentes sem tempo para reagir. Ele acertou um soco certeiro em Drake, que caiu no chão, e depois acertou um chute poderoso em Schnee, derrubando-o novamente.

Kajin levantou as mãos em sinal de vitória, mas Schnee não desistiu. Ele se levantou novamente, parecendo ainda mais determinado do que antes. Com um rugido de raiva, ele partiu para cima de Kajin com tudo o que tinha, desferindo golpes poderosos e implacáveis.

Kajin foi mais rápido bloqueando os ataques e o jogou no chão com um movimento preciso. "Acho melhor eu lutar vendado para vocês terem uma chance! Será que vão desistir ou querem mais?" provocou Kajin, enquanto levantava Schnee pelo pescoço.

Durante o combate, Kajin demonstrava uma habilidade superior e dominava seus oponentes, deixando Drake e Schnee sem muitas opções de defesa. Enquanto golpeava com destreza, Kajin zombava dos dois.

"A clínica da porrada está com uma promoção! Vocês são os clientes felizardos!" gritou Kajin enquanto desferia três golpes no rosto de Drake, que cambaleou.

Drake tentou atacar por trás, mas Kajin previu seu movimento e deu uma rasteira em suas pernas, fazendo-o cair de costas no chão. O Mercenário fala consigo mesmo. "Com certeza esse não é meu melhor momento." E se mantém estatelado no chão olhando para o teto.

Schnee se lavantou ainda tonto. Indo na direção de Drake no chão. "Drake! Esse é o melhor dia da minha vida!" Gritou o profano em completo frenesi. 

Kajin se preparou para dar um golpe devastador. Ele aproveitou a distração de Schnee e deu um salto no ar como um tigre pronto para atacar sua presa. Em um movimento rápido e preciso, ele desferiu um poderoso soco no crânio de Schnee.

O golpe foi tão forte que Schnee sentiu como se tivesse sido atingido por um trem. Ele cambaleou para trás, tentando se segurar para não cair, mas a tontura era forte demais. Sua visão começou a ficar embaçada, e ele viu os punhos de Kajin envoltos em chamas, como se o próprio inferno estivesse dentro deles.

"Isso... é... Incrível!" Diz Schnee em meio a sua halucinação. 

Schnee tentou se defender, mas era tarde demais. O golpe foi direto e implacável, e ele não teve forças para resistir. Sua visão ficou escura e ele desmaiou no chão da arena.

Kajin comemorou a vitória, rindo e zombando dos adversários caídos. Ele se aproximou de Schnee e apoiou seu pé sob o gigante profano com desprezo, antes de erguer os braços em triunfo. O público formado por brutamontes esfolados aplaudiu, mas a admiração nos olhos das pessoas estava misturada com medo e repulsa pelo lutador brutal que havia vencido a luta.

Capítulo 6 - Segredos de Porcelana.

O Senhor Christof Dior vagava pelas ruas de Kristadelle até a Mansão Kranefuss no centro da cidade, parecia estar em profunda reflexão enquanto vagava pela cidade movimentada. Ao seu redor, a vida urbana fervilhava, trazendo consigo a tagarelice da vizinhança. 

Enquanto caminhava, Christof ouvia as fofocas dos moradores da cidade, sussurradas ao seu redor como segredos guardados a sete chaves. Ouvia-se falar das traições amorosas dos vizinhos, das brigas familiares e dos escândalos políticos que agitavam a cidade. Mas nada parecia abalar a compostura do ex-professor, que seguia seu caminho impassível, como se fosse um observador distante do mundo à sua volta.

Finalmente, Christof chegou à Mansão Kranefuss, o imponente casarão no centro da cidade. A mansão  se destacava pela sua grandiosidade e imponência. Era uma construção antiga, com uma fachada de pedra cinzenta que denunciava a passagem do tempo, mas que ainda assim mantinha uma beleza majestosa. A porta de entrada era de madeira maciça, esculpida com detalhes delicados e adornada com um puxador de bronze brilhante.

Christof Dior seguiu em frente, passando pelo portão de ferro forjado que dava acesso à Mansão Kranefuss. Ele respirou fundo e sentiu o cheiro de flores frescas que enchiam o ar. O jardim estava em plena floração, com várias flores coloridas que enchiam os olhos do professor aposentado. Ele ouviu alguém cantarolando e conversando com as plantas e foi em direção à fonte, onde a voz parecia vir.

"Olá. Tem alguém aí?" chamou Christof em voz alta.

O cantarolar parou, e o jardineiro, Medrad Montgomery, apareceu por entre as flores, segurando uma tesoura de poda e um regador. Ele era um homem forte, de meia idade, com cabelos castanhos e um sorriso caloroso. Ele não tinha o braço direito, e o mesmo terminava em uma protese de metal.

"Boa tarde, senhor. Está procurando alguma coisa?" perguntou Medrad.

"Sim, estou aqui para ver o Lorde Kranefuss", respondeu Christof. "Estou investigando o desaparecimento de crianças em Kristadelle e preciso de informações sobre sua filha."

"Ah, entendo", disse Medrad. "O senhor é o Professor Dior, correto?"

"Sim, sou eu mesmo. Me Conhece.", confirmou Christof.

"Sim, eu trabalho também na mansão Tempete, semana passada eu ouvi o Duque comentado sobre ter lhe contratado. O Lorde Kranefuss está ocupado no momento, mas posso levá-lo até a porta da mansão e informá-lo da sua chegada", ofereceu Medrad.

"Seria muito gentil da sua parte, obrigado", agradeceu Christof.

Medrad colocou o regador e a tesoura de poda no chão e se aproximou de Christof. Ele estendeu o braço esquerdo para guiá-lo, e Christof aceitou o gesto, segurando o braço com confiança. Enquanto caminhavam, Christof percebeu o cheiro de terra fresca e ouviu o som das folhas das árvores balançando suavemente ao vento. Ele também sentiu o sol quente em seu rosto, o que o fez lembrar dos dias de aventura em que viajava pelo mundo.

"Tenho certeza de que o jardim está lindo. Posso dizer só pelo aroma.", comentou Christof.

"Obrigado, senhor", respondeu Medrad com um sorriso. "O meu segredo é conversar com as plantas, elas me dão inspiração."

"É uma bela filosofia", concordou Christof.

Chegando à porta da mansão. Christof agradeceu Medrad pela ajuda e se despediu dele com um aperto de mão.

"Foi um prazer conhecê-lo, senhor Montgomery. Sua bondade é admirável", disse Christof.

"O prazer foi meu, senhor", respondeu Medrad, sorrindo. "Boa sorte em sua busca."

Com essas palavras, Medrad se afastou, deixando Christof sozinho na porta da Mansão Kranefuss.

Christof bateu três vezes na porta da Mansão Kranefuss, mas nenhum sinal de vida. O silêncio era quase palpável, mas foi quebrado pela voz esganiçada que veio lá de dentro. "Já vai! Santíssimo Jesus de Nazaré... JÁ VAI!" A voz assustou Christof, mas ele rapidamente recuperou sua compostura e manteve-se sério.

A porta se abriu para revelar uma mulher magra e alta seus cabelos escuros estavam presos em um coque bagunçado na parte de trás da cabeça, mas vários fios soltos caiam sobre seu rosto. Ela usava um vestido simples e modesto, mas que estava um pouco amarrotado e sujo. Ela tinha olhos grandes e expressivos, que pareciam absorver a luz que entrava pela porta. "Pois não? Desculpa a demora viu senhor. O valete ficou doente e eu to tendo que limpar o chão e atender as visitas." A voz da criada era suave, mas tinha um toque de ansiedade.

Christof se manteve observador com seus sentidos restantes, notando que ela parecia exausta e sobrecarregada. Ele sentiu um momento de empatia e simpatia por ela, sabendo que a vida de um criado em uma casa nobre não era fácil. "Não se preocupe, minha cara. Está tudo bem. Me chamo Christof Dior. Eu gostaria de falar com o Lorde Kranefuss, por favor", disse ele com calma.

A criada olhou para ele por um momento, parecendo ponderar suas palavras. Depois, ela deu um sorriso amigável e abriu caminho para ele entrar na mansão. "Claro, senhor. Vou anunciar a sua chegada. Por favor, siga-me." Christof seguiu a criada, respirando fundo para se preparar para a conversa que estava por vir.

A criada se prontifica a guiar Christof pelo corredor, seus passos rápidos ecoando pelo piso de madeira. A jovem mantém a cabeça baixa enquanto fala, nervosa. "Por aqui, por favor. A sala do Lorde Kranefuss fica no segundo andar no fim do corredor."

Christof segue a criada pelo corredor cercado de pinturas e tapeçarias antigas que adornam as paredes, enquanto pensa no que falaria para o nobre Kranefuss. Porém, seus pensamentos são interrompidos pelo som de gritos vindos do segundo andar : "Não quero ouvir mais um som! E se eu pegar você com esse maldito camponês Handler de novo, juro por Deus que vou castrá-lo com meu punhal!". Uma voz masculina, impaciente e raivosa, ecoa pelos corredores, seguida por um choro abafado e soluços de uma mulher "Eu o amo! Eu o amo tanto!" diz a voz feminina. Christof sente alguém passando pelas escadas ao seu lado em agitação, e o cheiro de um doce perfume é perceptível no ar. É um cheiro marcante e elegante, que denota a sofisticação e o requinte da mulher que o está usando.

Os dois sobem ao segundo andar e quando a criada finalmente para em frente a uma porta, Christof percebe que chegou à sala do Lorde Maximillian. A criada bate na porta antes de abrir, anunciando a chegada de Christof. "Senhor, um homem chamado Christof Dior para vê-lo." 

"Christof Dior? Eu não estou esperando ninguém com esse nome, mas bem, deixe-o entrar", O Lorde responde confuso.

A criada se afasta, deixando Christof sozinho na antessala. Ele inspira fundo, tentando manter a postura e a serenidade enquanto aguarda a permissão para entrar na sala do Lorde.

Christof entra na sala e fecha a porta atrás dele" Meu nome é Christof Dior, senhor. Fui contratado pelo Duque Tempete para investigar o desaparecimento de sua filha, Sarahleen. Eu gostaria de fazer algumas perguntas e ver se o senhor pode me ajudar", disse Christof com um tom respeitoso.

Maximillian arqueou as sobrancelhas e fixou seus olhos em Christof. "Eu não tenho nada a dizer sobre o sumiço da minha filha. Não tenho informações para compartilhar e não vejo como isso possa estar relacionado com outros casos."

Christof notou a tensão no ambiente e a ressistência do Lorde e percebeu que ele estava escondendo algo. "Com todo o respeito, senhor, eu entendo que pode ser doloroso falar sobre isso, mas qualquer informação que o senhor possa fornecer pode ser crucial para a minha investigação. Eu prometo que manterei a discrição e o respeito."

Maximillian suspirou e apertou os lábios. "Eu não sei como minha filha sumiu. Ela simplesmente desapareceu, e eu não tenho pistas do paradeiro dela. Eu fiz tudo o que pude para encontrá-la, mas não tive sucesso. Por favor, entenda que eu não posso ajudá-lo."

Christof sentiu a dor na voz do Lorde e percebeu que ele estava sofrendo. Ele decidiu mudar sua abordagem. "Eu entendo sua dor, senhor, mas pense no seu papel como nobre. Como alguém de linhagem nobre, é sua responsabilidade proteger as pessoas desta cidade e garantir que a lei seja cumprida. Seu silêncio pode colocar outras crianças em perigo."

As palavras de Christof pareceram atingir Maximillian, que se levantou da cadeira e começou a andar de um lado para o outro. "Eu não posso suportar a ideia de outra criança desaparecendo. Mas eu juro que não sei nada sobre o paradeiro da minha filha. Eu não sei como isso pode estar relacionado aos outros casos."

Christof percebeu que havia encontrado uma brecha na armadura do Lorde. "Eu compreendo sua dor, senhor. Mas eu preciso fazer essas perguntas. Qualquer informação pode ser útil. Por favor, ajude-me a encontrar essas crianças e trazer paz para esta cidade."

Maximilliam ficou cada vez mais irritado com as perguntas insistentes de Christof sobre a filha desaparecida. Ele já havia dito que não sabia de nada, mas o explorador parecia não entender.

"Já disse que não sei nada sobre o desaparecimento de Sarahleen. Eu já falei tudo o que podia. Agora, se não tem mais nada para me perguntar, sugiro que vá embora", disse Maximilliam, apertando os dentes.

Christof, percebendo a irritação do Lorde, tentou suavizar o tom. "Me desculpe, Lorde Kranefuss, não quero ser indelicado. Mas não posso simplesmente desistir de minha investigação. Eu prometi ao Duque Tempete que encontraria sua filha, e farei o possível para cumprir minha palavra."

"Eu entendo seu comprometimento, Sr. Dior. Mas eu já disse o que sei. Agora, por favor, vá embora. Não posso mais tolerar essa invasão em minha casa e privacidade", retrucou Maximilliam, visivelmente incomodado.

Christof percebeu que não conseguiria obter mais informações do Lorde e resolveu sair. "Muito bem, Lorde Kranefuss. Agradeço sua atenção e sua paciência. Se algo surgir em relação à minha investigação, entrarei em contato com o senhor imediatamente."

Christof sentiu uma corrente de ar frio passando por suas pernas quando chegou a porta do escritório. Seu corpo se arrepiou e ele imediatamente soube que havia algo errado. Ele fechou os olhos por um momento, tentando usar seus outros sentidos para identificar o que estava acontecendo. Foi então que percebeu a presença de duas pessoas atrás da porta.

Ele não podia vê-las, mas podia sentir sua presença. Seus passos eram mais leves e os sons que faziam eram diferentes daqueles que havia ouvido antes. Uma teoria começou a se formar na mente de Christof. Ele pensou que as duas pessoas estavam espionando sua conversa com Lorde Kranefuss. Por que mais elas estariam ali?

A porta foi abruptamente aberta antes mesmo que suas mãos a alcançassem. O cego podia sentir a presença de duas pessoas à sua frente, mas seus sentidos não eram precisos o suficiente para identificá-las. Foi só quando uma voz feminina, trêmula e insegura, cortou o silêncio que Christof reconheceu a esposa do homem à sua frente.

"Lorde Kranefuss, eu ouvi gritos, aconteceu alguma coisa?" Lady Katarine tentou parecer confusa, fingindo desentendimento para disfarçar sua intromissão.

A mente afiada de Christof imediatamente ligou os pontos, unindo as presenças por de trás da porta com a súbita entrada da esposa de Maximilliam. Sua teoria de que as duas pessoas estavam ouvindo sua conversa agora parecia ainda mais plausível. Ele manteve sua postura imperturbável enquanto observava a interação entre o casal, sua mente trabalhando em segundo plano para decifrar as intenções daquela mulher.

Lorde Kranefuss olhou para sua esposa, um sorriso tenso no rosto. "Está tudo bem, Katerine Senhor Dior estava apenas de passagem. Ele já está saindo."

Lady Katerine olhou para o marido com uma expressão de preocupação no rosto. "Mas eu ouvi gritos, amado. O que está acontecendo?"

Maximillian suspirou, sabendo que a sua esposa estava tentando intrometer-se em seus assuntos. "Não se preocuper. Tudo está sob controle. Agora, se me dá licença, preciso resolver alguns assuntos."

Mas antes que Maximillian pudesse se mover, Lady Katerine interrompeu-o, com uma mentira descarada nos lábios. "Oh, querido, eu esqueci de mencionar que Medrad informou que há um problema com as roseiras e precisa que você vá verificar agora antes que seja tarde demais."

Maximillian Kranefuss olhou para sua esposa com desconfiança, mas acabou cedendo à sua insistência. "Tudo bem, eu vou dar uma olhada. Mas por favor, não demoro muito." Ele então se levantou e saiu da sala, deixando Christof Dior sozinho com Lady Katerine.

Cecilia Goldblat entrou rapidamente na sala, fechando as portas do escritório logo atrás de si. Seu movimento ágil e preciso parecia sugerir que ela havia sido instruída pela patroa a tomar tal medida. Seu olhar frio e direto para Christof Dior também deixou claro que ela estava ciente de sua presença ali, mas que sua lealdade estava com a família Kranefuss.

Katerine Kranefuss falou em um sussurro tenso para Christof Dior: "Meu marido não está cooperando com você, mas eu sei que precisamos encontrar nossas crianças. Eu preciso que você me ajude." Ela respirou fundo antes de continuar. "Ophelia sempre foi rebelde. Ela prefere a companhia de meninos pobres e está apaixonada por um jovem chamado Mathias Thibault. Eu sabia que eles se encontravam em segredo e eu encorajava isso. Mas agora, ambos foram sequestrados."

Cecília Goldblat,a criada, fingia limpar o quarto. Mas ansiava por um momento para poder falar sobre a situação, prestando atenção constante na conversa.

"O Senhor deve está me achando uma péssima esposa por mentir para o meu marido" Disse Katerine." Mas eu estava fazendo meu papael de mãe! Eu vi como Vivianne cresceu complexada e insegura sob a opressão de seu pai, e eu não queria que a mesma coisa acontecesse com Ophelia. Eu sabia que Mathias era um garoto de bom coração e que ele fazia minha filha feliz. Eu apenas queria que ela tivesse a chance de ser livre e feliz, mesmo que por alguns momentos secretos."

Cecilia Goldblat suspirou dramaticamente e comentou com um sorriso irônico nos lábios: "Ah, a vida de um nobre é tão tranquila e livre de problemas. Mal posso esperar para me tornar uma também." Lady Kranefuss olha com desdém para sua criada. E Cecilia murmura para sí. "Que foi? Até a Princessa Ella começou esfregando o chão de casa."

Christof Dior coçou o queixo barbado, enquanto pensava nas informações que Katerine Kranefuss havia acabado de lhe dar. "O nome 'Mathias Thibault' não consta em nenhum dos registros que tenho acesso".

Katerine sentiu lágrimas escorrerem pelos seus olhos. "Eu não sou tão ferrenha como meu marido, mas ainda assim, eu não posso permitir que nossa família passe por um escândalo." Ela toma folego enquanto tenta buscar forças para revelar a última peça do quebra cabeças. "Eu subornei a mãe do menino para manter isso em segredo. Mas agora, eu preciso encontrar minha filha e Mathias. Por favor, me ajude, senhor Dior."

Christof Dior olhou para Katerine com compaixão e colocou a mão em seu ombro, tentando confortá-la. "Eu farei o que estiver em meu poder para ajudá-la, Lady Katerine. Eu estou junto a um grupo de investigadores que vai achar as crianças incluindo a sua filha." Ele pausou por um momento e acrescentou: "E não se preocupe com o escândalo. A vida de sua filha e a de Mathias são mais importantes do que qualquer preocupação com a reputação da família."

Capítulo 7 - Aromas Manchados.

Às cinco para o meio-dia, os Heróis marcharam em direção ao Jardim Babilônia, onde se encontrariam. Enquanto caminhavam, seus ouvidos foram mais cedo ou mais tarde surpreendidos pela voz ressonante do pregoeiro da cidade, Roland Lièvremont. Ele estava parado em cima de sua carroça, agitando seu sino com vigor.

"Ó nobre povo de Kristadelle!", clamou o pregoeiro com sua voz forte e carregada de autoridade. "Eu trago uma mensagem que deve ser ouvida por todos!"

Todos os que passavam por perto pararam para escutar o que o homem tinha a dizer. Sua voz, apesar de cansada, era clara e reverberava por toda a cidade.

"É com grande pesar que informo a vocês que a Princesa Ella, nossa amada soberana, decretou um toque de recolher para todos os jovens abaixo de 16 anos. Qualquer criança encontrada nas ruas de Kristadelle após o pôr-do-sol será imediatamente escoltada até a torre de vigília da cidade, onde passará a noite até que um local seguro e estável seja encontrado para ela."

O pregoeiro repetiu a notícia várias vezes, garantindo que todos a ouvissem. Os Heróis sentiram o peso da informação, enquanto a cidade murmurava em descontentamento com a nova medida imposta pela Princesa. 

Os Heróis, por fim, alcançaram o coração pulsante de Kristadelle, onde os nobres e burgueses se aglomeravam em uma atmosfera requintada. Entretanto, ao invés de se encontrarem no Jardim Babilônia, como previamente acordado, eles foram atraídos para uma pequena multidão que se aglomerava diante de uma loja peculiar.

Era uma perfumaria com uma fachada pintada em um tom rosa forte, que chama a atenção dos transeuntes. As janelas são adornadas com cortinas rendadas brancas, que dão um toque delicado à loja. O letreiro é feito em um elegante estilo cursivo em dourado e se destaca perfeitamente sobre o fundo rosa, cujo nome ressoava com alegria e glamour: Flamenco Magenta. Seis guardas cercavam o estabelecimento, criando uma barreira para manter a curiosidade das pessoas à distância. O local aparentava ter sido violentamente invadido, com a porta da loja arrombada e sinais de garras enormes deixadas nas soleiras. Marcas profundas que pareciam pertencer a criaturas muito além do conhecimento daqueles que ali se encontravam.

Enquanto os Heróis se detinham para observar, o um homem saía da perfumaria com um olhar firme e determinado. Seus cabelos ruivos e longos eram sedosos e pareciam brilhar sob a luz do sol. Sua aparência delicada e fina podia enganar os incautos, pois sua presença era intimidadora e voraz. Seus olhos, de um azul escuro e penetrante, pareciam sondar a alma de quem os encarava. Um cheiro característico de canela o seguia onde quer que ele fosse, e dava a ele um ar de mistério. Vestindo o uniforme da guarda real, que entregava seu título de Capitão, Amion parecia ainda mais imponente. Suas belas botas magníficas, muito bem cuidadas, evidenciavam sua elegância e refinamento.

Com passos firmes e uma postura imponente, o Capitão Amion Inannoryie se aproximou da entrada da Flamenco Magenta. Seus cabelos ruivos caíam sedosos sobre os ombros, destacando a delicadeza de sua aparência fina e nobre. Seus olho varriam a cena com interesse e atenção, capturando cada detalhe daquele mistério intrigante. O cheiro característico de canela exalava de sua presença. Ele se inclinava com cuidado para examinar as marcas de garras na soleira, como um detetive em busca de pistas. Os Heróis observavam com expectativa, ansiosos para descobrir o que estava acontecendo ali naquele momento.

Os Heróis se juntaram na multidão em frente à perfumaria Flamenco Magenta, intrigados com o que estava acontecendo ali. Tentaram passar pelos guardas que faziam a contenção do local, mas foram barrados com a resposta: "Assunto da coroa, informação confidencial para civis."

Com uma voz confiante e firme, Christof Dior tomou a iniciativa e se apresentou aos guardas com elegância: "Com licença, senhores guardas. Nós somos investigadores particulares e estamos trabalhando no caso das crianças desaparecidas que têm assolado a cidade. Talvez possamos ajudar de alguma forma". As palavras proferidas pareceram penetrar na resistência dos guardas, que demonstraram certa hesitação em suas expressões faciais. O comentário também chamou a atenção do Capitão Amion Inanoryie, que largou sua análise da cena do crime e se aproximou dos Heróis. Sua postura era imponente e austera, deixando claro que ele era um líder nato.

"A corte já está cuidando da investigação, não precisamos de nenhum incentivo externo", declarou o Capitão, com firmeza em sua voz.

Artemis, com seu ar inquisitivo, olhou para Amion, com certo espanto diante da resistência do capitão em fornecer informações. A jovem heroína parecia um tanto confusa diante da situação, e não hesitou em expor suas dúvidas. "Como podemos ajudar se nem sequer sabemos o que está acontecendo?", perguntou ela com sua voz suave, mas firme, procurando entender a situação que parecia cada vez mais obscura. Seus olhos verdes se fixaram em Amion, aguardando alguma resposta que pudesse esclarecer o que estava acontecendo ali.

