Diário de Campanha - Episódio 2
Cutscene Inicial - Os Ventos da Vingança.
O sol se punha lentamente no horizonte, pintando o céu de tons dourados e vermelhos enquanto a embarcação Jóia da Rainha se aproximava do porto antigo e decadente de Luthia. A tripulação, ansiosa e surpresa, não podia acreditar no que via: finalmente, depois de anos de exílio, eles estavam de volta.
Enquanto os marujos se reuniam na proa do navio, o Capitão se reclina com elegância, observando o porto com um sorriso satisfeito no rosto. Ele sabia que os ventos estavam mudando, soprando agora na direção do seu grande prêmio: a tão desejada vingança.
Gancho havia descoberto naquela ilha maldita que a vingança não tem pressa, mas inevitavelmente chega. E agora, ele estava disposto a lutar com todas as forças para obtê-la. Com um gesto determinado, o Capitão dá a ordem de ancorar o navio, enquanto seus olhos brilhavam de pura determinação. A vingança estava finalmente ao seu alcance, e ele não deixaria escapar novamente.
O Capitão Gancho olhou para o pequeno objeto na palma da mão, um simples feijão brilhante que aparentemente seria a chave para sua próxima grande conquista. Smee, seu fiel companheiro, observava a cena com desconfiança. "Cap-pi-pi-tão, não é um pouco estranho... Esse sujeito aparecer com os feijões. Sem pedir nada em troca? " perguntou Smee, gaguejando um pouco.
Gancho deu uma risada irônica. "E quem disse que ele não pediu, Smee? Talvez eu tenha vendido minha alma para o diabo... Mas vendo isso aqui agora..." Ele apontou com seu gancho de prata para o nascer do sol, com um brilho de determinação nos olhos. "Eu vejo que valeu a pena."
O silêncio se instalou por alguns instantes, até que Smee rompeu o momento com uma pergunta: "Quais as ordens, senhor?" Gancho olhou para seu fiel escudeiro com um sorriso malicioso. "Pelo que o nosso contratante falou, nós vamos ter um tempo antes de começarmos nossos serviços. Isso dá margem para eu rever uns rostos amigos e ver até onde a influência de um antigo Rei Pirata se estende... " Ele apontou para o horizonte, onde se avistava um porto movimentado. "Prepare minhas garruchas, Smee, nós vamos aportar..."
Capítulo 1 - Merecido Descanso.
Os heróis, assim foram chamados aqueles que salvaram as crianças do sequestro brutal em Kristadelle. Suas ações corajosas lhes renderam o respeito e admiração do povo da cidade. Foi uma cena emocionante presenciar as famílias se reunindo novamente com seus pequenos, aliviados e agradecidos pelo retorno dos filhos.
Entretanto, a verdadeira ameaça que assolava a cidade não era a criatura obscura e aterrorizante que assombrava a população, mas um grupo de bandidos ardilosos que buscava atrair a criatura para atingir seus objetivos malignos. Mas o grupo de heróis não tardou a descobrir suas artimanhas, e a papelada encontrada na gruta onde as crianças estavam aprisionadas foi suficiente para ligar Cedric Travitrono, o chefe da milícia monocelha, ao crime.
O Capitão da Guarda, Amion Inanoryie, assumiu pessoalmente a tarefa de prender os criminosos, que agora mofam na prisão de Kristadelle. À noite, todos os heróis compareceram ao velório de Timothy Wurfel, o pequeno órfão que perdeu a vida no desenrolar desse plano nefasto. A cerimônia foi conduzida pelo jovem padre Dormezio Formiziano, que substituiu o antigo padre falecido no início do ano.
O Jovem Padre Dormezio Formiziano era um homem alto e esbelto, com feições suaves e um olhar profundo. Seus cabelos eram escuros e curtos, deixando seu rosto delicadamente exposto. Seu longo nariz, afilado na ponta, era uma característica marcante, conferindo-lhe um ar distinto.
Vestido com as roupas clerigais típicas da época, ele trajava uma batina preta que descia até os tornozelos, com mangas amplas que caíam em dobras até seus pulsos finos. Sobre a batina, ele usava uma sobrepeliz branca com um pequeno colarinho, que emoldurava seu rosto. Seu cinto de couro, ajustado à cintura, mantinha tudo no lugar, enquanto suas meias brancas e sapatos pretos de fivela completavam a aparência. Em seu peito, pendia um crucifixo de prata brilhante, símbolo de sua devoção religiosa.
Desde que assumiu o lugar do falecido Padre Eadwalt há nove meses, o jovem Padre vem desempenhando um papel admirável em Kristadelle. Sua devoção e comprometimento para com a igreja têm sido notáveis e sua capacidade de conectar-se com os paroquianos tem sido louvável. Apesar de ser jovem, ele é profundamente respeitado pela comunidade, e sua postura de humildade e compaixão é bastante notável. O Padre Dormezio, além disso, é um líder nato, e suas habilidades para gerenciar a igreja e seus afazeres têm sido excelentes.
A Madre Superiora ela tinha uma relação de respeito mútuo com o Padre Dormezio Formiziano. Embora tenha demorado um pouco para se acostumar com o jovem padre, ela reconhecia seu potencial e estava disposta a oferecer seu apoio sempre que necessário.
Mary Ann Sattler era uma mulher de meia-idade, com rugas profundas no rosto e cabelos grisalhos que ela mantinha presos em um coque apertado. Ela tinha um olhar severo, mas bondoso, e uma voz que denotava autoridade e sabedoria.
Sua personalidade era conhecida por ser exigente, mas amorosa com as freiras e noviças sob sua tutela. Ela estava sempre pronta para oferecer uma palavra de encorajamento ou aconselhamento quando necessário, mas não hesitava em tomar medidas duras quando as regras da abadia eram violadas.
Sua personalidade era conhecida por ser exigente, mas amorosa com as freiras e noviças sob sua tutela. Ela estava sempre pronta para oferecer uma palavra de encorajamento ou aconselhamento quando necessário, mas não hesitava em tomar medidas duras quando as regras da abadia eram violadas. Ela também era uma educadora rígida, mas justa. Suas aulas eram organizadas e eficientes, com um cronograma rígido que não permitia atrasos ou conversas paralelas. Ela tinha uma voz forte e uma presença imponente na sala de aula, mas era amorosa e atenciosa com seus alunos, especialmente os mais pobres.
Foi na escola da igreja de São Nicolau que a Madre Superiora teve a oportunidade de educar o jovem Herói roceiro Francisco Herrara. Embora ele fosse um estudante brilhante, a Madre Superiora não fazia distinção entre seus alunos. Todos recebiam a mesma educação rigorosa e o mesmo nível de atenção e cuidado.
Francisco, assim como muitos de seus colegas de classe, temia a Madre Superiora. Mas ele também admirava sua inteligência e disciplina, reconhecendo que ela havia ajudado a moldá-lo em um jovem respeitoso e trabalhador. Embora Francisco ainda temesse a Madre Superiora, ele aprendeu a respeitá-la e admirá-la por suas habilidades como educadora.
A igreja estava repleta de pessoas, e a morte do menino uniu a população em um sentimento de dor e comoção. A Madre Superiora proferiu palavras comoventes em homenagem a Timothy. Ela levantou-se diante da congregação, sua voz ressoando pelos arcos da igreja. Seus olhos cansados estavam cheios de tristeza, mas ela se esforçou para falar com força e clareza.
"Meus irmãos e irmãs, hoje nos reunimos para lamentar a perda de um jovem e querido membro de nossa comunidade. Timothy Wurfel, um órfão sem culpa, foi arrancado brutalmente de nossas vidas e agora descansa em paz nos braços do Senhor." Ela olhou para as pessoas ali presente, suas faces vermelhas de lágrimas. "Compartilhamos a dor, sabemos como é difícil perder alguém tão jovem. Mas deixem-me lembrá-los, meus irmãos e irmãs, que Timothy agora está em um lugar melhor. Ele não mais sofre, não mais sente dor, nem tem medo. Agora ele está com o Pai Celestial, e nós devemos nos consolar com a certeza de que um dia nos reuniremos com ele." Ela fez uma pausa, olhando ao redor para todos aqueles que se reuniram para prestar suas homenagens a Timothy. "Mas embora hoje possamos chorar, não podemos nos deixar abater pelo desespero. Devemos nos lembrar que o Senhor está sempre conosco, e ele nunca nos abandona. É com sua ajuda e orientação que podemos superar a dor e a tristeza, e encontrar a força para seguir em frente." A Madre Superiora fez uma pausa para permitir que suas palavras se acomodassem nas mentes daqueles que a ouviam, antes de concluir com uma benção. "Que o Senhor nos guie, nos proteja e nos dê a força que precisamos para enfrentar os dias que virão. E que Timothy, descansando em paz, possa olhar por nós e nos proteger com a mesma bondade e amor que sempre demonstrou enquanto estava conosco." O momento foi marcado por lágrimas e lamentos. Mas, no fundo, todos sabiam que a coragem e bravura dos heróis havia evitado um desfecho ainda mais trágico para a história de Kristadelle.
Os cinco heróis se reuniram em um triste e solene velório, onde a dor da perda de Timothy pesava sobre cada um deles. Enquanto lágrimas e suspiros preenchiam o ar, cada herói encontrava maneiras únicas de lidar com sua própria dor e ajudar os outros a encontrarem consolo.
Artemis, com seus olhos perspicazes e habilidades empáticas, olhava para além das palavras e expressões superficiais dos presentes, mergulhando nas profundezas de suas emoções. Ela buscava confortar e trazer um pouco de paz para aqueles que estavam em sofrimento.
Christof, por sua vez, estava sentado em um canto, com os olhos fechados, mergulhando em uma profunda meditação. Ele refletia sobre a efemeridade da vida, sobre a impermanência e sobre a dor da perda. Mas, mesmo em meio à tristeza, ele procurava encontrar um senso de serenidade interior para lidar com a dor.
Friedrich se afastava de vez em quando para conversar com os amigos e conhecidos de Timothy, ávido por aprender mais sobre o garoto que havia partido. Ele queria descobrir o que tornava Timothy tão especial, o que o fazia ser tão querido pelas pessoas ao seu redor. Cada história contada era um tributo a esse amigo tão amado.
Drake assumiu o papel de protetor, mantendo uma vigilância atenta sobre a cerimônia. Observando as pessoas que entravam e saíam, ele se certificava de que ninguém suspeito estivesse presente ou tentando fazer algo inapropriado. Ele se sentia como um escudo protetor, mantendo a segurança e honra de Timothy.
Por fim, Francisco encontrava conforto na beleza da natureza que cercava o local do velório. Olhando para as árvores altas e os insetos que voavam em círculos, ele parecia o mais afetado entre os Heróis. Ele olhava para o caixão fechado do jovem Órfão, pensando que poderia ser o de sua irmã
Embora cada um dos heróis lidasse com a perda de maneira diferente, todos eles estavam unidos na tristeza e no amor que compartilhavam por Timothy. Eles prestavam homenagem a um amigo querido, e juntos, encontravam um pouco de conforto no poder da amizade e da união.
Enquanto a dor da perda era evidente em seus rostos, havia algo mais em seus olhares - uma determinação feroz que queimava dentro de cada um deles.
Um nome ressoava na mente deles como uma letra solta no alfabeto - "R". Quem era esse misterioso homem que os Rufiões trocavam cartas? Quem estava por trás daqueles fios de ouro que Cedric havia recebido? E, o mais importante, quem estava por trás da morte de Timothy?
Eles haviam visto o Grande Lobo Mau com seus próprios olhos, uma força incontrolável da natureza que aterrorizou a todos, e agora estavam determinados a encontrar a pessoa por trás da soltura da coleira do monstro. Quem queria atrair o Lobo para o Principado de Cristal e por quê? Essa pergunta martelava em suas mentes, ecoando como um sino em suas almas.
As respostas pareciam estar escondidas nas sombras, mas os heróis estavam determinados a descobri-las. Eles sabiam que a justiça era o melhor tributo que poderiam oferecer ao amigo perdido, e estavam dispostos a enfrentar qualquer desafio em nome da verdade.
O mês que se segue é um período de colheita farta para os cinco Heróis, pois a recompensa pelo resgate de Sarahleen, filha do Duque Tempepete, é generosa: sessenta ducados para cada um deles. Eles são recebidos com tapetes vermelhos em cada taverna e hospedaria em Kristadelle, com o direito a hospedagem gratuita e todas as iguarias que puderem comer. No entanto, os Heróis se sentem mais em casa na modesta e aconchegante Taverna da Capitã Louca, talvez porque foi lá que eles enfrentaram e afugentaram a terrível fera que ameaçava a cidade.
Francisco Herrera acorda com um sobressalto ao ouvir a mãe gritando do lado de fora do quarto. Ele se levanta rapidamente e se aproxima da porta, ainda sonolento. Ao abri-la, uma cena inusitada se apresenta diante dos seus olhos. Uma fila de animais falantes estava esperando na porta da fazendinha, comandados pelo Esquilo Dardo.
"Francisco! Esses animais todos aqui sujando meu quintal! Aquele ali tá comendo minhas maçã!", disse a mãe, bastante nervosa.
Francisco coça os olhos, ainda sem acreditar no que vê. Ele cumprimenta os animais, ainda meio confuso. "O que está acontecendo aqui? Por que vocês estão aqui?", pergunta Francisco.
"Está tudo um caos,, Fransisco!", explica Dardo, com um tom de urgência na voz., o pequeno esquilo falante, subiu em um pequeno vaso de ceramica na varanda e começou a falar rapidamente. "O urso Barnabé está com uma terrível dor de dente, a raposa Sophie pegou uma forte gripe, o coelho Max machucou sua pata e não consegue correr, a coruja Hilda não consegue dormir por causa de uma coceira em seu olho, e a doninha Lili tem um problema de estômago que a deixa muito enjoada. Ah, e a árvore velha que fica na clareira do leste está com uma infestação de cupins! Precisamos agir rápido, antes que a situação piore ainda mais!"
Francisco fica espantado ao ouvir as notícias. Ele sabia que Dormark tinha deveres na floresta, mas nunca achou que fossem tantos. Agora, parecia que era sua vez de assumir essa responsabilidade.
"Eu vou ajudar, é claro.", responde Francisco.
"Eu sabia que podia contar com você, Francisco", diz Dardo, aliviado.
Enquanto Francisco se prepara para sair, a mãe continua nervosa. "Mas Francisco, e os trabalhos da fazenda? Quem vai cuidar deles enquanto você estiver fora?", questiona a mãe.
"Eu vou pedir ajuda aos meus amigos. Não se preocupe, tudo vai ficar bem", tranquiliza Francisco, dando um beijo na testa da mãe antes de sair para a floresta com os animais falantes. Marléne Herrara fica ali parada incrédula enquanto o filho se afasta em direção a floresta, acompanhado de uma dúzia de animais.
Christof acorda na sua escuridão pessoal e tenta reunir seus pensamentos enquanto se levanta da cama e sai de seu quarto. Ainda grogue do sono, ele tateia a parede em busca do corrimão das escadas que o levarão ao primeiro andar da Taverna Capitã Louca. Os passos de alguém se aproximando ecoam pelo corredor e ele se prepara para enfrentar o dia.
Lá embaixo ouve passos se aproximando e uma voz feminina falando alto. "Não é possível! Essa é a terceira vez essa semana que o Sr. Balder vem aqui reclamar da sua dor nas costas! E o seu cavalo, Sven, está com uma inflamação na pata que precisa ser tratada imediatamente!", exclama Gillian enquanto se aproxima de Christof.
Gillian observa-o com preocupação, seus olhos analisando cada detalhe de sua aparência. "Como está se sentindo, Senhor Dior?", pergunta ela com um tom de voz gentil.
Ele força um sorriso em resposta, sabendo que a resposta é esperada. "Estou melhorando, obrigado, Gillian. A dor de cabeça está diminuindo", diz Christof, sentindo um alívio temporário.
A proprietária da taverna o examina mais de perto, sua expressão se tornando ainda mais séria. "Se precisar de alguma coisa, não hesite em me pedir, Senhor. Estou sempre à disposição para ajudar aqueles que precisam", acrescenta ela com um tom de voz acolhedor.
Christof agradece, sabendo que a ajuda dela é essencial nesse momento difícil. Ele se senta em uma cadeira da taverna, sentindo a dor pulsante em sua cabeça diminuir gradualmente. Gillian permanece ao seu lado, enquanto ele tenta disfarçar o incômodo.
Gillian parecia mais preocupada do que nunca, fitando Christof com uma expressão inquisitiva. "Como você ficou tão doente assim?", indagou ela.
Christof suspirou, sentindo o peso da culpa sobre seus ombros. "Acho que foi algo que eu inalei na caverna lá na floresta. Infelizmente, acabei contraindo uma doença, mas eu estou melhorando."
A jovem balançou a cabeça em reprovação. "Você deveria ter sido mais cuidadoso, Christof. Aqui na taverna, não temos médicos e eu não sou uma enfermeira."
"Eu sei, e lamento por isso. Mas você tem sido minha maior ajuda, Gillian. Não sei o que teria feito sem você... e por favor, me chame apenas de Christof!"
Um sorriso suave brotou no rosto de Gillian. "Não precisa agradecer, Christof. Afinal, depois do que aconteceu ontem, somos quase família, não somos?"
As palavras da jovem fizeram com que Christof se lembrasse de algo importante. "Aliás, falando em família, notei que seu sobrenome é Gancho. Você tem alguma relação com o Temível James Gancho?"
Gillian fez uma careta de amargura. "Sim, ele é meu pai. Mas não o vejo desde os meus 11 anos... quando ele me abandonou."
Uma sensação de tristeza invadiu o coração de Christof. Ele próprio havia abandonado sua filha quando ela era criança, e o remorso pelo que havia causado a ele o deixava envergonhado. "Sinto muito, Gillian. Eu não sabia."
Ela encolheu os ombros. "Não é culpa sua, Christof. Eu já superei essa dor há muito tempo, ok?" Mas por dentro, ela ainda sentia a dor daquele abandono e lutava contra a sensação de vazio em seu peito. Christof sentiu uma empatia sincera pela jovem, e desejava poder ajudá-la de alguma forma a aliviar aquela dor.
Christof sentiu o peso da culpa sobre seus ombros enquanto olhava para Gillian. Ele se viu no Capitão Gancho, abandonando sua própria filha por anos. Como poderia condenar as ações de outro homem quando ele próprio tinha feito o mesmo?
"Eu não posso imaginar como deve ter sido difícil para você, Gillian. Mas talvez ele tenha tido seus motivos para ir embora. Talvez ele tenha achado que era a coisa certa a fazer naquele momento."
Gillian ficou furiosa com a justificativa de Christof. "Motivos? A coisa certa a fazer? Você não sabe do que está falando, Christof! Ele simplesmente foi embora, sem olhar para trás, sem se importar com o que aconteceria comigo!"
Christof abaixou a cabeça, sentindo a dor de suas próprias ações. Ele sabia que não podia se desculpar pelos erros do pai de Gillian, mas a culpa o consumia. "Gillian, eu sinto muito. Eu não quis minimizar sua dor. Eu só queria dizer que, às vezes, as coisas não são tão simples quanto parecem."
"Não é simples, Christof. Ele me deixou sozinha. Ele me fez sentir como se eu não fosse suficiente. Como se eu fosse um fardo para ele."
Gillian estava tremendo de raiva e de tristeza, e Christof se sentiu impotente diante de sua dor. Ele queria poder fazer alguma coisa para ajudá-la, mas sabia que não havia nada que pudesse dizer para diminuir a dor que ela estava sentindo. "Eu sinto muito, Gillian. Eu não sei o que mais posso dizer."
Gillian suspirou e enxugou as lágrimas. "Tudo bem, Christof. Eu só preciso de um tempo sozinha agora. Você pode ficar aqui na taverna o tempo que precisar, mas eu preciso ficar sozinha."
Christof assentiu com a cabeça e se levantou da cadeira. Ele caminhou até a porta, sentindo a tristeza pesando em seu coração. Ele sabia que a dor de Gillian era uma lembrança constante de suas próprias falhas como pai, e ele se perguntou se algum dia seria capaz de se redimir por seus erros.
Naquela noite, os corpos de Gillian e Friederich Schnee se unem em uma dança frenética de luxúrias e prazeres. Os sons de seus gemidos e sussurros reverberam pelas paredes da taverna, causando insônia em Drake Walker e despertando a imaginação de qualquer outro que ousasse escutar.
As mãos ávidas de Gillian exploram o corpo musculoso do caçador de monstros, enquanto ele a segura firmemente em seus braços. O cheiro de suor e sexo preenche o ar, enquanto os dois se entregam à paixão que os consome.
Gillian queria esquecer a conversa que tivera mais cedo com Christof, e Friederich Schnee estava mais do que feliz em ajudá-la a afogar suas preocupações em um mar de êxtase. Os corpos nus e suados se movem em uma perfeita harmonia, como se fossem uma única entidade.
Quando finalmente terminam, os dois se deitam lado a lado, ainda ofegantes e extasiados. Gillian ainda sentia o coração acelerado, o sangue pulsando nas veias, a respiração descompassada. Mas, apesar de tudo, sentia-se aliviada por ter conseguido afastar de sua mente as preocupações que a atormentavam. Naquele momento, nada mais importava, apenas a sensação de prazer que Friederich lhe proporcionava.
Enquanto contemplava o corpo do caçador de monstros, Gillian notou as inúmeras cicatrizes que marcavam sua pele. Cada uma delas contava uma história, uma batalha travada contra criaturas que assombravam a escuridão. E, mesmo assim, Friederich continuava ali, incansável e destemido, pronto para enfrentar qualquer desafio que surgisse em seu caminho.
Gillian sorriu, admirando a coragem do homem ao seu lado. "Eu trocaria todas as cicatrizes que você tem por fora, para não ter nenhuma aqui dentro", enquanto suavemente aponta para o próprio coração.
Friederich acariciou seu rosto suavemente, olhando profundamente em seus olhos. "É justamente essas cicatrizes que me tornam mais forte", ele disse. "Cada batalha que eu venci, cada monstro que eu derrotei, me trouxe até aqui. E eu não trocaria nada disso por nada neste mundo."
Schnee ergueu-se da cama, deixando Gillian deitada envolta nos lençóis que a cobriam. Ele avançou em direção à janela do quarto, fitando a escuridão densa da floresta de Dormark. As sombras da noite pareciam trazer consigo um perigo latente, e Schnee sabia muito bem o que aquilo significava. Reginald, o Grande Lobo Mau, ainda vagava pelas redondezas, a ameaça crescente pairando sobre todos.
A mente de Schnee se mantinha presa àquela escuridão, até que o abraço suave de Gillian o trouxe de volta à realidade. Ele se virou para olhar para ela, ainda sentindo a tensão da noite passada em sua mente.
Schnee foi até as roupas jogadas no chão e pegou seu sobretudo. De um dos bolsos internos, retirou uma carta da Escola de Magia de Zielkfrat. Um suspiro escapou-lhe dos lábios, enquanto voltava seu olhar para Gillian e falava com a voz um tanto sombria: "Eles estão me pedindo para assumir o papel diplomático da escola, em relação à nossa missão bem sucedida do resgate das crianças. Agora que Jannick está desaparecido, eu sou a nova 'cara' da escola aqui em Kristadelle."
Gillian sorriu, dirigindo-se à mesa de centro do quarto-suíte para se servir um copo de vinho tinto. "Então devo parabenizar o novo 'Diplomata'?" provocou ela, entornando a bebida garganta abaixo.
Schnee tentou rir, mas logo sua expressão voltou a ficar séria. Ele tinha muitas inseguranças, mas jamais as mostrava. Sempre tentava parecer forte, e aquele momento não seria diferente.
Os heróis caminhavam pelo centro de Kristadelle, aproveitando o clima agradável enquanto conversavam sobre assuntos triviais. Artemis Lune-Argentée contava a seus companheiros sobre uma das histórias de caça mais emocionantes que já viveu " E eu tava lá! segurando o arco enquanto corria atrás do Javali furioso. Meus olhos estavam fixos no alvo, e eu sabia exatamente onde atirar para derrubá-lo. Tinha outrors caçadores seguindo ele de mais perto, mas seria eu quem acertarai aquele porcão!."
Enquanto Christof Dior tentava identificar os diferentes sons que cercavam a rua. Drake Walker ouvia a história de Artemis com um sorriso de canto de boca, mas não deixava de olhar para o movimento nas ruas. Ele era cauteloso e nunca se permitia baixar a guarda.
Naquela manhã, Friederich parecia visivelmente cansado. Seus olhos estavam um pouco inchados e ele parecia menos alerta do que de costume. Seu cabelo estava bagunçado e ele esfregava as mãos no rosto com frequência, como se tentando se manter acordado. Drake notou tudo isso quando se encontraram no café da manhã, mas era o único que sabia o motivo.
Enquanto Schnee passava suas noites em luxúria com a taverneira, Gillian, Drake não conseguia dormir devido aos gemidos escandalosos vindos do quarto ao lado. Ele sabia que Schnee era um homem que se entregava completamente ao prazer, sem se importar com as consequências. E agora, o cansaço em seu rosto era a prova disso. Drake não podia deixar de sentir uma pontada de raiva por Schnee ter indiretamente lhe privado de seu sono.
Por outro lado, Francisco Herrara parecia perdido em pensamentos, talvez pensando nas intermináveis obrigações que ele agora tinha com a floreseta. De repente, o som de uma tosse aguda quebrou o clima agradável.
Os heróis se viraram para ver Noah Bandellis se aproximando, guiando uma carruagem com prisioneiros. O antigo capataz-chefe da pedreira estava rindo enquanto chicoteava um jumento.
Os Heróis aviam seguido com o plano de Fransisco de pedir auxílio ao Duque para resolver a preocupante questão da pedreira de Kristadelle e seus trabalhadores. Entre as primeiras medidas adotadas pelo Duque, ele ordenou que o Capataz Noah fosse demitido da pedreira e substituído por alguém mais adequado e respeitoso com os trabalhadores.
Mas o Duque sabia que apenas isso não seria suficiente. Ele precisava garantir que os trabalhadores da pedreira tivessem um ambiente de trabalho mais seguro e mais justo. Então, usando sua influência no conselho de Kristadelle, ele iniciou um debate sobre as condições de trabalho dos trabalhadores das pedreiras de toda Farngomery.
Graças à sua determinação e habilidade de persuasão, o Duque conseguiu obter apoio suficiente para implementar mudanças significativas. Os trabalhadores das pedreiras passaram a ter um salário justo, melhores condições de trabalho e equipamentos de segurança adequados.
Todos os trabalhadores da pedreira e suas famílias ficaram muito gratos pelo Duque ter se preocupado com o bem-estar deles. E o Duque, por sua vez, ficou muito feliz em poder fazer uma diferença positiva na vida dessas pessoas e em seu próprio domínio.
"Eu reconheço essa maldita tosse... O que diabos ele está fazendo aqui?", perguntou Christof.
"Ele deve ter sido contratado para transportar esses prisioneiros", respondeu Drake.
Os heróis assistiram a carruagem passar com cautela, mas o barulho dos prisioneiros dentro da jaula chamou a atenção deles.
"Milícia Monocelha", disse Artemis, reconhecendo os prisioneiros. "O que diabos está acontecendo?"
Francisco Herrara parecia chocado com a visão daquele homem bruto e nojento, agora vestindo o uniforme com o símbolo de Kristadelle..
"Não sei, mas vamos descobrir.", disse Schnee, com uma determinação firme em sua voz.
Drake Walker deu uma olhada rápida para seus companheiros e assentiu. "Vamos dar uma olhada", disse ele, começando a seguir a carruagem.
Os heróis seguiram a carruagem até o limite da cidade, onde Noah Bandellis parou para dar uma pausa ao jumento. Os prisioneiros, que agora sabiam que estavam sendo seguidos, começaram a cochiçar entre sí com a aproximação dos Heróis.
"O que você está fazendo, Noah?", perguntou Artemis, furiosa.
Noah riu. "Eu só estou fazendo o meu trabalho, garotinha. Estou sendo pago para transportar esses prisioneiros para onde eles precisam ir."
"Mas por que a Milícia Monocelha?", perguntou Christof.
"Não é da sua conta, velho cego", respondeu Noah, com um sorriso malicioso no rosto.
Com um ranger de dentes furioso, Friederich Schnee se aproxima da carruagem, seus olhos amarelos flamejando com fúria. Ele encara Noah com intensidade, esperando que o capataz explique sua ação imprudente de transportar os prisioneiros da organização criminosa para fora da cidade, apesar dos riscos óbvios que isso representava.
Mas ao invés de uma explicação coerente, Noah puxa uma carta, manchada de gordura, do Capitão Amion Inanorye e a empurra na direção do duque com um sorriso de escárnio. Schnee agarra a carta com dedos trêmulos de raiva.
A carta é um pedaço de papel amarelado pelo tempo, com uma borda em relevo desgastada pelo manuseio constante. O texto escrito em tinta preta, em uma caligrafia elegante e fluida, é a única coisa clara naquele pergaminho sujo e manchado. Na parte superior da carta, um selo com a insígnia de Kristadelle pode ser visto claramente.
As palavras impressas na carta parecem saltar das páginas e ecoar na mente de Schnee:
"Por meio desta, reconheço oficialmente Noah Bandellis como o novo Carcereiro transportador de prisioneiros de Kristadelle. Além disso, informo que os seguintes indivíduos envolvidos no sequestro de crianças em Kristadelle - Gunther, Lars, Colette Blanchard, Karl Muller e Hedin Schneider - foram condenados à prisão por um período de 13 anos. Eles devem ser levados imediatamente para a prisão de alta segurança de Bismarck, no Principado das Neves, onde receberão o tratamento adequado. É minha expectativa que os prisioneiros sejam tratados humanamente durante o transporte e mantenham uma escolta rigorosa."
Com um sorriso debochado nos lábios, Noah não perde a oportunidade de provocar os Heróis. "Vocês podem até ter salvado a filha do Duque e as crianças, mas ainda assim, não podem mudar a forma que o mundo funciona.", ele diz, com um tom de escárnio que deixa claro seu prazer em provocar os Heróis. Com um ar de superioridade repugnante . "Eu mantenho, e vocês perderam". Ele diz isso enquanto aponta para o símbolo em seu novo uniforme.
O novo uniforme de Kristadelle que Noah usa é uma mistura de couro e tecido áspero, com um emblema bordado no peito que indica sua posição como Carcereiro transportador oficial de prisioneiros. No entanto, o que uma vez deve ter sido um uniforme limpo e brilhante, agora está ensebado e nojento, com manchas de suor e sujeira evidentes em várias partes. O couro, que deve ter sido uma vez elegante e polido, agora está manchado e desbotado, e o tecido parece ter perdido sua cor original.
Noah parece não se importar com o estado do uniforme, usando-o como uma espécie de troféu para mostrar seu novo status na sociedade de Kristadelle. Ele se move com uma arrogância desagradável, esfregando os emblemas bordados em seu uniforme enquanto fala com os outros, como se estivesse tentando chamar a atenção para si mesmo. No entanto, para aqueles que têm o desprazer de estar perto dele, o odor de suor e óleo é quase insuportável, tornando ainda mais difícil estar na presença do nojento ex-Capataz.
Noah puxa a carta manchada ensebada das mãos de Schnee com um sorriso de deboche nos lábios, saboreando cada segundo da sua vitória sobre os Heróis. Ele guarda a carta em seu bolso, certificando-se de que ninguém a tirará dele, e chicoteia a mula que puxa a carruagem com um ar de triunfo.
A carruagem se afasta rapidamente, deixando para trás uma nuvem de poeira. Noah começa a cantar a sua música predileta, batucando com a mão no banco da carruagem enquanto a mula galopa pelo caminho de pedra. A sua voz é rouca e estridente, ecoando pelas ruas estreitas da cidade enquanto ele celebra a sua conquista.
♫"Ao final desse dia não ganhas um puto
Quem só fica sentado não leva um tostão
Com teus filhos pra comer
As crianças precisam de pão
É uma sorte poder trabalhar!
Para ter um colchão!"♫
Noah sabe que, com a carta do Capitão Inanorye em suas mãos, ele tem o poder de fazer o que quiser com os prisioneiros da Milícia Monocelha. Ele se sente invencível, um rei entre os homens, enquanto a carruagem balança sobre as pedras irregulares do caminho.
Drake assiste com desdém enquanto Noah se afasta cantarolando sua música predileta. Com um sorriso sarcástico no rosto, ele vira-se para os outros heróis e diz: "Ah, eu adoro a música dele. Realmente me inspira a trabalhar duro e acreditar no sonho de liberdade de que qualquer um pode enriquecer desde que esteja disposto a escorregar em todo mundo e se sujar com a sujeira até chegar ao topo." Os outros heróis não conseguem conter uma risada em resposta ao comentário de Drake, enquanto Schnee olha para o horizonte, visivelmente perturbado pelo encontro com Noah.
O som bruto de corpos se chocando e o estalo dos ossos quebrando reverberavam nas paredes de madeira úmida e escura do Clube de Combate Cobold. Os gritos ensurdecedores de dor e agonia eram abafados pelo ambiente abafado e denso, tornando a experiência ainda mais sufocante. A tensão era palpável no ar, fazendo com que os pelos da nuca se arrepiassem ao sentir a energia emanando dos lutadores e espectadores. Era um lugar onde homens fortes e brutais vinham testar suas habilidades e forças, um local onde a lei do mais forte prevalecia.
Drake se sentou ao lado de Kajin, sua respiração ainda pesada após a luta intensa que acabara de ter no ringue do clube de combate Cobold. Ele deu um sorriso amigável ao novo colega, o Dragão de Kristadelle.
"Boa luta", disse Drake, enquanto enxugava o suor que escorria pela testa.
"Sim, você é um adversário formidável", respondeu Kajin, estendendo a mão para um dos funcionários do clube trazer um copo de cerveja gelada.
"Sério?" Drake observou com admiração enquanto o amigo bebia a cerveja, sentindo sua própria sede crescer. Os gritos abafados das lutas ainda podiam ser ouvidos em segundo plano.
"Não." Responde Kajin enquanto jogava o copo de madeira no chão.
"E como vai a vida fora do ringue?" perguntou Drake, tentando iniciar uma conversa.
"Não existe vida fora do ringue.", respondeu Kajin, dando um sorriso malandro.
"Eu queria ter sua disciplina", disse Drake, suspirando.
"Disciplina é uma coisa boa, mas a diversão também é importante", retrucou Kajin, dando um tapinha encorajador no ombro de Drake.
Drake riu e concordou. "Você tem razão. A propósito, Schnee não apareceu hoje à noite. Talvez ele esteja ocupado gastando suas energias em outro lugar", disse Drake com um sorriso irônico.
Kajin deu uma risada alta e agitou a cabeça. "Não me surpreende. Ele é só um gigante arrogante e bruto... Eu gosto dele.".
Drake concordou e olhou para o ringue vazio. "Eu realmente tô começando a gostar desse lugar. Talvez eu deva começar a frequentar com mais frequência".
Kajin sorriu e acenou com a cabeça. "Seria ótimo. Assim cortamos os gastos dos sacos de pancada.".
Drake deu uma risada alta. Os dois continuaram a conversar sobre lutas e golpe, aproveitando a noite no clube de combate Cobold. O cheiro de suor, sangue e adrenalina pairava no ar, criando um ambiente propício para a rivalidade e amizade. As velas fracas iluminavam o local, enquanto os lutadores se preparavam para as próximas batalhas.
Artemis estava sentada em sua cama, afiando as pontas das flechas enquanto a luz do sol iluminava seu rosto jovial. De repente, um toque suave na porta chamou sua atenção, acompanhado da voz amorosa de sua mãe.
"Minha filha, há uma encomenda para você."
Curiosa, Artemis abandonou momentaneamente suas flechas e se levantou para abrir a porta. Sua mãe segurava uma caixa embrulhada em papel marrom e uma carta que parecia ter vindo de longe. O nome na frente do envelope era Annya Chambers, a reitora da Academia de Duelos e Arqueria de Sir Robin de Locksley.
Sem saber o que esperar, Artemis rasgou o envelope e começou a ler a carta com um misto de emoção e curiosidade.
"Minha querida Artemis, espero que esta carta a encontre com saúde e bem-estar. Li sua última carta comentando sobre sua evolução o arco e flecha e decidi enviar um presente que irá lhe ajudar. Sei que você nunca se formou na Academia, mas tenho certeza que é uma arqueira habilidosa. Escolhi um livro antigo que, sem dúvida, irá ajudá-la a aperfeiçoar ainda mais suas habilidades. Espero que desfrute da leitura e continue sempre buscando novos desafios para superar. Parabéns por todas as suas realizações, querida Artemis."
Artemis sentiu-se honrada pela gentileza da antiga reitora e agradeceu a ela e à sua mãe, antes de começar a abrir a caixa. Quando a tampa foi retirada, ela encontrou um livro antigo e grosso com uma capa de couro gasta. O título estava escrito em letras douradas: "As táticas da arquearia: um guia para mestres de arco".
Artemis segurou o livro com reverência, sentindo a sabedoria que ele continha. Ela sabia que aquele presente seria inestimável para seu desenvolvimento como arqueira, e seus olhos brilharam com a empolgação de uma jovem aprendiz prestes a mergulhar em novos horizontes. Com um sorriso brilhante em seu rosto, ela folheou cuidadosamente as páginas do livro, sabendo que aquele presente seria o começo de uma nova e emocionante jornada em sua busca por dominar a arte da arquearia.
Capítulo 2 - O Festival da Colheita.
O Principado de Cristal estava em êxtase com a notícia: o Grande Festival da Colheita estava de volta! Anualmente, o Duque Tempete reunia pessoas de todos os cantos do Principado, vindas de cidades como Kristadelle, Paranes, Antiteaux e La Crosseide. Os camponeses esperavam ansiosamente por essa festa, que celebrava o fim da colheita e a fartura que a natureza proporcionava.
Mas este ano, o festival prometia ser ainda maior do que nunca. Afinal, além de comemorar a colheita, a festa também celebraria o resgate da filha do Duque, juntamente com todas as crianças que haviam desaparecido misteriosamente. E tudo isso só foi possível graças aos heróis lendários que haviam se unido para salvar o povo de Kristadelle.
Jarden Floconbleu, o Menestrel, contara a história desses bravos guerreiros por toda parte, e o povo clamava para conhecer os heróis com seus próprios olhos. Eles queriam ver o grupo que havia enfrentado Cedric Travitrono, derrotado um Troll fétido e espantado o Grande Lobo Mau. E por isso, os heróis haviam sido convidados de honra pelo Duque Tempete.
A notícia se espalhou rapidamente por toda a Nação, e as pessoas começaram a se preparar para o grande evento. O aroma das deliciosas iguarias que seriam servidas já flutuava no ar, e as ruas estavam sendo decoradas com flores coloridas. Todos aguardavam com grande expectativa o dia 31 de Outubro, quando finalmente teriam a oportunidade de celebrar a vida, a natureza e os heróis que haviam trazido a esperança de volta ao Principado de Cristal.
O sol começava a despontar no horizonte, iluminando a paisagem e banhando tudo com sua luz dourada. O grupo de heróis se preparava para partir, convocados pelo Duque Tempête para participar do Grande Festival da Colheita. Uma carruagem havia sido enviada pelo nobre para buscá-los e levá-los até o evento, e ele havia gentilmente oferecido acomodação em sua mansão após o festival.
Enquanto os amigos dormiam na carruagem, Artemis observava atentamente a floresta de Dormark, que parecia ter recuperado sua serenidade. Porém, um lampejo de inquietação passou pelos olhos da heroína quando avistou uma sombra lupina e os olhos vermelhos da criatura a observando. Mas quando pensou em alertar os outros, o lobo desapareceu. Talvez tenha sido só sua imaginação, mas a lembrança daquela sombra a acompanhou por algum tempo.
A jornada durou cerca de cinco horas, mas já era possível avistar as multidões se dirigindo ao mesmo destino. Camponeses humildes seguem a pé, carregando sacos cheios de grãos e hortaliças que serão vendidos no evento. Alguns andam de carroças puxadas por cavalos, suas roupas simples e gastas mostrando o esforço que eles fizeram para chegar até ali.
Nobres vestidos com roupas finas e elegantes cavalgam em seus cavalos de raça, exibindo suas riquezas e status social. Seus rostos estão sorridentes e animados, ansiosos para participar do festival. Há também aqueles que viajam em carruagens luxuosas, feitas de madeira nobre e puxadas por cavalos imponentes. Essas carruagens são decoradas com brasões de família e símbolos nobres, deixando claro a origem aristocrática de seus passageiros.
Além disso, é possível encontrar artistas de rua, músicos e acrobatas, que caminham pelas estradas com suas trouxas e instrumentos, animando os viajantes com suas habilidades. Vendedores ambulantes também são comuns na estrada, vendendo comida, bebida e artesanato para os viajantes famintos ou interessados.
Não há dúvida de que a estrada que leva ao festival é um verdadeiro espetáculo de diversidade, mostrando a grande variedade de pessoas e meios de transporte que se dirigem para o mesmo lugar, todos ansiosos por celebrar a colheita e agradecer por mais um ano de vida e prosperidade.
A alegria e a animação das pessoas contagiavam os heróis, que, ao chegar ao Ducado Tempête, foram recebidos por um mar de cores vibrantes. Do jardim ao pátio e à varanda do Duque, mesas, enfeites e comidas coloridas compunham a atmosfera alegre e festiva da época de colheita.
Descendo da carruagem, os heróis avistaram Jean Baptiste e Marius, os criados da fazenda Birken, que se divertiam pagando apostas com os frutos da caça. Marius desembolsou algumas moedas para Jean Baptiste, que exibia três coelhos abatidos, enquanto ele mesmo segurava apenas um pequeno coelho que mal daria para alimentar uma raposa faminta.
A decoração do Festival da Colheita é um verdadeiro espetáculo de cores e criatividade, que atrai a atenção de todos os que passam pelo local. Os caminhos que levam ao Ducado Tempête são enfeitados com grinaldas de folhas e flores coloridas, que formam um arco sobre a cabeça dos visitantes.
O grande jardim que rodeia o casarão é coberto por mesas de madeira rústica, que são adornadas por toalhas de mesa amarelas e laranjas, que simbolizam a fartura da colheita. Os guardanapos são de linho branco, perfeitamente dobrados em forma de flores, que dão um toque elegante e romântico ao ambiente.
Nas mesas há diversas comidas e bebidas típicas da época, como tortas de abóbora, maçãs carameladas, cidra quente, além de outras iguarias locais. As pessoas se deliciam com essas iguarias enquanto conversam, riem e se divertem ao som de uma banda que toca música tradicional do Principado de Cristal.
Os arredores do jardim são decorados com lanternas coloridas, penduradas em galhos de árvores, que iluminam o caminho à noite. Há também bancas de jogos e atividades para as crianças, como jogos de argola, pintura de rosto, entre outras brincadeiras divertidas.
Os funcionários do duque e os criados estão todos vestidos com trajes típicos da região, com blusas de renda branca e saias longas rodadas, adornadas com laços e fitas. Os nobres também estão elegantemente vestidos, com roupas finas e elegantes, com cores vivas que combinam perfeitamente com a decoração.
Todo o cenário é emoldurado por um amanhecer esplendoroso, com tons de laranja, rosa e vermelho que dão um ar mágico e romântico ao festival. É impossível não se encantar com tamanha beleza e alegria que tomam conta do local.
Os Heróis adentraram no festival, maravilhados pela decoração que os cercava. Embora o chão estivesse coberto de lama, eles caminhavam sem muita preocupação, seguindo em direção à área de grama que parecia mais atraente. À medida que se aproximavam, notavam pequenos labirintos feitos com muros de feno e espantalhos tão bem feitos que até os confundiam com pessoas reais. A multidão murmurava enquanto eles passavam: "São eles não é?", "Aquele ali é o Drake Walker. Ao lado dele o Mestre Díor, eu ouvi dizer que ele derrubou 5 de uma vez... E isso porque ele é cego!", "Mamãe! Quando eu crescer, quero casar com a Artemis!", "E não é que é o Fransisco mesmo! Eu segurei aquele garoto no colo, e agora ele é um herói! QUEM DIRIA?!", "Nossa, como aquele homem consegue ser tão grande?"
Os Heróis seguiam em frente, desfrutando da atmosfera animada do festival, cercados por pessoas de todas as idades e classes sociais, vestindo trajes coloridos e ostentando sorrisos no rosto. O aroma de comidas e bebidas deliciosas flutuava pelo ar, e as barracas de jogos e brincadeiras atraíam crianças e adultos igualmente. Era um evento que celebrava a colheita e agradecia a Deus pela prosperidade do ano, reunindo toda a comunidade em um só lugar.
De repente, a tensão dos murmúrios foi quebrada pela voz familiar do Duque Marcel Tempête. Ele segurava uma taça de vinho em uma mão e um sorriso no rosto enquanto se aproximava dos Heróis. O Valete que o acompanhava segurava uma garrafa de prata, provavelmente contendo mais vinho. "FINALMENTE! OS GRANDES HERÓIS", exclamou o Duque, sua animação transbordando. "Eu estava em dúvida se vocês viriam. Sintam-se à vontade para explorar os arredores do evento! Nenhuma área do evento é restrita para vocês, então fiquem livres para se juntar a alguns dos meus amigos da nobreza em minha humilde residência ou desfrutar do ambiente aqui fora com os bons plebeus."
A pequena Sarahleen correu para os Heróis e abraçou Fransisco com força. "Eu sabia que vocês viriam!", disse ela, sorrindo enquanto observava um grupo de crianças correndo pelo jardim. A atmosfera ao redor deles era de admiração e respeito, pois os Heróis eram lendas vivas aos olhos de todos. Eles mal podiam esperar para ver o que mais o festival tinha a oferecer.
O Duque Marcel Tempete cumprimentou os Cinco Heróis com efusividade, abraçando-os um por um. "Meus caros amigos, não há palavras para expressar minha gratidão por terem salvado minha filha e tantas outras crianças do nosso Principado", disse ele, com a voz embargada pela emoção.
Christof, Fransisco, Artemis, Friederich e Drake sorriram agradecidos, retribuindo o abraço do Duque. "Foi uma honra para nós poder ajudar, Vossa Graça", disse Artemis, enquanto Drake assentiu com a cabeça.
O Duque olhou para a filha, que estava abraçada a Fransisco, e sorriu. "Sarahleen me contou que você a acalmou durante todo o tempo em que estiveram presos no covil dos bandidos. Eu não sei o que teria feito sem você, jovem mesetre Herrara", disse ele, erguendo a taça de vinho em direção ao rapaz.
Fransisco ficou um pouco sem graça com a atenção, mas sorriu timidamente. "Foi um prazer poder ajudar, Vossa Alteza. Sarahleen é uma menina muito corajosa e forte", respondeu ele, acariciando o cabelo da menina.
Friederich, que até então tinha estado em silêncio, interveio na conversa. "Duque Tempete, devo dizer que estou aqui em nome da Escola de Zielkfrat também. E qualquer..." O Profano se distraiu por um momento e olhou para o lado. "Aquilo ali é Pesca de Maçã?', perguntou ele, curioso.
O Duque riu alto, animado. "Oh, sim, temos várias competições planejadas! Teremos corridas de saco, competições de arco e flecha, jogos de xadres e necromante e muito mais. Vocês deveriam participar!", respondeu ele, entusiasmado.
Schnee, que adorava uma boa competição, sorriu de orelha a orelha. "Isso parece ótimo!", disse ele, animado.
Os Heróis continuaram conversando com o Duque, trocando histórias e brincadeiras, enquanto o sol subia no céu, iluminando o festival da colheita. Era um dia para celebrar a vida, a amizade e a coragem, e os Cinco Heróis estavam mais do que felizes em estar presentes para comemorar com o povo do Principado de Cristal.
O Duque Marcel Tempete exibia sinais clássicos de quem já havia ingerido uma quantidade considerável de álcool. Seus olhos estavam ligeiramente vidrados e seu discurso apresentava algumas falhas, com a fala arrastada e dificuldade em se concentrar em uma única ideia por muito tempo. Além disso, seu rosto apresentava uma coloração avermelhada. Tudo isso sugeria que o Duque já havia bebido um pouco além da conta.
Francisco Herrara observava com fascínio as grandes hortaliças expostas na mesa do Festival da Colheita. Ele estava impressionado com o tamanho monstruoso dos vegetais, e ficava imaginando como seria possível cultivá-los com tanto sucesso.
A mesa estava elegantemente posta com uma variedade de hortaliças e vegetais frescos e exuberantes. No centro do pódio, cinco grandes e majestosas hortaliças eram exibidas para serem admiradas por todos os presentes. Cada uma delas ostentava um tamanho impressionante e uma placa indicando seu nome e dono.
Mas, sem dúvida, a mais impressionante era um gordo e lustroso rabanete, que parecia desafiar as leis da natureza em seu tamanho colossal. E, ao lado dele, o orgulhoso dono, Horaz Gemüzen, irradiava alegria e satisfação ao receber olhares de espanto e admiração.
Horaz era um senhor de idade, mas sua paixão pela terra e pelo cultivo de hortaliças era palpável em cada ruga de seu rosto e em cada cheiro de terra e adubo que emanava dele. Com um simples gesto de comprimento, ele agradecia a todos os presentes pelo reconhecimento de seu rabanete monstruoso, que certamente ficaria na memória de todos os que o contemplaram.
Foi então que Horaz Gezmuzen, o dono do famoso gordo rabanete, se aproximou dele. Francisco sorriu gentilmente para o senhor de idade, que exalava um forte cheiro de terra e horta.
"É por cinco anos eu competi nesse festival, e por cinco anos eu não cheguei nem aos três primeiros! Mas agora eu finalmente estou aqui...", disse Horaz com um sorriso orgulhoso, enquanto apontava para o seu rabanete.
Francisco olhou admirado para o enorme vegetal, e não pôde deixar de se surpreender com a paixão de Horaz pela competição de hortaliças. "Ele é realmente Incrível Senhor!". Disse o jovem roceiro.
"Muito obrigado, você também tem vontade de se juntar ao ramo competitivo das Hortalliças meu jovem?", perguntou Horaz, com uma piscadela sugestiva.
Francisco riu, balançando a cabeça. "Eu acho que minha paixão está mais na medicina natural e na botânica do que na competição, senhor Gezmuzen. Mas admiro muito o seu sucesso aqui!"
Horaz riu, parecendo satisfeito com a resposta de Francisco. Mas, ao notar que o jovem se aproximava do seu rabanete para tocá-lo, ele o interrompeu rapidamente: "Só não encoste nele por favor!"
Francisco ergueu as mãos em sinal de rendição, dando um passo para trás. "Desculpe, senhor Gezmuzen. Eu não sabia que ele era tão precioso!"
Horaz sorriu, parecendo divertido com a situação. "Sem problemas, meu jovem. Eu só não quero correr o risco de perder o meu grande trunfo aqui!"
Francisco riu, sentindo-se um pouco bobo por ter se deixado levar pela curiosidade. Mas, ao olhar para o senhor Gezmuzen, ele sentiu uma admiração profunda pelo amor e dedicação que o homem tinha pelas suas plantas. Ele percebeu que aquela competição era muito mais do que uma simples disputa de vaidade, era um verdadeiro culto ao poder da natureza e ao trabalho duro dos agricultores. E Francisco Herrara sabia que aquilo era algo que ele sempre iria respeitar e admirar.
O germânico de cabelos curtos e barba branca e olhos amarelos, corria incansavelmente pelas propriedades do Duque, deixando para trás uma trilha de poeira e medo nos olhos dos plebeus que se apressavam em sair de seu caminho. Friederich Schnee era um homem inquieto e imponente, sua aparência incomum podia intimidar muitos, mas sua expressão de entusiasmo transparecia como um sinal de que algo grandioso estava para acontecer.
O Festival da Colheita era o palco perfeito para Schnee, que se envergava em cada uma das atividades com a vontade feroz de um caçador de monstros que busca a vitória a todo custo. Seu sorriso, embora assustador, transbordava entusiasmo e empolgação por competir em cada evento, mesmo que isso significasse competir com crianças com metade de sua idade e um terço de seu tamanho.
Enquanto corria para a próxima competição, Schnee exalava um misto de coragem e destemor que vinham de sua formação na Escola de Hexanos, e o peso emocional de ter sido enviado para a escola como um "filho profano" por sua própria família. No entanto, apesar de todas as suas lutas internas, ele ainda era um homem que se entregava completamente à emoção do momento, e sua paixão pelo festival era palpável.
Artemis e Drake caminharam juntos até a área do banquete externo, onde a comida e a bebida eram abundantes e ininterruptamente reabastecidas pelos serviçais. Os camponeses eram livres para se deliciar com os pratos suntuosos enquanto desfrutavam da animação do evento.
Sobre a grande mesa do Festival da Colheita, exibiam-se uma variedade de iguarias e bebidas que faziam os convidados se deliciarem e se sentirem como verdadeiros nobres da corte francesa.
Entre os pratos principais, destacava-se um delicioso coq au vin, um prato típico da região do Principado do Despertar, composto de pedaços de frango cozidos em vinho tinto, ervas aromáticas e legumes. Ao lado do coq au vin, havia uma bela terrine de foie gras, uma iguaria francesa feita de fígado de ganso, cozido com especiarias e servido em fatias finas.
Os acompanhamentos eram igualmente impressionantes. Uma salada composta de alface fresca, tomate, pepino e azeitonas, coberta com um vinagrete saboroso e croûtons crocantes, fazia as papilas gustativas dos convidados dançarem de prazer. Além disso, havia um purê de batatas cremoso e gratinado com queijo, uma opção popular entre os plebeus.
Para a sobremesa, o destaque era uma tarte tatin, uma torta de maçãs caramelizadas e amanteigadas, servida quente e acompanhada de uma bola de sorvete de baunilha.
Quanto às bebidas, os convidados tinham uma variedade de opções. Vinhos finos da região da Principado do Despertar, como Chablis e Beaujolais, eram servidos em taças de cristal. Para os que preferiam algo mais refrescante, havia uma limonada artesanal, feita com limões frescos, açúcar e água. E, para os que desejavam algo mais forte, havia um licor de cereja queimado, típico da região de Charmant, que era servido em pequenos copos de vidro.
Enquanto isso, alguns nobres jovens se divertiam em meio à multidão de plebeus, flertando com as jovens da vila ou simplesmente aproveitando a vida com despreocupação. Um deles, talvez enebriado pelo excesso de vinho, caiu na lama e sujou seu traje luxuoso sem se importar. Mas o caos e a euforia dessa celebração não poderiam ser abalados, e a música festiva continuava a ressoar pelos arredores, convidando todos a se juntarem na dança e alegria coletiva.
Enquanto Artemis e Drake se serviam, Friederich Schnee estava em seu elemento. O Festival da Colheira era o cenário perfeito para ele mostrar suas habilidades em tudo, desde pegar maçãs com a boca até competir em uma corrida de sacos. Ele estava determinado a vencer todas as competições de forma extravagante e desnecessariamente competitiva.
Na primeira competição, Friederich mergulhou a cabeça na bacia de água repleta de maçãs e começou a pegá-las com a boca. Ele não se importava em parecer ridículo ou em competir contra crianças. Ele estava lá para vencer, e nada o deteria.
Na competição de abóbora na colina, Friederich correu atrás da cucurbitácea com uma intensidade feroz. Ele não hesitou em empurrar outros competidores para fora do caminho, e finalmente conseguiu pegar a abóbora antes de qualquer outra pessoa.
Na corrida de sacos, Friederich saltou dentro do saco de batatas com um sorriso confiante, mas psicótico em seu rosto. Ele correu tão rápido quanto pôde, e mesmo tropeçando algumas vezes, conseguiu chegar em primeiro lugar.
Todos estavam impressionados com a habilidade e determinação de Friederich. Mesmo com sua aparência intimidadora, ele mostrou que era capaz de vencer as competições com um senso de humor cômico e um espírito competitivo. A multidão aplaudiu enquanto Friederich celebrava suas vitórias, ignorando completamente as crianças chorosas que ele derrotou na competição.
Enquanto os outros camponeses se aglomeravam em torno da mesa repleta de iguarias, um jovem rapaz de semblante sério e enfezado se mantinha à parte, evitando a companhia dos demais. Ele pegava os pãezinhos, bolos e garrafas, e os colocava cuidadosamente em sua bolsa, como se estivesse em uma missão secreta e perigosa. Sua expressão demonstrava convicção em suas ações, mas também uma certa amargura que chamava a atenção dos presentes. Enquanto Artemis se servia, ela notou o jovem colocando comida em sua bolsa. Intrigada com sua atitude, ela se aproximou dele e perguntou:
"Por que você está colocando comida em sua bolsa?"
O jovem olhou para ela com tristeza em seus olhos e respondeu: "Você acha que isso é muita comida? De verdade, deve ver como está lá dentro! Eu tenho certeza que aqueles almofadinhas estão com o dobro, talvez o triplo de comida para alimentar nenhum 1/5 de pessoas comparando com o número que tem aqui fora!"
Artemis franziu a testa e olhou em direção ao banquete interno, sentindo uma pontada de raiva. Ela se virou para o rapaz e perguntou: "Mas porque você está colocando a comida na sua bolsa?"
"Eu vou tirando para eles colocarem mais obviamente, é o jeito mais rápido de igualar as coisas!" respondeu ele, com um brilho de determinação em seus olhos.
Artemis se animou com a ideia de Richard e se apresentou a ele, dizendo: "Meu nome é Artemis Lune-Argentée. E deixe-me fala jovem senhor... Eu adoraria ajudá-lo a corrigir essa injustiça!"
"Richard... Richard Handlerie então menos papo e mais ação ruiva!". Disse o rapaz enquanto empurrava garrafas de vinho na direção da menina Juntos, eles começaram a esconder a comida em suas bolsas e sacolas, trabalhando juntos em silêncio, até que Artemis decidiu quebrar o gelo:
"Então, Richard, você parece bastante apaixonado pela ideia de igualdade. O que o levou a se preocupar tanto com a justiça?"
Richard deu um sorriso triste. "Bem, eu vim de uma família humilde. Meu pai trabalhava na fazenda de um lorde, e a vida nunca foi fácil para nós. Eu vi em primeira mão como os poderosos usam sua riqueza e influência para oprimir aqueles que não têm nada. Então, decidi que minha missão na vida seria lutar por aqueles que não têm voz."
"Eu entendo completamente", disse Artemis, acenando com a cabeça. "Eu também vim de origens humildes. E as vezes era díficil. Mas o que me ajudava a abstrair era minha paixão pela arquearia. A sensação de soltar a flecha e sentir a força dela cortar o ar... É como se todo o mundo desaparecesse, e só restasse eu e o meu objetivo. Eu quero usar minhas habilidades para ajudar aqueles que precisam, para proteger os menos afortunados."
Richard deu um sorriso caloroso. "Parando pra pensar garota.... A justiça é como a arquearia, requer precisão, foco e uma mira certeira para acertar o alvo da verdadeira igualdade."
Artemis sentiu um calor em seu coração ao ouvir as palavras de Richard. Ela sabia que havia encontrado um verdadeiro amigo e aliado em sua luta por um mundo mais justo.
Drake Walker acabou de terminar sua refeição quando foi surpreendido pelos aplausos e hurras dos plebeus. Curioso, o jovem herói ergueu o olhar e avistou o motivo da celebração: o menestrel Jarden Floconbleu. Ele caminhava entre a multidão, espalhando suas aventuras e histórias sobre os heróis do Principado de Cristal.
"Jarden!" Drake se levantou apressadamente para cumprimentar o velho conhecido. "Quanto tempo."
"Ora, vejam só quem está entre nós!", Jarden disse, surpreso ao ver Drake. Ele se virou para a multidão que os cercava e, com um sorriso nos lábios, anunciou: "Honrado povo de Kristadelle, temos aqui uma das minhas musas! Drake Walker está entre nós!"
Os aplausos e gritos de júbilo se intensificaram enquanto Jarden puxava seu alaúde e começava a dedilhá-lo. "Nunca tive a oportunidade de contar a Crônica dos Heróis de Kristadelle para eles", explicou Jarden. "Então Drake será o primeiro deles a ouvir a Grande Balada Enluarada!"
Drake sentiu seu coração se encher de alegria ao ouvir essas palavras. Seria uma honra ouvir a mais nova criação do menestrel. E assim, a multidão se calou, enquanto Jarden iniciava a sua história, contando sobre as aventuras dos heróis de Kristadelle em uma noite de lua cheia. "Queridos amigos, preparem-se para escutar a história mais emocionante que já contamos! É a história dos Heróis de Kristadelle e suas aventuras épicas para salvar as pobres crianças sequestradas pela Mílicia Monocelha."
Os plebeus se reuniram ao redor de Jarden, ansiosos para ouvir a história que ele contaria.
"Os Heróis estavam em uma missão perigosa, para salvar as pobres crianças mantidas em cativeiro na escura e assustadora caverna de Dormark. Eles enfrentaram a mais terrível Mílicia, liderada pelo malvado Cedric Travitrono, que estava determinado a manter as crianças cativas."
♫Oh, os Heróis de Kristadelle,
Com coragem e bravura sem igual,
Lutaram contra o mal,
E salvaram as crianças do cativeiro infernal.♫"
Os plebeus prestavam atenção em cada palavra que Jarden dizia enquanto ele continuava a história.
"Eles entraram na floresta de Dormark, um lugar escuro e perigoso, onde um terrível Troll produzia um fedor insuportável em toda a floresta. Mas os Heróis não se intimidaram e enfrentaram o Troll com bravura e determinação, deixando-o em fuga.