Amion se aproximou mais ainda dos Heróis, encarando-os com um olhar de desaprovação. "Eu acho que vocês não entendem a situação de risco em que a cidade se encontra", disse ele com uma voz grave e firme. "Estamos enfrentando uma criatura desconhecida que está colocando a segurança dos cidadãos em perigo. E eu não vou permitir interferências de mercenários aproveitadores como vocês!" Sua expressão era fria e implacável, deixando claro que não estava disposto a aceitar ajuda de estranhos em um assunto tão delicado e perigoso.

Drake, com uma expressão séria, interveio na conversa: "Com todo respeito, senhor Capitão, não somos mercenários aproveitadores." Ele fez uma pausa e acrescentou: "Bom, talvez mercenários, mas certamente não estamos nos aproveitando de nada. Estamos aqui para ajudar. Possuímos habilidades que podem ser valiosas para esta investigação." A confiança em sua voz era palpável, mesmo que seu olhar desafiador denotasse alguma tensão.

Fransisco notou a inquietação de Drake e, com um olhar preocupado, tentou acalmá-lo: "Calma, Drake. O Capitão está apenas fazendo seu trabalho". Embora suas palavras soassem confiantes, Fransisco sabia que Amion estava equivocado. Mas, consciente de que seus amigos já haviam passado por problemas suficientes, optou por manter a calma e evitar qualquer conflito desnecessário.

Schnee, em um ato impulsivo, ergueu a voz em resposta a Amion: "Não precisamos da sua permissão para ajudar. Nós vamos encontrar uma maneira de desvendar esse mistério, com ou sem a autorização da guarda." Seus olhos brilhavam com uma determinação que parecia contagiar os demais heróis.

Os Heróis sentiram o peso do siêncio do Capitão Amion em suas costas, como se ele tivesse lançado um feitiço mágico sobre eles. Seus olhos fixos, examinando cada um dos membros do grupo com uma expressão fria e crítica. Por um momento, parecia que ele consideraria a oferta de ajuda, mas em seguida, com um tom de voz gelado, ele advertiu: "Boa sorte com isso. Mas saibam que, se forem pegos em qualquer atividade questionável, serão detidos como os principais suspeitos." O Capitão parecia desfrutar de sua posição de poder e influência enquanto voltava para analisar as marcas na soleira da porta da perfumaria, deixando os Heróis sozinhos para refletir sobre as consequências de sua determinação em desvendar o mistério.

Drake observou a movimentação dos guardas com atenção, estudando cada um deles. Ele sabia que precisava encontrar uma maneira de se esgueirar entre a multidão sem chamar atenção para si. Com um olhar astuto, ele notou uma brecha na formação dos guardas, um espaço onde eles estavam mais dispersos.

Sem hesitar, Drake se aproximou daquele ponto e começou a se esgueirar pela lateral da multidão, escondendo-se nas sombras e evitando chamar a atenção. Ele se moveu com agilidade e silêncio, aproveitando cada oportunidade para se aproximar mais da perfumaria.

Finalmente, ele chegou à entrada dos fundos da loja, mas havia um problema: havia dois guardas postados ali, obstruindo a passagem. Drake precisava de uma distração para poder se aproximar sem ser notado.

Sem pensar duas vezes, ele jogou uma moeda para o outro lado da rua. Com um som metálico, ela chamou a atenção dos guardas, que se voltaram para ver o que havia acontecido. Enquanto eles estavam distraídos, Drake aproveitou a oportunidade para se esgueirar pelo beco e entrar pela porta dos fundos.

Depois de jogar a moeda, Drake suspirou profundamente e falou para si mesmo com um tom triste: "Ainda bem que era só uma peça de Heller... Mas espero que essa distração valha pelo menos uns 10 Ducados." Ele balançou a cabeça, ainda um pouco chateado por ter jogado a moeda fora.

Uma vez dentro da perfumaria, ele olhou ao redor e notou que estava em uma sala de estoque. Ele se moveu rapidamente para o corredor principal, procurando pistas ou sinais de atividade suspeita.

O interior da Flamenco Magenta era ainda mais impressionante do que a fachada. As prateleiras estavam repletas de frascos de perfume e cosméticos luxuosos, cada um parecendo mais caro do que o outro. Alguams pratilheiras porém, pareciam quebradas e cacos de vidros pareciam ter sido varridos para o canto. Havia uma pequena escada de madeira no canto da loja, que levava a um estoque no andar de cima. Drake se dirigiu rapidamente para lá, curioso para ver o que poderia encontrar.

Assim que chegou ao topo da escada, Drake imediatamente notou as grandes marcas de garras que adornavam a parede próxima. Eram profundas e largas, sugerindo uma criatura grande e poderosa que as deixou ali. Drake sentiu um calafrio percorrer sua espinha, enquanto se perguntava o que poderia ter causado aquelas marcas. Enquanto olhava em volta, viu algo estranho no chão, algo que parecia uma pelagem preta e espessa. Ele se aproximou para ver melhor e confirmou que era exatamente isso. Era como se um animal grande tivesse estado ali e deixado um rastro de pelo para trás.

Drake examinou a pelagem com cuidado, imaginando que tipo de criatura poderia ter deixado isso. Ele ouviu um barulho vindo de um dos cantos do estoque e se virou rapidamente, se preparando para o pior. Mas, para sua surpresa, era apenas um rato correndo para longe. Ele soltou um suspiro de alívio e continuou explorando o estoque, seus pensamentos voltando para as marcas de garras e a pelagem preta. Ele sabia que havia algo estranho acontecendo na loja e estava determinado a descobrir o que era.

Drake se preparava para partir da loja da perfumaria em uma velocidade tão rápida quanto a que ele havia entrado.No entanto, seu ouvido apurado captou a conversa de duas vozes na parte da frente da loja. Ele se aproximou sorrateiramente, olhando através da cortina de miçangas cor-de-rosa, e observou um sargento de Kristadelle segurando um bloco de notas na mão enquanto conversava com um homem de aparência refinada, vestido com roupas finas e rosas. O cabelo do homem, que parecia ter sido tingido levemente com rosa, era impecável. Em sua mão, ele segurava um pequeno frasco rosa de Glamour.

"Muito bem  Senhor Fanzago Eu preciso que você me diga quando encontrou a loja nesse estado?", perguntou a voz interrogativa do sargento.

"Como eu disse, Sargento!", respondeu a voz suave e delicada do homem. "Eu não moro muito longe da minha loja, mas toda manhã eu saio para dar uma volta no quarteirão... Quando cheguei em frente à minha... minha amada lojinha!, logo percebi o desastre. Pelo visto, a coisa não estava interessada no dinheiro! Não... Ela levou quase todo meu estoque de Glamour, só consegui achar um frasco intacto."

Drake se esgueirou pela porta e observou a conversa atentamente. A cena era de contrastes: o sargento parecia rígido e impessoal, enquanto o homem parecia frágil e delicado, como se tivesse sido moldado a partir de uma flor. A cortina de miçangas cor-de-rosa criava um efeito dramático enquanto o sargento questionava o homem e Drake observava tudo de forma furtiva.

Drake observou com atenção enquanto o homem delicado de rosa deixava o frasco de Glamour em cima do balcão e se afastava para conversar com o sargento. O rapaz  habilidoso esperou até que o homem estivesse distraído e então, com um movimento rápido, deslizou furtivamente para a loja.

Com passos leves e silenciosos, ele se aproximou do balcão e avistou o frasco de Glamour cor-de-rosa, reluzindo sedutoramente sob a luz suave da loja. Drake não pôde resistir ao impulso de pegá-lo, então, sem hesitar, ele o agarrou com destreza, escondendo-o dentro de sua jaqueta.

Ele se afastou cuidadosamente do balcão, tentando não fazer barulho, mas o pequeno sino da porta balançou quando ele passou. Drake segurou a respiração, temendo que o homem de rosa notasse algo, mas ele parecia estar totalmente absorto em sua conversa com o sargento.

Drake olhou ao redor, procurando uma saída segura da loja. Os guardas estavam atentos tanto na entrada quanto na saída, o que tornava difícil escapar sem ser visto. Ele sabia que a única opção era contar com sua astúcia.

Olhando para a janela, Drake notou que ela estava aberta. Ele se aproximou com cuidado, certificando-se de que nenhum dos guardas o visse. Com um impulso rápido, ele saltou e agarrou a borda da janela, se impulsionando para fora da loja. Ele aterrissou com um baque suave no chão e, depois de olhar ao redor para garantir que não havia guardas dentro, ele se apressou em direção ao grupo de amigos.

Os Heróis se debatiam entre a multidão, como barcos em águas agitadas em busca de um porto seguro. Artemis, com seus cabelos ruivos esvoaçando ao vento, avistou Drake emergindo de um dos becos escuros. Seu rosto se iluminou com um sorriso radiante, como se tivesse encontrado um tesouro em uma brincadeira de pique-esconde.

"Lá está ele!" exclamou ela, apontando para o jovem com entusiasmo.

Christof, assumiu uma postura mais repressiva em direção ao jovem Drake: "Meu jovem! Aonde você foi?"

"Eu entrei na loja para buscar algumas pistas", disse Drake, com um sorriso pedante.

Christof, sempre sensato e equilibrado, repreendeu Drake com firmeza: "Isso foi muito imprudente, meu jovem. Você colocou sua vida em risco. Somos uma equipe, e não podemos agir impulsivamente".

Schnee, por outro lado, parecia transbordar de orgulho por seu amigo. "Drake, você é incrível! Eu sabia que você seria útil!", disse ele, sorrindo amplamente.

Francisco, curioso como sempre, perguntou: "Então, o que você encontrou lá dentro?", enquanto os Heróis se afastavam da Flamenco Magenta.

Drake olhou para Francisco, ponderando como explicar tudo o que havia descoberto. A loja era um labirinto de pistas e enigmas, cada um mais complicado que o outro. Mas ele não se deixou abater, e perseverou em sua busca pela verdade. "Eu encontrei muitas coisas", respondeu Drake, com um ar misterioso. "E acho que estamos um passo mais perto de descobrir o que está acontecendo".

Drake delicadamente puxou de sua jaqueta um pequeno frasco rosa, envolto em uma fina camada de poeira dourada. Era uma visão esplêndida, quase divina, como se estivesse segurando uma relíquia sagrada nas mãos. O frasco era pequeno, o suficiente para caber na palma da mão, mas continha em si um grande poder - o poder do Glamour.

O líquido dentro do frasco emanava um aroma doce e agradável, como se fosse uma mistura de frutas exóticas e flores raras. Mas por trás da doçura, havia um leve cheiro de sangue, uma reminiscência de suas origens na natureza. Era um perfume atraente, quase hipnótico, que fazia com que o olfato se rendesse à sua presença.

O Glamour era um elixir lendário, capaz de transformar seres não-humanos em humanos por aproximadas 24 horas, e esse frasco continha o suficiente para uma única dose. Era uma poção extremamente valiosa e procurada, desejada por todos os seres falantes da floresta, mas poucos poderiam pagar pelo seu preço exorbitante. Drake sabia disso e tratou o frasco com o cuidado que ele merecia, como se fosse o mais precioso tesouro da floresta.

Schnee olhou para o frasco de Glamour com os seus olhos amarelos felinos arregalados. Ele era um profano e a ideia de poder se transformar em um humano era incrivelmente tentadora para ele.

"Isso é maravilhoso!", exclamou Schnee com entusiasmo, "Eu sempre quis experimentar o Glamour! Imagine poder andar entre os humanos sem medo de ser perseguido ou visto como um monstro."

Drake sorriu para o amigo e disse. "Eu acho melhor a gente guardar ele para quando estivermos em uma área não tão recepitiva com profanos grandão." Drake disse se lembrando dos lugares horríveis em que já esteve e das atrocidades que viu homens fazerem com pessoas diferentes.

"Eu entendo o que você quer dizer, Drake", disse Schnee, com uma expressão séria e pensativa. "Você tem razão."

Drake entregou o frasco rosa de Glamour para Schnee, que segurou-o com as mãos trêmulas, sentindo a excitação percorrer todo o seu ser profano.  Enquanto Schnee se deliciava com a visão do frasco, Christof observava a cena com desconfiança, imaginando os riscos que poderiam advir daquela situação. Drake havia cometido um roubo ao invadir a loja daquele modo, e agora arrastava todo o grupo para uma possível encrenca. Porém, percebendo que tudo havia acabado bem, ele resolveu silenciar e seguir adiante, ciente de que o tempo era precioso e não podiam se dar ao luxo de perder a chance de desvendar o mistério que os cercava.

Schnee guardou o frasco com cuidado em sua bolsa, prometendo a si mesmo que, um dia, encontraria um lugar onde não precisaria esconder sua verdadeira aparência e poderia ser aceito pelo que era. Ele se dirigiu junto aos Heróis ao Jardim da Babilônia, que não era muito longe dali.

Capítulo 8 - Tramas no Jardim.

Os Heróis caminham pelas ruas movimentadas de Kristadelle, seus passos os levando em direção a um lugar bastante peculiar. O Jardim da Babilônia, um prostíbulo de renome na cidade, com uma fachada adornada com cores vivas e bucólicas, que revelava sua verdadeira natureza. Os dois andares da construção, repletos de janelas, quebravam a calmaria matinal, deixando à mostra belas moças em trajes semi-translúcidos, que encantavam os olhares dos homens, como sereias atraem os marujos em alto-mar.

Um letreiro escuro de madeira, com letras prateadas, anunciava o nome do local: "Jardim da Babilônia", juntamente com um curioso símbolo. O desenho de uma casa, cercada por um jardim, do qual brotavam tentáculos dos mais variados tamanhos, causando uma sensação de estranheza e curiosidade nos observadores.

Conforme Christof Dior se aproximava do prostíbulo, sentia fisgadas intensas na região dos olhos e do rosto, deixando-o um pouco desnorteado. Algo estranho estava acontecendo, algo que ele ainda não conseguia entender. Porém, a curiosidade e o propósito dos Heróis os impulsionavam a continuar, mesmo diante desse desconforto incômodo.

Os Heróis param na frente da entrada foram recebidos pelos seguranças que se mantinham postados na entrada. O que estava na esquerda desencosta da parede e diz: "Boa noite, cavalheiros. A entrada para o Jardim da Babilônia custa cinco thaller por pessoa e, por favor, peço que deixem suas armas aqui comigo."


Christof, sofrendo de uma enxaqueca e dor nos olhos inexplicáveis, se virou para  Geofrey com um ar de desconfiança e perguntou: "Por que não podemos levar nossas armas?"

O segurança respondeu sem hesitar: "É uma regra da casa. Para manter a segurança e o controle."

Drake deu de ombros e guardou sua adaga. Já Artemis, animada, retirou um arco e algumas flechas de suas costas e se virou para Schnee "Não vai deixar sua espada grandão."

Schnee apenas cruzou os braços em protesto. Após um momento de silêncio ele se virou para o segurança e disse. "Eu me sinto pelado sem minha espada."

Foi nesse momento que  o outro segurança, entrou em cena. Ele era um homem alto, era capaz de encarar Schnee nos olhos. Sua presença imponente fez com que os Heróis se sentissem um pouco desconfortáveis. Ele não disse uma palavra, apenas bufou e encarou os visitantes com um olhar intimidador.

Artemis riu nervosamente, tentando aliviar a tensão do momento "Por que não escuta eles Schnee... Acho melhor deixar a espada aqui!". Mas a tensão cessou abruptamente quando o segurança monstruoso finalmente abriu a boca para falar. "É bom escutar a sua amiguinha!" A voz dele era fina e até um pouco feminina. Os Heróis se entreolharam, surpresos com a dissonância entre a aparência e a voz de Ju'Fur.

Artemis não conseguiu segurar o riso e os demais Heróis a acompanharam. Ju'Fur ficou claramente magoado e o outro segurança tentou consolá-lo. "Ignore-os, Ju'Fur. Eles só estão rindo de nervoso" disse ele, colocando a mão no ombro do colega.

Ju'Fur olha para os Heróis com uma expressão séria, sua voz fina e quase feminina ecoando no jardim. "Eu sei que minha voz é um problema crônico, mas eu não posso fazer nada sobre isso. Vocês poderiam deixar as armas, por favor!?"

Artemis começa a segurar a risada, sabendo que não seria educado rir da condição de Ju'Fur. "Claro, nós podemos deixar as armas. Desculpe se eu pareci rude", ela responde, tentando ser mais gentil.

Schnee também começa a rir e recuperar o folêgo. "Depois dessa... É claro que vou deixar as armas", ele diz, concordando com Artemis.

Ju'Fur parece magoado com as risadas dos Heróis, mas o outro segurança tenta confortá-lo. "Não se preocupe, Ju'Fur. Eles não sabiam que estavam sendo rudes. Vamos deixá-los entrar e aproveitar.", ele diz, abrindo a entrada do jardim da Babilônia para os Heróis.

Adentrando no salão principal, os heróis foram recepcionados por uma beleza que ultrapassava as expectativas criadas pela fachada do prédio. Cuidadosamente adornado, o ambiente exalava sofisticação e requinte através de suas estátuas femininas esculpidas com maestria, lenços em cores quentes harmonizando com os tons neutros das paredes, candelabros dourados e até uma fonte cujas águas cristalinas dançavam em movimentos hipnotizantes.

Logo à frente, um palco imponente erguia-se majestoso, não para a exibição de uma orquestra, mas sim para satisfazer os desejos dos clientes mais seletos. Não havia cadeiras medíocres de madeira, mas sim almofadas macias e sofisticadas poltronas com mesas baixas, para que os clientes pudessem desfrutar de seus prazeres com conforto e exclusividade.

Entre as alcoviteiras que circulavam pelo salão, a elegância era a palavra de ordem. Desnudas, elas exibiam a beleza de seus corpos esculpidos, puxando gentilmente seus clientes pelo braço. Era impossível não se deixar seduzir pelo ambiente que os rodeava. Tudo era tão belo que, por um instante, os heróis se esqueceram do verdadeiro serviço que era prestado entre aquelas quatro paredes.

Ao adentrar a casa, Artemis se viu em meio a um ambiente novo e desconhecido. As luzes baixas e os sons abafados da música criavam uma atmosfera de mistério e fascínio, mas também de inquietude. Ao olhar ao redor, seus olhos pousaram nas mulheres bonitas que passeavam pelo salão. A jovem se sentiu desconfortável com a intensidade dos olhares predatórios que eram direcionados a ela. Um rubor tomou conta de suas bochechas e ela tentou disfarçar sua insegurança. Ainda assim, ela não pôde deixar de sentir uma sensação de mistério pairando no ar.

Francisco entra naquele ambiente carregado e, ao olhar ao seu redor, sente uma profunda tristeza. O barulho das risadas misturado com os gemidos e sussurros dos quartos nos andares superiores, fazem com que ele sinta um mal-estar crescente. Enquanto tenta se recompor, ele é surpreendido pela suave carícia nas costas. Um arrepio percorre seu corpo e ele vira-se para olhar a mulher que o tocou. Ela é bela, com uma pele morena e macia. Seus cabelos negros são sedosos e caem em cascata pelos ombros. Ela usa um vestido decotado e justo que realça suas curvas voluptuosas, e seus lábios estão pintados com um vermelho intenso e provocante. seus olhos verdes intensos, que parecem escanear sua alma. Ela sorri maliciosamente e diz algo em seu ouvido. "Eu posso ser sua por uma noite, meu amor. Você parece precisar de uma companhia para se distrair dos problemas do mundo lá fora". As palavras fazem o jovem corar, mas ele se afasta delicadamente e segue em direção aos outros membros da equipe. 

Drake adentrou o local com um ar confiante, suas íris escuras percorrendo o ambiente enquanto seus lábios se curvavam em um sorriso malicioso. Ele não se intimidou com a cena diante de seus olhos, afinal, para ele, aquelas mulheres eram apenas trabalhadoras como qualquer outra. Com um aceno de cabeça, ele começou a flertar com algumas delas, seus olhos fixos em seus rostos, fazendo contato visual. Para Drake, a sedução era um jogo, e ele sabia exatamente como jogá-lo.

Friedrich entra no bordel com hesitação, tentando esconder sua inexperiência atrás de um semblante descontraído. A intensidade da cena o deixa inquieto, mas ele segue em frente, afinal, era um herói e precisava estar à altura das circunstâncias. Seus olhos varrem o ambiente, observando as mulheres que se encontram ali e as pessoas ao seu redor. Ele procura manter-se firme, como se já tivesse estado em lugares assim antes.

Christof entrou naquele lugar sombrio com uma postura mais confiante do que seus companheiros, afinal, ele não conseguia ver as partes expostas daquelas mulheres. Ele avançou à frente do grupo, percebendo o desconforto que pairava no ar. Com voz firme, quebrando o silêncio constrangedor, ele ordenou: "Não vamos nos demorar aqui. Espalhem-se e busquem por Cedric Travitrono. Aquele canalha deve estar se escondendo em algum canto deste lugar."

Os Heróis se espalharam pelo bordel, tentando encontrar qualquer pista que pudesse leva-los até Cedric Travitrono. Cada um seguiu por um caminho diferente, observando tudo ao seu redor com cautela. Algumas das mulheres os olhavam com curiosidade, outras com desdém, enquanto outras tentavam chama-los para um quarto privado. Mas eles não se distraíram, focados em cumprir a missão. O ar era impregnado com o perfume doce das velas e dos corpos suados. Os sons do amor e do prazer eram inconfundíveis, misturando-se com o som de taças de vinho sendo erguidas. Os Heróis se moveram silenciosamente, procurando por qualquer sinal de Cedric Travitrono ou de seus capangas.

Depois de um tempo andando pelo bordel, Artemis sentiu a necessidade de se sentar um pouco, aidna estava um pouco tímida com a situação e decidiu se sentar em um dos sofás. Para sua surpresa, a alcoviteira sentou ao seu lado e começou a puxar conversa.

"Você é nova aqui, né? Nunca te vi antes", disse a mulher com um sorriso malicioso. A Mulher estava provavelmente na casa dos quarenta anos. Seu rosto marcado pelo tempo, as rugas no canto dos olhos denunciavam muitas noites em claro. Seus cabelos loiros estavam presos em um coque frouxo, alguns fios soltos caíam sobre seus ombros. Ela vestia uma blusa de seda decotada e uma saia justa que realçava suas curvas. Seus olhos eram verdes e brilhavam com malícia enquanto ela se dirigia a Artemis.

"Sim, é minha primeira vez aqui", respondeu Artemis, ainda um pouco desconfortável com a situação.

"Ai, minha filha, você tem muito o que aprender ainda. Mas pelo jeito que está vestida e o perfume que está usando, já deve ter caçado uns bons clientes, hein?", disse a alcoviteira com um sorriso de canto.

Artemis, confusa, pensou que a mulher estava se referindo à sua experiência em caça aos animais. "Sim, eu já cacei muitos. Sou muito boa nisso", disse ela, tentando se gabar.

A alcoviteira se senta na da almofada e pergunta com um sorriso malicioso: "Então, colega, qual foi o seu recorde?"

Artemis franze a testa, sem entender bem a pergunta. "Recorde? Como assim?" 

A alcoviteira ri e responde."Quantos clientes você já atendeu em um dia, querida!" 

Artemis fica impressionada com o interesse em caçada da mulher. "Ah, entendi... Bem, em um dia? Há, foi para mais de 14! Sem contar os pequenos." 