♫Com suas espadas e arcos em mãos,
Enfrentaram a Milícia Monocelha sem temor,
E mesmo diante do troll fedorento,
Eles não desistiram do seu labor.♫"
As crianças e adultos que ouviam a história começavam a se animar, impressionados pela coragem dos Heróis.
"Eles não pararam por aí, pois ainda precisavam afugentar o Grande Lobo Mau que ameaçava a segurança das crianças e dos próprios Heróis. Mas com sua astúcia e força, eles conseguiram vencer o lobo e finalmente libertar as crianças da sua prisão na caverna.
♫E no fim da jornada heróica,
Eles afugentaram o Grande Lobo Mau,
Com sua vitória de forma épica,
Kristadelle voltou a ter alegria sem igual.♫ "
Durante cada verso os plebeus cantam o refrão da música Junto a Jarden.
"♫Com esperanças no coração,
As crianças recebem proteção.♫"
Os plebeus explodiram em aplausos, comemorando a vitória dos Heróis e sua coragem diante dos perigos que enfrentaram. "Os Heróis de Kristadelle são um exemplo para todos nós, mostrando que com coragem, determinação e união, podemos superar os maiores obstáculos. Que suas histórias inspirem todos a lutar pela justiça e pela liberdade!" Jarden terminou a história com um acorde final em seu alaúde, enquanto o povo aplaudia de pé a incrível saga dos Heróis de Kristadelle.
Drake Walker se sentiu ligeiramente envergonhado com a atenção repentina que recebeu dos plebeus e com o talento exagerado que Jarden atribuiu a ele. Embora Drake soubesse que ele e seus amigos haviam feito algo notável, ele não se sentia confortável sendo colocado no pedestal como um herói. Ele ouviu a música com um sorriso educado, mas ficou um pouco constrangido com a atenção que estava recebendo. Ele não queria que a multidão se concentrasse em sua figura, mas sim na causa pela qual eles lutaram.
Artemis decidiu se afastar um pouco do burburinho do festival e procurou um local tranquilo para desfrutar de sua refeição, e achou. Era um espaço cercado por árvores altas e frondosas que formavam um dossel verdejante sobre sua cabeça. O sol do final da tarde derramava uma luz suave sobre a cena, criando uma atmosfera de paz e tranquilidade. Ela escolheu uma mesa sob uma bela tenda branca, decorada com detalhes laranja, que a protegia do sol e oferecia um ambiente aconchegante para sua refeição.
A tenda era feita de tecido leve e fluido, que tremulava ao sabor da brisa suave que soprava pela clareira. Artemis notou que o tecido era decorado com padrões intrincados, formando desenhos que pareciam se movimentar conforme ela olhava. Os detalhes laranja contrastavam de maneira vibrante com o branco puro da tenda, criando um efeito visual agradável aos olhos.
A mesa em que Artemis se sentou era feita de madeira rústica, polida até ficar lisa e macia ao toque. Apoiou sobre ela, seu prato de comida fumegante, repleto de aromas deliciosos que faziam sua boca salivar. Uma taça de vinho tinto descansava ao lado do prato, esperando para ser degustada. A cena era tão agradável que Artemis sentiu uma sensação de felicidade transbordar em seu peito.
Enquanto saboreava seu prato, ela notou um homem sentado à mesa ao seu lado, segurando uma garrafa de vinho e vestindo roupas sujas de fuligem e óculos de proteção. Aparentemente, ele era um inventor vindo de Paranes, a cidade das maravilhas, conhecida por suas criações tecno-vapor.
Um homem de cerca de 60 anos, com uma estatura alta e esguia. Seu rosto estava marcado pelo tempo, com rugas profundas ao redor dos olhos e da boca. Seus cabelos grisalhos estavam desgrenhados e cobertos de fuligem. No momento em que Artemis o encontrou, Elliot estava vestindo roupas sujas e rasgadas, manchadas de óleo e poeira, que pareciam ser as roupas de trabalho de um inventor tecno-vapor. Seu cheiro era forte, misturando o odor do álcool com o cheiro de fumaça e suor. Os óculos de proteção, que ele ainda usava, acrescentavam um ar de exaustão e desespero aos seus olhos cansados.
De repente, um camponês chegou com outra garrafa de vinho e gritou para o homem: "Bebe que passa Elliot, você é um homem inteligente com certeza vai achar um emprego rapidinho!" Mas Elliot parecia perturbado e soltou um choro quase incompreensível enquanto desabafava suas queixas.
"Eu perdi meu emprego... Fui demitido e exonerado pelo Burgomestre da cidade das Maravilhas. E a culpa nem foi minha... Alguns projetos foram levados, sumiram da noite pro dia. Os equipamentos necessários para a construção também foram levados! Eram engenharias boas que iriam ajudar na proteção e no avanço de Paranes... era para ser a minha grande chance. Lado a lado com os projetos da fraternidade... Agora eu estou desgraçado mesmo! Foram levados tarde demais, e obviamente a Guarda preferiu colocar a culpa na minha 'inaptidão para gestão e segurança de projetos'." As palavras saíam da boca de Elliot enquanto seu rosto se contorcia de dor. De repente, ele se virou para o lado e vomitou na grama verde, parecendo mais abalado do que antes.
Artemis ouviu a história de Elliot com atenção e tentou consolá-lo. "Calma senhor... Eu tenho certeza que você vai superar isso. Por que não tenta aproveitar o festival?"
Mas Elliot parecia ter se entregado à bebida. Seus olhos estavam vermelhos e inchados pelo choro e pelo vinho. "Eu vou é afogar tudo na bebida!" disse ele enquanto encheu mais um copo. Artemis sabia que as palavras de conforto eram inúteis naquele momento, então ela decidiu deixá-lo sozinho para lidar com seus próprios demônios.
Os jovens camponeses se reuniam em torno do desafio, cada um ansioso para provar sua força e habilidade. O sino pendurado no alto da estrutura, balançando com a brisa, era o alvo de todos. Mas quando um deles se preparava para tentar, sentiu a presença de alguém atrás dele. Era Friederich Schnee, o homem colossal coberto de lama e suor, com uma expressão de loucura em seus olhos. Ele tomou a marreta do jovem e o afastou com facilidade.
Com uma determinação feroz, Friederich se preparou para sua tentativa, levantando a marreta de madeira atrás de suas costas. Todos assistiam, hipnotizados, enquanto ele desceu com um golpe poderoso, atingindo a placa de pressão com uma força tremenda. O som do sino ressoou alto e claro pelo ar, ecoando pelos campos vizinhos. Os camponeses olharam em choque enquanto Friederich comemorava, rindo alto e orgulhoso. "HAHAHAHA! NENHUM SINO É PÁREO PARA FRIEDERICH SCHNEE!"
Sua voz retumbante ecoava pelo ar enquanto ele se deleitava em sua vitória. Os jovens, impressionados e um pouco assustados, se perguntavam se havia alguém que pudesse rivalizar com a força e habilidade de Friederich Schnee. Mas por enquanto, todos pareciam contentes em simplesmente observar enquanto ele exibia sua incrível força física.
Enquanto Schnee ainda celebrava sua conquista, uma voz firme e imponente surgiu da multidão. Seu tom era carregado de admiração e desafio, e todos os olhares se voltaram para o recém-chegado. Era um homem alto, musculoso e com uma cabeleira negra que caía em cachos perfeitos sobre seus ombros largos. O que mais chamava a atenção, porém, era seu invejável bigode, que parecia ter sido cuidadosamente esculpido para dar ainda mais personalidade ao seu rosto marcante.
Com uma jaqueta fina vermelha e uma calça de linho que caía perfeitamente em seu corpo, ele se aproximou do caçador de monstros com um sorriso desafiador nos lábios. O ar ao redor deles parecia eletrificado, carregado de tensão e expectativa. Era claro que aqueles dois homens eram rivais natos, e estavam prontos para competir pela atenção e admiração da multidão.
Diogo DeLuca se aproxima de Friederich Schnee, com um sorriso desafiador no rosto. "Impressionante colega!", ele diz. "O quê me diz de darmos um pouco de entretenimento para esse bom povo do Principado de Cristal!"
Schnee olha para Diogo com uma sobrancelha levantada, ainda recuperando o fôlego de sua demonstração de força. "Entretenimento? O que você sugere?" ele pergunta.
"Uma competição amistosa, eu e você na arena!" Diogo responde. "Isso se você não estiver ocupado... Ou com medo."
Schnee solta uma risada baixa. "Medo? Eu?" Ele olha para Diogo com um olhar desafiador. "Eu aceito sua competição, Diogo DeLuca. Mas eu espero que você esteja pronto para ser derrotado!"
Diogo ri e estende a mão para Schnee. "Estou pronto, meu amigo", ele diz. "Que vença o melhor homem!"
Os plebeus formam um grande círculo em torno de Schnee e Diogo, dando espaço para que a competição começasse. Schnee assume uma posição de combate, pronto para lutar contra Diogo. Porém, quando avança para dar o primeiro golpe, é surpreendido por um momvimento ritímico de Diogo.
Schnee ficou parado, com a boca aberta, olhando para Diogo dançando. Ele estava confuso e não sabia o que fazer. Pensou consigo mesmo: "O que esse homem está fazendo?" Ele tentou se recompor e voltar ao seu modo de combate, mas não conseguia tirar os olhos da performance de Diogo. Schnee não sabia dançar, então sentiu-se um pouco envergonhado. Ele começou a coçar a cabeça e tentou pensar em algo a dizer, mas não conseguiu encontrar as palavras certas. Foi então que percebeu que os plebeus estavam rindo dele. Schnee sentiu seu rosto ficar vermelho de vergonha. Ele nunca se sentiu tão deslocado e desamparado em toda a sua vida.
Diogo começa a se mexer ao som do tambor, fazendo movimentos graciosos e fluidos, enquanto Schnee permanece imóvel, confuso. Ele não entende o que está acontecendo, e tenta acompanhar os movimentos de Diogo, mas parece um elefante desajeitado em comparação com a elegância do outro homem.
Os plebeus começam a rir e a bater palmas para Diogo, que continua a dançar com confiança. Schnee, por sua vez, começa a suar e a tropeçar em seus próprios pés, envergonhado por não conseguir acompanhar o ritmo.
Em um momento de desespero, Schnee tenta imitar um dos movimentos de Diogo, mas acaba se desequilibrando e caindo de costas no chão. Os plebeus explodem em gargalhadas, enquanto Schnee se levanta, furioso, mas envergonhado.
Diogo se aproxima dele, ainda sorrindo, e oferece a mão para ajudá-lo a se levantar. "Não se preocupe, meu amigo", diz ele, "a dança não é para todos". Schnee, sem palavras, aceita a ajuda e deixa o círculo de cabeça baixa, sabendo que já tinha tido o suficiente de competições por hoje.
Fransisco Herrara caminhava pelo festival da colheita, observando as barracas de comida e bebida e o movimento das pessoas. Ele logo avistou o bom Frei Gaetano bebendo cerveja sem parar em uma das barracas.
Um homem rechonchudo de meia idade, com cabelos castanhos e grisalhos bem aparados e uma barba cheia. Ele usa um hábito marrom claro com um cinto grosso de corda que amarra a cintura e sandálias de couro surradas nos pés. O hábito está amassado e manchado em alguns lugares, indicando que ele tem usado por um tempo considerável. Ele está sentado em uma mesa de madeira no meio da multidão, com várias canecas vazias ao seu redor e uma expressão de felicidade em seu rosto. Quando Francisco o avista, o frei está bebendo mais um caneca de cerveja e rindo de alguma piada que acabara de ouvir, claramente já um pouco embriagado.
"Olá, Frei Gaetano!" Fransisco cumprimentou o religioso com um sorriso no rosto.
"Ah, olá, jovem Herrara! Está aproveitando o festival?" O Frei respondeu com dificuldade, sua fala enrolada pela bebida.
"Sim, estou adorando. E o senhor?"
"Estou me divertindo bastante, bebendo e comendo até não aguentar mais." O Frei riu, balançando a caneca de cerveja vazia em sua mão.
Fransisco riu junto, mas logo percebeu que não seria possível manter uma conversa coerente com o Frei em seu estado atual. Ele se despediu do religioso e seguiu caminhando pelo festival, pensando em como ajudar o Frei a se recuperar da bebedeira.
Enquanto os outros Heróis se divertiam com os jogos e as apresentações na área externa do Festival da Colheita, Christof Dior preferiu refugiar-se no luxuoso casarão do Duque Tempete, onde os nobres e a alta-burguesia se reuniam.
A mansão do Duque Tempete era majestosa, com sua arquitetura elaborada e decoração refinada. Objetos de arte, tapeçarias e todo tipo de extravagância adornavam cada canto, exibindo a riqueza e o status do anfitrião. O Duque havia obtido seu título há alguns anos, mas seu amor pela vida de luxo e prosperidade era evidente.
A nobreza e alta burguesia circulavam pelo segundo andar, onde a mesa farta e bem servida atraía seus olhares ávidos. Eles desfilavam pelo ambiente, observando os plebeus abaixo em seus jogos, como se fossem animais em um zoológico. As conversas aqui dentro eram rebuscadas, cheias de frivolidades e fofocas. Condes e Barões discutiam sobre suas safras, enquanto donos de grandes fazendas lamentavam as cabeças de gado que perderam. E fofocas entre as ladies e duquezas eram o tom da conversa.
No entanto, em um canto da sala, alguns jogavam cartas e bebiam enquanto discutiam temas mais acalorados. Christof se misturava à multidão, enquanto lentamente se aproximava da área de jogos. Se sentando em uma mesa aonde as cartas começavam a ser distribúidas.
Ele se acomodou em uma poltrona próxima à mesa de cartas, imerso na atmosfera tranquila daquele espaço. Seus ouvidos aguçados captavam o barulho das cartas sendo embaralhadas e as vozes de homens sussurrando sobre suas jogadas. Mesmo sem poder participar, a simples presença de Christof era reconfortante, e ele aproveitava o momento para relaxar e deixar seus outros sentidos apreciarem a beleza daquele local refinado.
Christof estava sentado em sua poltrona, um pouco afastado da mesa de cartas, quando sua atenção foi atraída pela discussão acalorada que se desenrolava entre os dois jogadores. O Visconde de Brosseau, com sua voz sonora e serena, falava com evidente irritação: "Estás claramente exasperado novamente, Edgard. Corroborar com as atitudes desse homem? Carece urgentemente de parar de se entupir com doces e vitualhas e começar a alimentar essa sua mente desfavorecida. O homem é um misógino nojento, um assassino escancarado e francamente um perigo para toda Farngomery."
O Visconde de Brosseau era um homem de idade madura, mas ainda conservava um ar jovial e amigável em sua expressão. Seus olhos castanhos, serenos e observadores, eram circundados por rugas finas e bem traçadas, dando-lhe uma aparência sábia e experiente. Seus cabelos negros, já esbranquiçados, eram escondidos por uma bela peruca de cabelos cacheados e acinzentados, presa por um laço de fita azul-celeste. Vestia um terno azul-marinho de brocado, adornado com botões de ouro, e uma camisa branca com babados de renda, sob um colete de seda da mesma cor. Suas mãos finas e bem cuidadas estavam adornadas com anéis de ouro, e um lenço de seda branca estava dobrado com elegância no bolso do casaco. Tudo em sua aparência refletia a elegância e o requinte da alta nobreza.
O segundo no debate era o Burgomestre Baucier, com sua voz arrastada e pesada, respondeu com um risinho irônico: "Ha! Perigo? Você quer falar de perigo, meu nobre Visconde? Olhe para a cidade vizinha de Paranes! O descontrole que Lorenzini causa naquele local... AQUILO É PERIGO, e pode ter certeza que a influência daquele homem não para por lá. Ele tem ouvidos de Kristadelle até Mantille... Na realidade, não me surpreenderia se infiltrados dele estivessem sentados nessa mesa bem agora!"
August Baucier era um homem de aparência desleixada e glutônica. Seu rosto redondo e inchado exibia um sorriso permanente que parecia mais uma careta. Seu cabelo oleoso e mal cortado caía sobre a testa, cobrindo parcialmente a testa suada e gordurosa. Vestia um traje nobre, mas claramente mal-cuidado, com manchas de vinho e gordura espalhadas por toda a roupa. O colarinho amarrotado e mal fechado mostrava seu pescoço dobrado, e as mangas estavam encharcadas de suor. Baucier exalava um odor forte e desagradável, resultado de seus excessos alimentares e higiene precária.
Christof não pôde evitar um sorriso irônico, imaginando como as coisas realmente eram no mundo dos poderosos. O Visconde se levantou da mesa enquanto jogava suas cartas. "Mas esta situação já se tornou demasiadamente ridícula e sou incapaz de suportar mais um momento na presença de um ignóbil que defende as ações de um tirano homicida como Lorde Edmond Barba Azul!"
O Burgomestre demorou alguns momentos para entender que Ignóbil era uma ofensa e se levantou. "Estás a me caçoar, Visconde? Faltas com respeito a minha pessoa? Estás tentando me fazer de bobo?" O Visconde sorriu com ironia. "Vossa Senhoria não necessitaria do meu auxílio para se fazer de bobo!"
"Exatamente! Eu não precisso da sua ajuda para me fazer de bob-" O Burgomestre tentou argumentar, mas já estava afundado demais na discussão para conseguir sair dela. O Burgomestre Baucier se levantou da mesa com um semblante de fúria. "É bom se desculpar, ou lavarei minha honra com sangue!"
O Visconde Brosseau, com sua postura serena, respondeu calmamente: "Não tenho interesse algum em pelejar com Vossa Senhoria. Entretanto, sua defesa das ações de Lorde Edmond Barba Azul é algo que não pode ser ignorado. É um homem perigoso, cujas atrocidades são conhecidas em toda a região."
Baucier bufou com desdém. "Perigoso? Barba Azul é um homem de negócios bem-sucedido, um empreendedor ousado. É uma figura de destaque em nossa sociedade."
O Visconde de Brosseau deu um sorriso irônico. "Lorde Edmond Barba Azul é muito mais do que um simples empreendedor. É um assassino, um tirano que não se importa com as vidas que destrói para conseguir o que deseja. Sua ganância é insaciável, e ele não hesitará em eliminar qualquer um que se coloque em seu caminho."
Baucier cruzou os braços e se inclinou para frente. "Eu não creio nesses rumores infundados. Todos sabemos que Barba Azul tem inimigos poderosos que buscam manchar sua reputação."
O Visconde Brosseau suspirou e pegou suas cartas. "Não são rumores infundados, meu caro. São fatos comprovados. Mas se Vossa Senhoria prefere se enganar, então não há muito o que possamos fazer. Eu, no entanto, não serei cúmplice de um homem como Lorde Edmond Barba Azul."
Baucier balançou a cabeça em descrença, voltando sua atenção para o jogo de cartas. Mas as palavras do Visconde Brosseau haviam deixado uma semente de dúvida em sua mente. Será que ele havia defendido um homem perigoso e mal-intencionado?
Com passos decididos e firmes, Artemis adentrou a área interna do Festival da Colheita. A sua frente, o imponente casarão do Duque se erguia majestoso, atraindo a atenção de todos os presentes. Ela seguiu em direção à entrada, sem se importar com os olhares que recebia dos nobres que circulavam pelo salão.
A roupa que vestia era tão deslocada quanto ela naquele ambiente. As botas lamacentas deixavam rastros em meio ao nobre piso de mármore, enquanto sua vestimenta de caçadora contrastava com a exuberância dos vestidos das damas da corte.
Artemis se viu cercada por uma decoração opulenta, mesclando o luxo dos móveis e dos ornamentos com a simplicidade da natureza. Quadros pendurados nas paredes retratavam paisagens bucólicas, e a brisa suave que entrava pelas janelas trazia consigo o perfume das flores que enfeitavam o salão.
Ainda assim, ela permaneceu indiferente a tudo o que a cercava, a sua determinação inabalável a guiando em direção ao objetivo. Ela adentrou o salão, os seus passos firmes e decididos ecoando pelo ambiente. E, ainda que recebesse olhares de repulsa, nada a fez parar. Afinal, ela era uma heroína, e o Duque havia garantido que ela seria bem-vinda em qualquer parte do evento.
Artemis caminhava pelo salão principal da casa do Duque, e mesmo que estivesse acostumada a lidar com olhares de curiosidade ou desdém, os olhares que recebia das damas da corte eram diferentes. Eram olhares repletos de julgamentos e reprovação, como se a presença da caçadora naquele ambiente nobre fosse um insulto à sua posição.
Mas nem todos os olhares eram tão frios e hostis. Alguns condes e marqueses, embora disfarçassem seus olhares curiosos, não conseguiam evitar uma certa afeição pela beleza exótica de Artemis. Seus cabelos ruivos, emoldurando um rosto corajoso e forte, eram uma visão bem-vinda em meio à monotonia das damas pálidas e desinteressantes da corte. Mas por mais que sentissem atração pela caçadora, nenhum deles seria tolo o suficiente para se envolver com uma mulher de origem tão humilde e com uma reputação tão duvidosa.
Fransisco caminhava logo depois de Artemis, com passos firmes e determinados, com seu olhar fixo no horizonte à frente. Ele não estava ali para acompanhar a jovem amiga, mas sim para resolver um problema que havia detectado em sua busca por conhecimento botânico. Enquanto passava pelo jardim do Duque, seus olhos se fixaram em uma região tomada por ervas daninhas, que ameaçavam a vida das belas flores que ali cresciam. Ele não podia permitir que tal descuido estragasse a paisagem, e assim, seguiu em busca do Duque para comunicar o incidente e oferecer sua ajuda para salvá-lo. A determinação em seus passos refletia sua paixão pela botânica, e sua dedicação em cuidar das plantas e flores que faziam parte de sua vida.
Quando Francisco entrou na área interna do Festival da Colheita, os membros da corte notaram imediatamente sua presença. Os nobres olharam para ele com desdém e desconfiança, como se um roceiro não pudesse estar ali. Algumas damas da corte reviraram os olhos e até mesmo cobriram o nariz com seus leques perfumados, como se o cheiro da terra ainda estivesse em suas roupas.
Um dos condes mais arrogantes, que estava próximo a Francisco, fez uma careta de nojo enquanto se afastava, balançando a cabeça em desaprovação. Outros nobres cochichavam entre si, claramente surpresos e descontentes com a presença de alguém de origem tão humilde. Francisco, por sua vez, ignorava os olhares e comentários maldosos que recebia, focando-se em seu objetivo.
Artemis caminhava com passos firmes pelo salão do Duque, deixando para trás um pegadas de lama. Enquanto seus olhos se perdiam na beleza da decoração suntuosa e nos trajes elegantes das damas e cavalheiros, ela sentia as atenções julgadoras e desdenhosas dos presentes. Mas a jovem caçadora não se deixava abalar por isso, estava acostumada com as hostilidades que enfrentava em lugares como aquele.
Porém, sua tranquila contemplação foi abruptamente interrompida por uma figura se aproximando por trás dela. Artemis se virou rapidamente, instintivamente colocando-se em posição defensiva. Ao reconhecer Hallux Wenthor, o dono do Bordel Jardim da Babilônia, seus músculos relaxaram, mas sua desconfiança permaneceu. Ela se lembrava muito bem dele, e daquele encontro terrível que se seguiu.
O homem estendia-lhe uma taça de vinho branco com um sorriso discreto nos lábios. Artemis hesitou por um momento, mas acabou aceitando a bebida. Ela não gostava de Hallux, mas também não queria ser descortês. Ao segurar a taça delicada, ela percebeu o brilho nos olhos do homem e sentiu um arrepio na espinha.
Enquanto Artemis aceitava a taça de vinho branco de Hallux, ele começou a conversa de forma amigável "Minha querida, lhe parabenizei por sua bravura ao acabar com aqueles rufiões que tanto atormentavam a nossa cidade. Minhas humildes congratulações." A jovem se sentiu lisonjeada, mas ao mesmo tempo desconfortável. Ela sabia que Hallux não era uma pessoa confiável.
"Obrigada", ela disse, mantendo uma distância segura dele.
Hallux parecia não notar a tensão em seu corpo. Ele continuou falando, tentando ser amigável. "Sabe, eu vejo um potencial enorme em você. Você é muito mais inteligente e talentosa do que a maioria das pessoas em Kristadelle. É uma pena que você esteja desperdiçando seu tempo com coisas tão insignificantes."
Artemis arqueou uma sobrancelha, desconfiada. "Como assim?", ela perguntou.
Hallux encolheu os ombros. "Bem, você sabe... Caçando rufiões, salvando as pessoas... É tudo muito nobre, mas é um trabalho ingrato. Você poderia estar fazendo coisas maiores e melhores, sabe? Ajudando a mudar o mundo de verdade."
Artemis começou a se sentir cada vez mais desconfortável. Ela não gostava da maneira como Hallux estava falando com ela, como se soubesse o que era melhor para ela. Ela deu um passo para trás, tentando se afastar dele.
"Eu aprecio suas palavras, Hallux", ela disse, sua voz tensa. "Mas eu gosto de fazer o que faço. Não é sobre receber elogios ou reconhecimento, é sobre ajudar as pessoas que precisam de ajuda."
Hallux deu de ombros, parecendo não acreditar. "Bem, é claro que é fácil para você dizer isso agora. Mas e quando você perceber que todo esse trabalho não está levando a lugar nenhum? Quando você perceber que as pessoas que você está ajudando não merecem sua ajuda?"
Artemis balançou a cabeça, se afastando ainda mais. "Eu nunca vou pensar assim", ela disse. "Eu acredito no que há de bom e justo nas pessoas, e eu vou continuar lutando por isso, não importa o que você ou qualquer outra pessoa pense."
O dono do bordel se aproximou mais dela e começou a falar em um tom diferente. Sua expressão se tornou séria e seus olhos pareciam penetrar na alma de Artemis. Ele disse: "É tão difícil você abrir seus olhos? Você tem tanto potencial e vai ficar desperdiçando em uma escala tão pequena que chega a ser insignificante?"
Ele apontou para um casal de nobres que conversavam em um canto do salão. "Os dois possuem uma fazenda ilegal de Falantes, que funciona a todo vapor e com conhecimento geral."
Hallux então apontou para um homem sentado em outra mesa."Aquele homem mandou assassinar a ex-mulher e se casou com a sobrinha dela há alguns anos atrás, e já está começando a se cansar dela também."
Hallux continuava a falar, parecendo cada vez mais à vontade na presença de Artemis. Ele contou a ela sobre o nobre que mantinha um harém de escravas ilegais, mantidas em condições horríveis. Outro nobre, segundo ele, tinha conexões com traficantes de drogas e armas, e financiava sua fortuna através dessas atividades ilícitas. Ele até mencionou um membro da corte que já havia sido acusado de incendiar um orfanato, mas que nunca havia sido condenado devido ao seu poder e influência.
Artemis ficou chocada com as revelações e com a frieza com que Hallux as expôs. Ela não sabia se ele estava dizendo a verdade ou não, mas não conseguia acreditar que tantas pessoas estavam envolvidas em coisas tão horríveis. Hallux continuou: "Todo mundo que está te parabenizando também está com o braço a torcer, só existem mentirosos aqui e todos eles são melhores que você. " Ele apontou para outro nobre que pagava um garçom às escondidas. "Coragem e bondade só são palavras mais delicadas para ingenuidade. Quando tiver coragem para enxergar a realidade, você pode me procurar."
Artemis ficou sem palavras. Ela não sabia o que dizer ou como reagir. Hallux saiu de perto dela, deixando-a sozinha com seus pensamentos tumultuosos.
Enquanto Francisco percorria os corredores do Casarão Tempête em busca do Duque, ele ouviu um som peculiar. Como se movido por uma força irresistível, ele foi até a mesa de comida e se deparou com uma cena inusitada: dois camundongos falantes em uma reunião escondida atrás da cesta de frutas. Um deles vestia roupas nobres, uma bengala e uma peruca, segurando uma dedal como se fosse uma taça. O outro usava roupas campestres, um chapéu de palha e estava bebendo cerveja em um copo feito com a casca de uma avelã.
Os ratos conversavam animadamente como velhos amigos, mas assim que notaram a presença de Francisco, largaram suas bebidas e o camundongo de trajes nobres exclamou: "Fomos descobertos! Recuar! Recuar!" Os roedores começaram a correr em círculos desesperados na mesa, tentando encontrar uma saída.
Com voz serena e tentando acalmá-los, Francisco disse: "Ei, calma, calma, calma... Eu não estou aqui para prejudicar ninguém!" Os camundongos se encararam com dúvida, e o de origem campestre murmurou: "Bom sinhô. O Sinhô quase que nos mata do coração!"
Fransisco percebe que os camundongos estão assustados e tenta acalmá-los com palavras gentis. Ele fala com voz suave e segura, tentando transmitir tranquilidade. "Não se preocupem, não vou fazer mal a vocês. Só queria saber o que estão fazendo aqui. Parece que estão se divertindo bastante, hein?".
O camundongo de roupas nobres, ainda um pouco assustado, olha para Fransisco com desconfiança. "Quem é você e o que quer aqui?". Já o outro camundongo, com roupas campestres, parece menos amedrontado e responde ao rapaz. "Desculpe, sinhô, mas ficamos um pouco assustados quando o sinhô chegou de repente. É que a gente tá aqui conversando sobre a nossa tradição anual de nos reunirmos e relembrarmos nossas origens".
Fransisco se interessa pelo assunto e pergunta aos ratinhos sobre a tradição. "Interessante, e como funciona essa tradição de vocês?". O camundongo de roupas campestres responde: "Bom, nós, camundongos do campo, nos reunimos uma vez por ano com os primos cda cidade para lembrarmos dos mundos distintos da vida urbana e da vida do campo. É uma forma de manter a tradição e a conexão entre as nossas comunidades".
O camundongo de roupas nobres arregalou seus pequenos olhos diante da indiscrição de seu primo do campo. Ele balançou sua bengala como um repreendimento e lançou um olhar furioso ao companheiro. "O que você pensa que está fazendo, Emille? Divulgar nossa tradição para um humano que não segue o Evangelho Esopérico? Você perdeu completamente a razão?" Sua voz aguda carregava um tom de indignação, como se Emille tivesse cometido uma ofensa imperdoável.
Emille respirou fundo e olhou para o primo Remus com um olhar humilde. "Perdão, primo, eu apenas achei que seria uma boa ideia compartilhar um pouco da nossa tradição com alguém que parece ser um garoto de bem. E, aliás, eu adorei o chapéu de palha dele! Parece que ele tem um espírito campestre." Emille sorriu timidamente, esperando que Remus não ficasse muito zangado com ele.
Fransisco fica ainda mais curioso e pergunta sobre o Evangelho Esopérico. "E o que é esse Evangelho Esopérico que vocês seguem?". Os camundongos parecem animados em falar sobre isso e começam a explicar. "Bom, Esopo categorizou alguns animais de acordo com suas características. Por exemplo, os ratos e camundongos são vistos como símbolos de humildade, enquanto os carneiros, cordeiros e ovelhas são vistos como símbolos de inocência e pureza. Já os leões são símbolos de coragem e liderança, e os gatos e raposas são conhecidos por serem malandros, mentirosos e ardilosos".
Fransisco acha tudo muito interessante e fica impressionado com a sabedoria dos ratinhos. Fransisco levantou as sobrancelhas em curiosidade quando ouviu sobre os estereótipos associados aos lobos no Evangelho Esopérico. "É fascinante como as crenças podem influenciar a maneira como vemos os animais", comentou ele, olhando para os ratos com admiração. "Vejo que há muito mais nuances do que eu imaginava." Fransisco relembra dos acontecimentos recentes marcados para sempre em sua vida e resolve perguntar. "E como os lobos são vistos por Esopo?"
Os ratinhos encolheram seus pequenos corpos em uníssono quando a pergunta de Fransisco chegou aos seus ouvidos. Sua pelagem eriçou e suas caudas balançaram com um ritmo rápido e frenético, denotando o nervosismo que tomou conta deles. Por um breve momento, os ratinhos trocaram olhares, como se procurassem uma resposta na expressão do outro, como se estivessem em uma encruzilhada entre a tradição e a dúvida, antes de um deles finalmente encontrar coragem para responder à pergunta de Fransisco. "Isso é o que o livro sagrado nos ensina", disse Emille, o camundongo do campo. "Os lobos representam a morte, o predador, o medo e a corrupção da inocência. É assim que aprendemos a vê-los."
"Na tradição para os Falantes, o lobo é um ser temido e maléfico" Remus fala enquanto se senta em uma pequena tampa de uma garrafa de vinho."Desde as crônicas relatadas por Esopo, ele é apresentado como um antagonista, um vilão que trama contra os inocentes e tenta enganá-los com sua astúcia. Lembro-me de um relato de Esopo em que um lobo se disfarça de ovelha para enganar um fazendeiro, e outra em que ele tenta devorar um cordeiro inocente. Não é à toa que os ratos falantes tão nervosos quando falamos sobre lobos."
Fransisco ouviu atentamente a explicação dos ratos sobre o simbolismo dos lobos no Evangelho Esopérico. Ele não tinha conhecimento sobre as tradições dos Falantes, mas ficou intrigado com a visão negativa dos lobos. "Eu nunca tinha pensado sobre isso", ele disse, coçando a cabeça. "Mas obrigado por me explicar. Acho que ainda tenho muito a aprender sobre o mundo dos Falantes."
Os ratinhos concordaram, balançando suas pequenas cabeças. "Sempre estaremos aqui para falar com quem quiser ouvir!", disse Emille com um sorriso reconfortante. Com um aceno de cabeça, Fransisco se despediu dos ratos e seguiu em frente, em busca do Duque.
Artemis para ao lado de um grupo de nobres e ouve um homem com uma fala suave e sedutora tentando convencer os membros da nobreza a aceitarem as investidas de Barba Azul. "Afirmo aos senhores que Barba Azul é a solução mais assertiva para lidarmos contra os males que afligem nossas terras. Os crimes de Lorenzini, as feras da noite, o descontrole que surgem com seus vassalos. Lorde Barba Azul pode lhe entregar ordem e disciplina. E tudo o que ele pede em troca é cooperação. Cooperação nesses tempos difíceis. Permitam-me ilustrar, falarei com os plebeus lá em baixo. Mostrarei como o discurso de Barba Azul funciona nesses desletrados. Falarei abertamente mal da nobreza e em um instante vão ficar do meu lado." Artemis ouve com desgosto, mas sem ousar se intrometer nesse discurso nefasto.
O homem que falava tão eloquentemente sobre Barba Azul parecia ser um nobre bem cuidado. Ele usava um colete de brocado adornado com botões de ouro e uma capa azul esvoaçante. Seus cabelos castanhos eram penteados para trás e não possuía pelos faciais. Seus dentes eram brancos e perfeitamente alinhados, o que chamou a atenção de Artemis. Ele exalava um perfume doce, mas forte, que parecia ser de lavanda. Seus modos eram refinados, e sua voz sedutora, como se estivesse encantando seus ouvintes. Era evidente que esse homem havia passado a vida inteira na corte e sabia exatamente como cativar e persuadir a nobreza.
Alguns dos nobres que estavam presentes pareciam inebriados pelas palavras suaves e persuasivas do arauto de Barba Azul. Eles ouviam com atenção, acenando em concordância e pareciam interessados nas promessas de ordem e disciplina que lhes eram feitas. Outros, no entanto, tinham expressões mais cautelosas, olhando de soslaio para o homem de aparência bem cuidada. Eles pareciam estar preocupados com as intenções por trás das palavras dele, e com o preço que poderiam ter que pagar por essa "cooperação" que lhes era exigida.
Fransisco finalmente encontrou o Duque em uma mesa de jogos, rodeado por um grupo de nobres. Christof Dior estava presente também, bebendo um bom vinho junto ao Duque. Um dos nobres perguntou ao Duque se seus irmãos iriam aparecer. O Duque Marcel respondeu com um suspiro: "Provavelmente não. Daniel está sempre ocupado com seus negócios de tecidos, mesmo quando não deveria estar, e Gabriel tem muitas preocupações em sua mente, especialmente agora que aquela ilha foi comprometida. Eu tentei avisá-lo de que não era uma boa ideia."
Os nobres presentes arregalaram os olhos em surpresa quando o Duque deixou escapar uma aparentemente informação sigilosa. Todos se entreolharam, conscientes de que o álcool havia soltado a língua do nobre. A exceção de Christof, que não fazia ideia do que estavam falando e sentiu a tensão da mesa mudar.
Fransisco aproximou-se respeitosamente e fez uma reverência para o Duque, pedindo desculpas por interrompê-lo. "Sua Graça, desculpe incomodá-lo, mas eu preciso falar com você sobre um assunto importante, é sobre ervas daninhas no seu jardim..."
Curioso, Christof perguntou: "Desculpe interromper, jovem Herrara, mas Vossa Graça falou sobre uma ilha comprometida."
Os outros nobres ficaram ainda mais agitados e evitaram o contato visual, percebendo que o Duque estava novamente dando com a língua nos dentes. E, de fato, não demorou para que ele confessasse: "É um local que um grupo de nobres comprou... para guardar seus tesouros e pertences, mas pelo visto, ele foi comprometido... Ah, mas é verdade, eu quase esqueci... um amigo meu gostaria de conhecê-los. Ele é um tanto excêntrico, mas vocês vão gostar dele... E estranho, ele já devia ter chegado."
Com a curiosidade aguçada, Fransisco se aproximou da conversa e questionou o nobre sobre o amigo em questão. "E quem seria esse nobre, senhor?"
"O nome dele é Senhor Jack Horner!" disse o Duque, já servindo-se de mais uma taça de vinho.
Com as pernas cansadas de tanto caminhar pelos corredores adornados da festa, Artemis Lune-Argentée decidiu fugir da agitação e buscar um pouco de ar fresco na varanda da Mansão Tempetê. Apesar da tarde nublada de outono, o sol das 15 horas ainda brilhava o suficiente para aquecer sua pele delicada e aliviar o peso da nobreza que a envolvia.
Enquanto observava a paisagem serena do jardim, seus olhos se depararam com uma cena inusitada: Schnee e Drake se aproximavam da mansão, com as botas sujas de lama e as roupas amassadas. Schnee, em particular, estava irreconhecível, com o corpo todo manchado pela lama, resultado de sua participação apaixonada nos campeonatos dos camponeses.
Artemis não pôde deixar de sorrir com a cena curiosa, admirando a falta de vaidade de seus amigos diante da sujeira. "Schnee, você está todo sujo! O que aconteceu com você?" Artemis perguntou com um sorriso.
Drake riu e acrescentou: "Eu também! A competição de arremesso de espiga foi incrível. Eu quase ganhei!"
Artemis riu junto com ele, e então notou a expressão azeda no rosto de uma mulher na varanda. Aparentava ter cerca de 65 anos, mas sua face estava tão enrugada e flácida que era difícil precisar sua idade exata. Seu cabelo loiro, agora uma peruca velha e encardida, parecia ter sido abandonado e negligenciado por anos, e a forma como ela o mantinha puxado para trás e amarrado em um coque desgrenhado só piorava a situação.
As roupas que ela usava eram da nobreza, feitas de tecidos finos e de qualidade, mas desbotados e desgastados pelo tempo. Uma vez luxuosos, agora pareciam farrapos amontoados sobre ela. A mulher segurava uma sombrinha com renda delicada, mas até isso parecia ter visto dias melhores. A sombrinha estava envelhecida e com manchas, quase amarelada pelo sol e pela poeira.
A expressão em seu rosto era tão azeda quanto a aparência de suas vestes. Ela olhava com desdém para o trio que conversava sobre o Festival da Colheita. Sua sobrancelha arqueada e seus lábios franzidos mostravam que ela desaprovava tudo o que ouvia, como se o simples ato de se divertir fosse um insulto a sua posição social e riqueza.
"Desculpe-me, senhora. Nós estamos falando alto demais?" Artemis perguntou educadamente.
A mulher sacudiu a cabeça e respondeu com desdém: "Não, não é isso. Eu simplesmente não vejo a graça nesses festivais tolos e barulhentos."
Schnee franziu a testa e disse: "Bem, eu não me permiti me divertir assim há anos. É uma ótima oportunidade para as pessoas de todas as classes se reunirem e se divertirem juntas."
A mulher bufou e continuou segurando sua sombrinha com força, parecendo incomodada pela presença dos três heróis.
Artemis suspirou, percebendo que não podia agradar a todos. "Bem, cada um tem sua opinião. Mas eu, por um lado, adorei o Festival da Colheita deste ano. Foi um dos melhores que já participei."
Drake concordou, e Schnee acrescentou: "E eu mal posso esperar pelo próximo ano!"
A Lady olha com desdém para os três jovens e franze o nariz. "Estão deixando entrar todo tipo de gentalha por aqui hoje em dia...", ela diz com um tom de desaprovação. "O Duque deve andar bebendo demais para permitir a presença desconexa de vocês por aqui."
Schnee se aproxima e sorri, tentando ser amigável. "Desculpe, senhora, não queremos incomodar. Só estamos aqui para apreciar o Festival da Colheita e suas maravilhas."
Lady Tremblay revira os olhos e olha para os jovens com um ar de superioridade. "E desde quando os plebeus são autorizados a entrar na Mansão Tempetê? Acredito que o Duque deva estar ficando cego para permitir a presença de maltrapilhos sujos como vocês."
Artemis notou a peruca loira e encardida da Lady e não pôde evitar uma risada. "Nunca vi uma peruca tão feia na minha vida", ela disse zombeteira.
Schnee, que estava ao lado de Artemis, também percebeu a peruca e não resistiu em fazer um comentário. "Cabelo de Palha" - ele disse baixinho, mas alto o suficiente para que a dama da corte pudesse ouvir.
A Mulher se encolheu em sua cadeira, furiosa. "Como vocês ousam falar assim com uma nobre da corte?", ela rosnou. "Deveriam aprender a respeitar os mais velhos e superiores."
"Superiores?" Artemis riu. "Não vejo nada superior em você, além dessa peruca horrenda e dessas roupas gastas. Parece que alguém precissa ensinar-lhe algumas boas maneiras."
Schnee riu com a zombaria de Artemis. "Acho que você precisa de um novo cabeleireiro, Tremblay. Ou talvez de um espelho."
A Lady ficou vermelha de raiva e apertou a sombrinha com força. "Vocês não têm o direito de falar assim comigo", ela sibilou. "Estão aqui por causa do Duque, mas não se enganem, não são bem-vindos. E não ousem tentar se misturar com a nobreza. Vocês não pertencem aqui. São porcos chafurdando na lama."
Drake olha para a Lady e faz um comentário mordaz: "Com todo o respeito, milady, eu prefiro lidar com a lama do que com as falsidades e hipocrisias da nobreza".
A mulher fica ainda mais furiosa com o comentário de Drake e responde, indignada: "Como se atreve a falar assim comigo, seu insolente! Não sabe com quem está falando? Eu sou uma nobre, uma dama da alta sociedade, e você é apenas um camponês sujo e maltrapilho!"
Drake sorri com sarcasmo e responde: "Ah, mas é exatamente essa a diferença entre nós, milady. Eu não preciso fingir ser alguém que não sou, não tenho que esconder minhas raízes ou minha verdadeira natureza. Já a nobreza... bom, essa já é outra história."
Lady Tremblay bufou, indignada pela falta de reverência que os heróis lhe mostraram. "Esconder minhas origens? Eu sou Agatha Maddona Tremblay Viscondessa de Kristadelle e Baronesa de Monteclaire.", ela disse, "a madrasta da princesa Ella, vocês deveriam me tratar com mais respeito!"
Artemis ergueu uma sobrancelha. "Madrasta da princesa Ella? Interessante. Eu já ouvi falar de você." Ela se virou para Schnee e Drake. "Vocês também já ouviram falar da Lady Tremblay?"
Schnee balançou a cabeça. "Não, nunca ouvi falar dela antes."
Drake deu de ombros. "Eu não me importo com títulos ou posições sociais, Lady Tremblay. Eu prefiro julgar as pessoas pelo que elas fazem, não pelo que elas são."
Tremblay ficou chocada. "Como você se atreve a falar assim comigo? Eu sou uma figura importante de Kristadelle, você deveria ter mais respeito!" Mas os heróis não pareciam se importar com a ameaça de Tremblay.
Christof Dior, estava desfrutando da tarde ensolarada na mansão do Duque quando notou que seus amigos estavam envolvidos em uma discussão acalorada. O homem, cujo rosto marcado por cicatrizes denunciava uma vida de aventuras e desventuras, sabia que a tensão no ar poderia rapidamente desencadear uma tempestade.
Aproximando-se do grupo com passos decididos, Christof cumprimentou todos com uma reverência e, com sua voz grave e bem articulada, perguntou o que estava acontecendo. "Algum problema por aqui meus nobres?"
Lady Tremblay, cuja postura altiva não deixava espaço para dúvidas sobre sua posição social, olhou para Christof com desdém e disparou uma acusação.
"Esses maltrapilhos invadiram a mansão e estão causando problemas. Não sabem seu lugar na sociedade e devem ser expulsos imediatamente", proferiu ela, com uma expressão de desdém.
Christof, entretanto, não se deixou abalar pela arrogância da nobre e, com um olhar sereno, respondeu: "Compreendo sua posição, Lady Tremblay. Mas permita-me dizer que esses jovens são heróis, que lutam pelo bem comum e defendem a cidade de ameaças. Seu trabalho é importante e deve ser respeitado".
O veterano explorador, cujas palavras tinham um peso de sabedoria adquirida em décadas de viagens ao redor do mundo, notou que os heróis não se impressionavam com a presença de Tremblay, o que o fez redobrar sua disposição em buscar uma solução pacífica para a situação.
"Além disso, acredito que todos aqui estão reunidos para celebrar o Festival da Colheita e aproveitar a companhia uns dos outros. Seria uma pena deixar essa situação estragar nosso dia", continuou Christof, em uma tentativa de apaziguar os ânimos.
Ainda que a Lady estivesse visivelmente contrariada, ela pareceu compreender que o veterano professor estava correto e, com um suspiro impaciente, deixou a varanda em direção à mansão do Duque.
Christof se aproximou dos outros três heróis, com uma expressão séria no rosto. Ele não podia deixar de ficar incomodado com a maneira como trataram Lady Tremblay anteriormente.
"Posso falar com vocês por um momento?" Disse ele, os outros três se viraram para encará-lo. "Entendo que nem todos tenham uma opinião favorável sobre Lady Tremblay, mas acredito que seja importante tratá-la com respeito. Ela pode ser uma mulher difícil, mas não é prudente fazer inimigos poderosos de forma tão desnecessária."
Os outros heróis trocaram olhares desconfortáveis, sem saber como responder ao sermão de Christof. "Desculpe, Christof. Não tivemos a intenção de ser tão rudes com ela. Apenas não gostamos do jeito que ela nos tratou desde que chegamos aqui." Disse Artemis.
"Entendo, mas não podemos deixar que nossos sentimentos pessoais prejudiquem nosso trabalho como heróis. Precisamos nos lembrar de que estamos aqui como convidados do Duque para celebrar esse momento, e não para criar problemas desnecessários." Disse Christof, com firmeza em sua voz.
Os outros três heróis balançaram a cabeça em concordância, reconhecendo o ponto de vista de Christof. "Você está certo, Christof. Vamos tentar ser mais diplomáticos daqui em diante." Disse Artemis.
Christof assentiu, satisfeito com a resposta dos outros heróis. Ele sabia que a discussão anterior poderia ter sido evitada se eles tivessem sido mais cuidadosos em sua abordagem com Lady Tremblay. Ele esperava que eles levassem essa lição adiante em suas futuras missões, e aprendessem a lidar com situações difíceis de forma mais diplomática e sábia.
Schnee deu uma última olhada para a mansão, vendo Lady Tremblay entrar pela porta principal. Seus olhos se moveram para dentro da casa, onde viu duas jovens cegas sentadas em uma mesa, conversando com a madrasta da Princessa Ella. As filhas de Lady Tremblay, pensou Schnee. Ela não pôde deixar de notar a raiva nos olhos da mulher enquanto ela trocava olhares furtivos em direção aos heróis do lado de fora.
As duas moças cegas sentadas à mesa, filhas de Lady Tremblay, pareciam tão diferentes quanto iguais. Gêmeas idênticas, com longos cabelos loiros trançados em delicados coques, que não escondiam as feições duras e sem expressão. Seus rostos eram pálidos e magros, com traços que podiam ser considerados bonitos, mas que, em conjunto, pareciam quase deformados.
Elas usavam vestidos longos e simples, um de cor rosa e outro verde, ambos com mangas compridas e gola alta. Os tecidos eram de boa qualidade, mas não possuíam nenhum ornamento ou detalhe que pudesse denotar a posição social das moças. Em vez disso, o que chamava a atenção era a maneira como elas se moviam e se comunicavam, como se estivessem em perfeita sincronia o tempo todo, como se compartilhassem um único corpo e uma única mente.
As duas pareciam completamente alheias à presença dos heróis e de Schnee, concentradas em uma conversa em voz baixa com sua mãe. Seus olhos azuis claros, sem vida, não indicavam nenhum sinal de curiosidade ou interesse pelo mundo ao seu redor. Ao contrário, pareciam estar presas em um mundo próprio, alheias à beleza e à alegria da vida.
Christof retornou para dentro da mansão, sua bengala tocando o chão de pedra a cada passo, guiando-o através dos corredores movimentados da mansão. Enquanto ele se movia, suas mãos calejadas e cicatrizadas escaneavam as paredes, as colunas e os móveis, formando uma imagem mental do ambiente ao seu redor. Ele não precisava de seus olhos para se locomover naquele lugar, sua memória espacial era afiada como uma navalha.
Enquanto isso, os outros três Heróis saíram da mansão, atravessando o jardim bem cuidado e seguindo em direção ao portão principal. Eles se afastaram da agitação que havia ocorrido minutos antes na varanda, mas o clima ainda estava tenso. A luz do sol brilhava no céu, mas seus raios eram fracos e pálidos, anunciando o fim do dia.
Christof, no entanto, já havia passado por muitos dias como aquele, dias onde a escuridão era sua única companhia. Ele conhecia a solidão como poucos e, mesmo assim, se recusava a desistir da vida. Seus dedos tocaram a porta de carvalho maciço que levava à biblioteca da mansão, e ele a abriu com um grunhido, revelando prateleiras repletas de livros antigos.
Ainda que a biblioteca fosse um lugar de tranquilidade, Christof não conseguia se esquecer da tensão que pairava no ar. Ele sabia que não era prudente criar inimigos poderosos, como a Lady Tremblay, de forma tão desnecessária. Foi então que ele se lembrou de um ditado que costumava ouvir em suas viagens pelo mundo: "A língua pode ser uma espada afiada, e uma palavra mal colocada pode ferir mais que uma adaga."
Christof adentrou a biblioteca, envolto pela fragrância de couro velho e papel envelhecido. Aquele ambiente lhe trazia conforto e familiaridade. Com a bengala, tateava o chão, até chegar a um dos imensos estantes de livros. Ele passava a mão nas lombadas, sentindo as letras em relevo, os títulos que ele nunca poderia ler. Era como se estivesse em meio a um tesouro escondido.
Mas então, uma voz jovem o surpreendeu, interrompendo seu devaneio literário. O rapaz parecia falar sozinho, mas na verdade ensaiava em voz alta seus próprios poemas. Christof se deteve e ouviu atentamente. O jovem era um nobre, com a ambição de se tornar um grande poeta. Contudo, o maior obstáculo para o seu sucesso era o próprio conteúdo de suas obras.
"Ó luz da aurora que desponta,
e no céu sereno se espalha,
tu és como um farol de esperança,
que ilumina minha alma machucada.
Tu és como uma brisa suave,
sambando em advento.
Uma leve flatulencia,
carregada pelo vento.."
O rapaz recitava, com uma voz trêmula e empolgada. Christof ouvia, tentando não franzir a testa com a infantilidade dos versos. Mas o jovem não parava.
"Ah, amor! Doce amor!
Que me faz suspirar,
Tu és como o sol que brilha,
E queima meu olhar.
Tu és como uma gorda vespa,
Que sempre tenta me picar,
E eu, te ofereço todo o meu ser,
Para sempre te amar."
Christof suspirou, encostando a bengala em uma das estantes. Ele se perguntava como um nobre tão jovem podia ter uma visão tão simplista e idealista do amor. Mas decidiu que não era sua tarefa julgar a poesia do rapaz.
"Versos interessantes, jovem", disse ele, em um tom amistoso. O rapaz, que não havia percebido a presença do homem, se assustou e quase deixou cair o caderno de poemas.
"Senhor! Perdão, eu não o vi aí. O que achou de meus versos? Acha que sou um bom poeta?" Perguntou o jovem, com um brilho nos olhos.
Christof sorriu, tentando encontrar as palavras certas. "São palavras muito... únicas, jovem. Mas a poesia é um dom que precisa ser trabalhado com muita dedicação. Acho que você tem muito potencial, mas ainda precisa desenvolver sua técnica."
O rapaz parecia um pouco decepcionado, mas ainda mantinha o entusiasmo. "O senhor acha que eu posso ser um grande poeta?"
Christof deu uma risada. "Com muito esforço, quem sabe? Mas agora, por favor, me desculpe. Preciso procurar um livro específico."Ah, nobre senhor. Fique mais um pouco, quero declamar minha obra-prima para alguém."pediu o poeta.
"Claro, posso ficar mais um pouco." respondeu Christof, educadamente.
O poeta então começou a declamar sua obra com empolgação:
"Em noite de luar
Eu saio a galopear
Traíra não tem pescoço
Na doçura do teu beijo
É que mato meu desejo
E cozinho o feijão no fogo
Pois és o meu amor
E te leva aonde for
No meu nariz tem catôto."
Christof tentou disfarçar sua perplexidade, mas não pôde evitar uma careta de desgosto ao ouvir a poesia ruim. O jovem poeta parecia ansioso por uma crítica mais aprofundada, como se desejasse que Christof desvendasse os segredos do seu poema e revelasse como poderia ser ainda melhor.
Christof coçou o queixo, ponderando cuidadosamente suas palavras. "Bem, eu acredito que a sua habilidade de rimar e manter um ritmo constante é realmente impressionante. No entanto, sinto que suas escolhas de palavras poderiam ser um pouco mais precisas e sofisticadas", disse ele, tentando encontrar um meio-termo.
"Certamente há muitas palavras no nosso vasto léxico que poderiam ser usadas de maneira mais efetiva em seus poemas. Palavras que transmitem sentimentos mais complexos e nuances que podem dar mais vida e profundidade à sua escrita", continuou Christof, com um tom acadêmico e ponderoso.
O jovem poeta parecia confuso, mas ao mesmo tempo inspirado pelas palavras de Christof. "Obrigado por sua crítica construtiva, cego. Irei trabalhar nas minhas escolhas de palavras e tentarei incorporar mais nuances na minha escrita", respondeu ele.
Christof acenou com a cabeça, sabendo que suas palavras haviam sido suficientemente cuidadosas para não ferir os sentimentos do jovem poeta, mas ao mesmo tempo fornecer uma crítica útil. "Estou ansioso para ler suas futuras obras, jovem poeta. Com certeza, você tem o potencial de se tornar um grande poeta", finalizou Christof.
"Você é realmente um homem sábio. Por favor, me ajude a melhorar", solicitou o poeta.
Christof assentiu, forçando um sorriso. Ele sabia que teria que lidar com a escrita horrenda do jovem novamente em breve.
Artemis e Drake deixam a mansão e avançam pelo caminho sinuoso, com a multidão de camponeses se aglomerando à sua volta. Schnee, por sua vez, sente um desconforto crescente no estômago e decide afastar-se para encontrar um local mais privado e aliviar sua aflição. "A natureza me chama", ele diz com um sorriso desconfortável. Mas seu estômago grita em protesto, deixando claro que a situação é mais grave do que ele imaginava.
Drake e Artemis riem enquanto o Profano se afasta, contorcendo-se com incomodo, e tentam não rir alto o suficiente para atrair a atenção dos camponeses. Schnee se arrasta pela multidão, buscando o mais rápido possível o alívio que tanto precisa. No entanto, ao chegar à fossa seca, encontra uma fila longa e exasperante de camponeses, todos aguardando pacientemente a sua vez de usar o banheiro improvisado.
Schnee chora silenciosamente em seu infortúnio, enquanto espera ansiosamente na fila. Sua face pálida reflete sua dor crescente, enquanto ele tenta manter-se o mais imóvel possível para evitar piorar sua condição. As pessoas ao redor lançam olhares preocupados e desconfiados para ele, mas Schnee não se importa. Tudo o que ele quer é alívio e a chance de se livrar do peso que está pesando em seu estômago.
Artemis avistou uma pequena aglomeração se formando e olhou para Drake, animada com a possibilidade de algo interessante acontecer. "Vamos lá, Drake, deve ser mais uma atração começando!" Com um sorriso convencido, ela puxou o braço do amigo para segui-la em direção à multidão. No entanto, a animação logo se dissipou quando se depararam com o Emissário de Barba Azul em cima de um pequeno palanque, rodeado por uma multidão de camponeses ávidos por uma palavra de conforto.
A menina sabia bem quem era aquele homem, já o tinha visto anteriormente na mansão do Duque. O Emissário agora tentava incitar o povo contra a nobreza."Meus amigos, este terrível monstro causou uma grande tragédia em nossa cidade. No entanto, não precisamos temer, pois um dos nossos bravos homens, Archippo Campopiano, sacrificou-se para ajudar a derrotá-lo. Ele foi um verdadeiro herói e merece nossa homenagem e gratidão!"
Drake, curioso, perguntou: "O que ele está dizendo?"
Artemis respondeu, desdenhosa: "Mentiras. É isso que ele está dizendo."
O Arauto continuou. "Ó nobres cidadãos, vós que sois dotados de virtudes inestimáveis, ouçam as palavras de Geralt Van Hase, um humilde Emissário de Barba Azul! Pois é chegado o momento em que vossa ajuda é mais do que essencial. O grande lobo mau assola Kristadelle ainda está assolta e somente através de vossa coragem e comprometimento, tal fera poderá ser vencida. Como dito antes, Archippo Campopiano, um dos homens de Barba Azul, sacrificou-se bravamente em prol da causa, e agora é chegada a hora de vós também lutardes ao lado do senhor Barba Azul. Além do mais, as forças inimigas avançam sorrateiramente em nossas terras e Lorenzini Stromoblli não espera a hora de ver o nosso nobre líder fraquejar. Mas eu vos pergunto, será que isto irá acontecer? A resposta é somente uma: com vossa união e apoio, jamais!"
Mas as palavras do Emissário foram interrompidas pela voz de um camponês, que gritou: "Mas como vocês podem ajudar se não fazem parte do povo?"
O Emissário, então, tomou a palavra novamente "Meu caro amigo, eu entendo sua situação. E posso lhe dizer que Barba Azul é a solução para os seus problemas. A nobreza, que governa este reino há séculos, tem ignorado as necessidades do povo, concentrando todo o poder e a riqueza em suas mãos. Eles não se importam com o seu sofrimento, nem com o seu trabalho árduo. Mas nós, homens de Barba Azul, somos diferentes. Nós entendemos que o verdadeiro poder está nas mãos do povo e estamos comprometidos a lutar pela sua liberdade e justiça."
Os camponeses aplaudiram entusiasmados as palavras do arauto, enquanto Geralt Van Hase continuava a falar, inflamando suas mentes com as promessas de mudança e libertação. Ele sabia que, para conquistar o coração do povo, precisava destruir a imagem da nobreza e mostrar que só Barba Azul poderia trazer a felicidade que tanto almejavam. E com sua voz poderosa e carismática, ele estava conseguindo exatamente isso.
"Você é um mentiroso!", disse Artemis surgindo em meio aos plebeus, levantando a voz acima do burburinho da multidão. "Você apenas tenta manipular as massas com seu discurso enfadonho."
O Emissário a encarou com olhos frios e disse: "Você não sabe do que está falando, minha jovem."
Mas Artemis não se abalou. "Eu sei exatamente do que estou falando. Eu o ouvi dentro da mansão do Duque, falando sobre 'manipular as massas mais carentes'. Conquistar sua empatia através de um discurso vazio."
O Emissário ficou atônito com as palavras da jovem e, por um momento, Artemis sentiu uma ponta de triunfo. Os plebeus olhavam entre sí tentando averiguar a veracidade das palavras da Plebeia.
Geralt Van Hase tentou manter a compostura, mas a irritação começou a transparecer em sua expressão facial. "Você está enganada, minha jovem. Tudo o que eu falei é verdade. Barba Azul é o único que pode trazer justiça e igualdade para todos."
Artemis cruzou os braços e olhou com desdém para o Emissário. "Você realmente acredita no que está dizendo? Acha mesmo que a solução para os nossos problemas é colocar um homem como Barba Azul no poder?"
Os camponeses começaram a murmurar entre si, alguns olhando com curiosidade para Artemis, enquanto outros ainda estavam incertos sobre quem acreditar. Mas Artemis não se deixou intimidar. Ela sabia que o que estava dizendo era a verdade, e estava determinada a fazer com que todos soubessem disso.
"O que vocês precisam é de alguém que lute por vocês, alguém que esteja ao lado de vocês quando as coisas ficarem difíceis. Não de alguém que esteja no poder apenas para satisfazer seus próprios interesses."
Os camponeses começaram a se agitar, alguns gritando em apoio a Artemis, enquanto outros ainda pareciam indecisos. Mas quando Geralt Van Hase tentou interromper a jovem com uma resposta dura, algo inesperado aconteceu. Um dos plebeus mais exaltados pulou no palanque e empurrou o Emissário com tanta força que ele caiu de cara na lama.