A alcoviteira ri novamente e fala: "Isso é muito pouco, querida! Ainda tem muito o que aprender. Na sua idade eu fazia o dobro disso na metade no tempo."

Artemis fica confusa, sem entender muito bem a situação. "Eu realmente não entendo. Como vocês conseguem caçar tantos assim por dia? Deve ser muito difícil."

"Ah, não se preocupe, querida. Não é tão difícil quanto parece. É apenas uma questão de técnica e experiência. Eu já trabalho nisso  há muitos anos e já perdi a conta de quantos clientes já atendi." Disse a mulher se expreguiçando.

Artemis ficava cada vez mais interessada naquela mulher que ela pensava ser uma experiente caçadora"Mas vocês usam armas ou alguma técnica especial? Eu sou uma ótima arqueira, talvez pudesse ajudar."

A mulher estranhou as perguntas de Artemis, e arqueou as sombrancelhas assombrada "Armas? Técnicas especiais? Oh, querida, você ainda é muito jovem pra esse tipo de coisa. Se foque em usar suas habilidades naturais e nossos encantos para pega-los. É tudo uma questão de persuasão e sedução."

Artemis para pra refletir. "Sedução? Mas eu nunca fiz isso antes..." Diz a menina se jogando incrédula na almofada.

A mulher se vira para menina percebendo sua confusão "Não se preocupe, querida. Com o tempo você aprende. E se quiser, posso te dar algumas dicas. Afinal, eu sou a melhor caçadora deste lugar."

Artemis suspira. "Puxa. E eu me achando a especialista... Qual foi o maior animal que você caçou?"

A alcoviteira olhou para Artemis, agora ainda mais confusa, e perguntou: "Animal? Do que você está falando, minha filha?"

Artemis então percebeu o mal-entendido e ficou extremamente envergonhada, corando. "Ah, eu pensei que você estivesse falando de caçar animais... Eu sou uma caçadora, sabe?", tentou se explicar.

A alcoviteira soltou uma gargalhada alta e disse: "Minha querida, aqui caçamos outros tipos de presas. Mas se você precisar de umas dicas, é só me falar". E riu novamente, deixando Artemis ainda mais constrangida.

Drake perambulava pelo salão do bordel, desviando habilmente das mulheres que caminhavam ao seu redor. Seu olhar se fixava nas sacadas do segundo andar, onde a elite do bordel se reunia para se divertir com as apresentações artísticas. Ao passar pelo palco, ele notou dois homens sentados em almofadas próximas, claramente desprovidos de beleza e com uma sombrancelha rapada, denunciado seu envolvimento na Mílicia Monocelha. Contudo, estavam acompanhados por mulheres que, em outras circunstâncias, jamais estariam em sua companhia.

Drake aproximou-se casualmente e escutou o final de uma conversa entre eles. O primeiro, de nariz bulboso e pelos saindo das narinas, perguntava: "Será que o Chefa vai demorar muito lá em cima? Eu queria conseguir ver o show da Kobal!".

O segundo, com uma cicatriz horrível no lábio superior, respondeu com um tom entediado: "O Chefe sempre fica pelo menos meia-hora babando o ovo do Hallux. É sempre assim. Relaxa que vai dar tempo e sobrar!".

Drake avistou Christof sentado em um dos sofás próximos a ele, em meio a uma conversa com uma prostituta. Ao se aproximar, percebeu a agonia estampada no rosto do amigo. As veias aparentes em sua testa e os olhos cegos pareciam querer saltar das órbitas. Drake sabia que algo estava errado, mas não teve tempo para indagar. Rapidamente informou "Cedric está no segundo andar, na reunião com Hallux". 

Christof balançou a cabeça, como se tentasse espantar a dor que o consumia, e disse, em um tom entrecortado: "Vou arranjar um jeito de subir. Avise aos outros para ficarem atentos." Drake assentiu e se afastou, deixando Christof na companhia da prostituta e sua agonia silenciosa.

Christof tateava com sua bengala o chão, em busca do acesso para o segundo andar do bordel. Seus dedos calejados tentavam encontrar qualquer saliência que o conduzisse ao caminho correto. Repentinamente, ele parou. Uma figura alta e esguia trajando vestes negras e uma máscara de cobre que cobria metade de seu rosto bloqueava o seu caminho.

"Olá", disse Christof, fingindo estar perdido. "Estou procurando o acesso para o segundo andar."

A resposta da mulher foi firme e direta: "A subida é autorizada apenas na presença de uma acompanhante do bordel."

Christof percebeu a situação e, com aguçada sedução, desviou sua atenção sonora para as jovens que vagavam por perto. Ele se aproximou de uma delas e perguntou: "Boa tarde, jovem dama. Gostaria de saber se seus serviços estão disponíveis?"

A mulher respondeu sem hesitação: "Com certeza, meu amado!" E gentilmente pegou-o pelo braço, conduzindo-o de volta para o acesso ao segundo andar. Aonde a mulher mascarada os aguardava abrindo o caminho para os quartos acima. 

A mulher alta e esguia estava envolta em um longo vestido preto, que caía elegantemente sobre seus quadris e se estendia até os tornozelos. Seus cabelos castanhos estavam amarrados em um coque apertado no topo da cabeça, com alguns fios caindo suavemente ao redor de seu rosto. Mas o que é verdadeiramente mais marcante é a sua máscara de cobre que ela usava. A máscara cobria metade do rosto, deixando à vista apenas a parte inferior, onde os lábios vermelhos e cheios eram visíveis.

A máscara de cobre era um objeto curioso e bem trabalhado, com ornamentos em relevo em sua superfície. Haviam arabescos em estilo barroco, que se entrelaçavam em padrões complexos ao redor dos olhos e das bochechas. A parte inferior da máscara era recortada em pequenos buracos que permitiam a respiração, enquanto a parte superior era mais sólida, com detalhes em relevo que se destacavam contra a luz.

O coração de Christof acelerou enquanto ele seguia a mulher em direção ao segundo andar aonde a reunião de Cedric com Hallux acontecia. Ele sabia que precisava estar alerta, mas sua atenção era dividida entre a dor lasciva que sentia naquele maldito lugar e a urgência de sua missão. Ele respirou fundo e se preparou para o que viesse pela frente.

Enquanto isso no primeiro andar Schnee e Francisco estavam parados em frente ao palco do Jardim da Babilônia, vasculhando a área em busca de pistas. Uma música exótica começou a tocar, ecoando pelas paredes do bordel. Uma mistura de sons exóticos de instrumentos de sopro, cordas e percussão. Os violinos e violoncelos produziam um som melodioso, enquanto as flautas e gaitas de foles criavam um ritmo envolvente e empolgante. Os tambores e os pratos adicionavam um som rítmico e pulsante à música. Os músicos eram habilidosos, tocando em perfeita harmonia, criando uma atmosfera hipnótica.

De repente, uma mulher apareceu no palco, alta e esbelta, com cabelos escuros curtos e olhos escuros e penetrantes. Ela usava um vestido justo de seda vermelha, com mangas compridas e decote baixo, que acentuava suas curvas. Seus lábios estavam pintados de vermelho brilhante, e sua pele era suave e pálida. Ela parecia uma rainha em meio à multidão de prostitutas e clientes do bordel.

Com uma voz melodiosa e doce, ela anunciou o show de Kobal: "Prezada clientela, é chegada a hora mais aguardada da nossa tarde, o primeiro show de Kobal. A Dança do Meio Dia!" Suas palavras foram acompanhadas por um aplauso entusiasmado da plateia, que esperava ansiosamente pelo espetáculo que estava por vir.

Atrás da cortina, a silhueta da figura feminina se movia graciosamente. Quando ela finalmente apareceu, Schnee e Francisco ficaram chocados com a sua aparência. Ela era cercada por escamas douradas, com roupas vermelhas que realçavam ainda mais sua beleza exótica. Seus movimentos eram tão sincronizados com a música que pareciam uma extensão dela. Schnee notou os dedos da dançarina, terminados em poderosas unhas negras que poderiam ser facilmente confundidas com garras. Os olhos da mulher eram alaranjados e reptilianos, sem cabelos e no lugar havia o que parecia ser uma crista de lagarto.

Duas moças mascarados se aproximaram do palco, cada um carregando um objeto. O primeiro era uma garrafa marrom cercada por uma cabaça de palha, o segundo era uma haste de metal com um pano molhado na boca.

Kobal tomou a garrafa da mão de uma delas, e entornou na boca sem engolir o líquido que continha. Em seguida, ela ateou fogo ao pano molhado na haste, transformando-o em chamas. Com movimentos graciosos, ela se tornou um com o fogo e, por alguns instantes, parecia flutuar sobre o palco. Cada gesto era uma explosão de cor, luz e movimento. O público estava hipnotizado, completamente cativado pela dançarina exótica.

Com um último movimento, ela cuspiu o líquido da garrafa em chamas, criando uma língua de fogo que subiu alto no ar, encerrando sua apresentação de forma majestosa. Schnee e Francisco trocaram olhares, maravilhados com o espetáculo que acabavam de presenciar. O Jardim da Babilônia não parava de surpreendê-los.

Enquanto assistia a dança exótica de Kobal no palco, Schnee se lembrava de uma criatura mestiça conhecida como Drachekin. Ele havia estudado sobre essas criaturas na Escola de Zielkfrat. Os Drachekin eram uma mistura entre humanos e dragões, e eram conhecidos por serem extremamente ferozes e territorialistas. Schnee se lembrava de ler que eles eram uma das criaturas mais temidas nas terras orientais.

Enquanto observava Kobal dançar no palco, Schnee percebeu algumas semelhanças físicas com os Drachekin que havia estudado. Suas escamas e olhos reptilianos eram características distintivas dos Drachekin. Schnee começou a se perguntar se a dançarina poderia ser uma dessas criaturas mestiças.

No entanto, Schnee sabia que os Drachekin eram extremamente raros e não eram vistos com frequência fora de suas terras de origem. Ele sabia que seria um grande desafio para uma criatura como essa se misturar entre os humanos e trabalhar em um bordel. No entanto, a semelhança física era notável e Schnee não conseguia deixar de se perguntar se a dançarina de escamas douradas era, de fato, uma Drachekin disfarçada.

O espetáculo de Kobal alcança o seu clímax, deixando o público em êxtase. Os aplausos e os gritos de euforia enchem o ambiente do bordel. Enquanto a multidão celebra, um som de comemoração em particular chama a atenção de Fransisco. O som lhe é familiar, e ele segue a melodia para encontrar a fonte. É então que vislumbra seu amado pai sentado em uma mesa repleta de bebidas, levantando-se de forma entusiasmada para aplaudir o deslumbrante show de Kobal.

Fransisco sentiu seu coração afundar no peito ao ver seu pai ali, comemorando como se não houvesse amanhã. Sentiu seu rosto corar de vergonha, como se estivesse fazendo algo errado ao estar ali, assistindo ao show de Kobal. Tentou se esconder por trás das pessoas que estavam em volta dele, mas sabia que não seria suficiente para escapar do olhar do seu pai.

E então, num momento de descuido, seus olhos se encontraram. Fransisco sentiu como se o chão se abrisse sob seus pés e o engolisse inteiro. Seu pai sorriu para ele, os olhos brilhando de alegria e embriaguez, e levantou-se cambaleante da mesa, segurando com força na garrafa de bebida que tinha em mãos.

"Parceirinho! Que surpresa ver você aqui, meu garoto!", ele disse, vindo em direção ao filho com passos desequilibrados.

Fransisco sentiu um arrepio percorrer sua espinha ao ouvir aquela palavra, que lhe remetia a uma época em que tudo era mais simples e ele ainda não havia se afastado tanto do pai. Mas agora, naquele momento, ele só queria desaparecer dali.

"Oi, pai... eu não esperava encontrar o senhor aqui", respondeu Fransisco, com a voz um pouco trêmula.

Seu pai riu alto, o hálito carregado de álcool.

"Eu vim com uns amigos, meu filho. E olha só, acabei encontrando você aqui! Vamos beber juntos, comemorar esse momento maravilhoso", disse ele, oferecendo a garrafa para o filho.

Fransisco recusou educadamente, mas seu pai não parecia querer desistir tão facilmente. A cena chamava a atenção de alguns curiosos que passavam por ali, e o constrangimento do jovem só aumentava.

O pai de Fransisco continuou a beber e a fazer perguntas inapropriadas, oferecendo a seu filho alguns dos serviços do bordel."Ah, parceirinho, não precisa ficar envergonhado não! É normal vir aqui, todo homem precisa de um pouco de diversão de vez em quando. Olha só, aquela morena ali do outro lado do salão, já me disseram que ela é uma deusa na cama. Você devia experimentar!" 

Fransisco se sente cada vez mais desconfortável com as palavras do pai e tenta explicar: "Pai, eu não estou aqui por lazer. Eu estou procurando por uma pessoa. Eu preciso encontrar informações sobre ela. "

Seu pai, embriagado demais para entender, simplesmente riu e o chamou de "fresco".

"Ah, para com isso, parceirinho", disse ele, passando um braço ao redor do ombro de Fransisco e quase o derrubando. "Você precisa se soltar um pouco, sabe? Relaxar, aproveitar a vida. Essas meninas são todas muito bonitas, não acha?"

Fransisco se esquivou do abraço do pai, sentindo-se ainda mais desconfortável. "Não, pai, por favor", disse ele. "Eu estou aqui em uma missão. Não posso me distrair com essas coisas."

O pai de Fransisco franziu o cenho, sem entender. "Uma missão? Do que você está falando, filho? O que você está fazendo aqui, afinal?"

Fransisco suspirou, sentindo-se frustrado. Como explicar a seu pai que ele era um herói, que estava em uma missão para salvar a cidade? Era algo que seu pai nunca entenderia. Ele decidiu ser sincero, mesmo que fosse difícil.

"Eu estou investigando o mistério das crianças desaparescidas, pai", disse ele. "Estou aqui para ajudar elas."

Seu pai riu, achando que era uma piada. "Investigador? Você? Ah, para com isso, Fransisco. Você sempre foi tão certinho, tão certinho. Nunca fez nada de emocionante na vida. Como pode ser um investigador de crianças desaparescidas?"

Fransisco sentiu-se ainda mais envergonhado, mas manteve a calma. "Eu precisso ir pai, se cuide."

Ele se afastou do pai, deixando-o cambaleando e rindo sozinho. Fransisco sabia que teria que lidar com a vergonha e do pai por muito tempo, mas isso não o impediria de cumprir sua missão.

Christof subia os degraus da escadaria do segundo andar com passos vacilantes, seus olhos cegos ardiam intensamente, parecendo piorar a cada degrau. A moça que o acompanhava notou sua dificuldade e perguntou com preocupação: "Está tudo bem, meu bonitão?" Christof tentou recuperar o fôlego e olhou para o nada, como se ainda estivesse tentando compreender o que estava acontecendo. "Sim, estou bem. Só preciso me recuperar um pouco", respondeu com esforço.

De repente, o homem parou na escada e se virou para a moça com um sorriso amistoso. "Peço desculpas por não ter perguntado o seu nome ainda", disse ele. A moça sorriu de volta, seus lábios avermelhados e brilhantes em contraste com sua pele pálida. "Não se preocupe com isso, meu bem. Meu nome é Isabella", respondeu com uma voz suave e doce como mel.

Ela era uma mulher de meia-idade, com curvas generosas e cabelos longos e castanhos-escuros que caem em ondas até a cintura. Ela tem traços atraentes, com um nariz afilado e lábios carnudos, mas é sua expressão que atrai mais atenção. Seus olhos são de cores diferentes: um é azul claro, enquanto o outro é verde-escuro.

Essa peculiaridade em sua aparência, às vezes chamada de heterocromia, é acentuada pelas sobrancelhas perfeitamente arqueadas que acentuam a diferença de cor. Isabella tem um ar de confiança e experiência, e sua voz rouca e suave adiciona à sua sensualidade natural. Ela é vestida com roupas escuras, como um vestido justo preto com decote profundo.

O segundo andar do Jardim da Babilônia é um espaço aconchegante, mas ao mesmo tempo luxuoso e refinado. À medida que Christof sobe a escadaria, a sensação é de estar deixando para trás o mundo caótico e ruidoso do térreo, e entrando em um lugar onde a intimidade e o prazer são a moeda de troca.

O corredor do segundo andar não é reto, mas sim quadrado, com vista para o primeiro andar, quase como se abraçasse os quartos em um carinho sutil. O piso é de madeira nobre, polido e lustroso, e o ambiente é iluminado por velas e  castiçais penduradas nas paredes, que projetam sombras e reflexos suaves pelo corredor.

À direita e à esquerda, é possível ver as portas decoradas e adornadas de madeira que dão acesso aos quartos. Cada uma delas é única, com diferentes padrões de entalhe e acabamento, e todas elas possuem maçanetas douradas, que reluzem à luz das lanternas.

No lado oposto de onde se acessa o segundo andar pela escadaria, há uma grande e imponente porta dupla com maçanetas douradas. Ao longo do corredor, Christof pode ouvir gemidos e gritos de prazer vindos dos quartos, misturados com a música suave e sensual que toca em um som ambiente. Cada quarto é uma pequena caixa de surpresas, com uma decoração única e um clima particular de erotismo e sedução.

Christof agradeceu a Isabella"Muito obrigado pela sua companhia e por me mostrar o caminho até aqui. No entanto, eu gostaria de fazer uma pausa antes de continuar. Será que poderíamos ir até a sacada do segundo andar? Eu gostaria de pegar um ar."Ele sabia que Isabella o seguiria, mas precisava despistá-la para investigar o escritório do dono do bordel.

Assim que chegaram à sacada, Christof disse: "Obrigado por me acompanhar, Isabella. Mas acho que gostaria de ficar um pouco sozinho, se não se importa."

Isabella sorriu e disse: "Claro, bonitão. Não se preocupe, eu vou ficar por perto se precisar de alguma coisa."

Christof respirou fundo e caminhou furtivamente em direção à porta do escritório do dono do bordel, a grande porta dupla com maçanetas douradas. Nesse momento, Christof ouviu passos vindo em sua direção. Ele se virou e sentiu o doce aroma de Isabella se aproximando. Ele pensou rápido e disse: "Isabella, acabo de perceber que deixei meus medicamentos lá embaixo. Você poderia buscar para mim?"

Isabella hesitou por um momento, mas Christof insistiu: "Por favor, Eu não estou me sentindo muito bem. Eu vou esperar aqui." Finalmente, a mulher concordou e desceu as escadas em busca dos medicamentos de Christof.

A grande porta dupla à frente de Christof era uma obra-prima de carpintaria, feita de madeira nobre escura e polida, com linhas sinuosas entalhadas em sua superfície lisa. A dupla maçaneta dourada brilhava à luz fraca, como um convite sedutor para quem desejasse entrar.

Christof pressiona seu ouvido contra a porta dupla, tentando capturar cada palavra que é dita do outro lado. Os murmúrios inaudíveis logo se tornam conversas claras, conforme ele ajusta seu ouvido para a fresta da porta.

"Obrigado, Cedric", responde Hallux Wenthor, o proprietário do bordel. "Mas espero que você entenda que não seria bom para Lorenzini ser afiliado a alguém tão extravagante quanto você."

"Extravagante?" Cedric parece confuso. 

 "Extravagante. Aquilo que está fora do uso geral, habitual ou comum; estranho, excêntrico!" Explica Hallux.

Cedric diz com uma alteração em sua voz. "Eu sei o que significa... mais ou menos. Mas por que eu seria extravagante?"

"Você é inimigo público da coroa de Kristadelle, criando arruaças desnecessárias e agora toda essa questão das crianças", diz Hallux. "Isso é uma bomba esperando para explodir."

Christof ouve a voz de Cedric começar a protestar, mas é interrompido por Hallux. "Não insista Cedric! Antes de prosseguirmos, creio que seja viável acrescentarmos os ouvintes ao debate!"

Christof sente seu coração acelerar enquanto a porta começa a se abrir. Ele tenta se esconder, mas é tarde demais. Ele cai no tapete chique dentro do escritório de Hallux, diretamente sob o olhar surpreso dos dois homens.

"Quem é você?", pergunta Hallux com uma voz dura.

Christof se levanta, sacudindo o pó do terno. "Desculpe-me pela intromissão, senhores. Eu estava apenas de passagem e ouvi a conversa de vocês."

Hallux olha para Cedric com desconfiança. "Você o conhece?"

Cedric sacode a cabeça. "Nunca o vi antes."

Christof vê uma oportunidade de se retirar da situação. "Mil perdões senhores. Acho que esse não é meu quarto! Eu tenho um problema de visão."

Christof tentou manter a calma e continuar a sua história de cobertura "Me desculpe, senhor. Não quis causar nenhum problema. Eu sou apenas um velho cansado procurando por um lugar para passar a noite. Não tenho nenhuma intenção maliciosa aqui, apenas queria me divertir." 

Mas sua tensão estava óbvia.  Ele tremia enquanto se apoiava na parede, suando frio enquanto a verdadeira natureza de sua visita começava a emergir. Ele tentou se justificar, explicando que havia se perdido e que não sabia que esta era a sala de Hallux, mas suas palavras falharam em convencer a dupla.

Hallux olhou para Cedric com uma sobrancelha levantada, um sorriso astuto aparecendo em seus lábios. Cedric, no entanto, parecia à beira de explodir.

"O que é isso, Hallux?" Ele rosnou, avançando em direção a Christof. "Esse homem é um espião de Lorenzini? Ele vai reportar para seu chefe sobre mim é isso?"

Hallux deu de ombros, ainda sorrindo. "Não seja estúpido. Sobre ele trabalhar para Lorenzini eu posso lhe dizer que não. Mas a parte dele ser um espião... Eu não posso dizer com certeza, mas parece bastante suspeito que ele tenha acabado aqui no meu bordel enquanto procurava por você, Cedric. E com o seu pequeno problema com as autoridades de Kristadelle, bem, é evidente que isso iria atriar olhares... Ou no caso dele. Ouvidos. Interessados."

Christof tentou recuar, mas as mãos sujas de Cedric o agarraram pelos ombros. "FILHO DE UMA MERETRIZ POSTULENTA! Agora eu entendi tudo... Meus homens me falaram essa manhã que Otto tinha vazado informação... Eu não quis acreditar. Você é o cego que tá ajudando aquela Pirralha ruiva da Artemis!? Como ousam espionar a mim?! Perderam o senso de perigo!"

A voz de Cedric ecoou por todo o bordel, fazendo com que a música parasse e as cortinas se agitassem. O resto do bordel silenciou, curiosos com o que estava acontecendo.

Christof tentou se soltar, mas as mãos de Cedric estavam firmes em seus ombros. Ele respirou fundo, tentando se acalmar. "Eu não estou espionando ninguém", disse ele, tentando manter a voz firme. "Eu não sabia que estava aqui. Eu juro."

Cedric o empurrou de volta contra a sacada, um sorriso desdenhoso em seus lábios. "Você jura?" Ele zombou. "Você espera que eu acredite em um cego mentiroso como você?" Christof cambaleou para trás, quase caindo da sacada, enquanto Cedric o empurrava com força. Os heróis lá embaixo observavam tudo, impotentes, enquanto o amigo deles se encontrava em uma situação tão perigosa.

"Eu juro", respondeu Christof, tentando manter a calma, apesar da sua posição precária. "Eu sou apenas um cliente em busca de prazer, nada mais."

Cedric riu zombeteiramente. "Você é um mentiroso terrível", disse ele, pressionando ainda mais Christof contra a sacada. "Mas isso não importa. Eu tenho outros métodos para descobrir a verdade."

Hallux saiu da sala de seu escritório e se aproximou da sacada, onde Cedric e Christof discutiam acaloradamente. Os heróis lá embaixo finalmente puderam ver o dono do bordel pela primeira vez. 