Os outros camponeses se juntaram rapidamente ao tumulto, e em questão de segundos, o palanque foi derrubado e o Emissário foi arrastado pelos pés para fora da praça. Artemis ficou em silêncio, observando tudo aquilo com um misto de surpresa e horror. Ela não tinha a intenção de incitar uma revolta, mas parecia que as palavras dela haviam acendido uma chama naqueles que estavam cansados de serem explorados. E agora, não havia mais volta.
Geralt Van Hase se debateu enquanto era arrastado pelos camponeses, xingando-os e ameaçando-os. "Seus vermes ingratos! Não sabem o que estão fazendo! Barba Azul os esmagará como formigas!"
Artemis assistiu a cena com um sorriso orgulhoso nos lábios, sabendo que havia ajudado a expor a verdadeira face do Emissário. Ela se aproximou do palanque e olhou para Van Hase, que estava caído na lama, sujo e humilhado. "Parece que você está tendo um dia ruim, Geralt. Deveria ter pensado duas vezes antes de tentar manipular os camponeses."
Van Hase olhou para Artemis com ódio nos olhos. "Você fez um inimigo hoje, plebeia. E Barba Azul não deixará isso passar impune."
Artemis riu. "Estou tremendo de medo. Mas você não passa de um peão, Geralt. E peões são facilmente sacrificados." Com essas palavras, Artemis se afastou, deixando Geralt Van Hase ali na lama, enquanto os camponeses o vaiavam.
Drake Walker observava com admiração a cena que se desenrolava diante de seus olhos. Sua amiga Artemis liderava os plebeus com coragem e determinação, fazendo discursos inflamados e incitando a multidão à rebelião. Ele estava impressionado com a habilidade dela de inspirar e mobilizar as massas com tanta facilidade.
De repente, Artemis se virou para ele, ofegante da comoção anterior. Seu rosto estava vermelho de entusiasmo e suas mãos tremiam ligeiramente. "Você fica bem atraente quando está incitando uma revolta, Artemis", brincou Drake, com um sorriso malicioso no rosto.
Artemis sentiu um rubor subir em suas faces enquanto tentava disfarçar o constrangimento. "Pare com isso, Drake. Estou apenas fazendo o que é certo", retrucou ela, com uma mistura de timidez e determinação.
Drake deu de ombros, ainda sorrindo. "Claro, claro. Mas não posso deixar de admirar sua coragem revolucionária!"
Artemis revirou os olhos, mas no fundo sabia que ele tinha razão. Ela se sentia viva, empoderada e corajosa ao liderar a multidão naquele momento de insurgência. Era como se estivesse cumprindo seu destino, assumindo o papel de líder que sempre soube que lhe cabia.
Era uma sensação indescritível, uma emoção que transbordava em cada fibra de seu ser. E, apesar das palavras brincalhonas de Drake, ela sabia que ele estava ao seu lado, admirando-a e apoiando-a em seu papel de heroína revolucionária.
Enquanto Drake se aproximava da casa, do outro lado das paredes, Christof Dior tentava desesperadamente escapar do aspirante a poeta. O cego sabia que suas poesias eram horríveis, mas não tinha coragem de dizer isso ao nobre que insistia em pedir sua opinião.
Ele se esquivou pelas salas e corredores do casarão, tentando ganhar tempo e encontrar uma forma de escapar do aspirante. Finalmente, ele chegou à cozinha, mas ficou surpreso ao encontrar o espaço vazio.
Nenhum cozinheiro ou servente estava por perto, e a única coisa que ele conseguia ouvir era o som estridente e metálico que vinha de algum lugar próximo. Christof sentiu um calafrio percorrer sua espinha. E se dirigiu calmamente até a origem do som.
A cozinha do casarão Tempete era espaçosa e bem iluminada, com grandes janelas de vidro que permitiam a entrada da luz do sol. O chão de pedra era frio sob os pés descalços de Christof, enquanto ele se movia cautelosamente pelo espaço, tentando evitar os móveis e utensílios que encontrava pelo caminho.
No centro da cozinha, havia uma grande mesa de madeira, cercada por várias cadeiras. Na parede, pendurados em ganchos, estavam vários utensílios de cozinha, como panelas, colheres de pau e facas afiadas. Um grande forno de pedra ficava ao lado da mesa, sua porta entreaberta revelando brasas ardentes em seu interior.
Do lado de fora da cozinha, havia uma grande janela com vista para os jardins do casarão. Os vidros eram antigos e manchados, distorcendo a paisagem do lado de fora, mas ainda assim permitiam que a luz do sol entrasse e iluminasse o espaço.
Normalmente, a área seria movimentada com pessoas preparando refeições ou limpando utensílios. Christof começou a se perguntar onde todos poderiam estar e por que a cozinha estava tão silenciosa e vazia.
O Professor Dior lentamente se aproximava e o cacofonia de sons foi começando a tomar forma. Um som de vidro quebrando e objetos batendo no chão do lado de fora da janela.
Intrigado, Dior se aproximou da janela. Foi então que ele se deparou com alguém arremessando objetos de prata pela janela. O professor não conseguia ver o rosto do homem, mas podia ouvir sua risada alta e descontrolada.
"Quem está aí?", perguntou Christof com sua voz cansada. "O que está acontecendo?"
O homem, que estava se divertindo com seu ato de vandalismo, olhou para Christof com desdém. "E quem quer saber?", ele respondeu com um sorriso sarcástico no rosto. "Um nome sem um rosto não seria muito útil não é cegueta?"
O professor encolheu os ombros, sabendo que não tinha muito a dizer para um homem que claramente não tinha nenhum respeito por ele. "Sou apenas alguém preocupado com o bem estar da prataria.", disse ele, sua voz firme apesar do cansaço. "E você? O que está fazendo aqui?"
O Homem riu. "Prataria? Ah fala dessas coisas?" debocha o homem. "Eu jurava que se tratavam de passáros metálicos, e estava os liberando para voar pela janela." Diz zombando de seu delito de furto enquanto claramente mentia para o cego.
Dior ficou horrorizado com a audácia do homem, mas sabia que era sua responsabilidade impedir esse ladrão. Ele respirou fundo e deu um passo em direção ao estranho, sua determinação inabalável. A tensão no ar era palpável enquanto os dois homens se encaravam, cada um esperando pelo próximo movimento do outro. O silêncio foi quebrado apenas pelo som dos objetos de prata quebrando no chão.
Dior sabia que tinha que agir rapidamente antes que o homem escapasse. Ele deu um passo adiante, seus sentidos aguçados, prontos para qualquer eventualidade.
Se Christof pudesse ver, ele veria um homem de cabelos ruivos desgrenhados, parecendo nunca ter sido penteado. Seus traços eram afiados e angulares. Tinha um nariz proeminente que dava a ele um ar de malandragem. Seus olhos eram pequenos e afastados, com uma expressão astuta e travessa que contrastava com sua postura relaxada. As sobrancelhas finas e arqueadas davam ao seu rosto uma aparência ainda mais esquiva. Sua boca era fina e curvada em um sorriso malicioso que parecia estar sempre pronto para uma piada ou uma provocação.
Sua pele era levemente bronzeada, o que dava a entender que ele passava muito tempo ao ar livre. Suas mãos eram calejadas e sujas, denunciando a vida de trabalho braçal ou talvez até de criminoso. Vestia roupas finas, embora parecessem ter sido usadas por muito tempo e estivessem em trapos. Ele usava uma cartola preta, que parecia ter sido um item de destaque em seu guarda-roupa em tempos melhores, mas que agora estava amassada e suja. Seu casaco de lã, que antes devia ser bem ajustado ao seu corpo, agora pendia em farrapos e remendos mal costurados. As calças, de um tecido que um dia deve ter sido elegante, agora estavam desgastadas e quase se desfazendo nas pernas. Uma camisa vermelha suja e manchada completava o traje em desalinho do ladrão.
Apesar de suas vestes estarem em mau estado, o homem carregava-se com uma certa elegância, como se estivesse acostumado com o luxo e a sofisticação. Mas, ainda assim, a situação atual em que se encontrava indicava que os dias de glória haviam passado há muito tempo.
Enquanto isso, Drake, do lado de fora, se aproximava lentamente do barulho seco dos objetos sendo arremessados. Com a curiosidade aguçada, ele se deparou com um outro homem, baixo e magro, segurando um saco grande repleto de objetos valiosos.
Enquanto o Ladrão arremessava impiedosamente objetos de prata pela janela, um pequeno e maltrapilho homem esperava do lado de fora, catando com dedicação cada peça preciosa que caía no chão.
O homem baixo e magro se ergueu diante do jovem herói, com olhos saltados e uma postura felina, como um gato acuado prestes a saltar. Seus cabelos emaranhados e esfarrapados emolduravam um rosto afilado, com um nariz adunco e lábios finos. Suas roupas eram tão puídas quanto as de seu comparsa, mas pareciam ser de um material de menor qualidade, que havia sido desgastado pelo tempo e pelos rigores da vida nas ruas. Ele usava uma jaqueta de couro gasta e um par de calças de corte reto, que haviam perdido a cor original e estavam manchados e desbotados. Um pequeno chapéu coco, outrora elegante, estava amassado e desalinhado em sua cabeça. Em uma mão, o homem segurava um saco grande de linho, que parecia estar pesado e cheio de objetos.
Sem pestanejar, Drake deu uma tosse forte para chamar a atenção do criminoso, que se levantou surpreso e encarou o jovem herói com um olhar desconfiado e cauteloso.
Com os braços cruzados e uma postura inquisitiva, Drake confrontou o ladrão: "Acho que isso aí não é seu, é?", disse ele com determinação.
O ladrão olhou de relance para o saco que segurava, com um sorriso cínico e amarelo nos lábios, e em seguida fitou novamente o jovem herói com um olhar ametrontado. A tensão pairava no ar, enquanto ambos mediam forças. Enquanto Drake se aproximava, ele olhou para o jovem com desconfiança, mas não disse uma palavra, em vez disso, ficou lá, em silêncio, esperando a próxima jogada do jovem mercenário.
Christof avançou com determinação contra o ladrão, tentando impedir que ele fugisse pela janela. Mas o homem, em um ato de desespero, saltou sem pensar e caiu com um baque em cima do seu comparsa, que estava esperando por ele embaixo.
"Que diabos você está fazendo, seu imbecil?!" Gritou o ladrão, claramente irritado com a queda. "Não é hora de tirar uma soneca!"
O pequeno comparsa, estatelado no chão e dolorido, repetiu como um papagaio: "Soneca."
Drake Walker, observando a cena com desconfiança, aproximou-se dos dois homens. "O que está acontecendo aqui?"
O homem, com um ar inocente e malandro ao mesmo tempo, tentou enganar Drake. "Eu sou apenas um avaliador de objetos, senhor", disse ele, em um tom de voz que pretendia parecer convincente. "Estava levando as coisas do Duque para reparo."
"Reparo." Repetiu o comparsa, concordando com o seu parceiro.
"Reparo?" Perguntou Drake, arqueando uma sobrancelha com suspeita. "Por que não levou as coisas para o ferreiro local, em vez de jogá-las pela janela?"
O ladrão pareceu engolir em seco, percebendo que seu plano havia falhado. Mas seu comparsa, sem entender a situação, continuou repetindo como um mantra: "Janela?"
Drake suspirou, percebendo que estava lidando com dois ladrões nada inteligentes. "Vocês dois vão ter que me acompanhar até a Mansão Tempete, onde poderemos resolver isso com o Duque."
O ladrão, com uma voz suave e malandra, tentou persuadir Drake. "Entenda, amigo, adoraríamos fazer isso, mas..." Antes que pudesse terminar a frase, o homem saiu correndo em disparada, deixando seu comparsa idiota para trás, parado como uma estátua. Apenas quando o ladrão gritou: "Gideão! Corra, idiota, Corra!" é que o comparsa finalmente percebeu o que estava acontecendo.
"Corra." Repetiu o comparsa, acatando obedientemente as ordens de seu chefe.
Drake sacudiu a cabeça, surpreso com a ingenuidade dos dois ladrões, e preparou-se para persegui-los. Ele observou os dois ladrões fugindo de maneira atrapalhada pelo jardim outonal do Duque. Um deles, o líder, correu em zigue-zague, tropeçando nas raízes das árvores e escorregando nas folhas caídas. Seu comparsa, sempre repetindo a última palavra dita pelo chefe, corria atrás dele, com dificuldade para acompanhar o ritmo.
Drake começou a segui-los, mantendo uma distância segura para não ser visto. Ele se esquivava das árvores e dos arbustos com facilidade, enquanto os dois ladrões se enroscavam e tropeçavam em tudo o que encontravam pelo caminho. Era uma perseguição cômica e atrapalhada, que arrancaria risadas de qualquer um que assistisse.
Eventualmente, Drake perdeu os ladrões de vista em meio ao jardim, e acabou encontrando apenas as roupas e a sacola com os pertences do Duque, jogados no chão em um canto do jardim. Ele suspirou, frustrado com o fracasso da missão. Não apenas os ladrões haviam escapado, mas eles provavelmente haviam conseguido levar alguns objetos valiosos do Duque.
Drake examinou a sacola com cuidado, certificando-se de que nada estava faltando. Ele então começou a recolher as roupas dos ladrões, pensando em alguma forma de identificá-los ou de encontrar alguma pista que pudesse levá-lo até eles.
Friederich Schnee estava há horas na gigantesca fila para a Fossa seca, apertando a barriga com força e mal aguentando a pressão. Ele já conseguia sentir "A Topeira" colocando a cabeça para fora do buraco e seu estômago fazendo barulhos constrangedores. Quando finalmente chegou sua vez, Schnee mal esperou a porta se abrir e empurrou para fora o plebeu que tinha acabado de usar o banheiro. "Com licença, preciso mais do que você", disse ele sem rodeios, antes de se lançar para dentro da fossa e fechar a porta com brutalidade.
Ele sentiu um alívio imediato quando finalmente conseguiu se aliviar, mas logo percebeu que havia cometido um erro terrível. O cheiro era insuportável e parecia grudar em sua pele. Ele fez o que pôde para aguentar a situação e terminar o que tinha que fazer o mais rápido possível, mas seus esforços foram em vão. Ele acabou passando mais tempo do que gostaria dentro daquela fossa fedorenta.
Quando finalmente conseguiu sair, Schnee se sentia exausto e envergonhado. Seu orgulho e sua compostura haviam sido deixados para trás naquela fossa. "Cassoulet, Nunca mais", murmurou ele para si mesmo, enquanto corria em direção ao poço ou rio mais próximo para se limpar. Ele nunca tinha se sentido tão humilhado em toda a sua vida, mas sabia que precisava superar aquilo e seguir em frente.
Francisco Herrara avistou o Duque Marcel Tempete novamente entre os nobres, já com uma taça de vinho na mão, e decidiu se aproximar. "Sua Graça. Ainda não tive tempo de falar sobre seu jardim.", perguntou educadamente.
Marcel deu uma risada descompromissada e respondeu: "Ah, jovem Herrara, quase que me esqueço. Mas diga-me, o que você quer falar sobre o meu jardim?".
Francisco sorriu, empolgado com o assunto. "Bem, eu reparei que há algumas ervas daninhas crescendo em algumas partes, e pensei que talvez pudéssemos cuidar delas", explicou ele.
Marcel coçou a cabeça, sem muito interesse no assunto. "Herrara, eu te agradeço pela informação, mas acho que agora não é hora de falarmos sobre isso. Vamos aproveitar o festival e se divertir um pouco mais", disse ele, dando um gole no vinho.
Francisco concordou, percebendo que o Duque não estava muito disposto a falar sobre jardins naquela noite. "Claro, Duque. Não quis incomodá-lo. Apenas achei que seria bom darmos uma olhada no jardim em breve", disse ele.
Marcel assentiu, parecendo um pouco distraído, enquanto olhava para o grande relógio de madeira em sua sala. "Sim, sim, vamos combinar isso em breve. Mas agora eu preciso correr para o palanque exterior, a última atração do festival vai começar em breve", explicou ele.
Francisco entendeu, despedindo-se do Duque com um sorriso. "Com certeza, Duque. Nos falamos em breve", disse ele, assistindo o Duque se afastar animado.
A música animada da quadrilha francesa ecoava pelo ar, enquanto Artemis bailava com entusiasmo junto aos camponeses. Christof e Drake Walker observavam a dança com interesse, conversando sobre a tentativa de roubo da prataria do Duque. "E deixaram apenas estas roupas para trás", comentou Drake com seu colega cego.
"Curioso", ponderou Christof enquanto tateava as roupas.
Enquanto isso, Francisco seguia em direção ao palanque, como havia sido instruído pelo Duque. Ao passar pelo Schnee, que acabara de se banhar no poço e se livrar do odor fétido da fossa seca, o jovem roceiro percebeu o cheiro desagradável e olhou preocupado para o amigo coberto de sujeira marrom. "Espero que isso seja lama", murmurou.
Artemis participava da dança. Os trajes dos dançarinos eram típicos da época, com saias rodadas e babados nas mulheres e calças e coletes nos homens. A música tocada era alegre e contagiante, com flautas, violinos e tambores criando uma atmosfera de celebração. Os passos da dança eram ritmados e coordenados, com os dançarinos girando e trocando de par em meio aos aplausos e risadas da multidão que se reunia ao redor do palco. Artemis se destacava entre os dançarinos, com sua energia contagiante e movimentos graciosos que encantavam a todos os presentes.
No momento em que a música da quadrilha chegou ao fim, o Duque subiu cambaleante ao palco, ainda sob efeito da bebida. Gritou em uma voz alta e desalinhada: "Bom povo do Principado de Cristal!" Quando Artemis, ainda cheia de adrenalina da dança, o aplaudiu em êxtase só para perceber que aplaudia o Duque sozinha. O Duque agradeceu à Artemis com um gesto de reverência, apesar de sua postura meio torta. "É chegado o tão aguardado momento dessa tarde auspi... *soluço* auspiciosa de Outono!"
Christof franzia a testa com a atenção focada nas palavras do Duque, enquanto Drake impacientemente avaliava a multidão. Francisco escutava atentamente, enquanto Schnee, acompanhado de Fransisco, ainda estava terminando de se vestir e se preparando para se juntar aos outros heróis.
O tom do Duque começou a mudar à medida que ele começou a chamar a atenção dos plebeus em volta, fazendo um discurso inflamado e bêbado sobre a grandeza dos Heróis.
"Heróis tão nobres e altruístas como aqueles que nós temos aqui são tão raros quanto as gemas mais preciosas. Heróis que, em um momento de necessidade, atenderam ao clamor de um pai desesperado... Heróis que trouxeram minha doce Sarahleen de volta para casa! Estes são os Heróis que merecem nossa gratidão, nossos agradecimentos eternos! Por isso, eu estenderei minha bondade, fornecendo a eles a chance de participar da mais honrada tradição do Festival..." O Duque, embriagado pelo momento e por suas próprias palavras, não conseguiu controlar a emoção que o invadiu, algumas lágrimas escorrendo pelo rosto enquanto ele proclamava sua admiração pelos heróis.
Enquanto o Duque se afunda em um discurso embriagado e emotivo, a multidão ao redor começa a ficar agitada. Artemis aplaude, mas agora sente um desconforto crescente em sua mente. Christof, com uma expressão preocupada, vira-se para Drake, que começa a se contorcer inquieto. Fransisco olha ao redor, seus olhos perscrutando a multidão agitada. De repente, Schnee se junta ao grupo de heróis, "O que eu perdi?", questiona ele com um ar de curiosidade. Há uma tensão no ar, como se algo de iminente e indesejável estivesse prestes a ocorrer.
Num movimento desequilibrado, o Duque tropeça e cai do palanque em uma cena que causou risos na multidão. Com esforço, ele tenta se levantar, ainda buscando pronunciar palavras em sua fala desordenada. Seus criados se aproximam rapidamente para ajudá-lo a se erguer, enquanto a plateia observa com curiosidade o que se seguirá. Então, de forma repentina e confusa, o Duque grita: "Eu trago a vocês, povo de cristal! O porco!" - uma frase que parece não ter sentido algum.
Os criados do Duque aparecem com um pequeno leitão rosado e lambuzado de óleo e manteiga. O leitãozinho era rosado, de uma cor adorável, com um nariz arrebitado e olhos brilhantes e curiosos. Ele roncava suavemente, emitindo um som reconfortante que acalentava a alma. Suas pequenas patas se moviam inquietas, indicando que ele estava pronto para a ação. No entanto, ele estava completamente lambuzado de óleo e manteiga, o que o tornava ainda mais adorável e um tanto escorregadio. Parecia um pequeno ser mágico, uma criatura que encantava a todos com sua presença alegre e inocente.
"Se esses cinco heróis conseguirem trabalhar juntos e capturar nosso porquinho, eles levarão o grande prêmio da tarde!" anuncia o Duque, sorrindo para a multidão. Os heróis são conduzidos a um cercado fechado a área é ampla e retangular cercada por altas cercas de madeira. O chão é coberto por uma grossa camada de lama, tornando o solo escorregadio e difícil de se mover rapidamente. A lama é de um marrom escuro e espesso, com bolhas de ar emergindo em alguns pontos, o que cria um som lodoso que ecoa pelo cercado. A cerca é reforçada com postes de madeira grossos e resistentes, e em alguns pontos, há pedaços de palha que se projetam por cima da cerca. Os Heróis conseguem ouvir o som dos seus próprios passos e da respiração ofegante enquanto se movimentam pela lama, deixando pegadas profundas em sua passagem. A luz do sol penetra em alguns pontos do cercado, criando feixes de luz que atravessam a atmosfera úmida e acrescentam um aspecto dramático à cena.
"O prêmio para aqueles que conseguirem capturar esse sagaz suíno, os Heróis receberão..." aponta o Duque para seus criados, que trazem uma magnífica capa de folhas secas, nas cores laranja e amarelo. "Uma capa feita com as primeiras folhas caídas das árvores durante o outono. Quando usada, o bosque sempre será o seu mais valioso aliado. Doado pelo primeiro e único Connor Dormark!"
A capa, confeccionada com esmero, é uma obra-prima da natureza e do artesanato. Feita com as primeiras folhas que caíram das árvores durante o outono, ela possui uma paleta de cores que vai desde o amarelo-claro até o alaranjado intenso. Cada folha foi cuidadosamente selecionada e preservada, permitindo que a textura delicada e frágil fosse mantida. O tecido é tão leve que parece flutuar no ar, mas ainda assim é forte o suficiente para proteger o usuário do frio cortante do outono. A capa é bordada com fios de ouro, que brilham sob a luz do sol como pequenos raios de esperança em meio ao dourado do outono. As bordas são emolduradas por um delicado trabalho de renda, que acrescenta uma sensação de leveza e movimento à peça. Usá-la é como ser envolvido pelo próprio outono, com todas as suas cores, cheiros e sons, como se a natureza se abrisse para abraçar o seu portador. A capa é um tesouro digno de um herói.
Os Cinco Heróis estavam cercados por uma multidão de plebeus, ávidos por testemunhar o espetáculo que o Duque Tempete havia preparado para o festival da colheita. O ar estava impregnado com o cheiro de óleo de banha, que havia sido generosamente aplicado no pequeno porco ágil e ligeiro que os Heróis deveriam capturar. Enquanto a multidão vibrava de expectativa, Christof, que ostentava suas roupas finas e caras, protestou inicialmente.
"Essas roupas não são adequadas para perseguir um porco!" ele gritou, enquanto tentava se mover pela lama com dificuldade.
Mas seus companheiros de equipe, Artemis, Fransisco, Schnee e Drake, não hesitaram em dar início à perseguição, cada um fazendo uso de suas habilidades únicas. Artemis, com seus movimentos ágeis e silenciosos, tentava se aproximar do porco como uma caçadora perspicaz, mas o animalzinho era astuto e conseguia escapar passando por debaixo de suas pernas.
"Vocês não conseguem nem capturar um porco!"Schnee gritou, com olhos faiscantes, enquanto corria atrás do porco, mas acabou escorregando no lamaçal e caindo de cara na lama, sua cara alva ficando totalmente coberta pelo lodo.
Enquanto isso, Drake tentava agarrar o porco, mas o bicho escapulia de seus braços, graças ao óleo de banha que o envolvia, e conseguia se esquivar com facilidade. Foi então que Fransisco teve uma ideia brilhante: puxou o barbante de sua calça, ainda segurada pelos suspensórios, e começou a dar nós com a habilidade de um marinheiro experiente, tentando fazer uma corda para laçar o leitão.
A multidão de plebeus, divertida com a cena, ria e aplaudia, enquanto o Duque Tempete, completamente bêbado, incentivava os Heróis a não desistirem, gritando palavras de encorajamento em meio a gargalhadas. "Não deixem ele humilhá-los assim", dizia o Duque, em tom de brincadeira. "Ele vai acabar ficando com o ego inflado se derrotar vocês, Heróis!"
Finalmente, Christof decidiu entrar na brincadeira, correndo atrás do porco e batendo com sua bengala no chão. "Para ser justo, isso é bem mais divertido do que eu pensei que seria!", ele ria, enquanto escorregava na lama e se sujava todo.
Os heróis estavam em uma situação constrangedora, tentando desesperadamente capturar um porco desajeitado enquanto escorregavam na lama e tropeçavam uns nos outros. Christof, que se juntou à diversão, parecia um pato perdido em um lago, desajeitado e encharcado de lama até a careca.
Enquanto isso, o Duque Tempete, completamente embriagado, gritava para a multidão, incitando-os a rir ainda mais alto. "Olhe para eles! Esses são os nossos heróis? Acho que devemos nos preocupar se o lobo voltar!".
Artemis, com seus cabelos escarlates totalmente embaraçados e cobertos de lodo, tentava perseguir o porco com sua graça felina, mas o animal era muito esperto e escorregava para fora. Schnee tentava pegá-lo com força bruta, mas novamente escorregava em uma poça de lama e caía no chão, fazendo com que a audiência explodisse em gargalhadas. "Eu já to começando a levar pro pessoal." Dizia o caçador de monstros se erguendo.
Drake, por sua vez, tentava agarrar o porco com as mãos nuas, mas o animal coberto de óleo e banha escorregava em suas mãos como uma barra de sabão. "Esse porco está mais escorregadio do que um nobre tentando escapar de um escândalo!" exclamou Fransisco, o único que parecia estar se divertindo com toda a situação.
Mas Fransisco não desistiria facilmente. Ele pensa finalmente ter conseguiu fazer um laço perfeito, pronto para capturar o porco. E ele ia colocar sua teoria em prática.
Quando o porco passou correndo, Fransisco jogou o laço no ar e... ele acertou! O laço se fechou em torno do pescoço do porco e o herói começou a puxá-lo de volta para a cerca, como um cowboy em um rodeio.
Mas o porco não estava disposto a ir para o abate tão facilmente. Ele começou a correr em círculos, levando Fransisco que escorregava pela lama junto com ele. Schnee, vendo a oportunidade, saltou no ar e agarrou o porco com toda a sua força, erguendo-o no ar como um troféu. A multidão explodiu em aplausos enquanto o Duque Tempete cambaleava em sua cadeira, rindo até chorar.
Finalmente, os cinco heróis conseguiram capturar o porco ágil e ligeiro, provando que mesmo em uma situação tão embaraçosa, eles ainda eram os heróis de suas histórias.
Com o porco finalmente capturado e o público aplaudindo, o Duque Tempete cambaleou para a frente e entregou a tão aguardada Capa com folhas de Outono aos heróis vitoriosos. "Parabéns, meus bravos guerreiros!" Ele disse com uma risada descontrolada. "Esta capa é um tesouro precioso, digno dos mais corajosos aventureiros. Usem-na com orgulho!"
Enquanto os outros heróis experimentavam a capa e admiravam sua beleza, Schnee parecia menos entusiasmada. Ela estudava a capa cuidadosamente, seus olhos brilhando com uma luz intensa. De repente, ele olhou para cima, seus olhos ainda arregalados.
"Algo está errado aqui", disse ele com uma voz baixa e sombria. "Esta capa não é apenas uma peça de roupa comum. Há algo sobrenatural nela, um poder que emana dela."
Os outros heróis ficaram surpresos com as palavras de Schnee. Eles olharam para a capa com mais atenção e notaram um calor estranho que emanava dela. Christof franziu a testa, visivelmente preocupado.
"O que quer dizer, Schnee?" Perguntou ele, tentando entender.
Schnee caminhou lentamente em direção aos seus colegas heróis, segurando em suas mãos a Capa de Folhas de Outono. Ele observou cuidadosamente as folhas que a compunham, admirando as cores vibrantes e intensas que as caracterizavam. "Esta capa é feita a partir das primeiras folhas que caem de uma floresta no Outono, quando a natureza se transforma em um espetáculo de cores e vida", explicou Schnee.
Ele então ponderou por um instante, analisando a capa em suas mãos, antes de continuar a falar: "Eu acredito que essa capa possui propriedades místicas muito poderosas. As folhas coletam a energia solar durante todo o verão, armazenando-a para sobreviverem durante o inverno. Quando usada, a capa libera essa energia lentamente, proporcionando uma sensação de aquecimento e conforto para aqueles que a vestem."
Schnee fitou seus companheiros de aventuras com um olhar profundo, vislumbrando a possibilidade de utilizarem a capa em suas futuras batalhas. "Mas não é apenas isso", continuou ele, com um tom misterioso em sua voz. "A capa é tecida à mão por aqueles que possuem conhecimentos de magia druídica ou xamânica. Isso significa que ela pode ter outras propriedades místicas, como proteção contra energias negativas ou uma conexão com a natureza."
Os olhos de seus colegas se iluminaram com a perspectiva de possuírem algo tão valioso. Com um sorriso enigmático, Schnee entregou a capa a Fransisco, sabendo que ela agora estava em boas mãos. "Use-a com sabedoria".
Fransisco Herrera ouviu atentamente as palavras de seu amigo Friederich Schnee sobre a Capa de Folhas de Outono. Seus olhos brilhavam com curiosidade enquanto processava as informações. Como um amante da natureza e da botânica, Fransisco se sentia particularmente atraído pelas propriedades místicas da capa.
"Schnee, essa capa é realmente fascinante", disse Fransisco com entusiasmo. "Eu posso sentir a energia que ela irradia, é como se a própria natureza estivesse presente nela. Ela é tão quentinha..."
Schnee sorriu para seu amigo, feliz por ter despertado o interesse dele. Os dois amigos compartilharam um sorriso de empolgação e voltaram suas atenções para as capacidades da Capa de Folhas de Outono.
Os cinco heróis se encontram exaustos após um dia inteiro de atividades no Festival da Colheita, mas ainda assim estão animados com tudo o que experimentaram. Eles estão sujos de lama e suados, mas felizes por estarem juntos. Artemis pega um pouco de vinho e enche as taças de todos antes de se sentar em uma das mesas de madeira.
"O que vocês acharam do festival?", ela pergunta, sorrindo.