Hallux vestia roupas nobres e refinadas, de estilo barroco, com cores fortes e vibrantes. Sua roupa consistia em um traje justo de seda roxa, com uma gola rendada branca que descia até o peito. O colete em brocado dourado era adornado com botões de prata e pérolas, e a jaqueta com abas amplas em brocado dourado tinha mangas compridas e amplas com punhos de renda branca. As calças justas em seda roxa eram presas ao colete com tiras de couro, e botas de couro negro com saltos altos completavam seu traje.

Seu cavanhaque deixava sua face mais triangular e seu fino bigode compunha sua feição maquiavélica. Seus cabelos eram penteados para trás e presos em um corte curto e bem feito. Em seu dedo indicador esquerdo, ele usava um anel de ouro cravejado de pedras preciosas. O contraste entre suas roupas nobres e sua aparência maquiavélica criava uma presença imponente e temível.

Ao ver seu chefe na sacada, os Rufiões do primeiro andar que compunham a Milícia Monocelha ficaram empolvorosos e começaram a incentivar Cedric em sua fúria contra o homem cego lá em cima. "Mostre para ele quem é que manda, Chefe!" gritou um deles.

Cedric virou-se para encarar Hallux com desdém. "Você sabia sobre isso, não sabia?", ele acusou. "Sabe que esses vermes estão trabalhando com a Pirralha da Artemis e mesmo assim os deixa entrar no meu estabelecimento."

Hallux apenas arqueou uma sobrancelha. "Eu não tenho controle sobre as ações de meus clientes, Cedric", respondeu ele em tom suave, mas com um olhar penetrante em direção aos heróis lá embaixo. "Agora, por favor, acalme-se. Isso não é bom para os negócios."

Mas Cedric não se acalmou. Ele agarrou Christof pelo colarinho e o empurrou novamente contra a sacada. "Você me deve uma explicação, seu verme!" ele rosnou. "Por que está aqui? Quem é você realmente?"

Christof tentou se soltar do aperto de Cedric, mas não teve sucesso. Os heróis lá embaixo observavam tudo com preocupação, sem saber o que fazer.
Os heróis olhavam para cima, preocupados com o destino de Christof. Eles sabiam que tinham que agir rápido para salvá-lo, antes que fosse tarde demais.

Artemis emergiu da multidão do bordel com a determinação em seu olhar. Ela ergueu a voz para alcançar a sacada do segundo andar onde Cedric estava, seus olhos fixos no homem que oprimia seu amigo. Com uma voz firme e forte, ela gritou "Cedric!" O homemvirou-se abruptamente para encará-la, uma carranca sombria no rosto, enquanto a música ao fundo desaparecia gradualmente, deixando apenas o eco de sua voz na sala. "Deixe o meu amigo em paz", ela berrou para ele.

Cedric se enfureceu ainda mais com a presença da jovem. "Você!" ele rosnou. "Eu sabia!"

Artemis se ergueu para ficar em pé sobre os dedos dos pés. "Descobrimos tudo, Cedric", ela disse com firmeza. "Sabemos que você está envolvido com os sequestros. Vamos expô-lo e levá-lo à justiça."

Cedric riu com desdém. "Você não tem nada contra mim, minha querida", ele disse com um sorriso maquiavélico. "E mesmo que tivesse, eu tenho aliados poderosos do meu lado... Vocês estão em desvantagem."

Drake, que estava observando a cena com atenção, percebeu que os rufiões da Milícia Monocelha começaram a se aproximar do grupo dos Heróis. "Artemis, temos que sair daqui..." Drake tentou alertar a jovem, mas ela estava tão focada em sua discussão com Cedric que não prestou atenção.

Foi só quando os rufiões começaram a cercá-los que Artemis finalmente percebeu a situação. "Merda", ela sussurrou para si mesma enquanto via que eles estavam em desvantagem numérica.

Cedric abriu um sorriso caçoador enquanto observava a cena lá de cima. "Não parece tão confiante agora!", ele disse com um tom ameaçador. "Acho que é hora de vocês aprenderem uma lição."

Com os rufiões cercando-os, os Heróis perceberam que precisavam agir rápido. Artemis, impulsionada pelo seu idealismo e impulsividade, pensou em se jogar contra os rufiões e tentar escapar. Mas Drake, com sua astúcia e coragem, propôs um plano diferente.

"Todos juntos, cada um de nós em uma direção diferente. Nós os confundimos, eles vão ter que escolher quem seguir", disse ele, enquanto olhava ao redor para avaliar a situação.

Friederich bufou de raiva por ter deixado sua espada fora do bordel "Maravilha... Ainda bem que eu me aqueci no Clube de Luta.". Fransisco, mesmo com medo, seguiu a liderança de seus companheiros.

Christof Dior encontrava-se no andar de cima. As fisgadas em seus olhos agora pareciam ter tomado proporções épicas, a dor intensa queimando como uma brasa incandescente. Ele tentava manter a compostura, mas a agonia era cada vez maior. O explorador aposentado sentia-se impotente diante da situação, seus sentidos o traíam enquanto os rufiões cercavam seus amigos no andar de baixo.

Assim que eles começaram a se mover, os rufiões ficaram momentaneamente atordoados. Mas logo recuperaram a compostura e começaram a perseguir os Heróis, que corriam em direções diferentes, tentando despistá-los.

Enquanto isso, Christof permaneceu no segundo andar, sentindo suas pálpebras cada vez mais pesadas, mas determinado a proteger seus amigos. Cedric estava lá, ainda rindo e zombando de sua situação.

Cedric avançou em direção a Christof, zombando do homem cego que estava acuado no segundo andar do bordel. "Vocês perderam, seu velho tolo", debochou Cedric, com um sorriso sádico no rosto. Mas Christof não era um homem indefeso. Com movimentos ágeis e precisos, sacou sua bengala e, com uma lâmina escondida, apontou-a para a garganta de Cedric, fazendo-o recuar e erguer as mãos em rendição. Mesmo com os sentidos nublados dor crescente, Christof mostrou que sua habilidade com a espada ainda era tão afiada quanto o metal que a compunha.

Christof se aproximou da sacada, sabendo que seus amigos precisavam de sua ajuda. Com seus sentidos aguçados, ele podia ouvir a luta de seus amigos.

Christof caminhou com cuidado até a sacada, a lâmina da bengala ainda em riste, pronta para o combate. Ele sabia que seus amigos estavam em perigo, e seus sentidos aguçados captavam cada ruído da batalha que se desenrolava abaixo. Com seus ouvidos treinados, ele podia distinguir o som de cada golpe e o som das respirações ofegantes, o que o deixava ainda mais determinado a ajudar seus companheiros de luta.

Em uma fração de segundo, Artemis avaliou suas opções e agiu. Sem hesitação, agarrou a primeira coisa que viu, uma cadeira próxima, erguendo-a acima da cabeça como um escudo improvisado. O objeto foi transformado em uma arma formidável nas mãos habilidosas da guerreira. Com movimentos precisos, ela desviava golpes, mantendo-se sempre entre os rufiões e os seus amigos.

Drake, por sua vez, avançou em direção a uma mesa pesada, arrastando-a pelo chão com um ruído ensurdecedor. A mesa foi posta em pé, formando uma barreira sólida e resistente que separava os dois grupos. A madeira rangia sob a pressão dos socos e chutes que os rufiões desferiam na tentativa de derrubar a barricada improvisada.

Enquanto isso, Fransisco usava a própria agilidade como arma. Com movimentos rápidos e graciosos, ele corria em círculos em volta dos inimigos, usando a sua magreza e miudeza como vantagem. Os rufiões tentavam agarrá-lo, mas ele era ágil demais, esquivando-se habilidosamente de seus golpes. Com isso, ele mantinha a atenção dos rufiões dividida, criando oportunidades para que seus amigos atacassem ou escapassem.

Enquanto a luta se intensificava no Jardim da Babilonia, Friederich cerrava os dentes em frustração por ter sido forçado a abandonar sua amada espada. Contudo, ele não se deixou abater por isso e, usando sua força sobrenatural, agarrou os rufiões com facilidade, lançando-os para longe como se fossem meras bonecas de pano. A batalha tornou-se um caos frenético, com mesas e cadeiras sendo usadas como armas improvisadas, taças sendo arremessadas, e gritos e xingamentos ecoando pelos corredores estreitos do bordel. A tensão no ar era palpável, enquanto os Heróis lutavam bravamente, usando o cenário do bordel ao seu favor para confundir e enganar os rufiões.

A clientela e as prostitutas assistiam à cena com terror e espanto, algumas se escondendo em cantos escuros, outras tentando correr para fora do bordel em busca de segurança. As luzes coloridas e os espelhos que adornavam o local agora refletiam cenas de caos e destruição, enquanto os gritos e as vozes enfurecidas dos rufiões e dos Heróis preenchiam o ar. Aquele era um dia em que o Jardim da Babilônia jamais esqueceria.

Fransisco corria pelo cenário, desviando dos rufiões que o perseguiam. De repente, ele ouviu uma voz conhecida chamando seu nome. Era seu pai, completamente embriagado, que acabara de se levantar de uma das almofadas. "Parceirinho, o que você está fazendo?" disse seu pai, com dificuldade para se equilibrar.

"Eu to um pouco ocupado agora pai!" gritou Fransisco, ofegante.

"Ah, entendi. Você está brincando de pique-pega com esses moços bonitos. Eu também quero brincar!" respondeu o pai, animado.

Fransisco arregalou os olhos e tentou explicar, mas era tarde demais. Seu pai já estava correndo em direção aos rufiões, gritando "Pique-pega, eu vou pegar vocês!". Disse o pai estendedo os braços em uma possição defensiva esdruchula, pouco antes de ser atropelado pelo grupo de cinco rufiões. No chão o velho Herrara falou anestesiado pelo alcool. "Acho que eles que me pegaram."

Hallux soltou um forte assobio que fez os vidros do bordel vibrarem. O breve conflito cessou abruptamente, trazendo uma sensação de choque e silêncio. Ele se aproximou dos Heróis, com um olhar intimidador.

"Não esperem que eu vá deixar vocês destruírem o meu Bordel na briguinha enfadonha de vocês! Enquanto Cedric estiver sob este teto, ele é meu convidado, e qualquer mal feito contra ele é um desacato direto a Hallux Wenthor. Eu vou pedir gentilmente apenas uma vez: Retirem-se da minha casa", disse Hallux, sua voz ressoando por todo o ambiente.

 Hallux lentamente retornava para o topo da escada. "Vocês podem ter vindo aqui com boas intenções, mas a partir do momento em que começaram a destruir meu estabelecimento, se tornaram criminosos. Então eu sugiro que se retirem agora, antes que as coisas piorem ainda mais. Não estou tomando partido, mas até agora só vi vocês se defendendo dos rapazes de Cedric. Se eu ver qualquer outra atitude hostil de vocês, vou considerar como uma ação inimiga e agirei em conformidade."

Os Heróis se entreolharam, entendendo a situação. Eles tinham vindo até ali apenas para interrogar Cedric, não para causar problemas. Hallux tinha razão, eles estavam destruindo o bordel enquanto lutavam contra os rufiões.

"Não queremos causar problemas, Hallux. Apenas viemos ajudar nosso amigo. Mas você tem razão, não podemos destruir sua casa. Vamos sair", disse Christof, com um tom de voz calmo.

Hallux assentiu, seu olhar ainda intimidador. "Conhecem a saída", disse ele, com um tom de voz que deixou claro que eles não eram bem-vindos ali novamente. Os Heróis saíram do bordel, sentindo-se um pouco envergonhados pela missão ter fracassado. Isso até Christof chegar na saída. 

O silêncio pesado dominava a atmosfera enquanto o grupo de heróis recuperava suas armas e se preparava para partir. O som metálico dos equipamentos era a única coisa que quebrava o silêncio naquele momento.

O cego, como sempre, se aproximou do grupo sem fazer barulho, mas sua voz ecoou como uma suave brisa. "Por que essas caras tristes?"

Schnee, com a espada ainda em suas mãos, respondeu em tom desanimado. "É simples. Essa missão de espionagem não serviu pra nada além de ver alguns belos bustos... Bom pelo menos a gente viu."

Christof, que estava em um canto silenciosamente, sorriu de forma misteriosa. "Se animem. Acho que eu descobri algo..."

Fransisco, cujo rosto estava abatido, ergueu a cabeça, os olhos brilhando de esperança. " É mesmo ? O quê você descobriu Christof ?" Perguntou o jovem animado.

Mas antes que Christof pudesse revelar sua descoberta, será necessário contextualizar como ele a obteve. Enquanto seus companheiros estavam distraídos, lutando contra os rufiões brutamontes, Christof estava ocupado mantendo sua lâmina apontada para a garganta de Cedric.

" Me explique só uma coisa cegueta... O que você ganha ajudando essa pirralha?" Cedric perguntou, tentando desconcentrar o Herói.

"E o que você ganha sequestrando crianças?" Christof respondeu, com sua voz firme ecoando pelos quartos do segundo andar.

Cedric riu com sarcasmo. "Está tentando me fazer confessar? Esqueça! Se fosse esperto, você já teria percebido que, se eu tivesse algo a ver com as crianças desaparecidas, elas estariam muito longe daqui, fora do alcance de qualquer pessoa. Essa cidadezinha estúpida prefere viver em um mundo de histórias e lendas, ignorando a verdadeira ameaça que ronda nos becos. E não podemos esquecer dos ricos dessa área da cidade, não é mesmo? Alguns deles fingem se importar com a parte pobre, mas, na verdade, não ligam para nada além do próprio umbigo. E é por isso que minha milícia provém segurança para seus membros e faz o que é necessário para sobreviver, mesmo que isso signifique corromper o que as pessoas mais estimam!" 

Christof parou por um momento refletindo sobre as palavras do Rufião. Que continuou seu monólogo; "Não tenho medo de tomar atitudes extremas para proteger os meus, e vocês, heróis, serão passado quando tudo estiver concluído."  O vilão justificou suas ações cruéis e torpes com um olhar sombrio, mas Christof não se deixou abater. Ele sabia que o que estava em jogo era maior do que a retórica de um criminoso, e sua determinação só aumentava.

Capítulo 8 - Floresta a Dentro.

Christof apoiou sua bengala no chão, seus olhos cegos fechados enquanto ele se concentrava em suas memórias recentes. "Cedric me disse algo que me deixou pensando", começou ele, sua voz baixa mas firme. "Ele falou de 'corromper o que as pessoas mais estimam.' Inicialmente, eu pensei que ele estivesse falando das crianças... Mas depois eu percebi, percebi que tem um local que deixou de ser um antro de felicidade para as pessoas daqui e se tornou uma fonte de medo..."

Os outros heróis olharam para Christof, perplexos. Fransisco quebrou o silêncio, seguindo o raciocínio do cego. "A Floresta de Dormark...", disse ele, completando o pensamento.

Artemis, sempre pronta para agir, concluiu imediatamente. "As crianças estão lá."

Schnee, impaciente, já se aprontava. "Então, o que estamos esperando? Os pequenos clamam por um resgate... E eu, por mais uma peleja."

Drake se agitava, tentando conectar as peças do quebra-cabeça em sua mente. "Mas algo ainda não se encaixa... Se as crianças estão realmente sequestradas, por que Timothy apareceu morto ontem? E aquelas marcas de garra no Flamenco Magenta?"

O silêncio pairou sobre o grupo enquanto eles absorviam a pergunta de Drake. Schnee coçou a barba em pensamento, enquanto Christof parecia estar perdido em seus próprios pensamentos. 

"Tem algo faltando... A música do menestrel, o fato de um Bleucher estar aqui... E o ataque que você falou que sofreu na estrada, Schnee... Como isso pode se conectar ao caso?" Prosseguia o jovem mercenário.

Fransisco interrompeu, cortando o raciocínio de Drake. "Talvez não se conectem. Talvez sejam apenas coincidências."

Artemis logo tomou a palavra, tentando reforçar a necessidade de agir. "O que devemos focar agora é que temos sete crianças em perigo precisando da nossa ajuda."

"Oito", corrigiu Christof, fazendo com que os heróis olhassem para ele, surpresos. "Eu descobri na Mansão Kranefuss enquanto interrogava os pais de uma das crianças. A Lady Katerine Kranefuss, tentando encobrir um escândalo, comprou o silêncio de uma mãe cujo filho foi sequestrado... O filho estava com a filha dos Kranefuss na floresta quando ambos desaparesceram."

Artemis não perdeu tempo. "Qual o nome da família do menino?"

"Era... Era Thibault", respondeu Christof, esforçando-se para lembrar.

Fransisco e Artemis reconheceram o nome de imediato. "Eles são estrangeiros. Acho que do mesmo lugar que você, Schnee... Vocês têm um sotaque parecido." Falou Fransisco.

"Eles moram no caminho para a floresta. Podemos passar lá para avisá-los de que iremos salvar o filho deles", sugeriu Artemis em passos confiantes em direção à saída do centro da cidade.

O grupo partiu, empenhado em encontrar as crianças e salvar a cidade do mal que assolava sua floresta. As peças do quebra-cabeça ainda não se encaixavam completamente, mas os heróis estavam determinados a descobrir a verdade e restaurar a paz na cidade.

Os Heróis saíram apressados em direção à Floresta de Dormark, mas uma parada era inevitável. Havia uma mãe desesperada com quem ainda não haviam falado: a Sra. Thibault. Eles se  se aproximaram da Casa dos Thibault, um casebre humilde que se encontrava perto de uma árvore, uma macieira murcha e seca. A construção era feita de madeira e pedra, com uma única porta que rangia ao ser aberta. As janelas estavam sujas e cobertas de teias de aranha, sugerindo que não haviam sido abertas em um longo tempo.

O telhado, coberto com telhas antigas e desgastadas, parecia que poderia desabar a qualquer momento. A fachada da casa estava suja e descascada, mostrando a madeira desgastada por anos de exposição aos elementos. A folhagem ao redor da casa estava seca e mal cortada, como se tivesse sido abandonada há anos.

Ao se aproximarem da porta, eles notaram uma pequena placa com o nome Thibault gravado nela, pendurada desordenadamente ao lado da entrada. O cheiro de fumaça e madeira velha exalava da casa, sugerindo que um incêndio poderia ter ocorrido no passado.

A macieira compunha a visão melancólica do local com seus galhos retorcidos e sem vida se estendiam para o céu, como se implorassem por um pouco de chuva e sol para revitalizá-la. A casca grossa e áspera estava rachada em muitos lugares, como se tivesse sido castigada por anos de exposição ao vento e à tempestade. A árvore parecia tão fraca e frágil que parecia que um simples toque poderia fazê-la desmoronar em um monte de poeira e detritos. Era uma visão sombria, que parecia ecoar o desespero e a tristeza.

Apesar da aparente falta de manutenção, a Casa dos Thibault era claramente um lar acolhedor, com um ar de tristeza e abandono. Os Heróis respiraram fundo antes de bater na porta, esperando a mãe desesperada responder para saber o que aconteceu com o filho dela.

Com uma ponta de bengala, Christo Dior bateu na porta de madeira do casebre Thibault, atravessando uma vegetação morta. Uma voz feminina respondeu prontamente de dentro: "Não quero comprar nada! Vá embora, por favor!" O sotaque forte da voz lembrava o de Schnee.

Artemis tomou a dianteira e se dirigiu à voz: "Senhoa Thibault! Estamos aqui para conversar... Conversar sobre seu filho."

A porta se abriu lentamente, deixando uma fresta pela qual podia ser vista a face cansada de uma jovem mãe. "O que querem com meu filho?" perguntou ela desconfiada.

"Soubemos que ele foi levado," disse Francisco, direto ao ponto.

A mulher, ainda desconfiada, fechou a porta abruptamente. "Por favor, vão embora!"

Schnee então se adiantou, falando na língua que compartilhava com a mulher: "Estamos aqui para ajudar!"

Com essa fala, a mulher parecia mais confortável. "Você...", disse ela em alemão, "você sabe sobre a fera?"

"Não muito," disse Schnee confiante. "Só que ela provavelmente está lá fora amigos e famílias de pessoas de bem. Mas a senhora poderia nos ajudar contando tudo que sabe."

Nervosa, a mulher levou os visitantes para dentro de sua casa, observando constantemente pela janela entreaberta. "Eu achei que poderia evitar esse tipo de coisa... Saindo de lá. Da Cidade Alva, do Principado das Neves. Fugimos de um monstro e encontramos outro. A verdade é que quando se é pobre, você está sempre em problemas..."

A mulher possuía cabelos castanhos e pele clara, um rosto marcado pelo cansaço e pelas agruras da vida. Vestia um vestido simples de algodão, que havia sido remendado diversas vezes, indicando uma vida de escassez. Seus olhos azuis estavam constantemente alertas, como se sempre esperasse um perigo iminente. Em sua mão, ela segurava uma pequena faca de cozinha, como se estivesse pronta para se defender a qualquer momento. Apesar de sua aparência frágil, havia uma determinação em seu olhar, como se tivesse visto coisas que a tornaram mais forte.

"Do que exatamente a senhora está falando?" Perguntou Christof curioso.

Artemis se aproxima da Senhora Thibault, segurando gentilmente suas mãos trêmulas. "Por favor, Senhora Thibault, precisamos saber o que aconteceu. Estamos aqui para ajudar seu filho e não podemos fazer isso sem a sua ajuda."

A mulher olha para Artemis, com os olhos marejados de lágrimas, ainda incerta se deve confiar neles ou não. Francisco, ao lado de Artemis, coloca a mão no ombro da mulher, em um gesto de conforto.

"Compreendemos que tenha passado por muitos desafios e dificuldades, mas precisamos entender o que aconteceu para encontrar seu filho", diz Francisco em tom suave.

Schnee, que estava sentado em um banco próximo, se levanta e se aproxima. "Por favor, Senhora Thibault, confie em nós. Somos Heróis e estamos aqui para proteger as pessoas e combater as ameaças que as cercam."

A mulher suspira profundamente e olha para os rostos determinados dos Heróis. "Muito bem. Para lhes contar oque aconteceu... Preciso primeiro contar a minha História." Ela se senta à mesa, seus olhos fixados no chão. Com a voz trêmula, a Senhora Thibault começou a contar sua história. "Eu era jovem, tão jovem... Tinha apenas vinte e dois anos quando tudo aconteceu. Eu conheci a pobre garota que foi vítima da criatura, a Rabbey Rotlich. Ela não merecia passar por aquela tragédia horrível. Eu fui testemunha do terror que aquela fera trouxe para a nossa cidade.
O Pai de Mathias, Patrik, foi um dos Homens que deu sorte de voltar vivo na época em que tentavam caçar a fera. Foi assim que eu conheci ele, curando uns ferimentos que ele acabou ganhando. Ele insistia em falar que foi o Schwarzer-hund, mas claramente foi uns arranhões que ele ganhou caindo em uma vala.
No começo ele era tão legal, corajoso, Simpático. Ele tinha um cavalo e sua própria cabana na floresta. Estávamos começando a criar algo por cerca de cinco meses, quando aconteceu... Eu estava no lago com alguns amigos. Estou flertando com um cara, sabe, um pouco tonta com o vinho, nem lembro o que estavamos festejando.
Então Patrik chega a cavalo. E ele agarra este pobre rapaz e simplesmente dá uma surra nele, eu ainda vejo ele se rastejando pra longe, implorando por piedade enquanto cuspia os dentes. Então ele me manda subir no cavalo. Depois disso, não fui a mais nenhuma comemoração com meus amigos.
Patrik era um homem cruel, muito cruel. As pessoas pensam que ele me deixou por uma mulher de Verchion. Mas essa não é a verdade. No ano em que fui embora da Cidade Alva, Mathias tinha acabado de nascer, naquela noite ele estava com um resfriado, e não parava de chorar. 
Patrik já tinha bebido bastante naquela noite, e estava resmungando 'se você não fazer esse pirralho parar, eu farei...'. Foi quando algo.. despertou dentro de mim. Porque quando ele bufafa e me batia tudo bem, mas ameaçar o meu filho, um pobre bebê? Então naquela noite eu lutei de volta. Ele me perseguiu para fora da cabana e para a floresta... Foi ele que trouxe a faca…" Ela pareceu rir consigo mesma "É engraçado… Foi por causa da minha prática de enfermagem que eu conheci o Patrik ... E foi por isso que eu sabia onde estava sua artéria. Não tenho certeza se acertei, mas o deixei lá fora. Talvez ele tenha rastejado para algum lugar em busca de ajuda, talvez tenha morrido naquela floresta. Você diz que algo lá fora está matando as familias? Eu espero ter matado a minha!"


Os heróis ficaram em silêncio enquanto a Senhora Thibault contava sua história. Ouviram cada palavra com atenção e, à medida que a narrativa se desenrolava, suas expressões faciais mudavam de choque para horror e, finalmente, para tristeza.

Ao terminar a história, a Senhora Thibault parecia exausta, e os Heróis não sabiam o que dizer. Depois de um momento de silêncio, finalmente, Fransisco quebrou o silêncio.

"Eu sinto muito pelo que aconteceu com você, Senhora Thibault. Ninguém deveria passar por tamanha dor e sofrimento", disse ele, com voz embargada.

Drake concordou, acrescentando: "O Seu marido merecia o que aconteceu com ele. Mas agora precisamos nos concentrar em achar as crianças. Não podemos deixar que mais pessoas sofram."

A Senhora Thibault assentiu, parecendo um pouco mais aliviada agora que havia compartilhado sua história.

Os Heróis se levantaram para sair da cabana, com a intenção de seguir em direção à floresta. Antes de partir, porém, Schnee colocou a mão no ombro da Senhora Thibault e disse: "Obrigado por ter nos contado sua história. Vamos fazer o que for preciso para achar seu filho".

Os Heróis se levantaram da mesa com expressões graves e determinadas. As palavras da Senhora Thibault os afetaram profundamente e agora eles sabiam que tinham que agir rápido para impedir a criatura de continuar a matança. Com a cabeça baixa, eles deixaram a cabana em silêncio e caminharam em direção à densa floresta, preparados para enfrentar qualquer perigo que encontrassem no caminho. Suas mentes estavam focadas em encontrar a besta e pôr um fim no terror que assolava a região.

Os Cinco Heróis pararam em frente à floresta, observando o panorama à sua frente. Artemis Lune-Argentée respirou fundo, sentindo o ar frio do outono em seus pulmões, e olhou ao redor com olhos curiosos. Christof Dior apoiava-se em sua bengala, com uma expressão tensa no rosto, como se pudesse sentir algo que os outros não podiam. Drake Walker mantinha as mãos no bolso, sem dizer uma palavra, enquanto Friederich Schnee olhava ao redor, com seus olhos felinos atentos a qualquer movimento. Francisco Herrara respirava profundamente, sentindo o aroma podre que emanava da floresta.

Aos poucos, a equipe se preparou para adentrar na floresta. Artemis foi a primeira a caminhar, seguida por Friederich, que olhava para trás com frequência para garantir que seus companheiros estavam seguindo-o. Christof caminhava com confiança, sua bengala batendo no chão a cada passo, enquanto Drake mantinha a mão próxima à sua arma. Francisco olhava ao redor com admiração, relembrando os ensinamentos que a floresta fornecia, apesar do cheiro nauseante que emanava dela.

Conforme caminhavam mais profundamente na floresta, a atmosfera mudou. A luz do sol mal conseguia penetrar a espessa copa das árvores, criando uma atmosfera escura e sombria. As folhas das árvores estavam em tons de amarelo e marrom, e o chão estava coberto de folhas secas e murchas.

O cheiro podre que antes era fraco agora estava mais forte. Todos sentiram o medo começar a crescer em seus corações, mas nenhum deles ousou falar sobre isso. Em vez disso, continuaram avançando, com os olhos atentos e as mãos próximas às armas.

De repente, Artemis parou abruptamente, fazendo com que os outros também interrompessem seus passos. "O que foi, Artemis?" perguntou Christof, franzindo a testa.

"Alguem vem aí." disse Artemis, apontando para a frente. 

Capítulo 9 - Problemas da Pedreira.

Lá adiante, eles avistaram uma criança, carregando um monte de pedras em seus braços frágeis. Ela parecia empoeirada e usava roupas puídas, indicando que não havia se alimentado ou tomado banho há algum tempo. Enquanto se dirigia de volta para o caminho que havia feito, ela cantarolava uma música:

"Ao final desse dia 
És um dia mais velho 
E não há outra vida pro pobre viver 
É uma guerra, é lutar 
E ninguém quer perder a partida 
Mais um dia sob o sol, quando acabar 
Menos um nessa vida!"

"Pobre criança" murmurou Fransisco, com uma expressão de tristeza em seu rosto.

"Talvez devêssemos segui-la e ver para onde ela está indo" sugeriu Drake, olhando para os outros.

"Não podemos simplesmente deixá-la andar sozinha por aqui." acrescentou Christof, concordando com Drake.

"Eu sei onde ela está indo" disse Fransisco de repente, chamando a atenção de todos. "Ali por perto fica a pedreira, onde costumam contratar crianças para trabalhar."

Os outros ficaram chocados com a informação, mas não se deixaram abater. Eles decidiram seguir a criança para ver se poderiam ajudá-la de alguma forma.

Com passos rápidos e cuidadosos, eles seguiram a criança até a entrada da pedreira, onde encontraram um grupo de pessoas trabalhando arduamente.

Eles seguiram a trilha deixada pela pequena criança, e logo se depararam com uma cena desoladora: uma pedreira repleta de trabalhadores, algum deles acorrentados e exaustos, sob o comando de um homem corpulento e mal cheiroso, cuja tosse rouca ecoava pelo local. Lá, homens e mulheres, jovens e idosos, labutavam em meio à poeira e às pedras, com expressões de sofrimento e cansaço. 

A melodia triste e melancólica que ecoava pelo ambiente expressava a situação de miséria e desesperança que pairava sobre todos ali presentes. Entre os acorrentados, alguns homens tinham suas sobrancelhas raspadas. Era uma cena que arrancava lágrimas e revoltas dos Heróis, que não podiam permitir que aquela injustiça persistisse por mais tempo.

Os Heróis se mantêm em silêncio enquanto observam a triste cena na pedreira. A criança com as pedras nos braços segue em direção aos trabalhadores e deposita as pedras ao lado de um deles, que agradece com um sorriso fraco. Artemis, sente uma raiva crescente diante daquela exploração e opressão.

Schnee, é o primeiro a se mover, caminhando em direção aos trabalhadores acorrentados. Ele observa os homens sem sobrancelhas com uma expressão de repulsa, mas não diz uma palavra. Christof, se aproxima de Friederich com sua bengala e toca delicadamente seu braço, oferecendo suporte silencioso.

Drake, mantém os olhos fixos no homem gordo e fedorento. Ele observa o homem com desconfiança, percebendo sua presença como um mau presságio. Enquanto isso, Fransisco, permanece incrédulo perante a situação. Enquanto observa os trabalhadores cantarolando o restante da letra da música que a criança estava cantando. 

"Ao final desse dia
És um dia mais velho
E não há outra vida pro pobre viver
É uma guerra, é lutar
E ninguém quer perder a partida
Mais um dia sob o sol, quando acabar
Menos um nessa vida

Ao final desse dia
É um dia mais frio
E a camisa que vestes não vai te esquentar
Ninguém sabe, ninguém viu
Ninguém ouve as crianças chorando
E o inverno que já preveniu
Vem pra matar
É a morte chegando

Ao final desse dia
Outro dia te espera
E o sol fica a espreita pra se aproximar
Como as ondas a quebrar
Como a fúria dos ventos soprando
Tem a fome a galopar
E as contas que vão se somando
E a conta, quem vai pagar?
Quando o dia acabar"

É então que o homem gordo e fedorento se dirige aos trabalhadores, falando com voz rouca e mal-intencionada. "Então, senhores, como vossas senhorias bem podem perceber, este é, se não me falha a memória, o pior, mais degradante e de mais baixo nível recompensatório trabalho que qualquer pessoa poderia exercer em Kristandelle, e ele está neste nível por sua quantidade extremamente abundante de vagas, sendo as mesmas totalmente flexíveis, o que atrai as piores laias de criminosos e trabalhadores para cá. A metade de nosso empreendimento emprega criminosos presos e enviados para cá, que, se por algum motivo incomodarem os senhores que vieram de livre e espontânea pressão, sendo assim assalariados, os mesmos serão chicoteados de forma severa como punição. Contudo, os senhores são a escória degenerada da sociedade, e se falharem aqui, irão para a rua causando desordem e crimes, assim sendo presos e, no final, retornarão para este mesmo local como prisioneiros. Seguindo esta lógica, a melhor forma de lidar com esta situação é chicoteá-los, independentemente de serem pagos ou não. Sendo assim, tentem fazer o máximo de esforço com o mínimo de confusão para um alto rendimento e não terem que retornar aqui com grilhões em seus pescoços."

O chicote silva no ar, rasgando a paz do campo e atingindo um pobre trabalhador que passava ali perto, fazendo-o desabar e deixar cair seu carrinho de pedras. O Capataz, gordo e mal-intencionado, gargalha com a situação, zombando da música triste e melancólica que os pobres cantam enquanto trabalham em condições precárias na pedreira. 
"Ao final desse dia não ganhas um puto
Quem só fica sentado não leva um tostão
Com teus filhos pra comer
As crianças precisam de pão
É uma sorte poder trabalhar!"

"Ou ter um colchão!"A mulher trabalhadora, com voz fraca, responde em meio à canção que ecoa por todo o local.

"Chega!"as o Capataz interrompe a música com um grito autoritário, mandando que todos parem de cantar e voltem ao trabalho. 

"E que deus nos ajude!"E assim, sob a vontade do Capataz, os trabalhadores voltam às atividades, orando a Deus para que lhes dê forças e ajude-os a sobreviver em meio àquela dura realidade.

Christof Dior caminhou com sua bengala pelo caminho de pedras da pedreira, guiado apenas pela intuição e o som dos passos dos trabalhadores. Aos poucos, ele começou a distinguir os seus arredores, escutando a respiração cansada das pessoas que trabalhavam ali, carregando pedras e transportando grandes blocos de rocha de um lugar para outro.

Ao se aproximar da mesa onde o Capataz da Pedreira estava sentado, CChristof percebeu a presença dos cachorros na sala, sentindo o cheiro e ouvindo seus latidos enquanto se aproximava do capataz., os animais pareciam comendo um pedaço de carne. Ele então estendeu a mão e se apresentou: "Boa tarde, meu nome é Christof Dior, Docente da faculdade de Paranes. Gostaria de saber por que esses homens e mulheres trabalham aqui na pedreira?"

O Capataz, ainda com as pernas apoiadas na mesa, cuspiu no chão e respondeu com arrogância: "Eles trabalham aqui porque é a única coisa que sabem fazer. Se não fosse pela pedreira, esses miseráveis estariam vagando pelas ruas sem eira nem beira. Pelo menos aqui eles têm um teto sobre suas cabeças e algo para comer."

Christof franziu o cenho, desapontado com a resposta. "Pois bem... E o senhor seria?"

"Noah Bandelles, a serviço da coroa de Kristadelle." Diz ele se reclinando na cadeira que parece estar a ponto de se partir em duas. "Senhor Dior, esta pedreira é uma das principais fontes de renda para a nossa cidade. Aqui extraímos as melhores pedras para a construção de casas, igrejas e monumentos. Os trabalhadores são pagos de acordo com a quantidade de trabalho que realizam e recebem um salário justo pelo seu esforço. Eles são homens e mulheres honrados que trabalham duro para sustentar suas famílias e contribuir para a nossa comunidade local."

Christof escutava atentamente as palavras de Noah, ainda incomodado com a atitude rude do Capataz. Ele gostava de acreditar que todos tinham o direito de escolher o que fazer com suas vidas, e não apenas serem obrigados a trabalhar em uma pedreira porque não havia outras opções disponíveis.

Antes que pudesse responder, Friederich Schnee apareceu, observando a cena com um sorriso no rosto. Christof ficou aliviado por ter um amigo por perto, mas ao mesmo tempo, preocupado com a possibilidade de Friederich tornar as coisas ainda mais tensas.

"O que está acontecendo aqui?" perguntou Friederich, franzindo o cenho enquanto olhava para o capataz na mesa de pernas para cima e os dois cachorros rosnando para ele.

"Este é o Capataz da Pedreira, e eu estou tentando entender por que os homens trabalham aqui." respondeu Christof, ainda segurando sua bengala com firmeza.

Schnee bufou, claramente irritado com a situação. "Tudo isso está muito chato e enrolado pra mim."" Ele caminhou decidido em direção à mesa onde o Capataz estava sentado, com as pernas para cima. Sem hesitar, ele a agarrou pelos lados, levantando-a com facilidade e a jogou com força para o lado, fazendo com que a madeira rangesse e as ferramentas que estavam sobre ela caíssem com um estrondo.

Os dois cachorros, que até então rosnavam para Christof, agora se voltaram para Friederich, dentes à mostra e pelos arrepiados. Ele os encarou com um olhar determinado, por um minuto Christof achou ter ouvido o seu amigo ter rosnando para os animais de volta.

Noah estremeceu diante da presença imponente do Profano. O homem exalava uma aura de medo e mistério, com sua pele pálida como a neve, dentes afiados como lâminas e olhos amarelos que pareciam enxergar até a alma das pessoas. Ele se erguia imponente a 2 metros de altura para cima do capataz jogado no chão.

Enquanto isso, Drake parou ao lado de Christof e riu da situação. "Ah, o abuso de poder nunca envelhece, não é mesmo?" disse ele ironicamente.

"Eu sou apenas um funcionário público, seguindo as ordens da coroa. Não tenho poder para mudar as coisas aqui na pedreira. Por favor, não me faça pagar por fazer meu trabalho." Seus olhos suplicantes encontraram o rosto de Christof, em busca de ajuda para sair daquela situação desesperadora.

Christof tentou ao ouvir o alerta do Capataz. Se esforçou para colocar razão na cabeça de Schnee. "Não é justo prejudicar uma pessoa que está apenas fazendo o seu trabalho. Noah aqui é apenas um capataz e está seguindo as ordens que lhe foram dadas."

Schnee resmungou por um tempo, mas finalmente soltou o homem. "Muito bem", disse ele. "Mas lembre-se disso. A próxima vez que eu te ver abusando dessas pessoas, não serei tão gentil."

Drake se aproximou de Christof. "Convencer o Grandão foi fácil... A parte difícil vai ser aqueles dois ali." disse ele apontando com a cabeça na direção de Artemis e Fransisco que estavam sentados sobre uma pedra olhando desacreditados a situação que os cercava. Christof tomou a dianteira e parou diante de uma grande rocha, tocando-a com as mãos para sentir a textura. Fransisco o observava com curiosidade enquanto Artemis mantinha o arco em mãos, como se fosse um talismã que a reconfortava.

"Fascinante", disse Christof. "Essas rochas contam histórias antigas, guardam segredos da terra."

"Segredos da terra?", questionou Fransisco. "Eu só vejo suor e sofrimento aqui. Esses trabalhadores precisam de ajuda."

"Não é tão simples, meu jovem", respondeu Christof. "A Pedreira é uma fonte de renda importante para a cidade. E, apesar das condições, muitos dos trabalhadores dependem desse emprego."

"Mas não deveriam ter que sofrer dessa maneira", retrucou Artemis. "Isso é desumano."

"Eu entendo sua indignação, Artemis", disse Christof, com sua voz calma e experiente. "Mas precisamos ser pragmáticos. Se acabarmos com a Pedreira, muitas famílias ficarão sem sustento. Precisamos encontrar uma solução que beneficie a todos."

Christof sentou-se sobre uma rocha próxima, enquanto Artemis e Fransisco observavam a pedreira a sua frente. "Não podemos simplesmente deixar essas pessoas aqui", disse Artemis com uma expressão de preocupação.

"Eu concordo.", respondeu Fransisco.

Christof ouviu atentamente, enquanto pensava em uma maneira de explicar a situação para seus companheiros. "Compreendo sua preocupação, mas precisamos pensar em nossas próprias limitações e como podemos ajudar da melhor maneira possível. Nós somos apenas um grupo de indivíduos, sem recursos ou poder para mudar as condições de trabalho aqui", disse Christof com um tom calmo e racional.

"Mas não podemos simplesmente ignorar essa situação, Christof. Essas pessoas precisam de ajuda", retrucou Artemis, com uma expressão de frustração.

"Eu entendo, Artemis. E concordo que algo precisa ser feito. Mas não podemos resolver todos os problemas do mundo sozinhos. Se continuarmos aqui, podemos colocar em risco nossa missão de encontrar as crianças desaparecidas", respondeu Christof.

Fransisco assentiu, concordando com a lógica de Christof "Ele tem razão, precisamos continuar nossa missão." Embora compreendesse que a continuidade da missão era crucial, sua mente fervilhava com a possibilidade de ajudar aquelas pessoas de alguma forma. Pensou por um momento, e um raio de esperança o atingiu. "Talvez possamos encontrar alguém que..." Fransisco titubeou por um instante, e então, como se fosse uma epifania, bradou entusiasmado: "O Duque!" Os olhos de Artemis se fixaram nele, aguardando a continuação. "Ele pode nos ajudar... Quando a filha dele estiver segura conosco, ele terá que nos ajudar. O Duque tem influência no conselho de Kristadelle, vão ouvir ele!"

Artemis sorriu empolgada com a ideia de Fransisco. "Sim, o Duque pode ser a chave para ajudar essas pessoas. E se o conselho o escutar, talvez possamos fazer algo de bom por elas." A ideia do jovem rapaz não só dava uma nova esperança para as pessoas daquela pedreira, mas também lhes dava um plano concreto para seguir em frente. Através da influência do Duque, eles poderiam realmente fazer a diferença na vida dessas pessoas.

Enquanto isso, Christof pensava em Fransisco com admiração e respeito. Ele sentiu sua determinação e o pensamento estratégico que há muito havia esquecido. Christof pensou que talvez Fransisco e Artemis tinham algo que ele tinha perdido há muito tempo: uma teimosia irrefreável para seguir em frente até encontrar uma solução. Ele sorriu para os dois jovens, sentindo-se grato por ter encontrado parceiros tão fortes em sua jornada. "Vamos seguir em frente e quando encontrarmos a filha do Duque, faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para trazê-la de volta em segurança e garantir que o Duque nos ajude com essas pessoas necessitadas."

Capítulo 10 - A gruta fétida.

A tensão pairava no ar enquanto os Heróis avançavam pela densa floresta de Dormark. A cada passo, o terreno se tornava mais acidentado e hostil, fazendo com que suas pernas ficassem cansadas e doloridas. O sol começava a se preparar para se pôr, tingindo o céu de um laranja profundo e sinalizando que já se passavam quase três horas desde que iniciaram a busca pelas crianças desaparecidas.

Os rostos suados e ofegantes dos Heróis eram testemunho da árdua jornada que enfrentavam. As vestes de Artemis Lune-Argentée estavam empoeiradas e manchadas de suor, seus cabelos ruivos estavam emaranhados e grudados em sua testa. Christof Dior, com sua bengala em mãos, seguia firme e decidido, mesmo sem poder enxergar a beleza da natureza que os cercava. Já Francisco Herrara mantinha sua postura ereta, apesar de parecer mais frágil a cada passo dado.  Drake, mantinha sua expressão séria, mas suas pernas pareciam pesar uma tonelada a cada passo que dava. Sua respiração era curta e ofegante, e o suor escorria pelo seu rosto enquanto ele lutava para acompanhar o ritmo dos outros. Friederich Schnee, com sua aparência incomum e intimidadora, não demonstrava cansaço, mas seu andar pesado e sua respiração mais profunda revelavam que ele também estava sentindo a exaustão. Seus olhos felinos varriam o terreno à procura de qualquer ameaça, mas pareciam um pouco mais lentos do que o normal. Mesmo assim, ele mantinha-se firme. 

Artemis Lune-Argentée, exalava a confiança de uma caçadora experiente enquanto avançava pelas trilhas sinuosas da Floresta de Dormark. Cada passo que ela dava ecoava na quietude da floresta, enquanto seus olhos verdes brilhantes examinavam atentamente a vegetação ao seu redor em busca de qualquer sinal das crianças desaparecidas.

Ela seguia em frente, observando os pequenos detalhes da paisagem e farejando o ar em busca de qualquer pista que pudesse levar o grupo ao seu objetivo. No entanto, o silêncio na floresta parecia sussurrar um tom de desânimo. Artemis sabia que suas habilidades de rastreamento eram impressionantes, mas as circunstâncias eram difíceis.

Enquanto Artemis rastreava com afinco, Fransisco e Christof mantinham-se mais afastados, envolvidos em uma conversa séria e profunda. Com o olhar distante, Christof ouvia as palavras de Fransisco, que pensava em voz alta. "O Duque é um homem do povo. Você tem que ver os festivais que ele dá todo final de Outono. O Festival da Colheita. O desse ano tava arriscado não acontecer por conta do desaparescimento da Lady Sarahleen, mas agora que estamos perto de encontra-la vai dar tudo certo. Você tem que ir Christof.", Fransisco disse, enquanto um vento fresco passava por seus cabelos castanhos. Christof, com a voz serena, concordou com um aceno de cabeça. "É uma possibilidade a se considerar", ele disse, "mas precisamos encontrar as crianças primeiro e garantir que elas estejam seguras."

Drake e Schnee, os guardiões da retaguarda, mantinham uma postura vigilante e atenta, como se tivessem mil olhos capazes de perceber qualquer ameaça à segurança do grupo. Seus sentidos aguçados, eles permaneciam em constante alerta, prontos para agir caso surgisse algum perigo iminente.

De repente, uma voz aguda e frenética interrompeu a concentração do grupo."Mestre Fransisco! Mestre Fransisco!" Todos viraram-se para ver um esquilo de pelos castanhos, com um olhar elétrico e uma personalidade tão animada quanto sua aparência. Seus olhos eram grandes e brilhantes, com um tom acobreado que refletia sua inteligência e astúcia. Seu corpo era pequeno e ágil, e ele se movia rapidamente pelos galhos das árvores com destreza impressionante. Seu pelo era espesso e macio, com tons de marrom e cinza que se misturavam em uma combinação quase camuflada.

"Dardo, quanto tempo!", disse Fransisco, enquanto os outros heróis observavam curiosos. "Como você está?"

Artemis avistou a pequena bola de pelos correndo em sua direção. Ela franziu o cenho, tentando identificar o que era aquilo, até que o esquilo saltou em sua direção. "Que coisa fofa!" exclamou ela, enquanto acariciava a cabeça do pequeno animal. "Todo mundo diz isso", disse Dardo, parecendo um pouco entediado com a reação da heroína.

Dardo saltitou em círculos, claramente agitado. "Estou procurando por Dormark! Onde ele está?"  Dardo tinha um ar jovial e descontraído que o tornava imediatamente cativante para aqueles que o conheciam.

Fransisco balançou a cabeça. "Eu não o vejo a mais de um dia. Ele me nomeou como o novo protetor provisório da floresta, mas não me disse para onde ele foi."