Francisco é o primeiro a responder, animado. "Foi maravilhoso! Eu aprendi tantas coisas novas sobre as plantas e medicamentos que eu nunca tinha ouvido falar antes. Além disso, a comida estava deliciosa e as danças foram incríveis."
Friederich concorda, mas acrescenta: "Eu gostei mais das competições. Achei muito legal ver as pessoas mostrando suas habilidades e talentos. Mas a melhor parte foi derrotar cada uma delas."
Christof, que tem ficado em silêncio até agora, suspira antes de falar. "Eu não me importei muito com as competições ou os shows. O que mais me surpreendeu foi a arquitetura da casa do Duque Tempete. É um prédio muito antigo e bem preservado. Eu gostei muito de explorá-lo."
Drake encolhe os ombros, sem parecer muito interessado na conversa. "Eu até que me diverti nas atrações, mas o que mais gostei foi de ver como as pessoas ficam loucas com o dinheiro. Vi muita gente perdendo a cabeça nas apostas."
Artemis ri, divertida com as respostas dos amigos. "Bom, acho que todos tivemos experiências diferentes. Mas acho que podemos concordar que foi um ótimo festival. E amanhã teremos mais coisas interessantes para ver e fazer. Tava pensando na gente fazer um passeio perto da floresta, vai ser bom voltar lá sem todo aquele cheiro podre..."
Fransisco dá um sorrisso. "Eu vou lá basicamente todo dia! Adoraria guiar vocês, tem um lugar ótimo pra gente fazer um piquenique perto de um riacho."
Todos os Heróis concordam enquanto aproveitam os últimos momentos do festival. Depois de alguns minutos de silêncio, Francisco se estica na cadeira e boceja alto.
"Estou tão cansado que mal consigo manter os olhos abertos", ele reclama, massageando as têmporas. "Essas atividades físicas realmente me cansaram."
Christof concorda. "Eu também estou exausto. Andei tanto hoje que acho que meus pés vão cair."
Friederich ri. "Eu pensei que você era um explorador, Christof. Não deveria estar acostumado com caminhadas longas?"
Christof responde com um sorriso cansado. "Explorador não significa que você não fique cansado, Friederich. E também não ajuda muito que eu esteja fora de forma."
Drake dá um sorriso de canto de boca. "Bem, eu também estou cansado, mas isso é porque tive que fazer todo trabalho contra o porco."
Todos riem, menos Schnee, que parece preocupado. "Vocês acham que estão se sentindo mal por causa da comida ou bebida do festival?"
Francisco balança a cabeça. "Não, não é isso. É apenas cansaço normal. Nós fizemos muitas coisas hoje."
"Nesse caso." Friederich pega um pedaço de pão e começa a mastigar. "Mas falando em coisas, acho que precisamos ter uma conversa séria."
Os outros o olham, curiosos.
"O que você quer dizer?", pergunta Christof.
Friederich suspira. "Eu tenho estado pensando muito ultimamente. Sobre a nossa vida, nossas escolhas, nosso futuro."
Artemis se inclina para a frente, interessada. "E o que você concluiu, Friederich?"
Friederich olha ao redor da mesa, para cada um dos amigos, antes de falar. "Eu concluí que com essa história toda de Herói vai ficar cada vez mais difícil a gente ter momentos sem obrigações. Aquela coisa ainda tá assolta por aí... E mais cedo ou mais tarde, nós vamos ter que lidar com ela, e seja lá quem estava por trás do sequestro das crianças."
Os outros acenam em concordância enquanto um única letra ecoa pela mente deles "R". Artemis sorri. "Isso é verdade, Friederich. Mas acho que somos mais fortes juntos do que separados. E temos que aproveitar o momento, porque nunca sabemos quanto tempo ainda temos juntos."
Drake olha para Artemis com preocupação. "Você está falando sobre alguma coisa em particular, Artemis?"
Ela balança a cabeça. "Não, não é nada. Apenas me peguei pensando sobre como somos vulneráveis e que nunca sabemos quando pode ser a última vez que veremos alguém." Diz ela enquanto se lembrava das últimas palavras que trocou com Timothy.
Depois da conversa sobre o futuro dos Heróis, a atmosfera fica um pouco tensa, mas Fransisco rapidamente quebra o gelo, "Deixa eu contar uma história boa pra vocês sobre quando a Catarina escapou", começa ele, animado. "Essa vaca é mais esperta do que as outras, não adiantava eu correr atrás dela, ela era mais rápida do que eu." Os outros Heróis riem, conhecendo bem a teimosia dos animais. "Mas aí eu lembrei do truque: cantarolar a música que ela gosta. E não é que funcionou?", continua Fransisco, com um sorriso maroto nos lábios. "Ela parou de correr e se deitou no chão. Aí foi fácil alcançá-la. O problema só foi pensar em como eu ia levar ela dormindo de volta pra casa...", conclui ele, com um ar de garotagem. O grupo todo cai na gargalhada, e a tensão é dissipada.
"Essa foi muito boa." diz Christof, rindo com o grupo.
"Mas e você, Christof?" pergunta Fransisco, curioso para ouvir as aventuras do explorador cego. "Tenho certeza de que tem uma penca de histórias engraçadas das suas viagens."
Christof aproveitou a ocasião para relembrar suas aventuras de juventude. "Ah, como eu era destemido naquela época! Percorri todo o continente de Eprane e desbravei Affri, descobrindo lugares deslumbrantes e pessoas fascinantes. Lembro-me vividamente de uma ocasião em Dunateaux, quando quase fui preso por não compreender as leis de decência locais. E em Affri, fui perseguido por um elefante furioso enquanto acampava na savana. Mas sabe de uma coisa? Eu não me arrependo de nada. A vida é curta demais para não aproveitar todas as oportunidades que surgem!", ele proclamou com fervor, seus olhos brilhando com a lembrança.
No entanto, uma sombra de melancolia passou por seu rosto, como se relembrasse algo doloroso. "Embora eu tenha desfrutado cada momento de aventura, às vezes me pergunto se teria sido melhor passar mais tempo com amigos e... com a minha família", ele confessou, com um suspiro. Era como se ele estivesse lutando contra uma luta interna, entre o desejo de explorar e a necessidade de se conectar com aqueles que lhe eram queridos.
Schnee se levantou da poltrona, com um olhar determinado em seu rosto. "Família é superestimada", disse ele com convicção, enquanto se dirigia à mesa ao lado para pegar mais uma garrafa de vinho. Ele parecia inquieto, como se quisesse se livrar de um fardo que carregava há muito tempo. "Meus pais nunca entenderam minha escolha de carreira", continuou. "Eles sempre me viram como um estranho, um bastardo que nunca se encaixaria em seu mundo. Mas foi na escola Zielkfrat onde encontrei meu verdadeiro lar, onde pude me tornar o caçador-de-monstros que sempre quis ser".
Com uma destreza invejável, Schnee retirou a rolha da garrafa com os dentes e a cospe para longe. "Foi lá que aprendi as habilidades e a coragem necessárias para enfrentar as criaturas mais perigosas lá fora. E farei isso até o fim dos meus dias, mesmo que meus pais nunca compreendam". Ele fitou o horizonte com determinação, como se estivesse pronto para enfrentar qualquer adversidade que se interpusesse em seu caminho. Schnee sabia que sua vida era sua própria jornada, e que nada nem ninguém iria detê-lo.
Drake estende a taça para Schnee que a enche com um vinho escuro e profundo, enquanto os olhares dos Heróis se voltam para ele, expectantes. Com um sorriso debochado nos lábios, ele parece relutante em compartilhar um pouco de si mesmo. Mas então, com uma risada, ele começa a falar. "É minha vez agora? Bem, minha vida não é nada de especial. Foi difícil, é verdade, mas eu fiz o que tinha que fazer. Cresci em uma família pobre, onde o trabalho era a única opção para sobreviver. Eu tive que aprender a lutar, roubar, negociar... qualquer coisa que pudesse me dar uma vantagem na vida. Foi assim que acabei me tornando um mercenário. Não é algo que me orgulhe, mas era o que eu precisava fazer na época. Eu sempre achei que ia morrer sendo apenas um mercenário ganancioso", ele diz, olhando diretamente nos olhos verdes de Artemis, perdendo-se por um momento em sua intensidade. "Mas às vezes, encontramos alguém por quem vale a pena mudar." A voz de Drake é baixa e sincera, como se estivesse revelando um segredo que guardou por muito tempo. A atmosfera na sala muda, tornando-se mais pesada, como se todos estivessem sentindo a emoção que emana do mercenário.
Artemis cora levemente ao perceber o olhar de Drake, mas ela se recompõe rapidamente e fala "Sempre acreditei que a justiça é algo pelo qual devemos lutar", diz Artemis com determinação. "Eu sempre vi o melhor nas pessoas, como minha amiga Geldriel." Artemis para por um momento lembrando com saudade da amiga. "Ela teve uma vida díficil, e fez muita escolha errada. Mas agora está lutando por uma vida nova em Paranes... Mas... No fundo eu acho que essa nova vida talvez seja pior pra ela."
Drake observa com empatia a expressão de Artemis enquanto ela fala sobre sua amiga Geldriel e, quando ela termina, ele diz com um tom gentil: "Eu entendo que você tá preocupada, Artemis. Mas você sabe, se Geldriel estiver lutando por uma vida nova, é porque ela quer algo melhor para si mesma. E eu tenho certeza de que ela ficará bem. Se você quiser, posso até Paranes com você." Drake olha para Artemis e, em seguida, para os outros Heróis, como se estivesse pedindo sua opinião sobre a sugestão.
Ao ouvir a sugestão de Drake, Fransisco balançou a cabeça lentamente enquanto refletia sobre a possibilidade de ir a Paranes. "Eu não sei, Drake. Nunca fui lá antes. A grande cidade e suas invenções tecnovapor me assustam um pouco."
Christof notou a hesitação de Fransisco e se aproximou dele com um sorriso tranquilizador. "Não se preocupe, Fransisco. Paranes é uma cidade como qualquer outra. Não deixe os boatos sobre as invenções tecnovapor assustá-lo. Eles são exagerados pelos que moram no campo. Tenho certeza de que você se sairá bem lá", disse Christof com convicção.."Ah! Paranes! Faz tanto tempo que não vou lá. Eu costumava lecionar na Faculdade de Sarconne, localizada na cidade. Seria ótimo voltar lá e... bem... "ver" como as coisas estão."
Schnee, que havia adormecido na cadeira depois de algumas taças de vinho, apenas respondeu com um ronco. Drake riu da situação e brincou. "Vou interpretar isso como um 'sim'!"
Artemis olhou para cada um dos seus companheiros com gratidão e concordou com a ideia. "Seria ótimo se pudéssemos ir juntos", ela disse com entusiasmo. "Eu ficaria muito mais tranquila sabendo que temos o apoio uns dos outros." O grupo sorriu em concordância e Drake concordou, afirmando que eles deveriam começar a planejar a viagem para Paranes.
Capítulo 3 - Uma Cabeça de Abóbora.
Conforme a noite avança, o entusiasmo dos camponeses começa a diminuir e a alegria que antes se espalhava pelos domínios do Duque começa a se dissipar. Os convidados começam a se retirar, cambaleando e rindo alto, com as bochechas rosadas pelo vinho que foi servido generosamente ao longo da noite.
Após a debandada dos camponeses do festival da colheita, o quintal do Duque ficou vazio e silencioso. O chão de terra batida estava coberto por restos de comida, folhas e palha que haviam sido deixados para trás pelos convidados. As mesas e bancos de madeira estavam desalinhados e sujos, com pratos e talheres espalhados em cima deles.
A decoração que antes ostentava uma exuberância campestre agora estava desbotada e sem vida. Os girassóis que adornavam os pilares de madeira estavam murchos e pendiam tristemente, enquanto as lanternas de papel colorido que iluminavam o quintal já não emitiam a mesma luz vibrante de antes. A fogueira, que outrora aquecera os corpos dos convidados, agora estava reduzida a brasas fumegantes, emanando um cheiro adocicado de lenha queimada.
Apesar do ar de abandono que envolvia o quintal do Duque, ainda era possível perceber a beleza rústica do local. Os muros de pedra que cercavam o espaço ainda exalavam a solidez e a imponência que só as construções antigas podiam oferecer. E, no horizonte, as primeiras estrelas começavam a pontilhar o céu escuro, lembrando a todos que a noite apenas começava e que o mistério e a aventura ainda estavam por vir.
Enquanto isso, os Heróis, exaustos pela agitação e pelos festejos, permanecem sentados em uma mesa ao ar livre, observando o espetáculo da debandada que se desenrola diante de seus olhos cansados. É nesse momento que o Duque, com um sorriso no rosto e o hálito carregado pelo álcool, se aproxima da mesa e se junta a eles, dando o último gole em seu cálice.
"Vocês não fazem ideia da felicidade que me trouxeram hoje", diz o Duque, olhando para os Heróis com gratidão. "Se desejarem descansar seus corpos cansados em minha mansão, podem ficar à vontade. A viagem de volta é longa e eu posso mandar meus criados prepararem os banhos e guiá-los até seus quartos."
No entanto, antes que o Duque possa terminar sua oferta, seus olhos se fixam em algo que se aproxima do final da estrada, vindo da direção do Principado do Encantado. Seu tom de voz muda, tomando uma expressão de surpresa e admiração: "- Ora, ora... Atrasado, mas presente. Eu não acredito."
No horizonte, uma carroça se aproxima, puxada por uma mula vigorosa e conduzida. O cocheiro é um homem alto e magro, com um nariz proeminente e olhos astutos. Sua pele é marcada pelo sol e pelo tempo, e seu cabelo é curto e castanho-escuro, levemente encaracolado. Ele usa uma camisa branca simples e uma calça de couro marrom, com botas robustas para a condução da carroça.
A carroça em si é uma belíssima obra de madeira refinada, com detalhes dourados que brilham à luz das tochas e lamparinas. Seu brasão, uma letra "H" em dourado, é visível nas rodas da carroça, e ela é puxada por uma bela mula, que parece bem cuidada e alimentada.
A carroça está repleta de hortaliças, verduras e legumes, todos organizados cuidadosamente de forma a aproveitar o máximo espaço possível. A quantidade de vegetais é tão grande que é impossível ver o chão da carroça. A madeira da carroça é tão polida que reflete a luz do sol, e ela parece estar em perfeitas condições, sem nenhum arranhão ou dano aparente.
O Cocheiro anuncia ainda sentado no carroça. "O senhor Horner manda suas desculpas por não conseguir comparecer a tão prestigiado evento. Mas manda seus tributos, uma parte da safra de sua melhor colheita."
Atraídas pela curiosidade, as crianças que ainda restam no festival correm até a carroça, dependurando-se nela para espiar melhor as maravilhas cultivadas. A filha do Duque, Sarahleen, em particular, salta animadamente na borda da carroça para ver as hortaliças de perto, maravilhada com a grande quantidade que se desdobra diante de seus olhos. "Olhem quantas!" exclama a menina, transbordando de admiração.
Drake Walker, sempre atento aos detalhes, percebe algo que lhe causa certo desconforto. Enquanto as crianças admiravam as hortaliças na carroça, uma das abóboras começou a se mexer de forma sinistra e sobrenatural. Ele se aproximou lentamente para verificar o que estava acontecendo, quando, de repente, a abóbora saltou da carroça diretamente em sua direção. Com espanto, Drake viu um homem usando o legume como um elmo na cabeça, com uma expressão aterrorizante esculpida na superfície da abóbora. Era uma visão inesperada e perturbadora, que causou um arrepio na espinha de Drake e deixou as crianças em estado de choque.
Drake reagiu instintivamente com um soco certeiro que acertou em cheio o rosto da abóbora, fazendo com que o homem perdesse o equilíbrio e caísse da carroça, quebrando a abóbora em seis pedaços. O elmo de abóbora se espatifou, revelando um jovem homem de cabelos loiros, que estava atordoado e confuso com a situação.
As crianças, que antes estavam calmas, começaram a se agitar e rir da cena. Algumas delas apontavam para o rapaz, enquanto outras riam tão alto que pareciam não se importar com as pessoas ao redor. Algumas até mesmo imitavam a forma como ele tinha caído, deixando claro que estavam se divertindo com a situação.
O Duque e seus criados que estavam por perto tentaram conter as risadas das crianças, mas foi em vão. A cena era tão engraçada que parecia impossível não rir.
Com um sorriso sem graça e a mão no nariz dolorido, o rapaz se levanta do chão empoeirado, ajustando sua roupa com delicadeza. Ele passa a mão nos cabelos loiros, que ficaram bagunçados com a queda, e se dirige aos heróis com um sotaque familiar.
"Ouch. Creio que a culpa tenha sido minha", ele diz, esfregando o nariz machucado. "É uma tradição minha fazer alguma travessura nessa época do ano. Mil desculpas se assustei vocês, camaradas. Não foi minha intenção causar nenhum dano ou transtorno."
Ele faz uma pausa, olhando para cada um dos heróis com atenção, como se avaliasse suas reações. Então, com um sorriso mais sincero, acrescenta: "Mas fico feliz que a abóbora tenha cumprido seu papel de susto no Dia de Todos os Santos. Essa é a graça da tradição, não é mesmo?"
O rapaz de aparência magra e esmirrada tem cabelos loiros que se encontram na altura dos ombros, levemente ondulados. Seus olhos azuis são claros e brilhantes, parecendo acompanhar seus movimentos com destreza. As feições do rosto são suaves, e sua expressão parecia oscilar entre a de um trapaceiro e a de um cavalheiro.
Ele está vestido com roupas finas em tons creme e azul. Usa um colete de veludo creme, uma camisa de linho branco com babados nas mangas e uma calça azul escuro ajustada. Sua jaqueta, também azul escura, é decorada com botões dourados em fileiras e detalhes em veludo creme nas golas e punhos.
Seus adornos incluem anéis bonitos em vários dedos e uma corrente de ouro com um medalhão no bolso de sua jaqueta. Uma bolsa de couro marrom escuro, presa na cintura com um cinto também de couro, completa o visual sofisticado do rapaz.
Drake se aproximou do jovem rapaz, e assim que ele falou, o sotaque Luthiano foi imediatamente notado pelo herói. "Ei, camarada. Desculpe pelo soco. Eu não queria acertar você, foi tudo muito rápido e eu não consegui me segurar", disse Drake com sinceridade.
O rapaz, então, riu com bom humor e respondeu: "Sem problema. Eu estava louco para conhecer vocês. Ainda bem que consegui chegar a tempo..."
Artemis levantou uma sobrancelha, curiosa: "Como assim, chegou a tempo?"
O rapaz sorriu com confiança e respondeu: "Bem, eu já ouvi 'A Balada Enluarada' umas 15 vezes e sempre me impressiona! Eu acho que vocês são as pessoas certas para um serviço de extrema importância pra mim."
Os heróis trocaram olhares e Christof perguntou diretamente: "Que tipo de serviço?"
O rapaz, ainda sorrindo, respondeu: "Um trabalho para recuperar pertences perdidos. Eu não posso dizer mais do que isso agora, mas preciso de alguém que seja inteligente, ágil e corajoso o suficiente para se infiltrar em um lugar perigoso. Eu tenho certeza de que vocês são os melhores para isso."
Friederich, que despertou lentamente de seu cochilo, cruzou os braços e analisou o rapaz com seus olhos amarelos: "E por que deveríamos confiar em você?"
O rapaz deu de ombros e respondeu: "Vocês não precisam confiar em mim, mas eu garanto que o pagamento será muito generoso. Além disso, vocês terão a oportunidade de ajudar muitas pessoas."
A atenção de Drake foi imediatamente capturada pelas palavras "pagamento generoso". "Fale mais sobre o pagamento", disse ele, interessado.
No entanto, a conversa foi interrompida pela presença do Duque, que se aproximou cambaleante. As crianças que cercavam a carroça de legumes finalmente se acamaram com a queda cômica do rapaz.
O Duque riu alto das crianças, enquanto cumprimentava Horner: "Senhor Horner, achei que o senhor não vinha mais... O Festival está terminado e só sobraram..."
Horner interrompeu o Duque, dizendo: "Não há problemas, Duque. Ano que vem eu aproveito o festival da colheita de forma mais abrangente, mas bem... Eu tive problemas a serem resolvidos. Sua Graça permitiria-me usar vossos aposentos para ministrar uma reunião com os Heróis?".
O Duque, ainda rindo, assentiu. Horner guiou os heróis para dentro da mansão Tempete, onde discutiriam os detalhes do trabalho proposto.
A cena se passa na sala de reuniões da mansão Tempete, onde a lareira crepitante ilumina a sala com sua luz quente e aconchegante. Os cinco heróis estão sentados confortáveis ao redor da lareira, cada um vestido com roupas diferentes e segurando uma bebida de sua escolha.
Christof Dior está sentado em uma poltrona próxima à lareira enquanto bebê uma xícara de chá preto quente, vestindo um robe cinza é longo e volumoso, feito de um tecido macio e confortável que cobre todo o seu corpo. O robe possui uma textura lisa e agradável ao toque, com uma cor cinza clara que combina com a seriedade e simplicidade de Christof.
As mangas do robe são largas e amplas, permitindo que ele possa movimentar seus braços com facilidade. O robe também possui uma gola alta que pode ser levantada para proteger o pescoço do frio e do vento. Na parte da frente do robe, há um fecho simples de amarrar, que mantém o robe fechado e seguro em torno do corpo. O robe de Christof é um item essencial de seu guarda-roupa, permitindo que ele se sinta confortável e aquecido durante as noites frias na mansão Tempete.
Fransisco Herrara está sentado no tapete, em frente à lareira, está bebendo um copo de água fresca com ervas que ele mesmo colheu na floresta. A camisa de linho de Francisco é de um tom creme claro, com uma textura leve e suave ao toque. Possui mangas compridas e abotoamento na parte da frente. O colarinho é alto e rígido, complementando o visual elegante da peça. As calças verdes escuras que ele usa são de um tecido encorpado e resistente, com um leve brilho que reflete a luz. Elas têm um corte reto e ajustado, e são levemente afuniladas nos tornozelos. Possuem dois bolsos laterais e dois bolsos traseiros com fechamento por botão, proporcionando um visual elegante e clássico.
Friederich Schnee está sentado em outra poltrona, Ele está bebendo um copo de vinho tinto encorpado,Ele veste um casaco de couro preto com mangas largas e bufantes, adornado com detalhes em prata ao longo das bordas e nas costuras. O casaco é aberto na frente, exibindo sua camisa branca de seda com babados no colarinho e nos punhos.
As calças justas de couro preto descem até os tornozelos, e as botas de couro com biqueiras prateadas complementam o visual. Uma faixa de couro preto com um cinto de fivela prateada acentua sua cintura, enquanto uma capa preta com um forro de seda vermelho cai elegantemente sobre seus ombros.
Drake Walker está sentado em uma cadeira de madeira próxima à janela,está bebendo um copo de uísque, A camisa branca de Drake Walker é feita de um tecido de algodão macio e leve, com botões de pérola que adicionam um toque sofisticado. A gola da camisa é nítida e elegante, com botões que permitem ajustar a largura do colarinho. As mangas são compridas e têm botões nos punhos que podem ser ajustados para o ajuste perfeito.
A calça de couro preta de Drake Walker é feita de um couro macio e flexível, que se ajusta bem ao corpo. Ela tem um corte justo e elegante, com um botão frontal. A cintura é de altura média e tem passantes para cinto, permitindo a adição de um cinto elegante para completar o visual.
Artemis está sentada em uma cadeira perto da lareira. Ela está bebendo um chá de camomila com mel. Seu vestido verde escuro é uma peça igualmente impressionante, feita de um tecido suave e luxuoso que envolve seu corpo em uma silhueta deslumbrante.
O vestido tem um decote baixo e elegante que realça o colo de Artemis, e as alças finas e delicadas que se estendem por seus ombros revelam a pele lisa e sedosa. A parte superior do vestido é ajustada e abraça suas curvas, enquanto a saia flui suavemente em cascata pelo chão.
O vestido tem uma fenda na perna que adiciona um toque de drama ao visual e revela um par de sapatos de salto alto que alongam ainda mais as pernas de Artemis. O verde escuro do vestido complementa sua pele clara e contrasta com seu cabelo vermlho e sedoso que cai em ondas suaves pelas suas costas.
Os Heróis ficaram admirados ao receberem os presentes do Duque Tempete, e dentre eles, as belas roupas que vestiam agora. Os tecidos eram de qualidade excepcional, as cores vibrantes e os cortes impecáveis. Cada detalhe das vestimentas revelava a habilidade dos melhores alfaiates da cidade. As roupas não eram apenas presentes, mas uma declaração de estima do Duque pelos Heróis.
Jack Horner entrou na sala de reuniões da Mansão Tempete, onde já estavam os cinco heróis sentados em volta da mesa. Ele os cumprimentou com um sorriso nervoso, antes de começar a falar. "Meu nome é Horner. Jack Horner, como devem perceber pelo meu sotaque incriminador eu não sou aqui de Farngomery, mas sim de Luthia. Mas desde que me mudei pra cá, eu adoro essa nação como meu lar."
Ele caminhou até a ponta da mesa e colocou uma pasta de couro marrom em cima dela. "Bem, a história é longa ... E para que vocês entendam o que se passa, eu acho melhor conta-la desdo início. Tudo aconteceu a cerca de 3 meses atrás. Eu moro em Charmante, capital do Principado do Encantado, um lugar lindo um pouco frio essa época do ano, mas de fato uma maravilha..."
Jack abriu a pasta e começou a mostrar documentos e mapas para os heróis, apontando para os detalhes mais importantes. "Na noite do ocorrido eu estava fora de casa, e eu tinha regressado por volta das 11 horas da noite, 11:40. Acompanhado de duas...ahn... Duas amigas que eu conheci na ... Bom como eu as conheci não importa."
Ele coçou a barba enquanto lembrava daquela noite, e depois continuou: "Tinha voltado para minha casa para continuarmos a nossa..." o rapaz limpa a garganta antes de prosseguir. " A nossa 'conversa'. Porém qual não foi a minha surpresa quando avistei os portões Dourados da minha casa arrombados. Obviamente eu tomei a frente das donzelas para que nada de ruim acontecesse a elas e criei coragem o suficiente para avançar até os portões..."
Jack se aproximou da mesa, apontando para um mapa que mostrava a localização da sua casa. "Não havia mais nenhum sinal de violação a frente. Meu jardim e varanda estavam intocáveis. Com exceção da minha porta, que estava aberta, me tremi feito uma vara verde só com o pensamento de alguém estar me esperando lá dentro..."
Ele fez uma pausa dramática, antes de continuar: "Quando eu entrei. Minha casa estava totalmente revirada, porém tudo de valor continuava lá. Não levaram minhas tapeçarias, jóias, nem a prataria... Foi quando eu fui até meu quarto no segundo andar... Para me deparar com minha pobre Gertrude, tremendo-se toda dos pés ao bico."
Jack fez uma careta, lembrando da expressão aterrorizada da sua mascote. "Foi aí que a coitadinha me informou que alguém havia entrado lá... Alguém que sabia exatamente o que procurar... Alguém que havia vindo pegar uma das minhas sacas de Feijões!"
Ele bateu com a mão na mesa, encerrando sua história com um suspiro cansado."E é por isso que eu preciso da ajuda de vocês, heróis. Eu tenho motivos para acreditar que essa pessoa que roubou meus feijões está planejado algo horrível."
Jack percebeu que os Heróis estavam desacreditados sobre a missão e decidiu explicar melhor a situação. "Eu sei que pode parecer estranho, uma missão envolvendo feijões, mas eu não estou falando de qualquer tipo de feijões. Estou falando de feijões mágicos, os mesmos que são responsáveis por toda a minha riqueza. Eles possuem um poder tão grande que, se caírem nas mãos erradas, podem causar problemas para todas as nações do continente."
A cabeça de Christof se inclinou em direção a Jack, curiosa. "Então, devemos recuperar seus Feijões Mágicos?" perguntou ele.
"Na verdade é menos complicado que isso. Eu preciso que vocês averiguem a situação da ilha particular do Baronete de Vermechion. Há algumas semanas, ninguém consegue contatar a guarnição que estabelecemos lá. E eu tenho motivos para acreditar que algo de ruim possa ter acontecido."
Os olhos de Christof se estreitaram enquanto ele tentava entender a conexão entre a ilha e os feijões mágicos que Jack havia mencionado anteriormente.
"E o que isso tem a ver com seus feijões?" perguntou ele, inclinando a cabeça em direção a Jack.
O nobre parecia ansioso enquanto explicava. "Eu ainda possuía outras duas sacas de feijões mágicos, que não foram roubados. Eu não conseguia mais dormir direito pensando que o bandido poderia voltar para buscá-las. Então, eu contatei outros nobres com o mesmo problema de furtos e começamos a montar uma guarnição lá, contratando homens para construir uma pequena construção com cofres para cada um dos investidores onde colocariam os itens. Tudo isso foi feito em máximo sigilo e até algumas semanas ninguém fora do ciclo dos investidores sabia sobre esta ilha secreta."
Drake, cético, arqueou as sobrancelhas em descrença. "Feijões mágicos? Você quer que a gente acredite nessa baboseira?"
Mas Fransisco não conseguiu deixar de rir consigo mesmo ao observar a reação de Drake. O jovem achava engraçado a forma como o rapaz se negava a acreditar em algo que estava fora de sua compreensão.
Jack se levantou, parecendo um pouco irritado. "Não se trata de magia, Senhor Walker. Trata-se de algo valioso que precisamos proteger. E agora, algo parece estar errado na ilha. Eu preciso que vocês vão até lá e averiguem a situação com os próprios olhos."
Artemis, sentiu um aperto no coração. Ela queria ajudar os outros, mas também queria cumprir o combinado que havia feito a seus amigos e seguir em direção à Geldriel. A missão de Jack Horner poderia ser um impecilho em sua busca.
Christof ponderou por um momento antes de responder. "Senhor Horner, é tarde e tivemos um dia cheio no Festival. Se importaria se respondêssemos amanhã com nossas mentes já descansadas?"
O nobre parecia aliviado por terem concordado em ajudar. "É claro, Senhor Dior. Agradeço a compreensão. Caso aceitem amanhã cedo partiremos. E, claro, serei generoso com a recompensa pela tarefa."
Após a reunião tensa, os Heróis, o Duque Tempete e Jack Horner se reuniram em volta da mesa, desfrutando de uma ceia leve e saudável. Enquanto comiam, não conversavam sobre os detalhes da missão que os aguardava na manhã seguinte e preferiram trocar impressões sobre a trajetória que os levou até aquele ponto. O ambiente estava repleto de uma atmosfera de incertezas e preocupações, mas a presença de bons alimentos e companheirismo trouxe um certo alívio.