Dardo soltou um suspiro frustrado. "Isso não é bom. Eu preciso falar com ele o mais rápido possível. Mas, já que você é o novo protetor, eu tenho uma reclamação para fazer. Existe uma caverna ali perto que está cheirando muito mal. Toda floresta tá reclamando do fedor que ela tá trazendo pra cá."

Os heróis trocaram olhares surpresos. "Uma caverna? Projetando esse cheiro na floresta inteira? O que poderia estar lá dentro?", questionou Christof.

"Eu não sei, mas o cheiro é insuportável. E temo que algo esteja em perigo", respondeu Dardo, lançando um olhar preocupado sobre o grupo de heróis antes de se afastar repentinamente, mergulhando em meio à densa vegetação. Depois de alguns momentos de expectativa angustiante, Dardo reapareceu, sua voz aguda cortando o silêncio da floresta novamente. "Sigam-me!", ele chamou, com apenas sua pequena cabeça para fora do arbusto.

"Eu sinto como se tivesse acabado de sair de uma aula de linguagem criptografada!" Schnee reclama enquanto Dardo finalmente para de falar, deixando-o aliviado por poder respirar um pouco.

Os Heróis caminhavam atrás de Dardo, que não parava de falar um instante sequer. Ele saltitava de um galho para o outro, sempre à frente do grupo, guiando-os na direção da caverna mal-cheirosa que ele havia mencionado antes. "Vocês sabem, eu costumo passar por aqui o tempo todo e nunca tinha sentido esse cheiro antes", disse Dardo, sua voz animada ecoando pela floresta. "Mas não se preocupem, já estamos quase lá!"

À medida que eles se aproximavam da caverna, a floresta parecia ficar mais irreconhecível, e o cheiro que antes era apenas um leve incomodo, agora se intensificava e se tornava insuportável. Schnee, que estava andando atrás de Drake, resmungou: "Esse esquilo fala rápido demais. Mal consigo acompanhá-lo, e ainda por cima temos que aguentar esse cheiro terrível". Ela então olhou para Drake, que apenas deu de ombros, já acostumado com a impaciência de Schnee.

Enquanto corriam pela floresta Fransisco ficou para trás para recuperar o folego por um momento. O jovem Fransisco então desviou a atenção para outro cheiro, diferente e familiar: o aroma suave da canela. Francisco buscou com o nariz a direção daquele cheiro, e foi surpreendido ao encontrar uma figura fantasmagórica atrás de si. 

Flutuando a poucos metros de distância, uma figura etérea e brilhante. Ela é uma dama faérica, com a pele clara como o leite e os olhos tão brilhantes quanto estrelas. Sua aura de luz branca irradia em torno dela, e suas asas, parecidas com as de uma libélula, batem lentamente em um movimento gracioso. A dama parece vestir um vestido dourado alvo, brilhante como o sol. Seus cabelos de ouro e prata dançam ao vento e suas mãos delicadas estão envoltas em uma névoa cintilante. Ela sorri para Francisco, mostrando dentes brancos e perfeitos.

Francisco ficou parado por um instante, atônito diante da aparição que acabara de presenciar. A figura acenou para ele antes de se dissolver em folhas de outono que caíam suavemente na floresta. Ele questionou se aquilo era real ou apenas uma alucinação, maravilhado com a cena que acabara de testemunhar. Sem tempo para refletir, decidiu correr atrás de seus amigos, desejando descobrir o que mais a floresta de Dormark lhe reservava.

Após uma longa trilha pela floresta de Dormark, os heróis finalmente chegaram à entrada da caverna que Dardo lhes havia indicado. Artemis vinha guiando o grupo na frente e assim que seus olhos captaram a visão do local, um arrepio percorreu suas espinhas. O ambiente era carregado e sombrio, e a entrada da caverna era guardada por três brutamontes da Milícia Monocelha.

Os homens pareciam desalinhados e maltrapilhos, com suas roupas rasgadas e rostos barbudos. Aparentemente alheios à presença dos heróis, os rufiões conversavam entre si enquanto vigiavam a entrada da caverna. Uma atmosfera tensa pairava no ar, e a situação parecia cada vez mais perigosa à medida que os heróis se aproximavam. 

O coração de Artemis estava disparado. Seus olhos analisaram a cena à sua frente com intensidade, observando os rufiões da Milícia Monocelha que guardavam a entrada da caverna. Ela sabia que um movimento errado poderia colocar tudo a perder. Foi então que ela percebeu que seus companheiros estavam vindo atrás de você. E fez um sinal para que todos parassem e se jogou num arbusto. Um a um os Heróis viram o probelma e se jogaram para o Arbusto.

De repente, um pensamento aterrorizante passou pela mente de Artemis. Christof,, ainda estava andando despretensiosamente em direção à caverna, sem se dar conta do perigo. Foi então que Schnee, agiu com rapidez, puxando Christof para se esconder junto aos outros Heróis. Artemis sentiu um alívio profundo quando viu que todos estavam a salvo. Agora, eles precisavam pensar em um plano para passar pelos rufiões e entrar na caverna.

Dardo, o esquilo falante, havia se distanciado um pouco dos Heróis durante a caminhada. Quando percebeu que seus companheiros haviam parado de segui-lo, desceu ágil da árvore em que estava para averiguar a situação. Com sua pelagem marrom brilhante e seus olhos curiosos, ele se aproximou dos Heróis e indagou com sua característica energia: "Ei, pessoal, o que está acontecendo? Por que vocês pararam?".

Os Heróis respiravam ofegantes, enquanto explicavam a situação para Dardo. O esquilo, por sua vez, observava os rufiões com cautela, seus olhos brilhantes avaliando cada movimento dos brutamontes. A tensão era palpável no ar, como se uma tempestade estivesse prestes a desabar.

"Esses três aí são rufiões da Milícia Monocelha. Eles provavelmente tão com as crianças aí dentro", explicou Drake, seu tom sério contrastando com sua expressão jovial. Artemis, Christof e Francisco concordaram com a cabeça, enquanto Friederich parecia imerso em seus próprios pensamentos, ansioso para enfrentar os rufiões.

Dardo assentiu, compreendendo a gravidade da situação. Ele sabia que, como um esquilo falante, não seria de grande ajuda naquele momento. "Tudo bem, eu vou sair daqui. Mas por favor, tenham cuidado", disse ele antes de desaparecer na densa floresta. Os Heróis trocaram olhares preocupados antes de se prepararem para a batalha que estava por vir.

A entrada da caverna era escura e malcheirosa, emanando um odor desagradável de umidade e mofo. O ar pesado e úmido, fazia com que os Heróis respirassem com dificuldade. A porta de entrada da caverna era feita de pedra, aparentando ser muito pesada, e estava sendo guardada pelos três rufiões da Milícia Monocelha.

As vozes roucas dos rufiões reverberavam pela floresta, chegando aos ouvidos dos Heróis escondidos nos arbustos. Eles pareciam estar discutindo algo que os incomodava profundamente. Não havia sorrisos nem risos, apenas uma tensão palpável no ar. As palavras que saíam de suas bocas eram ríspidas e cheias de raiva. "Já já um de vocês vai ter que ir arranjar mais comida pro Billy!", exclamou o mais alto e magro dos três rufiões, com um deles com um tom ameaçador. 

O segundo, um sujeito baixo e corpulento com uma barba mal aparada e uma expressão desconfiada respondeu "Ah! PUTA MERDA, DE NOVO? Quanto é que ele tem que comer pra ficar satisfeito?"

"Eu que não vou lá dentro, quase fiquei sem mão da última vez." Concluiu o último deles tinha ma cicatriz no rosto e uma expressão mal-humorada.

Os Heróis trocaram olhares preocupados, percebendo que a situação dentro da caverna não era nada agradável. As palavras dos rufiões sugeriam que havia algo errado acontecendo ali, e as crianças que procuravam podiam estar em perigo. 

Os Heróis espreitavam atrás do arbusto, suas mentes alertas e seus sentidos aguçados enquanto observavam os rufiões brutamontes à frente. Schnee, o mais corajoso do grupo, exalava confiança enquanto empunhava sua espada de prata reluzente e avançava em direção aos bandidos. O cego Christof permanecia para trás, sua bengala em riste em busca de sinais de perigo iminente. Enquanto isso Artemis procurava posições estratégicas para atirar suas flechas de longe,  enquanto o astuto Drake seguia Schnee, pronto para intervir caso algo desse errado. A tensão pairava no ar enquanto os Heróis se preparavam para a batalha que se aproximava, sabendo que sua única opção era lutar com todas as suas forças.

Schnee iniciou o combate com um movimento rápido, desviando do soco do primeiro rufião e revidando com um chute poderoso. O segundo rufião tentou acertá-lo com um golpe de machado, mas Schnee o desarmou com um giro rápido. O terceiro rufião, surpreso com a velocidade do ataque, tentou fugir, mas Schnee o alcançou rapidamente, nocauteando-o com um soco certeiro.

Artemis notou um vespeiro próximo de uma árvore e, em um instante, atirou uma flecha com precisão, acertando o vespeiro e fazendo com que caísse bem na cabeça do segundo rufião. Com a confusão criada, mais cinco rufiões surgiram da mata, tornando a batalha ainda mais intensa. Eles pareciam confusos com a situação mas rapidamente se pusseram em defesa do local.

Enquanto Artemis acertava o vespeiro com sua flecha, Francisco percebeu que um dos rufiões estava prestes a atacar Christof por trás. Sem hesitar, ele correu em direção ao rufião, saltando sobre as raízes que se estendiam pelo chão. Com um movimento rápido, ele lançou uma corda que estava amarrada em sua cintura e conseguiu envolver o rufião, fazendo-o tropeçar e cair ao chão. Francisco, então, aproveitou a oportunidade para atacá-lo com o cabo de sua tessoura, deixando o rufião atordoado e incapaz de se levantar.

Enquanto Schnee se mantinha no centro da batalha, desferindo golpes precisos com sua espada, Artemis atirava flechas de longe, acertando um rufião após o outro.

Drake avança rapidamente para cima dos rufiões que se aproximam dele com seus socos e chutes ágeis. Ele rapidamente percebe que um dos rufiões está vindo por trás dele e se prepara para o ataque. Quando o rufião se aproxima, Drake gira em torno de si mesmo, acertando um gancho certeiro no queixo do agressor.

O rufião cai no chão, e Drake se vira para encarar o outro rufião que ainda está de pé. O rufião vem correndo em sua direção, tentando derrubá-lo, mas Drake dá uma rasteira certeira no agressor, que cai de costas no chão. Com um sorriso de satisfação, Drake se inclina sobre o rufião caído e diz: "É... Aprendi essa com o Dragão de Kristadelle."

Enquanto os Heróis lutavam contra os rufiões, Christof acabou ficando cercado por dois deles, que avançaram em sua direção com facas em mãos. Christof rapidamente sacou sua bengala de madeira, e começou a girá-la no ar.

Os rufiões avançaram com desdenhando do homem, mas Christof parecia ter transcendido sua cegueira. Como se uma visão além da vista física guiasse seus movimentos, ele esquivava-se dos golpes inimigos com destreza e contra-atacava com precisão cirúrgica. A bengala, que para muitos era apenas um instrumento de apoio, transformou-se em uma extensão de seu braço, desarmando e derrubando os rufiões com golpes secos e decisivos. A cada contato da madeira com o corpo dos agressores, gemidos de dor ecoavam pela floresta, pontuando a luta com uma cadência dolorosa. "Au", "Aí", "Cacete!" - eram os lamentos dos rufiões derrotados, que em nenhum momento foram capazes de decifrar o segredo por trás da técnica imprevisível de Christof.

Os Heróis observavam boquiabertos enquanto Christof se colocava em posição de combate, com a bengala em mãos. Mesmo sendo cego, sua postura denotava confiança e domínio da situação. Era como se sua cegueira o tivesse transformado em uma máquina de combate, capaz de executar movimentos tão fluidos e imprevisíveis que era impossível distinguir se eram fruto de sorte ou técnica. Com a batalha vencida, Christof se juntou novamente ao grupo. "Podemos seguir?" Disse ele sem saber das expressões desacreditadas estampadas dos rostos de seus colegas.

À medida que os Heróis se aproximam da caverna, o breu que os aguarda é impenetrável. Mas Fransisco, prevenido, puxa uma vela de sua bolsa e acende-a. A chama trêmula oferece pouca luz, mas é suficiente para iluminar seus rostos tensos. O fedor que exala das profundezas da caverna é avassalador, misturando o cheiro de animais mortos e o odor nauseante da decomposição humana. 

Eles avançam lentamente, com cuidado, sem saber o que o destino lhes reserva naquela escuridão úmida. Passam por corredores estreitos e baixos, com o teto rochoso raspando suas cabeças, até que vislumbram uma luz bruxuleante ao longe. A luz se torna mais nítida e eles percebem que é uma fogueira solitária no centro de uma parte mais aberta da caverna. Mas isso não é tudo o que eles notam. Na extremidade oposta da entrada da caverna, há uma mesa com uma cadeira à frente, e acima da mesa, o que parece ser uma pilha de documentos. 

"Oh, que é isso?", suspirou Fransisco ao apagar a vela e guardá-la em sua bolsa.

"O Esconderijo dos Rufiões... " Schnee tomou a frente do grupo. "E o lar de alguma coisa." desembainhando sua espada com um ruído metálico. Ele adentrou o recinto escuro, avaliando o local com seus olhos amarelos. O fedor era quase insuportável, e os restos mortais de animais e talvez até de pessoas espalhados pelo chão aumentavam a tensão do grupo.

Schnee se aproximou da fogueira, e foi quando ele viu as crianças encurraladas atrás de uma grande porta de ferro gradeada enferrujada. As oito crianças pareciam muito sujas e mal alimentadas, mas estavam vivas e inteiras, com exceção de Andrej, que estava sem um braço. As crianças se encolhem em medo ao ver o Caçador de Monstros adentrar a caverna. Seus olhos amarelos parecem cintilar no escuro, suas presas afiadas parecem prontas para devorar. Os mais velhos abraçam os mais novos em proteção, tentando esconder seus rostos amedrontados em seus ombros.

"Tudo bem! Tudo bem! Eu vim aqui para salvá-los", disse Schnee, tentando acalmar as crianças.

Mas antes que ele pudesse terminar sua frase, um tenebroso rosnado surgiu atrás dele. O tipo de rosnado que começa na garganta de uma criatura.

Schnee virou-se vagarosamente, segurando sua espada em posição defensiva, para se deparar com uma criatura corpulenta e troncuda se erguendo. "Oh, droga!" disse Schnee, firmando a espada em suas mãos. "Parece que encontramos o dono do lugar."

A criatura era um monstro, cujo tamanho e força são impressionantes. Seu corpo musculoso e troncudo é coberto por uma pele esverdeada e áspera, com cicatrizes de batalhas antigas. Seus olhos  negros são ferozes e suas presas pontudas reluzem à luz fraca da caverna. Suas garras, afiadas como lâminas, estão sujas de sangue seco e viscosa, um testemunho de sua brutalidade e carnificina. 

Ela avançou em direção ao herói, mas por sorte estava acorrentada à parede da caverna por grilhões de metal. Os grilhões de metal que o mantêm preso parecem pequenos e frágeis diante de sua força, mas ainda assim resistem bravamente.

Os heróis adentraram na caverna escura e úmida com cautela, cada um com suas armas em punho, prontos para encarar qualquer perigo que estivesse à frente.  O ranger das correntes fez com que eles parassem no meio do caminho, e foi quando Schnee gritou. "Libertem as crianças e saiam daqui!"

Os olhos dos heróis se fixaram na figura monstruosa acorrentada na parede, que soltava um rosnado ameaçador. Schnee ergueu sua espada, decidido a atacar, mas antes que pudesse desferir um golpe, a criatura o surpreendeu com um golpe poderoso, arremessando-o com violência contra a parede oposta. O som do impacto ecoou pelo corredor, misturando-se ao urro gutural da fera.

Francisco se dirigiu com determinação à mesa empoeirada, ignorando as teias de aranha que se agarravam às suas vestes. Ele revirou freneticamente os documentos que estavam espalhados, na esperança de encontrar alguma chave que abrisse a cela aonde as crianças se encontravam. Artemis, por sua vez, saltou agilmente entre as pedras da caverna, tentando encontrar uma posição estratégica que lhe permitisse lançar suas flechas com precisão mortal. Mas o monstro era implacável e suas setas pareciam ter pouco efeito sobre a criatura, que continuava a rosnar ameaçadoramente.

Christof se aproximou de Schnee com passos firmes e expressão carrancuda, observando a presença do troll enfurecido enquanto o profano se levantava lentamente. "O que diabos é essa coisa?", indagou Christof para Schnee, sua voz embargada pela confusão. "Acho que deve ser um troll escandinavo", respondeu o Caçador de Monstro com uma pontada de incerteza em sua voz.

Christof não conseguiu conter a frustração e a raiva que sentia. "Como assim você 'acha'? Você estudou na maldita escola de Zielkfrat e não consegue ter certeza de que monstro está enfrentando?!", esbravejou ele, parando em frente a Schnee com indignação.

O profano encolheu os ombros, ainda dolorido na parede. "Eu não prestava muita atenção nas aulas teóricas...", admitiu ele com um suspiro resignado.

Enquanto Schnee e Christof discutiam sobre o tipo de criatura monstruosa que enfrentavam, Artemis tomou a iniciativa de atacar o troll com suas flechas. Porém, mesmo com sua habilidade de arqueira, as flechas pareciam inúteis contra a carapaça resistente do monstro. Foi então que ela teve uma ideia ousada e, com uma mira precisa, disparou uma flecha certeira no olho da criatura. O troll ficou furioso e, num ímpeto de fúria, puxou com força a corrente que o mantinha preso, arrancando um pedaço da parede e deixando a criatura solta e enfurecida. 

Com movimentos ágeis, Drake tentou distrair o troll gigante, usando sua velocidade para manter a atenção da criatura longe de Artemis. Com o pedaço de pedra preso na corrente, o troll balançava freneticamente o objeto no ar, produzindo um som estrondoso a cada batida. Drake correu em círculos em torno do troll, saltando habilmente sobre obstáculos e desviando das tentativas desesperadas da criatura de esmagá-lo. Com sua destreza em combate corpo a corpo, ele tentava encontrar uma abertura para atacar, mas a criatura era brutal e imprevisível, tornando a tarefa quase impossível.

Francisco vasculhava freneticamente os documentos espalhados pela mesa em busca de algo que pudesse ajudá-lo a libertar as crianças. A luz fraca da fogueira mal iluminava o lugar, deixando Francisco quase cego. Finalmente, seus olhos encontraram um molho de chaves. "Alguma dessas tem que servir!" Disse o roceiro. Ele agarrou-a com força e correu em direção às crianças, sabendo que cada segundo que passava era crucial.

Drake se movia rapidamente, saltando e esquivando-se dos ataques do Troll com uma graça surpreendente. Seus olhos estavam fixos no monstro, em uma determinação feroz de mantê-lo distraído e longe de seus companheiros. Mas, em um momento de deslize, Drake tropeçou e caiu aos pés da criatura, a corrente ameaçadora em suas mãos. O Troll sorriu com satisfação, preparando-se para lançá-la em direção a Drake, quando uma figura surgiu da escuridão. Ssua espada reluzente em uma mão e um brilho confiante em seus olhos amarelos. Com um movimento rápido e preciso, Schnee cortou a corrente em dois, fazendo a pedra que se encontrava na outra extremidade voar pelos ares. E enquanto a corrente se partia, Christof, que estava escutando tudo em um canto, sentiu uma onda de choque que o abalou quando a pedra caiu a alguns metros ao seu lado. "Por Deus! Tenham mais cuidado!" Gritou o cego.

A besta rugiu de frustração e confusão diante do sobrevivente, sua ferocidade se manifestando em uma aura ainda mais intensa. Era incomum para o Troll deixar um oponente vivo após um golpe tão poderoso, e a mera existência de Schnee após tal ataque era uma afronta ao seu poder. O profano se tornou uma ameaça ainda maior em seus olhos, alimentando ainda mais a ira da criatura.

O coração de Christof disparou ao ouvir os gritos das crianças em perigo. Com passos rápidos e determinados, ele seguiu o som até encontrar Fransisco Herrera tentando desesperadamente libertá-las da cela. O jovem roceiro testava chave após chave, enquanto o tempo corria e a ansiedade de Christof só aumentava. "Apresse-se, rapaz!", gritou ele, tentando acelerar o processo. . "Eu estou fazendo o melhor que posso", respondeu Fransisco, com as mãos trêmulas, enquanto tentava mais uma chave."Não se preocupe, rapaz, a menos que você tenha algo contra em virar jantar de Troll!"

Artemis observava atentamente a criatura gigantesca que segurava Friederich com uma mão e uma corrente com a outra. Foi então que notou um pequeno objeto em um dos braços do Troll, e a lembrança de um estojo preto em um esconderijo veio à tona. Artemis aguardou o momento preciso, e quando o Troll se distraiu com Friederich, ela se movimentou rapidamente, retirando de sua bolsa a zarabatana de prata e um dos dardos.

Seus dedos tremeram enquanto mergulhava a ponta do dardo no líquido translúcido, rezando para que fosse o que ela pensava. Ela tentou se lembrar dos livros de história da caça que havia lido, tentando entender como usar a zarabatana. Depois de se ajeitar e respirar fundo, Artemis soprou com força no cilindro prateado, mas a cadência não estava certa, e o dardo não atingiu o alvo desejado.

O Troll continuou a bater Friederich contra o chão com uma força esmagadora, enquanto o profano tentava se libertar do aperto da criatura. "Argh! Sua força quase se compara ao seu fedor!", gritou Schnee, sentindo-se sufocar. O som dos ossos sendo esmagados ecoava pela caverna, e Artemis se desesperava por não ter acertado o dardo. 

O coração de Artemis batia forte no peito, suas mãos tremiam com a adrenalina da situação. Diante dela, o Troll segurava Schnee com força, pronto para atacar novamente. Determinada a salvar o amigo, Artemis concentrou-se em cada detalhe da zarabatana de prata, sentindo a cadência da respiração se ajustar com a precisão do objeto em suas mãos. 

O dardo voou pelo ar com uma precisão milimétrica, atingindo em cheio o braço do Troll. A criatura soltou Friederich ao sentir o líquido  se espalhar pelo corpo, uma sensação de letargia dominando seus membros. Tentou resistir, lutando contra o efeito do sonífero, mas seus esforços foram em vão. Em poucos segundos, o Troll cambaleou e despencou, desabando sobre o corpo de Schnee com um estrondo surdo. O impacto foi amortecido pelo corpo do Herói, que absorveu o peso da criatura adormecida.

O êxito de Artemis foi uma explosão de alívio euforia. Com um grito de triunfo "Isso! Toma!" ela se entregou a uma dança estranha e desajeitada, seus movimentos tão incoerentes quanto a música que ela cantarolava. "Na sua cara, na sua cara, na sua cara..." . Saltos, gestos desengoçados com as mãos, quadris ondulantes, a garota celebrou sua vitória com todas as forças que tinha.

Mas a comemoração não durou muito, pois Schnee vociferou. "Você é incrível, Artemis, nós sabemos", resmungou o alemão, o sotaque pesado ecoando na caverna. "Mas agora, por favor, tirem essa coisa fedorenta de cima de mim!"

Sem hesitar, Artemis correu para ajudar Schnee, unindo esforços com Drake para mover o corpo pesado do Troll. Com muita força e dedicação, eles conseguiram tirar Schnee da debaixo da criatura, puxando-o para fora e aliviando a pressão esmagadora que o profano sofria.