A ceia leve que os Heróis, o Duque Tempete e Jack Horner tiveram era uma refeição simples e agradável. A mesa foi posta em uma sala de jantar elegante, com paredes de pedra e uma grande lareira acesa para aquecer o ambiente. No centro da mesa, havia uma tigela de sopa quente de abóbora temperada com especiarias aromáticas que perfumavam o ar. Além disso, havia pães recém-assados, queijo e frutas frescas, incluindo maçãs e uvas doces. A bebida servida era um vinho leve e frutado, que complementava perfeitamente o sabor da sopa. Todos se serviram com prazer e compartilharam histórias divertidas do festival da colheita. Após a refeição, os Heróis se dirigiram para seus quartos na mansão do Duque, sentindo-se satisfeitos e relaxados depois de um longo dia.
Depois de uma rápida discussão sobre quem dormiria onde, os heróis decidiram que Fransisco e Friderich compartilhariam um dos quartos com duas camas de solteiro, enquanto Christof e Drake ocupariam o outro quarto com duas camas de solteiro. Artemis, por sua vez, ocuparia o quarto com a grande cama, já que era a única garota do grupo. Jack, como combinado, dormiria na sala, embora não parecesse se importar com a ideia. Com a distribuição dos quartos resolvida, os Heróis se retiraram para descansar, ansiosos pela aventura que os aguardava no dia seguinte.
Fransisco e Friederich chegaram ao quarto que dividiriam na mansão Tempete. Era um quarto espaçoso com paredes brancas e móveis de madeira escura. Havia duas camas de solteiro no quarto e uma janela com vista para os jardins da mansão. O ambiente era acolhedor e aconchegante, com um tapete macio no chão e uma pequena mesa de madeira ao lado de cada cama.
Fransisco Herrara usava uma camisola de algodão simples, sem detalhes extravagantes. A roupa era confortável e prática, como sua personalidade humilde e despretensiosa. Ele não se preocupava muito com moda ou aparência, mas ainda assim queria se sentir confortável durante o sono.
Friderich Schee vestia uma camisola de seda vermelha, com estampas de tigres em preto e laranja. A roupa era exótica e chamativa, como sua personalidade exibida e cativante. Ele gostava de se destacar em qualquer situação, inclusive durante o sono. A roupa era confortável o suficiente para permitir que ele se movimentasse facilmente, mas ainda assim adequada para uma ocasião formal.
Drake e Christof subiram a escadaria que dava acesso ao andar superior da mansão Tempete. O quarto que lhes foi designado era espaçoso e bem iluminado, com paredes de pedra que mostravam os sinais da idade. Duas camas de solteiro foram colocadas uma ao lado da outra, com lençóis brancos e edredons de plumas macios. Perto da janela, havia uma pequena mesa com duas cadeiras de madeira. O teto abobadado estava decorado com pinturas a óleo, retratando cenas da vida no campo.
Christof Dior usava um conjunto de pijama de seda preto com detalhes em ouro, como um toque de sofisticação. A roupa era simples, mas elegante, assim como sua personalidade erudita e séria. Como ele era cego, a roupa era confortável o suficiente para permitir que ele se movimentasse facilmente, mas ainda assim adequada para uma ocasião formal.
Drake Walker optou por um conjunto de pijama de algodão branco, com detalhes em azul escuro. A roupa era simples e prática, como sua personalidade teimosa e rebelde. Ele não se importava muito com moda ou estilo, mas ainda assim queria se sentir confortável durante o sono.
O quarto de Artemis era decorado com tons suaves de rosa e branco, e um grande espelho dourado pendia acima da lareira. Havia uma cama com dossel e uma grande janela com cortinas de seda, permitindo a entrada da luz do luar. Na escrivaninha havia uma pena e um tinteiro.
Artemis Lune-Argentée vestia um camisola longa de seda branca, bordada com pequenas pérolas e detalhes em renda na gola e mangas. Seus cabelos ruivos estavam presos em um coque frouxo e ela usava uma fita de seda rosa como enfeite. A roupa era confortável e elegante, refletindo sua personalidade charmosa e carismática.
Os Heróis, cansados após um dia movimentado, finalmente puderam descansar em seus quartos na estalagem. Os aposentos eram aconchegantes, com móveis de madeira escura e cortinas que balançavam suavemente com a brisa noturna que entrava pela janela aberta. A cama macia convidava os viajantes a se deitarem e a entregarem-se ao sono. Com um suspiro de alívio, os Heróis se renderam ao cansaço e caíram no sono, sonhando com as aventuras que ainda estavam por vir.
Fransisco abriu os olhos subitamente quando a luz que vinha do corredor de seu quarto atingiu seus olhos. Ele olhou ao redor do quarto, mas tudo parecia tranquilo. Entretanto, o cheiro intenso de canela que empestava o ambiente não deixava dúvidas de que algo estava diferente.
Ele observou Friederich, que continuava roncando profundamente em sua cama, e decidiu se levantar para investigar. Seguindo o aroma de canela, Fransisco se dirigiu ao quintal da mansão, onde ficou surpreso ao encontrar uma bela mulher sem cor alguma. Ela parecia branca como uma folha de papel e emitia um brilho dourado, que destacava ainda mais sua beleza. Ela parecia uma figura etérea, um ser de luz que não pertencia ao mundo humano.
Seu corpo era esguio e elegante, seus membros longos e delgados como os de uma gazela. Seu rosto, de traços delicados, parecia esculpido em mármore branco, sem nenhuma mancha ou imperfeição. Seus olhos eram grandes e amendoados, de um brilho dourado que parecia iluminar o lugar onde estava.
Seus cabelos eram longos e sedosos, caíam em cascata pelas suas costas e eram de uma cor tão branca quanto a neve. Ela emanava um brilho dourado e exalava um aroma de canela forte que deixava Fransisco extasiado. Ela parecia flutuar sobre as flores, deslizando suavemente como uma pluma ao vento. Sua presença era tão delicada e bela que Fransisco teve medo de tocar nela, temendo que ela se desfizesse como uma miragem.
Apesar de sua aparência frágil e etérea, a dama faérica exalava uma aura de poder e sabedoria, como se fosse uma guardiã dos segredos mais profundos e sagrados do universo. Fransisco sabia que estava diante de algo extraordinário, algo que ia além de sua compreensão humana. Ele sentiu um misto de admiração e fascínio pela beleza e graça da criatura e uma sensação de temor e respeito diante de sua presença majestosa.
O aroma de canela que enchia o ar parecia emanar dela, envolvendo Fransisco em um suave véu de fragrância. Ele se aproximou, fascinado pela criatura que agora estava diante dele.
"Quem é você?", perguntou Fransisco, sua voz carregada de curiosidade.
"Dormark escolheu bem seu pupilo", disse a mulher com voz suave e melodiosa. "Mas há segredos que ele não te contou. Segredos que podem ser descobertos no caminho que trilha com o homem dos feijões. Chegando em Paranes, se dirija à casa dos livros, onde perguntas ganham respostas e respostas se tornam objetivos".
Fransisco olhou para a mulher sem cor, incapaz de desviar o olhar. Ela parecia tão mágica e misteriosa, envolta em um brilho alvo-dourado que a fazia parecer uma deusa. Ele não sabia como ela havia entrado ali, mas sentia que algo de importante estava prestes a acontecer.
Ela se aproximou dele, e Fransisco sentiu o toque suave de seus lábios em sua testa antes de vê-la desaparecer em um piscar de olhos. Ele olhou em volta, mas a bela mulher havia desaparecido sem deixar rastro.
Fransisco acordou em sua cama, com o sol já em seu rosto. Ele se levantou, ainda atordoado, e olhou ao redor do quarto. O aroma de canela ainda estava presente, mas ele não sabia se tudo havia sido apenas um sonho ou se realmente havia acontecido. Ele decidiu guardar as palavras da misteriosa mulher em sua mente e partir em busca da casa dos livros em Paranes. Fransisco tinha uma sensação estranha, como se estivesse prestes a descobrir algo que mudaria sua vida para sempre.
Os primeiros raios de sol da manhã penetravam pelas cortinas de veludo dos quartos dos heróis, iluminando o ambiente de maneira suave e agradável. Artemis foi a primeira a despertar, esfregando os olhos sonolentos enquanto se espreguiçava. Ela se levantou da cama e se dirigiu para a janela, abrindo-a com uma habilidade natural para deixar o ar fresco da manhã entrar. O vento suave acariciou seus cabelos ruivos, fazendo-os dançar em torno de seu rosto.
"Bom dia, mundo!" Exclamou a jovem com animação, espalhando sua alegria pelo quarto.
Fransisco Herrera acordou intranquilo, ainda tentando desvencilhar-se do estranho sonho que o assombrou durante a noite. Ele se levantou da cama e vestiu suas roupas, antes de dirigir-se para a porta do quarto. O jovem olhou em volta, examinando os objetos que compunham o quarto. Ainda estava se habituando a luxuosidade daquela habitação, tendo passado a maior parte de sua vida em uma humilde casa de campo.
Christof Dior, por sua vez, dormiu profundamente durante a noite, como sempre fazia, mas acordou com um sobressalto quando ouviu a energia contagiante de Artemis. Ele se levantou devagar, ainda sonolento, e tateou o chão com a bengala antes de encontrar a saída do quarto. O homem cego soltou um suspiro de alívio ao sentir a frescura do ar da manhã em seu rosto. Ele sentiu-se grato por mais um dia de vida, mesmo que fosse cercado de perigos.
Drake Walker acordou com um baque, lembrando-se da noite anterior em que bebeu além da conta. Ele se levantou cambaleando da cama e seguiu para a janela, sentindo a luz do sol refrescar seu rosto e afastar a dor de cabeça. O jovem luthiano sentiu um gosto amargo na boca e prometeu a si mesmo que não iria beber daquela maneira novamente.
Friderich Schee só acordou quando Fransisco o balançou em sua cama. "Acorda Schnee. Hora do café." Dizia o jovem roceiro, tentando trazer seu amigo para o mundo dos despertos. Schee, por sua vez, apenas colocou sua mão gigante na cara de Fransisco, cobrindo seu rosto todo, como se ele fosse um despertador que o incomodava. O caçador de monstros esfregou os olhos amarelos como o de um gato e soltou um bocejo alto, antes de se levantar da cama com um salto animado. Ele adorava um bom desafio e estava pronto para enfrentar o que quer que o dia lhe trouxesse.
Enquanto isso, os outros heróis já estavam reunidos no salão principal do castelo, onde o café da manhã havia sido preparado em uma longa mesa de madeira. Artemis já estava devorando um pedaço de pão com geleia de morango, enquanto Christof tomava um café preto e forte, Fransisco e Drake compartilhavam uma jarra de leite e Friderich escolhia as peças mais suculentas do assado de carne.
"Bom dia, dorminhocos!" Artemis cumprimentou seus companheiros com alegria, "já estou terminando meu café, temos muito o que fazer hoje!"
Os heróis se entreolharam, lembrando-se do jovem mestre Jack Horner, que dormia no quarto ao lado do salão. Ele havia proposto uma missão importante, e eles teriam que decidir se aceitariam ou não.
Artemis pegou uma xícara de café e deu um gole, sorrindo amplamente enquanto examinava o grupo reunido. Ela então perguntou, seus olhos brilhando de energia. "E então, o que decidimos sobre a proposta do jovem mestre Horner?"
Christof Dior tomou outro gole antes de falar com sua voz grave e séria: "Eu estive pensando sobre isso durante a noite. Acho que seria uma boa oportunidade para nós, desde que saibamos os detalhes da missão e possamos avaliar se ela se encaixa em nossas habilidades e objetivos."
Fransisco Herrera, que estava se servindo de frutas frescas, interveio: "Bom... Ele falou que íamos ajudar muitas pessoas não é?"
Drake Walker, que já havia tomado algumas xícaras de café forte, balançou a cabeça e sorriu ironicamente. "Eu não sou fã de trabalho gratuito, mas... se a recompensa for boa o suficiente, eu topo."
Friderich Schee levantou as sobrancelhas e disse em seu sotaque alemão: "Hmph, a missão parece meio chata. Mas se houver alguma coisa nessa missão que precise ser caçada, eu estou dentro."
Artemis olhava em volta da mesa de café, observando seus companheiros de equipe conversando sobre a proposta de Horner. Ela tentou ouvir algo sobre o que haviam conversado na noite anterior sobre irem atrás de Geldriel, mas nada foi dito. A ruiva sentiu uma pontada de decepção em seu coração, mas rapidamente a dissipou. Afinal, todos estavam bêbados demais para se lembrar de qualquer coisa que disseram naquela noite.
Ela respirou fundo e decidiu incentivar o grupo a seguir em frente com a missão de Jack Horner. "Bem, pessoal, acredito que temos uma missão importante pela frente", disse ela com um sorriso encorajador. "Não podemos deixar o senhor Horner esperando. Ele conta conosco para ajudar a recuperar o seu tesouro, não é? E eu tenho certeza de que podemos fazer isso juntos."
Ela viu Fransisco concordando com a cabeça, e Friderich soltando um suspiro de alívio enquanto acabava de mastigar uma torrada. Drake, por sua vez, apenas encolheu os ombros e disse: "Vamos em frente então.". E Christof, sempre sério e ponderado, respondeu com sua voz profunda e experiente: "Não podemos esquecer que essa missão pode ser perigosa. Temos que ter cuidado."
Artemis sorriu para todos, sentindo um misto de gratidão e empolgação. Ela sabia que não podia contar apenas com sua própria força e habilidade, mas que juntos, como uma equipe unida, poderiam enfrentar qualquer desafio. E, mesmo que eles tivessem esquecido sua promessa de ajudá-la com Geldriel, ela não deixaria isso abalar sua confiança em seus companheiros. Juntos, eles iriam completar a missão e enfrentar o que quer que viesse pela frente.
"Vamos falar com o jovem mestre e ouvir o que ele tem a dizer", sugeriu Christof, levantando-se da mesa e segurando sua bengala.
"Vamos!" concordou Artemis, dando um sorriso radiante para seus amigos.
Os heróis seguiram para a sala que servia como quarto do jovem mestre, ansiosos para descobrir o que o aguardava em sua nova aventura. Os cinco heróis seguiram pelo corredor com passos determinados, cada um com seu próprio propósito em mente. Enquanto caminhavam, eles notaram os criados correndo de um lado para o outro, limpando a bagunça deixada pelos visitantes do festival na noite passada. Copos quebrados, pratos sujos e restos de comida estavam espalhados por toda a parte.
Artemis sentiu um pouco de culpa por ter participado daquela farra na noite anterior, mas sacudiu a cabeça para afastar esses pensamentos e se concentrou no que estava por vir. Finalmente, eles chegaram à porta da sala onde Jack Horner deveria estar dormindo. No entanto, quando entraram, encontraram o quarto vazio. Jack já havia acordado e arrumado suas coisas para a missão.
Jack estava arrumando suas roupas e pertences pessoais, que estavam espalhados pela sala. Era evidente que ele estava se preparando para partir em uma viagem. Aparentemente, ele já havia se aprontado para o dia, pois estava vestido com suas roupas de viagem, que incluíam um casaco elegante, um chapéu e um par de botas de couro fino.
"Ele parece ter se adiantado," comentou Christof, seu tom um pouco crítico.
Drake olhou em volta da sala, examinando cada canto com um olhar investigativo. "Bem, pelo menos ele não nos deixou esperando."
Enquanto se preparavam para sair da sala, Friderich notou algo estranho. "Ei, vocês notaram que não vimos o Duque Tempete ainda?"
Os outros heróis pararam para pensar, percebendo que o anfitrião ainda não havia aparecido.
"Deve estar se recuperando da noite passada," sugeriu Fransisco, dando de ombros.
"Ou talvez ele tenha saído para uma caminhada.," acrescentou Artemis, tentando ser otimista.
Ao ver os heróis entrarem na sala, Jack interrompeu seus afazeres e sorriu. "Ah, bom dia meus amigos! Desculpem-me pela bagunça, eu estava me preparando para partir. Pressumo que estejam com uma resposta para minha proposta. Sentem-se ." disse Jack, indicando as poltronas vazias em torno da sala.
Christof dirigiu seus olhos brancos e de um vazio profundo para Jack, antes de anunciar com gravidade: "Meu jovem amigo, tenho a honra de lhe informar que os aqui presentes aceitaram a nobre missão de ajudá-lo em sua empreitada. São indivíduos valentes, de grande habilidade e determinação, e estou seguro de que não decepcionarão suas expectativas."
Jack sentiu um alívio profundo tomar conta de seu peito, enquanto agradeceu a Christof e aos demais presentes por terem aceitado a tarefa. "Estou profundamente grato pela ajuda de vocês", disse ele, sorrindo. "Tenho certeza de que, juntos, alcançaremos o sucesso que buscamos."
Os heróis acenaram em concordância, aguardando por mais informações sobre a missão que estava por vir. Jack prosseguiu: "Mas antes de partirmos, precisamos providenciar um meio de transporte. A ilha que vocês devem visitar encontra-se a uma distância impossível de ser vencida a nado. Por isso, encomendei uma pequena escuna, especialmente projetada em Paranes, a cidade das maravilhas, ao honrado Senhor Gepetto, seu alcaide."
"Paranes?", exclamou Artemis, surpresa. "Eu também preciso ir até lá, para encontrar Geldriel."
Fransisco, por sua vez, franziu o cenho, enquanto tentava lembrar-se de algo. "Eu preciso verificar algo lá também... a tal... a casa dos livros."
Um sorriso iluminou o rosto de Christof ao ouvir a menção à cidade. "Ah, Sarcone. Eu lembro bem da minha época como professor na universidade local..." Ele voltou-se para Fransisco, com um sorriso ainda mais amplo. "Você deve estar se referindo à Biblioteca de Paranes, o maior centro literário e educacional de toda a Nação!"
Fransisco assentiu, ainda um tanto confuso, mas reconhecendo a informação. "Sim, acho que é isso mesmo."
Drake e Schee concordaram prontamente, enquanto Schee parecia um pouco entediado com a burocracia e Drake mal conseguia esperar pela parte em que discutiriam o pagamento.
"Mas antes de partirmos para a ilha, precisamos passar por Paranes, para obter toda a documentação necessária, comprovar a compra da embarcação, e garantir que estamos autorizados a utilizá-la", explicou Jack, fechando a última das malas.
Os Heróis se despediam da mansão Tempete, juntos a Jack Horner que os acompanhava até uma das carruagens. A tensão era palpável, pois todos sabiam que a missão seria perigosa e incerta. Sarahleen Tempete, a pequena garota que eles haviam salvado em sua última aventura, estava lá para se despedir no lugar de seu pai, que estava em casa, se recuperando da bebedeira da noite anterior. Ela se agarrava a Fransisco, que parecia estar um pouco desconfortável com toda a atenção que estava recebendo.
"Não se preocupe, pequena Sarahleen", disse Artemis, colocando a mão no ombro da menina. "Estaremos de volta em breve."
"Não demore muito", disse Sarahleen, com uma expressão triste no rosto. "Vou sentir sua falta."
Christof se aproximou da menina e acariciou seu cabelo. "Não se preocupe, pequena. Nós vamos cuidar uns dos outros e voltaremos em segurança. E quando voltarmos, teremos histórias incríveis para contar."
Drake deu um sorriso torto e passou a mão pelo cabelo de Sarahleen. "E você pode apostar que vou ganhar um monte de dinheiro com essas histórias."
Schnee, impaciente, revirou os olhos e bufou: "Lindo, comovente... Agilizem pessoal, estamos perdendo tempo." Ele se afastou dos outros com passos rápidos, parecendo não ter interesse em prolongar a despedida emocional.
Artemis Lune-Argentée estava parada em frente à carruagem, verificando pela centésima vez se seu arco estava em perfeito estado e se a aljava estava bem abastecida de flechas. Ela estava planejando passar alguns dias no Ducado Tempete com seus amigos e, como sempre, queria estar preparada para qualquer eventualidade. Apesar de ser uma caçadora experiente, Artemis não esperava que houvesse qualquer tipo de aventura por lá. Mas, como sempre, as coisas nunca saem exatamente como planejado.
Jack Horner entra na carruagem, ajeitando sua capa azul-marinho e acomodando-se no assento de couro. Ele olha para os cinco Heróis que o acompanhariam em sua jornada e pergunta: "Todos prontos para partir?"
O interior da carruagem é espaçoso, com capacidade para seis pessoas sentadas confortavelmente. O estofamento é de veludo vermelho e o teto é decorado com um tecido dourado bordado. Ao redor dos assentos, há cortinas de seda azul claro, que se movem suavemente com a brisa que entra pelas janelas.
Artemis Lune-Argentée guarda seu arco e sua aljava e verifica se tudo está no lugar."Estou pronta' diz ela, com um sorriso confiante, sentando-se perto da janela.
Christof Dior senta-se ao lado dela, segurando sua bengala com firmeza. Ele estava ansioso para voltar a velha cidade de Paranes. Drake Walker repousa os pés em cima do colo de Artemis, parecendo cansado. Ele aceitou a missão de Jack apenas pelo dinheiro, mas já estava pensando em como poderia ganhar mais algumas moedas durante a viagem. Fransisco Herrara senta-se ao lado de Christof e olha pela janela, observando a paisagem passar rapidamente. Ele esperava poder encontrar algumas plantas interessantes para estudar durante a viagem e talvez fazer algumas descobertas que pudessem ajudar na medicina. Friderich Schee senta-se no banco oposto, esticando as pernas longas. Ele mal podia esperar para começar a caçar algo grande novamente e estava ansioso para ver o que essa missão poderia trazer.
"Vamos partir logo." Quero começar a trabalhar o mais rápido possível" diz Friderich, com um sorriso convencido. Jack acena com a cabeça e a carruagem começa a se mover, seguindo em direção a Paranes.
Capítulo 4 - Tecnologia e Magia.
A manhã se ergueu com uma promessa dourada de aventura, banhando o céu de um brilho radiante. Às sete horas, duas carruagens alinharam-se na entrada da mansão do Duque, prontas para iniciar a jornada. A primeira carregava vossos pertences, provisões e ferramentas, enquanto a segunda seria vossa escolta pelo caminho até a cidade das maravilhas.
Os cavalos bufaram ansiosos enquanto os Heróis, acompanhados de Jack Horner, tomavam seus lugares nas carruagens. O caminho era longo e repleto de surpresas, desde trilhas sinuosas a vastas planícies que se estendiam até o horizonte. Rios cristalinos cruzavam o caminho, enquanto lagos refletiam o céu em suas águas calmas.
A jornada seguia em meio a conversas animadas, enquanto a paisagem se transformava diante dos olhos dos viajantes. As horas se arrastavam, mas a expectativa de chegar à cidade das maravilhas tornava a viagem suportável.
Cada detalhe do cenário era fascinante, desde as florestas que se estendiam até onde a vista alcançava, até as estradas que se curvavam ao redor de montanhas majestosas. O vento soprava suave, levando consigo a fragrância das flores silvestres que cresciam nas margens das estradas.
Enquanto a comitiva seguia em direção à cidade das maravilhas, Fransisco Herrara se sentia deslumbrado com as paisagens que se descortinavam diante de seus olhos. Ele olhava para os rios e as montanhas com um brilho nos olhos, fascinado com a beleza da natureza ao seu redor. O jovem roceiro, que cresceu em uma fazenda rodeado de animais e plantas, sempre teve uma conexão especial com o mundo natural. Mas ver as paisagens da região que ele nunca explorou tão de perto era uma experiência única e inesquecível.
Enquanto seus companheiros conversavam animadamente ou se mantinham em silêncio, Fransisco admirava as flores silvestres que cresciam às margens do caminho e os pássaros que voavam sobre suas cabeças. Ele sentia a brisa fresca do campo em seu rosto e respirava fundo, inspirando o ar puro que vinha das montanhas.
Para Fransisco, estar em contato com a natureza era uma forma de se sentir vivo e conectado com algo maior do que ele mesmo. Ele sabia que muitos homens e mulheres viviam em cidades grandes e desconheciam a beleza e a importância da natureza, mas ele não conseguia imaginar uma vida sem ela. Enquanto a carruagem seguia seu caminho, Fransisco se sentia grato por estar ali, compartilhando aquele momento com seus amigos e descobrindo novas paisagens. Ele sabia que aquela jornada seria uma experiência transformadora em sua vida, e estava ansioso para ver o que mais estava por vir.
Ao lado de Francisco na carruagem, senta também pensativo Christof Dior. Apesar de não conseguir enxergar o mundo ao seu redor, ele recorda com precisão cada detalhe de sua cidade natal, Paranes, e dos livros que leu na biblioteca da universidade onde estudou. A viagem traz uma enxurrada de lembranças que o fazem mergulhar em seus pensamentos e reviver momentos que pareciam ter sido esquecidos pelo tempo.
Enquanto a carruagem avança pelas trilhas e planícies, Christof lembra das conversas com seus antigos colegas de faculdade e dos momentos em que ensinava seus alunos a explorar o mundo com sabedoria. Ele também se recorda de sua esposa e filha, que deixou para trás em busca de aventuras que nunca imaginou que teriam tantas consequências.
A paisagem ao redor pode não ser vista pelos seus olhos, mas Christof consegue sentir a brisa que sopra em seu rosto e ouvir os sons da natureza que o cercam. Ele sabe que, apesar de sua deficiência visual, ainda é capaz de apreciar o mundo de outras maneiras e, por isso, se concentra em absorver todas as sensações que a viagem pode lhe proporcionar.
O sol brilhava forte no céu azul enquanto a comitiva seguia em sua jornada. Drake Walker, um jovem curioso e aventureiro, estava desfrutando da paisagem quando de repente, tudo escureceu. Ele se sobressaltou e ergueu a cabeça, procurando uma explicação para o repentino eclipse. Foi quando avistou a máquina, pairando a uma distância de 60 metros do chão. Uma máquina tecnovapor, imponente em sua magnitude, bloqueava a luz do sol com sua presença majestosa.
Drake ficou impressionado com a visão daquele objeto voador que parecia ter saído de um sonho futurista. Seus olhos brilharam com uma mistura de fascinação e medo, e ele não pôde deixar de imaginar o que estaria acontecendo dentro daquela máquina voadora.
Aquele objeto voador era algo que Drake e os demais jamais haviam visto antes. Era uma maravilha da engenharia, um prodígio tecnológico que desafiava as leis da natureza. Eles sabiam que era chamado de "aérostado", um termo que ainda soava estranho em suas mentes. Mas, mesmo sem conhecerem seu nome, eles não podiam ignorar a grandiosidade daquele gigante pairando acima deles.
O aérostado era uma estrutura majestosa, composta por armações rígidas que sustentavam vários balões de gás não pressurizado. Era um fenômeno que desafiava as leis da física, mas que parecia tão natural quanto uma nuvem no céu. A gôndola presa sob ele abrigava a tripulação e todo o equipamento necessário para manter a aeronave em movimento.
Christof, o mais velho dentre eles, sabia que aquele era apenas um exemplo de muitos tipos diferentes de dirigíveis que estavam surgindo naquela época. Ele previa que, com o passar do tempo, aqueles maquinários se tornariam cada vez mais avançados e comuns. Mas, por enquanto, aquela máquina era um testemunho vivo do poder da tecnologia e da engenhosidade humana.
Drake observava aérostado em silêncio, tentando absorver tudo o que podiam sobre aquela maravilha da ciência. Era difícil imaginar que apenas algumas décadas antes, os humanos eram incapazes de voar, e agora estavam explorando os céus com esses gigantes de metal e gás.
Os cinco heróis contemplavam com admiração o zepellin que flutuava majestosamente no ar, balançando levemente em uma brisa suave. Jack Horner, o nobre contratante daquela missão, estava ao lado deles, com um sorriso malicioso no rosto.
"Algum de vocês já teve a chance de entrar em um desses?" perguntou ele, desafiador. "O Alcaíde Gepetto tem um em particular. É uma sensação indescritível flutuar acima das nuvens."
Artemis curiosa como sempre, perguntou. "Como você conheceu o Alcaíde Gepetto?"
"Nos encontramos em uma festa há pouco mais de um ano", respondeu Jack com um tom misterioso. "Na ocasião, avisei a ele para tomar cuidado com a altitude em que colocava essas coisas. Há perigos que se escondem acima das nuvens, e nem todos estão preparados para enfrentá-los."
Christof, o erudito francês, franziu a testa em resposta. "E que perigos seriam esses?", indagou ele com curiosidade.
Jack apenas sorriu de forma enigmática. "Digamos que há criaturas lá em cima que a maioria das pessoas nunca viu antes. Coisas gigantescas que podem ser extremamente perigosas se você não souber o que está fazendo."
Drake cruzou os braços com um sorriso irônico no rosto. "E é por isso que estamos aqui, não é mesmo?", provocou ele. "Para lidar com os perigos que a nobreza não consegue enfrentar?"
Jack olhou para Drake com um olhar desafiador, mas logo desviou o olhar para o zepellin novamente. "Eu já enfrentei esses perigos cara a cara", afirmou ele. "Mas não se preocupem, eles têm coisas mais importantes para se preocuparem lá em cima."
Friederich olhou Jack de cima a baixo com desconfiança. Ele não parecia convencido de que aquele magrelo conseguiria enfrentar qualquer coisa que não fosse uma mosca lhe incomodando. Fransisco parecia um pouco ansioso com a ideia de criaturas no céu. "Espero que esteja certo, Senhor Horner", disse ele com uma voz trêmula.
Jack, que parecia estar perdido em seus próprios pensamentos, comentou enquanto olhava para o zepellin nos céus. "Aquele zepellin é um sinal de que estamos nos aproximando da cidade de Paranes, onde mais maravilhas tecnovapor nos aguardam." Os heróis trocaram olhares empolgados. Eles estavam ansiosos para ver o que aquela cidade fantástica tinha a oferecer, mas, ao mesmo tempo, estavam cientes de que havia perigos desconhecidos que os aguardavam. A nova aventura estava apenas começando.
A jornada dos heróis enfim chega ao seu destino final, quando avistam os grandiosos portões da Cidade das Maravilhas, Paranes. O ar ao redor da cidade está impregnado com uma densa fumaça que se origina das engrenagens e dos maquinários que movimentam a metrópole.
A fila de visitantes ansiosos já se forma, aguardando ansiosamente para adentrar na cidade que é tão famosa pelo seu avanço tecnológico. Uma cidade que remonta aos tempos mais antigos, sobrevivendo às guerras, conflitos políticos e a ocupação numana. Paranes é a maior cidade em termos de infraestrutura e se tornou um pilar importante para a nação de Farngomery.
O atual alcaíde, Gepetto Del Salvini, um lombardiano de sangue quente, assumiu o cargo há oito anos, após o desaparecimento misterioso do alcaíde anterior. Foi durante seu mandato que a cidade experimentou um grande avanço em sua tecnologia e desenvolvimento, em grande parte graças a uma parceria com seres mágicos poderosos conhecidos como "gnomos", protetores do elemento sagrado da terra.
Schnee sabe que essas criaturas fantásticas são responsáveis pela proteção da Terra e de suas riquezas. Ele recorda as poucas vezes em que prestava atenção nas aulas de História em Zielkfrat, onde aprendeu que os gnomos eram responsáveis pelos mistérios que cercavam a lendária "Pedra Filosofal".