Fransisco observou a criatura caída e respirou com alívio. Conseguindo testar as chaves com mais calma. Desta vez, a chave girou com suavidade na fechadura e a porta da cela rangeu abrindo-se lentamente. Fransisco e Christof seguraram a respiração enquanto se aproximavam do interior escuro da cela. Lá dentro, as crianças estavam amontoadas, com medo e tremendo, mas aliviadas ao verem os rostos familiares dos dois homens. "Estão todas bem?" Perguntou Christof, sorrindo gentilmente para as crianças. "Nós vamos tirar vocês daqui. Vocês vão para casa." As crianças acenaram com a cabeça, ainda abaladas, mas aliviadas ao serem libertadas daquele lugar terrível.

Após alguns minutos de recuperação, os heróis aproveitaram a tranquilidade da caverna para cuidar dos ferimentos e se preparar para o próximo passo da missão. Enquanto Artemis conversava gentilmente com as crianças.

"Ei, galera, vocês acharam que o Troll era o monstro mais feio e assustador que já viram? Esperem até conhecerem o homem que colocou ele aqui. Ele é capaz de fazer o cabelo de qualquer um ficar em pé,!" As crianças riem e parecem mais descontraídas, e Artemis continua: "Sem falar no cheiro dele que é três vezes pior."

Fransisco dedicava toda sua atenção ao amigo ferido, Schnee, que estava gravemente ferido, com múltiplas fraturas em seus braços e pernas, hematomas por todo o corpo e hemorragias, o caçador de monstros exibia um sorriso corajoso no rosto mesmo em meio à dor. 

Drake e Christof, por sua vez, vasculhavam a mesa repleta de documentos em busca de qualquer informação útil. Enquanto lia as cartas, Drake percebeu que estavam diante de um grande esquema de sequestro liderado por Cedric Travitrono e a Milícia Monocelha. As cartas continham instruções precisas para o sequestro de novas crianças, o que significava que a missão dos heróis estava longe de acabar.

Drake pegou uma das cartas na mesa e leu em voz alta para Christof: "O próximo alvo será a filha de Christof Sanner, não deixem rastros e tratem de agir com discrição."

Christof sorriu amplamente, como se pudesse enxergar a carta em suas mãos, e disse: "Isso resolve tudo! Com essas cartas podemos provar que Cedric Travitrono e a Milícia Monocelha estão por trás desses sequestros. Finalmente teremos justiça para essas famílias inocentes!" 

Drake dobrava cuidadosamente as cartas e as guardava no bolso interno de sua jaqueta de couro. Era um movimento preciso e meticuloso, como se ele estivesse manuseando um tesouro valioso. Ele olhava para Christof e assentia com um sorriso de satisfação no rosto. 

Drake se deparou com um envelope dourado que parecia muito mais requintado do que os outros. Era feito de um papel espesso e reluzente, com um selo de cera vermelha em sua aba. Ele não conseguia deixar de se perguntar o que estaria dentro dele. Com cuidado, abriu a aba e retirou o que havia dentro. Era um pacote de fios de ouro enrolados com um laço preto, junto a uma carta.

Os fios pareciam brilhar à luz das tochas, refletindo sua riqueza e valor. Drake ficou fascinado ao vê-los, imaginando o que poderia ser feito com tanto ouro. Mas a carta que o acompanhava era ainda mais intrigante.

A carta era escrita em um papel de qualidade superior, com uma coloração levemente creme e uma textura macia e sedosa. A letra, delicada e precisa, parecia ter sido escrita com uma pena fina, usando uma tinta preta de qualidade. Um aroma forte de minério e enxofre emanava do papel, quase como se tivesse sido impregnado na tinta. A borda do papel possuía uma decoração dourada em relevo, como se fosse uma moldura elegante. À medida que Drake lia, sua expressão passava de confusa para alarmada, e o peso do envelope parecia ainda mais opressivo em suas mãos.

Meus Estimados Associados.

Mando por meio desta mais uma safra dos compostos químicos que colocaram a fera no seu Sono.
Além é claro do pagamento do mês. Fico feliz em anunciar que acho que nossa operação está comeando a dar frutos!
Estamos atraindo a atenção dos Estados Vizinhos e em breve nosso convidado ficará interessado o suficiente para ver os boatos com seus próprios olhos. 

Agradeço a cooperação de vocês.
- Sinceramente R.

Intrigado, ele começou a ler a carta em voz alta para Christof, que estava sentado ao seu lado. "Meus Estimados Associados", começou Drake, "Mando por meio desta mais uma safra dos compostos químicos que colocaram a fera no seu Sono. Além é claro do pagamento do mês."

Christof percebeu a mudança no tom de voz de Drake e perguntou: "Algo de errado?"

Drake respirou fundo antes de continuar a ler a carta. "Fico feliz em anunciar que acho que nossa operação está começando a dar frutos! Estamos atraindo a atenção dos Estados Vizinhos e em breve nosso convidado ficará interessado o suficiente para ver os boatos com seus próprios olhos. Agradeço a cooperação de vocês. Sinceramente R."

Drake ficou em silêncio por um momento, tentando processar o que havia acabado de ler. O que significava essa carta? Quem era "R" e o que estava acontecendo ali? Ele guardou os fios de ouro em seu bolso e olhou para Christof. "Oque ele dizer com 'nosso convidado ficará interessado para ver os boatos com seus prórprios olhos?'", disse ele enquanto segurava a carta. "Eles estavam tentando atrair alguém." Contastou o jovem mercenário.

Capítulo 11 - Presas da Noite.

Os Heróis se encontravam em uma caverna oculta, envoltos por um ar frio e úmido que sussurrava em seus ouvidos. A luz das chamas das tochas e da grande fogueria queimavam com intensidade, lutando para iluminar o ambiente enevoado. No entanto, sua bravura era desafiada pela entrada que soprou uma brisa forte, quebrando sua força e ameaçando apagar a chama que ainda mantinha a esperança viva naquele lugar sombrio. 

Subitamente, uma figura se delineou na entrada da caverna, projetando uma sombra ameaçadora no chão de pedra. Os Heróis, atentos, observaram a aproximação lenta e cadenciada do homem, cujos cabelos negros como a noite se derramavam até seus ombros, um contraste gritante com sua pele pálida como a lua. Seus olhos brilhantes, de uma intensidade quase selvagem, percorreram o grupo de heróis, aplaudindo-os com lentidão e desprezo, como se estivesse em um espetáculo de marionetes.

"Meus parabéns, bravos heróis", disse o homem com um sorriso largo no rosto. "Eu os agradeço por terem salvado essas pobres crianças, estou em dívida com vocês".

Drake sentiu um arrepio na espinha quando reconheceu o homem como o mendigo a quem havia salvado na noite anterior, mas agora ele estava limpo e sua fragilidade havia desaparecido. As peças começaram a se juntar em sua mente, e ele percebeu que esse homem poderia ser aquele que a carta dourada mencionava - aquele que os Rufiões da Mílicia Monocelha estavam atraindo. O olhar voraz do homem parecia confirmar essa suspeita.

Reginald fitou Drake com seus olhos famintos e reconheceu-o de imediato. O sorriso largo em seu rosto era sincero, mas a maneira como sua risada ressoava pela caverna enviava arrepios pela espinha dos Heróis. "Você não é aquele jovem com quem me encontrei noite passada, é?" Reginald perguntou, sua voz rouca e autoritária. Drake sentiu-se como uma presa acuada em frente a um predador. "Parece que esta cidade é menor do que eu imaginava", disse Reginald, seu sorriso se alargando ainda mais.

Enquanto a conversa fluía entre os Heróis e o suposto mendingo, uma sensação estranha invadiu o ambiente. Eles perceberam que o olhar do homem se desviava frequentemente para as crianças, e parecia que ele as observava com um interesse intenso e curioso. Drake sentiu um calafrio percorrer sua espinha enquanto o homem falava, e percebeu que sua intuição o alertava sobre o perigo. As crianças, por sua vez, não pareciam notar a atenção que ele lhes dedicava, mas os Heróis estavam alertas e vigilantes.

Drake reuniu toda a coragem que havia dentro de si para se aproximar da criatura que se erguia diante deles, sua mente repleta de incertezas e questionamentos sobre a natureza daquilo que os observava. Com voz firme e decidida, ele perguntou:" O que você quer de nós?"

A resposta veio em um sussurro rouco, como se o ser estivesse desfrutando da tensão que sua presença criava. "Eu quero brincar", disse Reginald, com um tom de voz que soou como uma ameaça. "Já me diverti no Flamenco Magenta e com o pequeno e delicioso garoto de rua de ontem a noite. Agora, tenho vocês e vários petiscos aqui para brincar comigo". A resposta foi tão arrepiante que Drake soube imediatamente que eles estavam em grave perigo, e que precisariam lutar pela sobrevivência.

Artemis ergueu o arco com destreza, preparando-se para um confronto iminente. Sua postura firme e confiante não vacilou ao enfrentar o olhar malicioso de Reginald. "Sinto muito, mas eu não sou nenhum brinquedo!", declarou ela, sua voz ecoando com a autoridade de uma heroína. "Você é o responsável pela morte de Timothy. Você não passa de um mosntro que pagará por seus atos." Com as crianças escondidas atrás dela, Artemis se posicionou como uma barreira protetora entre Reginald e seus alvos.

Reginald riu, com um tom de desdém. "Pagar por isso? Vocês acham mesmo que podem me deter?" Sua voz soou estridente, ecoando pelas paredes da caverna. "Eu sou o filho das trevas e dos ventos, a criatura que assombra cada criança. Eu sou o predador absoluto das matas, e vocês são apenas ovelhas esperando seu abate!" Seus olhos brilharam em um tom escarlate com malícia.

A expressão atordoada de Francisco se transformou em uma mistura de raiva e incredulidade. "Você matou o Timothy..." disse ele, em tom acusatório. "Você é o lobo da história do Jarden. Você é... Você é..."

"O Grande Lobo Mau." Reginald completou, com um sorriso sinistro.

Schnee, apesar de suas feridas, não recuou diante do inimigo. Como um verdadeiro Caçador de Monstros, ele se posicionou entre Francisco e Reginald, determinado a proteger seus aliados. "Foi você. Foi você a criatura que atacou Jannick e a mim na estrada... Onde está Jannick?"

A resposta de Reginald foi um silêncio frio e perturbador. Schnee sentiu uma onda de medo percorrer seu corpo, enquanto sua mente se enchia de especulações sobre o paradeiro de seu amigo desaparecido. Reginald parecia gostar daquela situação, como se estivesse saboreando o terror que suas palavras causavam nos heróis. Mas Schnee não iria recuar. Ele estava determinado a lutar até o fim contra aquele monstro.

Schnee sente a adrenalina correr em suas veias enquanto puxa sua espada de prata, apontando-a firmemente para o inimigo diante dele. Os olhos do Caçador de Monstros fixam-se nos de Reginald, que responde com uma risada macabra.

"Vocês querem se arriscar e lutar comigo?", Reginald provoca. "Me permitam dar-lhes duas alternativas antes: partir e deixar as crianças para que eu possa me alimentar, ou ficar... e morrer com elas."

O silêncio na caverna é ensurdecedor enquanto Schnee e seus companheiros consideram a proposta do Grande Lobo Mau. A tensão é palpável, as crianças se escondem atrás doe Artemis enquanto esperam a resposta.

Schnee respira fundo e, com uma determinação feroz, responde: "Não vamos deixar você machucar mais nenhuma criança. E não vamos deixar você escapar impune pelo que fez. Lutaremos com você até o fim, Reginald."

O homem-lobo solta uma gargalhada, mas Schnee não vacila. Com um gesto de mão, ele indica a seus companheiros para ficarem atrás dele enquanto se preparam para o pior.

Reginald solta uma gargalhada sinistra enquanto observa seus oponentes. "Ainda bem que vocês escolheram essa opção. Eu estava realmente com saudade de caçar", diz ele enquanto tira seu casaco e o pendura em uma rocha próxima. Os olhos de Reginald começam a brilhar em um tom avermelhado, enquanto ele se coloca em posição de ataque.

De repente, em um movimento rápido, Reginald se lança ao chão e começa um processo macabro de transformação. A pele do seu rosto se contorce e estica, suas mãos se transformam em garras afiadas e suas costas se arqueiam enquanto um pelo escuro começa a cobrir seu corpo. O som de ossos se quebrando preenche a caverna enquanto ele lentamente se transforma em sua verdadeira forma: um monstro imponente, com dentes afiados e olhos que brilham com um desejo insaciável de sangue.

Os heróis recuam com horror, seus corações batendo descontroladamente em seus peitos. Eles sabem que estão enfrentando uma criatura mortal, uma besta que não se importa com a vida humana. Mas eles não têm escolha senão lutar pela sobrevivência - pela própria vida e pelas crianças que estão atrás deles.

Enquanto Reginald se transformava diante de seus olhos, Christof Dior gritou com urgência na direção dos Heróis, sem poder ver o monstro em sua frente. "Peguem as crianças e corram! Agora!" Sua bengala estava estendida à sua frente, ajudando-o a se equilibrar enquanto a adrenalina corria pelo seu corpo. Ele podia sentir o perigo se aproximando e sabia que não podia ajudar mais do que dando instruções verbais. Mas sua voz era forte e firme,impulsionando os Heróis a agir rapidamente e levando-os a buscar a segurança para as crianças, mesmo em meio ao caos e à confusão.

Reginald se transformava diante dos olhos dos heróis, enquanto suas garras se afiavam e seus dentes se alongavam. Com a ferocidade de um predador, ele avançou em direção às crianças indefesas."Corram, corram carneirinhos!"

Ele se ergueu em uma postura bípede, agora muito mais alto do que qualquer ser humano. Os olhos antes castanhos agora brilhavam em um vermelho intenso, olhando com fome para as crianças que corriam em terror. Cada músculo em seu corpo se expandia e se tornava mais poderoso enquanto ele se transformava em uma terrível mistura de homem e lobo. Reginald se tornou um híbrido de criatura noturna, pronto para caçar e devorar qualquer coisa que cruzasse seu caminho.

Os heróis sabiam que tinham que agir rápido para proteger as crianças. Artemis Lune-Argentée teve uma ideia brilhante. "Vamos cortar por dentro da mata! O caminho pela trilha é mais longo e Reginald vai nos alcançar antes que cheguemos em Kristadelle." Sua voz era firme e segura, transmitindo confiança aos seus companheiros.

Todos concordaram com a estratégia e seguiram para dentro da floresta, lutando contra os galhos e arbustos que obstruíam seu caminho. O cheiro de terra e musgo impregnou suas narinas enquanto corriam em meio às árvores altas. Mas a sensação de medo e urgência que dominava seus pensamentos era maior do que qualquer outra coisa. Sabiam que o perigo estava sempre à espreita, pronto para atacar a qualquer momento.

Reginald avançava com fúria, suas garras se estendiam como lâminas e seus dentes eram afiados como navalhas. Seus olhos brilhavam com uma intensidade selvagem enquanto perseguia as crianças com uma determinação implacável. Os heróis, desesperados, corriam em direção à segurança, mas a besta estava cada vez mais próxima, pronta para atacar. Friederich Schnee lutava contra a dor e a exaustão para se juntar a seus amigos, mas sua força estava diminuindo a cada passo. Drake Walker mantinha a adaga em punho, segurando duas crianças em seus braços, determinado a protegê-las a todo custo. Francisco Herrara corria ao lado de Artemis Lune-Argentée, sua mente em turbilhão enquanto lutava para proteger as crianças mais velhas que corriam à frente. E Christof Dior era guiado por duas pequenas mãos, as de Sarahleen e Dennis, enquanto corria com toda a sua força, guiado pelo som dos gritos e passos desesperados ao seu redor. Cada um deles corria para a salvação, mas com Reginald se aproximando rapidamente, o tempo estava se esgotando.

A despeito de todas as dificuldades, a coragem e a determinação dos heróis não arrefeciam. Com uma meta clara e definida, eles ultrapassavam seus limites físicos e mentais, imbuídos de uma vontade férrea de proteger as crianças a todo custo. A adrenalina corria freneticamente em suas veias, enquanto os corpos se moviam em meio à natureza selvagem.

A perseguição pela floresta era uma cena dramática e cheia de adrenalina. Reginald, com sua forma híbrida de homem-lobo, saltava de árvore em árvore em busca das crianças, que corriam desesperadas pela mata. Artemis, habilidosa com seu arco e flecha, atirava com precisão na direção do lobo, tentando desestabilizá-lo. Drake era ágil e saltava graciosamente sobre os troncos caídos no caminho, com duas crianças em seu colo. Francisco, pequeno mas astuto, se movia rapidamente pela floresta, liderando o grupo com destreza. Christof gritava instruções para os heróis  "Não se separem!" enquanto guiava as duas crianças que seguravam suas mãos,

Os heróis estavam determinados a proteger as crianças a todo custo, e cada um deles usava suas habilidades para mantê-las a salvo. A tensão aumentava a cada salto de Reginald, cada flecha lançada por Artemis, cada pouso de Drake e cada metro percorrido por  Francisco. O coração batia forte em seus peitos, mas eles não desistiam. Eles sabiam que a vida das crianças dependia de sua coragem e determinação, e isso os mantinha firmes na perseguição.

Mas Friederich Schnee, não podia permitir que Reginald continuasse ameaçando as crianças indefesas. Ele se colocou diante do monstro, seus olhos amarelos brilhando com uma intensidade demoníaca enquanto seu corpo tremia com uma energia feroz. Em um instante, sua aparência mudou, e ele se transformou em uma criatura ainda mais assustadora.

A linhagem demoníaca de Friederich Schnee pulsava em seu sangue, impulsionando-o para uma forma mais brutal e sanguinária. Suas pupilas se dilataram, enquanto veias saltavam em seu pescoço e sua respiração se tornava mais rápida e profunda. Sua aparência física também mudou, a musculatura mais definida, sua estatura parecendo mais  robusta, os olhos com uma expressão mais feroz e insana. A pele estava ainda mais pálida, quase translúcida, dando a impressão de que havia uma luz estranha por baixo. Seus cabelos pareciam estar em chamas alvas, como se emanasse um poder sobrenatural.

Empunhando sua espada com uma precisão letal, Friederich avançou com uma fúria implacável em direção a Reginald, determinado a derrotá-lo a qualquer custo.

O combate entre Schnee e Reginald era um espetáculo aterrador. A espada prateada de Schnee refletia a fúria ardente em seus olhos. Ele avançava com uma velocidade sobrenatural, desferindo golpes precisos com sua lâmina que cortava o ar. Reginald, por sua vez, era uma besta selvagem, com seus pelos eriçados e olhos vermelhos brilhando com a cobiça pelo sangue.

Schnee tentava perfurar o lobo com sua espada demoníaca, mas o monstro era rápido demais e esquivava-se habilmente dos golpes. Em uma investida, Reginald conseguiu agarrar a espada com suas poderosas garras e arrancá-la das mãos de Schnee.

Foi nesse momento que Reginald aproveitou a vantagem e saltou em direção a Schnee, pronto para quebrar seu pescoço com sua poderosa mandíbula lupina. O caçador-de-monstros lutou bravamente, mas a força do lobo era grande demais. Schnee foi jogado violentamente no chão, e Reginald avançou para encerrar a luta.

Enquanto o lobo se preparava para dar o golpe fatal, Schnee fechou seus olhos e aceitou seu destino. Sabendo que seu sacrifício seria necessário para salvar as crianças e seus amigos.

O clima tenso da floresta foi rompido por um grito agudo e estridente que cortou o ar e fez os Heróis e as crianças virarem seus rostos para o alto. Reginald, o Homem-Lobo, parou com as mandíbulas próximas ao rosto do caçador de monstros e virou sua atenção para o som. Foi então que uma figura saltou das copas das árvores e se jogou em direção ao fucinho da criatura. Era Dardo, o pequeno esquilo falante que havia guiado. O roedor corajoso fincou seus pequenos dentes no nariz do monstro e balançou ali, desafiando-o.

Reginald balançou a cabeça com força, fazendo Dardo voar longe e cair inconsciente no chão. Francisco abriu um sorriso aliviado ao ver seu pequeno amigo resgatando-os. Mas seu semblante logo se transformou em terror quando observou a criatura se aproximando para devorar o esquilo indefeso em uma única mordida.

Sem pensar duas vezes, Francisco pegou uma pedra no chão e a lançou com toda a força na cabeça do monstro, que se virou com fúria em sua direção. O ar ficou pesado e a tensão aumentou ainda mais enquanto Reginald avançava em direção ao jovem fazendeiro, pronto para dilacerá-lo com suas poderosas garras.

Friederich, quase sem fôlego, se ergueu com um esforço sobrenatural e, com a força do desespero, agarrou Francisco enquanto Reginald saltava para atacar o jovem fazendeiro. O poderoso lobo encontrou apenas o interior de uma árvore, preso momentaneamente. Os Heróis, percebendo a oportunidade, não perderam tempo e juntaram-se ao grupo com rapidez.

Os olhos de Friederich estavam injetados de sangue, seu corpo tremia de exaustão e seu rosto estava banhado em suor. Ele sustentava Francisco com a determinação de um homem que estava disposto a dar tudo de si para proteger aqueles que amava. Reginald rosnava de dor e frustração, mas mantinha a cabeça presa dentro do tronco, lutando com força para se libertar.

Enquanto o tempo corria contra eles, os Heróis sabiam que não podiam ficar parados. Com um olhar de desafio para o lobo ferido, eles se viraram e correram em direção à segurança, com Friederich e Francisco seguindo atrás. 

O som de madeira quebrando ecoou pela floresta, agitando os nervos dos Heróis. Drake, em particular, sentiu uma onda de pânico percorrer seu corpo, sua mente imediatamente se voltando para a criatura lupina que estava em seu encalço. Mas nem sinal dela. Drake não se deixou abalar, continuando sua corrida atrás de Artemis.

Enquanto seus pés batiam no chão, o mercenário não conseguia deixar de se perguntar o que poderia ter acontecido com Reginald. Seria possível que ele tivesse se libertado da raiz e estivesse agora em sua perseguição, ou pior ainda, teria ele encontrado uma maneira de emboscar os Heróis em algum lugar adiante?

Drake decidiu que não poderia se dar ao luxo de pensar em possibilidades terríveis. Ele se concentrou em manter sua determinação, ignorando o medo que ameaçava dominar seu pensamento. Com seus sentidos aguçados, ele continuou em frente, focado em alcançar a amiga e escapar daquele pesadelo que os cercava.

Os Heróis seguiam em frente pela mata densa, cada passo acompanhado por uma paranoia crescente. Ouviam ruídos estranhos e movimentos suspeitos nas sombras, que os faziam virar a cabeça a todo momento. A ansiedade era palpável no ar, enquanto esperavam Reginald surgir entre as árvores a qualquer momento.

Finalmente, após alguns minutos de tensão insuportável, eles conseguiram avistar a saída da floresta. Com um suspiro de alívio, saíram do cenário de horror e avistaram a Taverna Capitã Louca a alguns metros à frente. Era um ponto de referência que conheciam bem e que lhes trazia uma sensação de segurança.

As crianças que haviam sido resgatadas dos sequestradores estavam abraçadas e seguras, mas ainda tremiam de medo. Artemis  estava próxima das crianças mais velhas, Casper, Andrej, Ophelia e Mathias, tentando confortá-los com suas palavras otimistas e seu sorriso caloroso."Não se preocupem, tudo vai ficar bem. Vocês estão seguros agora."

 Christof , era guiado por duas crianças de mãos dadas, Sarahleen e Dennis. O homem parecia calmo e sereno, como se a escuridão que o envolvia não o afetasse mais.

Drake parecia impaciente, com as crianças chorosas Madeline e Jakob em seus braços. Ele olhava para trás a todo momento, preocupado com o que pudesse estar seguindo seus passos.

Fransisco, estava tentando ajudar os mais novos a se acalmarem com uma história. "Não precisam ter medo. Eu me lembro de quando era menino, sempre fui muito curioso e costumava explorar as matas ao redor da fazenda. Mas um dia, me perdi no meio da floresta e fiquei completamente assustado. Não sabia o que fazer e comecei a chorar, pensando que nunca mais veria minha família e minha casa. Mas então, escutei um barulho e vi um coelho correndo. Foi quando me lembrei do que o meu mestre Dormark me ensinou: sempre haverá um sinal na natureza para nos guiar. Então, comecei a seguir o coelho e, para minha surpresa, ele me levou de volta para a fazenda. Desde então, sempre confiei nos sinais da natureza e nunca mais me perdi. E vocês também podem confiar, tenho certeza que a floresta vai sempre nos mostrar o caminho certo."

Schnee, por sua vez, estava todo quebrado e ferido, mas ainda assim se mantinha de pé. Sua aparência estranha e intimidadora contrastava com sua coragem e habilidade em combate corpo a corpo. Os Heróis seguiam em frente, cansados e exaustos, mas determinados a manter as crianças em segurança.

A escuridão rapidamente tomava conta da cidade de Kristadelle, e com ela vinha a sensação de medo e incerteza que acompanhava os heróis em seu retorno silêncio. Enquanto eles se aproximavam da parte pobre da cidade, tudo o que viam eram sombras sombrias dos casebres longíquos. Mas em meio a essa escuridão, uma luz brilhava como um farol de esperança. Era a Taverna Capitã Louca, um ponto de luz em meio a tanta escuridão. O coração dos heróis começou a bater mais rápido quando eles avistaram o bar iluminado à distância. Era como se uma enorme carga fosse retirada de seus ombros, e finalmente eles se sentiram seguros. Os olhos deles se fixaram naquele ponto de luz, que parecia crescer e se aproximar a cada passo que davam.

A visão da taverna acabou trazendo uma sensação de calor e familiaridade. Era como se finalmente eles tivessem encontrado um lugar onde pertenciam, um refúgio seguro em meio a tanta incerteza. Eles aceleraram o passo, quase correndo em direção à taverna. Cada passo era uma libertação, um passo em direção à segurança e à proteção. E finalmente, quando chegaram à porta da taverna, puderam respirar aliviados. Tinham conseguido sobrevivido aquela perseguição.

Os Heróis adentraram a taverna Capitã Louca, trazendo consigo oito crianças que haviam resgatado das mãos do inimigo. O local estava deserto, exceto por um homem solitário sentado em uma mesa, meticulosamente escrevendo uma carta. Era Archippo Campopiano. O Bleucher que, desde o primeiro encontro, menosprezou os Heróis, rejeitando seus ideais. No entanto, ao perceber que os Heróis haviam resgatado as crianças antes dele, uma mistura de choque e respeito se estampou em seu rosto. O ar ao redor ficou tenso e todos os olhos se voltaram para o Bleucher, que agora estava sem palavras.

Com o coração acelerado, Archippo viu os Heróis entrarem na taverna com as oito crianças que haviam sido sequestradas. O Bleucher mal conseguiu conter a surpresa em seu rosto ao perceber que aqueles que havia menosprezado haviam cumprido a missão antes dele. Seus olhos arregalaram e sua mão parou de escrever, enquanto ele observava a cena com uma mistura de desconcerto e admiração.

Enquanto os Heróis se acomodavam em uma mesa recuperando seu folego ainda tentando se acalmar do perigo, Archippo continuou a observá-los, tentando entender como haviam sido tão rápidos e eficientes. Ele sabia que os Bleucher eram implacáveis, mas aqueles Heróis haviam provado ser ainda mais habilidosos. O Bleucher se perguntou se talvez havia subestimado seus adversários e se seria prudente ter mais respeito por aqueles em sua frente.

Archippo, com sua postura altiva e inquisitiva, aproximou-se dos heróis como se estes fossem seus subordinados.  "O que aconteceu? Como vocês acharam as crianças?"  Sua voz soou abrupta. Era como se a curiosidade e a necessidade de controle se sobrepusessem à empatia e à gratidão que se esperariam de alguém em sua posição. Os heróis sentiram-se diminuídos perante sua arrogância, mas mantiveram a compostura.

Os olhos de Artemis  faiscaram com uma mistura de triunfo e satisfação quando ela respondeu a pergunta de Archippo. Sua voz era firme e segura quando disse: "Descobrimos a identidade dos sequestradores, Mílicia Monocelha e seu chefe Cedric Travitrono. Encontramos as crianças em uma caverna escondida nas profundezas da floresta de Dormark, onde eram mantidas em cativeiro. Foi uma busca difícil, mas a perseverança nos guiou e triunfamos no final." Os outros heróis assentiram em concordância, reforçando as palavras de Artemis com um olhar determinado.

Christof Dior ergueu a mão e interveio com uma fala calma e firme: "Descobrimos a caverna escondida na densa floresta depois de horas de busca exaustiva. Foi uma luta difícil, mas conseguimos subjugar o Troll gigantesco que guardava a entrada. Com as crianças resgatadas, descobrimos cartas comprometedoras que nos levaram diretamente aos culpados. Mílicia Monocelha e Cedric Travitrono agora responderão por seus crimes perante a justiça".

O Jovem Herrara deu continuidade, "E cê acredita que o Drake descobriu um papel que lascou tudo ainda mais? Tinha um sujeito chamado 'Senhor R' que tava ajudando os Rufiões e dando um Troll pra eles matarem todo mundo que nem o Lobo da Cidade Alva. Tá tudo uma bagunça."

Drake Walker suspirou profundamente antes de falar, seus olhos fixos no vazio. "Eles estavam tentando atrair a atenção do Lobo para Kristadelle. Quando finalmente o encontramos na floresta, tivemos que lutar pela nossa vida e pelas das crianças, fugindo para um lugar seguro". Sua voz carregava um peso sombrio, trazendo à tona os horrores que eles haviam enfrentado.

Friederich Schnee soltou um suspiro de dor antes de se pronunciar, mas mesmo assim fez questão de acrescentar: "Apesar dos obstáculos e perigos que encontramos em nossa jornada, conseguimos salvar as crianças e desmantelar a trama nefasta que estava sendo arquitetada contra Kristadelle. Foi uma vitória para nós... Os verdadeiros heróis dessa cidade".

Archippo se aproximou dos heróis com passos firmes e olhos faiscantes de inveja e raiva. "Vocês estão mentindo! Provavelmente foram vocês mesmos que capturaram as crianças para chamar a atenção", disparou em um tom sarcástico.

Os outros heróis se entreolharam, surpresos com a postura acusatória de Archippo. Christof Dior, sempre ponderado, tentou acalmar a situação: "Não seja tolo, Archippo. Se não tivéssemos interferido, as crianças ainda estariam em cativeiro".

Mas Archippo não estava disposto a se calar. Sua inveja o cegava para a realidade dos fatos, e ele continuava a acusar os heróis, sem qualquer prova ou fundamento. Archippo revelou então: "Lorde Barba Azul havia me informado que o Grande Lobo Mau estava morto. Ele só me enviou para essa região para que eu passasse uma boa imagem dele, como alguém que se importa com os problemas do povo".

Artemis Lune-Argentée, indignada com a acusação de Archippo, disse: "Isso é desprezível! Nós lutamos e arriscamos nossas vidas para salvar as crianças e você ainda nos acusa de algo assim".

Os heróis ficaram em silêncio por um momento, absorvendo a informação. Mas logo se voltaram para as crianças que estavam ao seu redor e começaram a sentirem-se satisfeitos consigo mesmos. As únicas pessoas que importavam sabiam da verdade.

Archippo caminhou com passos firmes em direção à grande janela de vidro da taverna, sua figura imponente projetada contra a luz suave da lua que se filtrava pelos vitrais. Seus olhos pareciam brilhar com uma determinação feroz, fixos nos heróis que se encontravam diante dele. "Vocês, de língua afiada e mentes ardilosas, terão que responder por essa história novamente diante das autoridades", proferiu ele com um tom de desdém que ecoou pelas paredes do estabelecimento. "Mas eu, Archippo Campopiano,pela autoridade a mim concedida , estou disposto a testemunhar contra essa baboseira que tenta usurpar a verdadeira glória dos que a merecem". Um sorriso malicioso se desenhou em seus lábios, deixando claro que ele não deixaria que aqueles aventureiros medíocres roubassem para si toda a honra que lhe era devida.

Os heróis mal podiam acreditar no que estavam vendo quando o vidro da taverna explodiu em estilhaços, preenchendo o ar com um som estridente. A poeira e os fragmentos flutuavam no ar, como se o próprio espaço estivesse se desfazendo. E no meio daquela confusão, uma criatura aterrorizante se ergueu. Era o homem lobo de proporções imponentes, com olhos intensos e pelagem que brilhava sob a luz da lua. Reginald, o grande lobo mau, havia chegado e seu olhar parecia furioso. Archippo estava atônito diante daquela figura impressionante,  encarando a verdade em sua frente, sem conseguir prever  consequências que viriam.

Os heróis estavam petrificados diante da figura colossal de Reginald, que ergueu Archippo pelo pescoço com uma força avassaladora. O lobo mau encarava o Bleucher com seus olhos vermelhos como brasas, como se pudesse enxergar além da superfície do humano e sondar sua alma. 

Um líquido quente escorreu pelo pé de Reginald, chamando sua atenção. Com olhos vermelhos e brilhantes, o grande lobo mau focou seu olhar no rosto pálido de Archippo, que parecia ter perdido o controle de sua própria bexiga. O medo o dominava completamente, e o resultado disso era visível em sua calça manchada de urina. Reginald sorriu de forma desacreditada e, com uma voz aterrorizante que ecoou por toda a taverna, disse: "Ora, ora... Parece que alguém está marcando território".

Sem hesitação, Reginald agiu com uma violência feroz, arrancando as genitais de Archippo em um movimento tão rápido e implacável que o homem mal teve tempo para gritar. Em vez disso, sua expressão contorceu-se em uma agonia muda enquanto o sangue jorrava pelo chão, pintando a taverna com um vermelho escuro. Reginald segurou os testículos ensanguentados de Archippo em uma das mãos, como um troféu macabro, e jogou o corpo sem vida do acusador no chão, com desdém. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor, com os heróis horrorizados pelo ato de brutalidade diante de seus olhos.

Os heróis não conseguiam acreditar no que acabara de acontecer, mas sabiam que não podiam desafiar a fera à sua frente. Reginald encarou cada um deles com seus olhos ardentes, como se estivesse avaliando a situação. Eles se encolheram sob seu olhar intimidador, esperando o próximo movimento do grande lobo.

Reginald desviou o olhar triunfante para o corpo mutilado de Archippo, satisfeito com o seu trabalho. Mas antes que pudesse desfrutar da sua vitória, ouviu o som ensurdecedor de um tiro vindo da direção da escada. Sua atenção voltou-se imediatamente para a figura de Gillian, que segurava um rifle em suas mãos firmes enquanto descia as escadas da taverna. Reginald mal teve tempo de se movimentar antes que outro tiro fosse disparado, atingindo-o em cheio. O lobo gigantesco vacilou, olhando incrédulo para a dona da taverna.

"Sem brigas na Taverna", declarou Gillian, sua voz firme e decidida.

Os heróis, que estavam atônitos diante da violência do lobo, voltaram a atenção para a figura corajosa da dona da taverna. Todos olharam impressionados para ela, admirando sua coragem diante da ameaça que havia surgido.

O rifle de Gillian era uma peça imponente, com um cano longo e de aço polido, o que denotava sua qualidade. A coronha era esculpida em madeira escura e envernizada, com detalhes em metal cravejados que reluziam sob a luz das tochas. O gatilho era de um tipo primitivo, mas eficiente, com um pino de metal que se destacava do corpo do rifle. A arma era pesada e robusta, feita para durar e resistir ao uso frequente. Era um instrumento poderoso, capaz de causar danos graves a quem se opusesse à sua portadora, e Gillian sabia como usá-lo com habilidade e precisão.

O lobo parecia avaliar a situação por um momento, antes de se virar e saltar pela janela de vidro, desaparecendo em meio à floresta. Os heróis observaram em silêncio, impressionados com o tamanho e a força daquele ser.

Gillian estava ofegante e suada depois de afugentar Reginald, o Grande Lobo Mau. Ela entrou na Taverna Capitã Louca e encontrou os heróis: Artemis, Christof, Fransisco, Schnee e Drake. Ela olhou ao redor, notando a janela quebrada, o sangue no chão e o cadáver. 

Os heróis estavam cansados e suados, enquanto oito crianças estavam encolhidas em um canto. Artemis estava impressionada com a coragem de Gillian e disse: "Você é incrível, Gillian! Isso foi a coisa mais maneira que eu já vi alguém fazer em toda minha vida!" 

Christof ainda tentava recuperar o fôlego e comentou: "Estou velho demais para esse tipo de emoção." 

Drake olhou ao redor, balançando a cabeça em descrença: "Me lembra de nunca mais brigar na taverna."

 Gillian se aproximou dos heróis, encarando Firederich com olhos afetuosos, mas mantendo uma expressão séria: "Acho que precisamos conversar sobre o que aconteceu aqui."

Gillian adentrou a Taverna Capitã Louca com o coração ainda acelerado e o suor escorrendo pelo rosto após enfrentar Reginald, o Grande Lobo Mau. Lá dentro, encontrou os heróis: Artemis, Christof, Schnee, Fransisco e Drake. A taverna estava em completo caos: a janela quebrada, o sangue espalhado pelo chão e o cadáver de uma pobre vítima. Enquanto os heróis estavam exaustos e suados, oito crianças tremiam encolhidas em um canto.

Artemis admirava a coragem de Gillian e se aproximou para elogiá-la: "Você é incrível, Gillian! Nunca vi ninguém enfrentar um lobo sozinha assim."

Christof ainda tentava recuperar o fôlego e não pôde deixar de comentar: "Estou velho demais para esse tipo de emoção."

Drake, olhando ao redor com descrença, balançou a cabeça e afirmou: "Lembrem-me de nunca mais desrespeitar a regra de briga na taverna."

Fransisco, por sua vez, se dirigiu à janela quebrada, observando Reginald em sua verdadeira forma: um grande lobo negro de mais de seis metros de extensão, agora sem o efeito do elixir Glamour, se afastando rumo à floresta Dormark. Fransisco sentiu um arrepio de medo ao pensar no que o lobo poderia fazer com sua amada floresta, mas estava grato por ter escapado com vida.

Gillian se aproximou dos heróis, encarando Firederich Schnee com um olhar afetuoso, mas mantendo uma expressão séria: "Você não parece nada bem, Grandão." Schnee deu um sorriso dolorido. "Só preciso de uma cerveja e vou ficar novo em folha." Ele ergueu a mão num gesto exibido, mas logo sentiu a dor no ombro. "Argh! Talvez uma pinga-anã..." completou o caçador de monstros.

Artemis sentiu um alívio imenso ao ver que todos estavam a salvo, mas ainda havia um sentimento de tensão pairando no ar. Ela olhou para seus companheiros, todos cansados e machucados, mas unidos pelo instinto de proteção e bravura.

Enquanto o barulho de canecas e risadas começava a preencher a taverna novamente, Artemis se aproximou da janela quebrada e olhou para fora. Ela sabia que não era a primeira, nem a última vez que enfrentaria um perigo como aquele, mas a certeza de que tinha amigos confiáveis ao seu lado a fez sentir-se mais forte.

Com o sol se erguendo  no horizonte, os cinco heróis caminhavam de volta para a cidade de Kristadelle com as crianças resgatadas em seus braços. Artemis sorria amplamente, sentindo a brisa suave em seus cabelos ruivos, enquanto Drake mantinha seu olhar determinado na estrada à sua frente. Schnee olhava em volta com um ar prepotente, apreciando a admiração que as pessoas ao redor tinham por eles, enquanto Christof seguia ao lado deles, silencioso, mas orgulhoso do que haviam conquistado juntos. E Fransisco caminhava um pouco atrás, um pequeno sorriso no rosto, acariciando a cabeça de uma das crianças.

Eles haviam enfrentado muitos desafios nessa jornada, mas agora estavam de volta, trazendo a esperança de um futuro melhor para as crianças que salvaram. O grande Lobo Mau havia sido afugentado, e a Mílicia Monocelha agora estava encurralada. Mas o que mais importava eram as crianças que estavam seguras e voltariam para suas famílias.

Com os rostos suados e sujos, os heróis finalmente chegaram ao portão do castelo, onde foram recebidos por uma multidão de pessoas que os aplaudiam de pé. Artemis sentiu um arrepio percorrer sua espinha ao ouvir o som, enquanto Drake acenava de volta com um sorriso satisfeito. Fransisco ficou sem graça, mas sorriu timidamente enquanto agradecia os aplausos. Schnee balançou a cabeça, como se já esperasse aquela reação, e Christof simplesmente agradeceu em silêncio.

Eles haviam lutado juntos, haviam se arriscado e haviam vencido. Agora, estavam de volta, mais fortes e mais unidos do que nunca. E, mesmo com a sensação de cansaço e exaustão, eles sabiam que tinham feito a coisa certa. Pois, no final do dia, a coragem, a lealdade e a bondade ainda eram as armas mais poderosas para enfrentar o mal e proteger os inocentes.

Cutscene Final 1 -A Vida de um Coveiro.

Elmo Springer não estava em seu melhor dia. O coveiro, já de idade avançada, suspirava enquanto olhava para o corpo sem vida de Archippo Campopiano. Ele não sabia por que as pessoas insistiam em morrer tão sem graça ultimamente. Sem uma morte emocionante para contar aos amigos, o trabalho de Elmo como coveiro parecia tedioso e sem sentido.

"Eu bem que podia estar em casa agora, descansando meus pés cansados", ele resmungou, enquanto balançava a cabeça em desgosto. "Mas não, tenho que cavar buracos para esses desgraçados todos os dias."

Elmo pôs a pá na terra, pronto para cavar o buraco final, quando olhou para o céu. Uma nuvem em forma de pênis flutuava preguiçosamente, provocando uma risada amarga no coveiro.

"Isso mesmo, dê risada de mim, céu", ele disse em voz alta, seus olhos revirando. "Você não sabe como é ficar aqui sozinho, cavando buracos para pessoas que não merecem ser enterradas."

Com um suspiro, Elmo voltou ao trabalho. "Pelo menos, esse aqui não vai ficar sozinho na cova. Sem genitais, ele vai precisar de uma boa companhia", ele disse para si mesmo, balançando a cabeça com uma risada sombria. "Não é justo. Eu merecia algo melhor do que isso."

Elmo suspirou novamente, finalmente terminando o buraco. Ele colocou Archippo com cuidado dentro dele, cobrindo-o com terra, antes de finalmente terminar o trabalho. O coveiro olhou para o céu novamente, vendo que a nuvem em forma de pênis já havia desaparecido. "Deve ter ido acompanhar seu dono, hein", ele disse com um sorriso irônico. "Pelo menos alguém tem uma morte digna."

Com um aceno final, Elmo se virou e saiu, com o sol se pondo no horizonte. Ele não sabia o que o destino lhe reservava, mas uma coisa era certa: ele merecia algo melhor do que cavar buracos para pessoas que nem ao menos mereciam ter morrido.

Cutscene Final 2 - Senhor R.

Os guardas entraram cautelosamente na caverna, as tochas tremeluzindo nas paredes úmidas. O cheiro de mofo e sujeira encheu suas narinas enquanto se aproximavam do Troll acorrentado.

"Como vamos transportar essa coisa?", disse um dos guardas. "Não podemos simplesmente arrastá-lo pela floresta. Ele é pesado demais."

nquanto discutiam como retirar o Troll da caverna, eles de repente notaram que a criatura estava se transformando em pedra bem diante de seus olhos.

"Por Deus, o que está acontecendo aqui?" um dos guardas gritou, apontando para a criatura agora imóvel.

Outro guarda balançou a cabeça em confusão. "Não faço ideia, mas não gosto disso. Vamos sair daqui agora antes que algo mais estranho aconteça."

Os guardas saíram da caverna às pressas, tropeçando em sua pressa de escapar daquele lugar ameaçador. Eles tremiam de medo enquanto corriam pela floresta escura, com a sensação de que estavam sendo seguidos por algo sinistro.

Do fundo da caverna, uma figura pequena e franzina emerge das sombras, seus olhos dourados brilhando na escuridão como se fossem duas chamas. Ele se aproxima do Troll acorrentado e começa a acariciar sua pele escamosa com dedos dourados finos e ossudos.

"Desculpe, meu amigo", ele murmura para o Troll adormecido. "Mas é melhor você assim do que nas mãos erradas. Pelo menos agora você estará seguro em minha coleção." Ele se virou para o Troll petrificado e acariciou a superfície fria com as mãos. "E afinal você já cumpriu o seu propósito.", acrescentou com um sorriso macabro.

Ele ri alto e sinistramente enquanto o Troll começa a se transformar lentamente em pedra. O homem se vira para as sombras da caverna e diz: "Parece que o meu primeiro convidado já está vindo para a festa... Uma pena que ele não tenha aproveitado o Buffet que eu preparei."

O homenzinho se sentou em uma rocha próxima ao Troll petrificado e continuou falando sozinho em sua própria loucura. "Sim, sim, você foi um desafio formidável, mas agora está na hora de arrumar um novo desafio. Algo mais emocionante... Mais... Exótico." Ele esfregou as mãos juntas, satisfeito consigo mesmo.

De repente, uma rajada de vento frio soprou pela caverna, fazendo as chamas das tochas vacilarem. O homenzinho estremeceu, mas sua expressão de satisfação não desapareceu. "Ah, parece que temos um visitante desejado", ele disse com um sorriso sombrio. "Eu estava começando a me sentir solitário aqui."

Ele se levantou e começou a caminhar em direção à entrada da caverna, com passos curtos e rápidos. "Não se preocupe, visitante, eu não mordo... diferente de você." Ele riu consigo mesmo, mas a risada soou estranhamente ameaçadora. Conforme ele se aproximava da entrada, sua figura diminuta foi ficando mais definida. Ele era magro e tinha uma estatura baixa, mas seus movimentos eram rápidos e ágeis. Ele parou na entrada da caverna, esperando que o visitante aparecesse.

O homenzinho se vira lentamente para o canto da caverna, onde a sombra de um grande lobo se projeta no chão de pedra. Ele sorriu com satisfação, seus olhos dourados brilhando com malícia.

"Bem-vindo, meu caro," disse o homenzinho com uma reverência irônica. "O senhor está atrassado."

O Grande Lobo Mau emitiu um rosnado baixo e profundo, seus pelos negros eriçando em alerta. Ele encarou o homenzinho com uma intensidade penetrante, seus olhos vermelhos cintilando com uma mistura de curiosidade e cautela. Era como se o mundo tivesse congelado naquele momento, a tensão elétrica pairando no ar, enquanto os dois se estudavam em silêncio. E então, sem aviso prévio, o lobo desapareceu na escuridão da caverna, deixando apenas um eco distante de seus passos pesados como prova de sua presença ali. E assim, o mistério daquele encontro inesperado permaneceu envolto em sombras, como uma história incompleta clamando por um final.

Comentários

  1. Dizem que se aprende muito apanhando. Se for verdade, sou um baita professor! 🤪🥊⛩️🐉

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