Os Heróis caminharam em meio aos trabalhadores, que suavam sob o peso de suas tarefas diárias. A fuligem e o carvão grudavam em suas roupas, deixando suas aparências já cansadas ainda mais sombrias. No entanto, o que os cercava era de tirar o fôlego. Construções altas de ferro e pedra, movidas por engrenagens e pistões, pareciam pulsar com vida própria. O protótipo de um automóvel, embora muito mais lento e fumacento do que os modelos modernos, ainda assim fascinava.
Seu corpo é feito de madeira e ferro, com um motor a vapor movido a carvão para alimentar as rodas. As rodas são grandes e robustas, feitas de madeira maciça com uma banda de metal para maior tração nas ruas de paralelepípedos. A cabine do motorista é aberta, com dois bancos estofados em couro que acomodam o motorista e um passageiro. O volante é grande e circular, feito de madeira e metal, e o painel de instrumentos é simples, com apenas alguns medidores de pressão e temperatura do motor. Atrás do motorista há uma pequena plataforma onde se pode carregar bagagens ou outros itens. O automóvel é um verdadeiro prodígio da tecnologia, mas ainda tem muito a evoluir para se tornar um meio de transporte eficiente e seguro.
Máquinas voadoras pairavam acima, como se fossem libélulas metálicas que flutuavam com elegância no céu. Cada detalhe era meticulosamente planejado, desde as chaminés que expeliam fumaça, até as pontes que se moviam acima deles, como se dançassem ao som das engrenagens. Era uma cidade mecânica, e Schnee podia sentir a energia pulsante que a movia.
Enquanto os Heróis vagam pelas ruas de Paranes, notam que a natureza parece ter sido expulsa da cidade. Não há árvores ou plantas, apenas alguns poucos animais urbanos, como pombos, gatos e ratos. Estes últimos parecem reinar soberanos, se arriscando a passear sem medo mesmo em plena luz do dia. O rio que contorna a cidade, antes sinuoso e límpido, agora é uma massa imunda e repulsiva, onde nem mesmo os peixes ousam habitar.
Se alguém jogasse uma vara de pescar, provavelmente só conseguiria resgatar uma bota ou parafusos, impróprios para consumo.
O odor que impregna as ruas também não é nada agradável. De vez em quando, os criados jogam os dejetos de seus patrões pela janela, inundando as ruas com fezes e criando um cenário insalubre. É difícil acreditar que essa cidade em constante atividade, com suas máquinas, engrenagens e maquinários, poderia se manter tão suja e despreocupada com a natureza.
Também existe um conjunto de trilhos de ferro no chão. Maquinários utilizam esse caminho para transportar materiais e pessoas, algo que lembra muito os bondinhos modernos. Os passageiros, sentados em bancos acolchoados, parecem alheios ao mundo ao seu redor, absortos em leituras de suas nouvelles à la main. As rodas de ferro dos vagões rangem e guincham contra os trilhos, ecoando em meio ao barulho dos maquinários a vapor que enchem as ruas da cidade com fumaça e ruídos.
"Carillon Urbain", é uma maravilha tecno-vapor inventada por um jovem francês chamado Antoine Leblanc em 1625. Inspirado pelo trabalho dos gnomos, Antoine incorporou sua habilidade para a mecânica com a sabedoria dos gnomos na criação do Carrilhão Urbano.
Este dispositivo consiste em uma série de rodas dentadas, conectadas por engrenagens que se movem em sincronia com o vapor produzido em uma caldeira. O vapor move pistões que, por sua vez, ativam as engrenagens que movem o Carrilhão Urbano. As rodas dentadas ligadas ao dispositivo são ligadas a trilhos que percorrem as ruas, permitindo que o Carrilhão Urbano se mova rapidamente pelos locais urbanos.
O Carrilhão Urbano é composto por uma cabine em forma de sino onde os passageiros se acomodam. A cabine possui grandes janelas para que os ocupantes possam apreciar a paisagem urbana enquanto viajam, e é decorada com ornamentos e sinos
Os gnomos, criaturas encantadoras e de personalidade única, são divididos em castas distintas que determinam seu nível de conexão com a natureza. Quanto mais próximo do mundo dos humanos, menor é sua casta. Paranes é o logal aonde é mais possível avistar esses pequenos camaradas, embora seja uma raridade encontrá-los pelas ruas. A maioria deles está ocupada com o trabalho, consertando maquinários ou realizando registros detalhados de suas invenções. Todos esses gnomos pertencem à terceira casta, a menor entre seu povo, que perdeu a conexão com a natureza e se dedica mais a transformar a matéria do que a preservá-la.
Os gnomos da terceira casta são baixos, raramente ultrapassando a marca de um metro de altura, mas não se deixe enganar por sua estatura, pois eles são capazes de grandes feitos. Seus trajes são projetados para facilitar as tarefas que realizam, pois são mestres em mecânica. Os gnomos de terceira casta são verdadeiros artistas da tecnologia. Eles compensam a falta de tamanho com sua destreza e inteligência. Suas habilidades mecânicas são tão refinadas que muitos humanos os invejavam, desejando possuir um décimo do conhecimento que eles têm sobre máquinas e engenharia.
Vestindo roupas feitas sob medida para o seu trabalho, eles parecem pequenos mecânicos, com bolsos cheios de ferramentas e peças sobressalentes. Suas roupas são geralmente em tons terrosos e parecem ter sido costuradas com muito cuidado e atenção aos detalhes. É possível ver pequenos bolsos costurados na parte externa de suas roupas, cada um contendo uma ferramenta diferente, pronta para ser usada quando necessário.
Sua pele é muito semelhante à dos humanos, embora um pouco mais pálida, e suas orelhas pontudas e narizes robustos são as únicas características que os distinguem daqueles de uma a criança humanas. Seus olhos são agudos e brilhantes, refletindo sua paixão e dedicação pela engenharia e mecânica.
Eles são geralmente avessos a interagir com humanos, preferindo trabalhar em suas oficinas ou laboratórios, rodeados por suas invenções e protótipos. Mas quando necessário, eles são muito perspicazes e capazes de encontrar soluções inovadoras para problemas aparentemente insolúveis.
A mudança de casta em gnomos é um processo complexo e muitas vezes doloroso. A medida que os gnomos se afastam do contato com a natureza e se focam mais em transformar a matéria, eles perdem sua conexão com as forças naturais do mundo. Essa perda gradual de conexão se manifesta fisicamente na pele dos gnomos, que começa a perder sua coloração geológica e se tornar mais parecida com a dos mortais.
Para os gnomos de terceira casta, a perda de conexão com a natureza é ainda mais pronunciada, já que eles se concentram exclusivamente em trabalhos mecânicos e na transformação da matéria. Com o passar do tempo, sua pele começa a perder sua cor distintiva e se tornar mais clara, assim como seus traços ficam mais suaves e humanos.
A mudança de casta é muitas vezes vista como uma punição pelos gnomos, pois eles valorizam muito sua conexão com a natureza e as forças que governam o mundo. No entanto, é possível para um gnomo recuperar sua posição na casta, retomando seu contato com a natureza e se concentrando em trabalhos mais relacionados com o mundo natural.Os nomes dos gnomos de castas superiores são mais complexos e contêm mais sílabas, geralmente refletindo sua conexão mais profunda com a natureza. Esses nomes são considerados sagrados e só são revelados em ocasiões especiais. Por outro lado, os gnomos de terceira casta, por terem perdido sua conexão com a natureza, tendem a ser privados das sílabas em seus nomes. Isso é visto como uma forma de perda de identidade e conexão com suas raízes.
A brisa gelada de novembro corta as ruas de Paranes e a cidade fervilha com a agitação típica dos grandes centros urbanos. Mas o que mais chama a atenção são os guardas, ferozes sentinelas da lei, com suas garruchas e cacetetes prontos para defender a ordem. Seus uniformes são feitos de um tecido preto de uma qualidade inigualável, com um brilho suave e agradável ao toque. As golas são altas, fechadas e levemente acolchoadas, conferindo aos uniformes um ar imponente e elegante.
Detalhes em prata adornam as mangas e as laterais das calças justas, contrastando com o tecido escuro e acentuando a silhueta esbelta dos guardas. Botões dourados brilham nas fileiras duplas que se estendem até a cintura, e as fivelas dos cintos são decoradas com o brasão da guarda da cidade, um leão dourado em fundo azul. Sobre os ombros, os guardas usam capas longas, também de um preto profundo e ricamente decoradas com emblemas prateados. Nos pés, botas altas de couro lustroso com solas grossas e antiderrapantes conferem segurança e firmeza a cada passo.
O toque final do uniforme é o uso de cartolas altas, com uma faixa prateada em torno da base e um emblema da cidade na lateral, que acrescenta uma dose de sofisticação e distinção à aparência já impressionante dos guardas de Paranes.
Os Heróis se deparam com um cenário turbulento em Paranes, onde uma confusão se desenrola diante de seus olhos. O resultado de um malandro tentando aplicar um esquema desonesto em um homem de posses, a porradaria generalizada interrompe o fluxo coordenado da cidade. Os guardas se esforçam para conter a correria, mas nada parece deter a violência crescente.
De repente, uma jovem de não mais do que quinze anos irrompe na cena, sua voz ecoando pelas ruas:
"ATENÇÃO, CAMBADA! O HOMEM CHEGOU! FUJAM TODOS, É O INSPETOR LANGE!"
O caos se instaura ainda mais, e os malandros, ao ouvirem o nome do inspetor, prontamente largam seus porretes e tentam se afastar das brigas. Porém, é em vão, já que a guarda de Paranes é implacável, sua eficácia e velocidade impressionantes deixariam a guarda de Kristadelle no chinelo. Uma multidão se forma, abrindo caminho para um homem de semblante insatisfeito que guarda seus óculos de leitura enquanto se aproxima da cena.
Um homem na casa dos quarenta anos. Sua aparência é austera e autoritária, com traços marcantes e uma postura imponente. De estatura média, com aproximadamente quarenta e poucos anos de idade. Sua barba castanha e densa, cuidadosamente aparada, cobria a maior parte do seu rosto. Seus olhos penetrantes e inteligentes. O cabelo castanho-escuro era curto e levemente encaracolado.
Vestia-se com um uniforme elegante, que era uma combinação de preto e prata. Sua jaqueta preta, com o brasão de Paranes em relevo no peito, era ornada com botões de prata brilhante e gola alta prateada. Seus sapatos pretos polidos refletiam a luz do sol, e suas calças pretas justas terminavam em botas de couro preto. Uma espada longa e fina pendia em sua cintura, ostentando um cabo dourado trabalhado. Em uma cidade onde o caos e a violência eram comuns, o Inspetor Lange não só parecia impecável, mas também inspirava confiança em sua autoridade.
A barulheira cessa de imediato quando ele chega, e os segundos parecem se estender em horas perante sua presença. Com uma postura austera e confiante, ele olha ao redor, avaliando a situação com seriedade.
"Outra confusão? Mais uma briga qualquer? Quem pode falar? Conte-me como é", ele se dirige ao almofadinhas espancado e o ajuda a se levantar. "Este é um lugar torpe, Monsieur, e deveria saber disso, mas a justiça chegou."
Sua voz é firme e imponente, e as palavras parecem ecoar por toda a cidade. Ele se vira para o grupo de arruaceiros, analisando cada um com atenção. "Ora, vejam só o que temos aqui: uma fina coleção... Esse bando de abutres todos juntos num cordão!" Ele se volta para um homem em particular, seus olhos fixos e inquisidores. "Conheço bem esse sujeito e sei no que se meteu. Com a sua ajuda, Monsieur, ele terá o que mereceu."
Jack Horner acompanhava os heróis na carruagem até a Praça Central de Paranes, aonde estava acontecendo essa grande agitação. A multidão se formava ao redor de um homem de aparência austera e intimidante, que comandava um grupo de soldados armados, detendo todos os criminosos envolvidos na cena.
Artemis olhou com curiosidade para a cena. "Quem é esse homem?", ela perguntou a Jack.
"Esse é o Inspetor Lange, o homem mais temido e respeitado de toda a cidade", respondeu Jack. "Ele é o responsável por manter a ordem e a segurança em Paranes."
Christof Dior, que tinha uma visão limitada, percebeu algo diferente no ar. "Há algo estranho aqui", disse ele. "Aconteceu alguma coisa não foi?"
Drake Walker, sempre confiante, se inclinou para fora da carruagem ver melhor o que estava acontecendo. "Não parece ter sido nada demais", ele disse. "Talvez seja só mais um caso de roubo ou vandalismo."
Fransisco Herrara indagou. "Será que alguém se machucou?", ele se perguntou.
Friderich Schee não parecia estar preocupado com nada. Colocou a cabeça para fora da carruagem e se virou do Inspetor enquanto passavam mais perto da comoção e o encarou com seus olhos de amarelos. "O que está acontecendo aqui?", ele perguntou, desafiador.
Jack, por sua vez, parecia nervoso diante da presença do Inspetor. "Melhor deixarmos o homem trabalhar Schnee", ele disse ao herói. "Ele é muito ocupado."
Enquanto isso, o Inspetor Lange continuava a comandar a ação dos soldados, sem se importar com a presença dos heróis. Era óbvio que ele estava focado em seu dever com a cidade de Paranes, e não iria tolerar qualquer interferência em seu trabalho.
Os Heróis finalmente chegaram à cidade de Paranes, abalada pela comoção causada pelo tumulto nas ruas. Enquanto Jack Horner descia da carruagem e os criados descarregavam as malas, os olhares curiosos da população se voltavam para o grupo. O senhor Horner, por sua vez, parecia satisfeito por ter finalmente encontrado o remédio para o desespero que os assolava. Ele então se voltou para os Heróis com um sorriso nos lábios e lhes entregou algumas cartas e documentos.
"Bem, cá estamos", disse ele. "Eu, na verdade, tenho que escrever algumas últimas cartas para uns colegas. Vou avisá-los que encontramos a solução para o nosso problema na Ilha. Para nos poupar tempo, vocês poderiam ir até a prefeitura e entregar essas cartas para o alcaíde. Elas têm o meu selo e o requerimento para a documentação e localização do navio."
Christof pegou as cartas e documentos, examinando o alto relevo com brasão de Jack com cuidado antes de guardá-los em sua bolsa.
"Ah, fiquem à vontade para descansar e curtir a cidade, claro", continuou Jack. "Ainda tenho que escrever essas cartas e sei que alguns de vocês nunca nem pisaram nesse lugar mágico."
Ele apontou para uma estalagem próxima.
"Eu estarei aqui na estalagem do Ogre Borgne, os melhores quartos da cidade", disse ele. "E se querem uma dica sobre onde começar, todo forasteiro, turista ou viajante tem que passar primeiro na Rebimboca da Parafuseta, a taverna mais receptiva de Paranes."
Drake Walker deu um sorrisso pois sabia que a Rebimboca da Parafuseta era a única taverna no Principado de Cristal que produzia (e vendia para outra tavernas) a famosa bebida Zwerg Tropft, vinda diretamente de Ritterland e adjacências. E que o local era perfeito pra ganhar um dinheiro fácil no Necromante.
Enquanto a cidade de Paranes se descortinava diante dos olhos dos heróis, Artemis olhava em volta com admiração, maravilhada pelas tecnologias a vapor que permeavam cada canto da cidade. Contudo, sua empolgação foi momentaneamente interrompida pela lembrança de sua missão pessoal: encontrar sua amiga Geldriel antes que fosse tarde demais.
Enquanto os heróis se dirigiam para a estalagem Ogre Borgne para guardar suas coisas, Christof Dior puxou Jack para falar em particular.
"Jack, sobre esses feijões mágicos que você tem. Pode me contar mais sobre eles?" perguntou Christof.
"Claro, eu os consegui há muito tempo atrás. Eu ainda era apenas um jovem plebeu em Luthia quando um estranho homem os ofereceu a mim. Suas propriedades mágicas me fizeram alcançar as alturas, literal e figurativamente, pois foi graças a eles que eu conquistei minha fortuna", explicou Jack.
Enquanto isso, Fransisco olhava em volta com olhos arregalados e expressão confusa. "Eu preciso ir para a biblioteca, mas essa cidade me deixa completamente perdido. Cheia de curvas, vielas e..."
"Eu te acompanho!" Disse Artemis, com um sorriso simpático. "Se ficarmos perdidos, pelo menos ficamos perdidos juntos, o que acha?"
Fransisco concordou com entusiasmo, agradecido pela companhia de sua amiga caçadora.
"Vamos para a Rebimboca da Parafuseta, pessoal! Ouvi dizer que lá é o melhor lugar para conseguir dinheiro no Necromante. Sem falar que tem a melhor Pinga-Anã de todo o principado", disse Drake animado.
Friderich Schee inicialmente parecia um pouco entediado. No entanto, sua animação foi despertada assim que Drake mencionou a taverna.
"Perfeito! Se eu vou ficar no meio de burocracia, prefiro fazê-lo sem estar sóbrio!" disse Schee, entusiasmado.
Com isso, os heróis seguiram Jack e Christof em direção à estalagem Ogre Borgne. A cidade de Paranes se mostrava um lugar fascinante e perigoso, cheia de possibilidades e mistérios a serem desvendados
A estalagem Ogre Borgne era um edifício imponente em Paranes, de três andares, com paredes de tijolos aparentes que exalavam um tom terroso e rustico. O telhado era de telhas de ardósia escura, que brilhavam ao sol e contrastavam com as paredes. As janelas de vidro eram amplas e bem cuidadas, permitindo a entrada de luz natural e fornecendo uma visão privilegiada da cidade.
Ao entrar na estalagem, uma recepção espaçosa e bem iluminada cumprimentava os visitantes. O mobiliário era de madeira escura e esculpido com maestria, com poltronas confortáveis e uma grande mesa de mogno. A equipe atenciosa estava vestida com uniformes impecáveis e cumprimentava os visitantes com sorrisos gentis.
Os uniformes usados pela equipe atenciosa da Ogre Borgne são extremamente elegantes e bem alinhados, refletindo a tendência de moda da época. Os homens usam calças justas até os joelhos e meias longas de cor escura, combinando com sapatos de couro polido. As camisas são brancas com gola alta e manga comprida, fechadas com laços ou botões na frente. Sobre a camisa, eles usam coletes de tecido pesado em tons terrosos ou escuros, com um pequeno broche de metal com o símbolo da estalagem, uma imagem estilizada de um ogro com um olho só, provavelmente uma referência ao nome da estalagem. O ogro é desenhado em um estilo que lembra uma gravura antiga, e está cercado por algumas folhas e ramos, que dão um toque de elegância ao símbolo, ele é feito de metal dourado e é preso na roupa dos criados com um alfinete preso ao lado esquerdo do peito.
As mulheres usam vestidos longos e elegantes, com corsets apertados e saias que chegam ao chão, todas seguindo as tendências da moda do século XVII. As mangas são compridas e justas, frequentemente decoradas com rendas e bordados delicados. Os sapatos são de salto baixo e as meias seguem a mesma cor do vestido. Sobre o vestido, elas usam um avental branco com detalhes em renda e um pequeno broche com o símbolo da Ogre Borgne.
Ambos os uniformes possuem pequenos detalhes de acabamento, como abas de tecido no punho da camisa ou nas costas do colete, que mostram a atenção aos detalhes da equipe atenciosa da estalagem. O uso de cores escuras e terrosas, bem como tecidos pesados, dão um ar de sofisticação e elegância, refletindo o alto padrão que a Ogre Borgne se esforça para manter.
A decoração era elegante e discreta, com algumas obras de arte penduradas nas paredes, incluindo um quadro impressionante de um belo pôr do sol na costa. O cheiro agradável de incenso pairava no ar, proporcionando um ambiente relaxante e convidativo.
No canto da estalagem, havia uma peculiar estátua de aço e metal que parecia mais uma tecnologia tecno-vapor de Paranes, em formato de um belo unicórnio em tamanho real. A estátua era feita de engrenagens e fios de cobre que se entrelaçavam em um padrão harmonioso. O esqueleto de a do unicórnio parecia real, com detalhes cuidadosamente trabalhados.
Embora a estalagem fosse bonita e acolhedora, ela não era barata. Os preços eram altos, mas os serviços oferecidos eram de alta qualidade. Além disso, a estalagem oferecia um nível de segurança que costumava faltar em outras estalagens da cidade. Era um lugar seguro para os turistas cansados e uma escolha popular para aqueles que acabavam de chegar à cidade.
Enquanto os heróis se preparavam para descansar em seus quartos, o dono da estalagem, Anthon "43" Courbent, entrou na sala com passos pesados. Alto, corpulento e careca, ele exibia cicatrizes e marcas de batalhas antigas em seu rosto carrancudo. As mangas de sua camisa eram arregaçadas, revelando braços musculosos e fortes.
Ao se aproximar do grupo, Anthon olhou para Jack Horner com um sorriso amigável, mas um tanto desconfiado. Parecia que ele já tinha visto muitas coisas nessa vida e aprendido a desconfiar daqueles que tentavam se dar bem às custas dos outros.
"Senhor Horner, é um prazer tê-lo de volta em minha estalagem", disse ele, com uma voz grave e profunda. "E quem são seus amigos?"
Jack sorriu e disse. "Senhor Courbent, sempre um prazer... Deixe-me apresentar os distintos cavalheiros e dama que viagem comigo. Artemis Lune-Argentée e Fransisco Herrara do Principado de Cristal, Drake Walker um camarado da nação de Luthia, o mestre Christof Dior de Sarconne, e Friederich Schnee da escola de Zielkfrat.". Quando apresentou os heróis a Anthon, que olhou cada um deles de cima a baixo, avaliando-os com olhos críticos. Mas, mesmo assim, ele os cumprimentou com educação e respeito.
Anthon era um engenheiro, mas teve que abandonar a profissão depois de perder dois dedos na mão esquerda e um na direita em acidentes de trabalho consecutivos. Ele decidiu então mudar para uma profissão mais tranquila e comprou a Estalagem Ogre Borgne, tornando-se um dos donos mais respeitados da região.
Anthon tinha o apelido de "43" devido à falta de dedos em suas mãos. Ele havia perdido dois dedos na mão esquerda e um na direita, totalizando sete dedos, em vez de dez. Como resultado, as pessoas começaram a se referir a ele como "43", uma vez que 4 e 3 = 43, o número de dedos que ele tinha. O apelido pegou e se tornou uma forma carinhosa e familiar de chamar o proprietário da estalagem Ogre Borgne. Apesar da aparência rude, Anthon se mostrou bastante atencioso e solícito com os heróis.
Com um gesto de cabeça, Anthon chamou o criado, que começou a anotar as informações dos Heróis e de Jack Horner em um livro grosso, com uma pena de ganso e tinta. O processo parecia antiquado e demorado, mas era uma forma segura de manter o registro de seus hóspedes.
Enquanto o criado fazia o registro, Anthon explicava as comodidades da estalagem. "Bem-vindos à Estalagem Ogre Borgne. Aqui, nós temos quartos confortáveis para todas as necessidades, desde solteiros até famílias. Todas as refeições estão incluídas na diária, incluindo um delicioso café da manhã que é servido a partir das seis horas da manhã. As camas são trocadas diariamente e as toalhas são fornecidas gratuitamente. Nós também temos um horário de limpeza diário que começa às dez horas da manhã e termina às duas horas da tarde. O preço é muito justo, a partir de cinco Ducados por noite, e tenho certeza de que vocês ficarão satisfeitos com nossas acomodações. Por favor, sejam bem-vindos e não hesitem em me procurar caso precisem de alguma coisa." Ele se mostrava bastante atencioso e solícito, garantindo que a estadia dos Heróis e Jack seria agradável e confortável.
Por fim, Jack pagou pelas acomodações com algumas moedas, o que pareceu agradar Anthon. O dono da estalagem ofereceu um sorriso satisfeito e entregou as chaves dos quartos aos Heróis e Jack Horner.
"Espero que tenham uma estadia agradável", disse Anthon com um aceno de cabeça. "Qualquer coisa que precisarem, é só pedir aos criados. Estamos aqui para atendê-los."
Artemis Lune-Argentée dirigiu seu olhar curioso para o grande unicórnio de aço que se erguia diante dela. A estranha máquina era uma verdadeira maravilha tecnológica, repleta de engrenagens, molas e vapor. Era capaz de analisar informações sobre a posição dos planetas, os ventos e a temperatura para gerar previsões do futuro.
"Vejo que se interessou em nosso Óraculo mecânico, milady", disse Anthon, o dono da estalagem.
Artemis não prestou atenção às palavras do homem, pois seus pensamentos estavam totalmente concentrados na fascinante máquina diante dela.
"Óraculo?" ela perguntou em um sussurro.
"Sim", respondeu Anthon com entusiasmo. "Essa máquina é capaz de fazer previsões sobre o futuro. Tudo começa quando o cliente insere uma moeda Thaller na abertura do mecanismo. O unicórnio começa a se mover, girando a cabeça e movendo as pernas, enquanto as engrenagens e molas começam a se mover. E então, a máquina produz um pequeno cartão impresso com sua previsão, que sai por esse buraco."
Artemis ficou fascinada com a descrição detalhada do funcionamento da máquina, imaginando como ela seria capaz de prever eventos futuros. Era um mistério para ela, mas ela sabia que estava diante de uma verdadeira maravilha da engenharia.
"Isso é realmente incrível", ela disse, admirada.
"Sim, é mesmo", concordou Anthon com um sorriso. "Aqui na Estalagem Ogre Borgne, nossa máquina é famosa por suas previsões precisas e pela habilidade de encantar nossos clientes. Se estiver interessada, pode experimentar a nossa máquina. Uma previsão custa apenas um Thaller, e tenho certeza de que você ficará impressionada com os resultados."
Artemis Lune-Argentée caminhou em direção ao unicórnio de aço com um sorriso animado em seu rosto estava ansiosa para experimentá-lo por si mesma. Ao chegar, Artemis tirou um Thaller de sua bolsa e colocou-o na ranhura indicada. Ela observou enquanto o unicórnio de cobre começava a se mover, suas engrenagens se movendo em um ritmo constante.
Enquanto Artemis encantada, observava o unicórnio de aço emitir previsões futuras, Drake Walker permanecia cético e um pouco entediado. Ele coçou a barba rala, olhando em volta da estalagem em busca de algo que pudesse chamar sua atenção. De repente, ele ouviu um riso atrás de si. Era Artemis, que tinha acabado de receber sua previsão, um pedaço de papel que saiu da parte de baixo do unicórnio, e estava ansiosa para ler o que estava escrito no pequeno cartão.
"O que foi?" Perguntou Artemis com um sorriso. "Não acredita nessas previsões?"
"Não, eu não acredito." Respondeu Drake com um sorriso sarcástico. "Mas se te faz feliz, pode continuar acreditando."
Artemis revirou os olhos em resposta, mas não conseguia esconder o entusiasmo que sentia.
"É só uma brincadeira, Artemis." Disse Drake, colocando uma mão no ombro da amiga. "Eu sei que você é inteligente o suficiente para não cair nessa bobagem."
Artemis deu um tapa no braço de Drake, rindo.
"Você é sempre tão cético, Drake. Não consegue relaxar e aproveitar a diversão?"
Drake riu também e encolheu os ombros.
"Desculpe, eu sou assim mesmo. Mas se você quiser saber a minha previsão, eu te digo agora: você vai continuar jogando o seu dinheiro fora com essas previsões bobas."
Artemis rolou os olhos novamente, mas dessa vez com um sorriso no rosto.
"Você é um idiota, Drake." Ela leu as palavras impressas na folha, suas sobrancelhas franzidas em confusão.
"O futuro é como uma folha ao vento, nunca sabemos onde ela vai pousar."
Ela bufou, desapontada. "Isso é tudo? Uma frase genérica?"
Artemis não queria acreditar que tinha caído em um esquema, mas não podia ignorar a sensação de enganação que a consumia. Ela olhou para Drake, procurando algum sinal de apoio, mas viu apenas um sorriso zombeteiro em seu rosto.
"Não precisa ficar assim, Artie. Todos nós já fomos enganados alguma vez na vida. Faz parte do processo de aprendizado", disse Drake, tentando consolar a amiga.
Artemis bufou, frustrada. "Eu sei, mas é que eu realmente queria acreditar que a máquina era capaz de prever o futuro. Eu estava tão animada para ver o que ela me diria", confessou ela, desapontada.
Drake riu. "Pois é, todo mundo quer saber do próprio futuro, mas não caí nessa armadilha. Eu sabia que era apenas uma forma de arrancar dinheiro dos turistas bobos como nós", brincou ele.
Mas então ela notou algo estranho no papel - havia uma pequena mancha de tinta em uma das bordas. Curiosa, ela se aproximou do unicórnio e olhou mais de perto. Foi então que ela notou que a mancha formava um símbolo que ela achou curioso. Uma pequena gravura de uma pimenta em chamas. Ela riu consigo mesmo pensando se tratar de um erro de impressão, e guardou o pequeno papel como recordação de sua tolice.
Jack aguardava ansioso no balcão da hospedaria enquanto seus companheiros se divertiam com as previsões do Unicórnio de Aço. Sua mente inquieta não conseguia se concentrar em nada, pois estava em constante alerta para possíveis perigos que pudessem surgir em sua missão. Foi então que sua atenção foi desviada para uma conversa entre dois homens que aguardavam ao seu lado.
"Você ouviu os boatos? A Princessa Vermelha de Rosa acabou de voltar de Lombardia e está passando um tempo aqui na cidade", disse o homem mais velho para seu colega nobre mais novo.
As palavras foram como uma pedra que caiu em um lago tranquilo, causando ondas de medo e ansiedade no coração de Jack. Ele se enrijeceu. Seu rosto ficou branco como sal e suas pernas pareciam querer ceder com o peso de seu corpo. Sem pensar, ele subiu as escadas do hotel como um tornado, sem nem mesmo terminar o registro. Seus pensamentos estavam em turbilhão enquanto ele simplesmente fez um sinal para que os Heróis o acompanhassem, sem falar uma palavra, parecendo um mímico.
Ao chegar em seu quarto, Jack parecia ter perdido o controle de si mesmo. Ele parecia um animal acuado em um canto, pronto para atacar ou fugir a qualquer momento. Seus companheiros tentaram falar com ele, mas ele não respondia, apenas olhava em volta como se esperasse que algo ou alguém surgisse de repente.
"Jack, o que aconteceu?" perguntou Artemis, tentando entender a situação.
"Eu ouvi uma conversa no balcão da hospedaria... Só uma mudança de planos. Eu vou ficar aqui no quarto da Hospedagem durante nossa passagem em Paranes. Tudo bem?", disse Jack, sua voz trêmula.
"Jack, você está bem?" perguntou Fransisco, colocando uma mão reconfortante no ombro do homem.
Jack engoliu em seco, tentando se acalmar. "Hã... Sim, sim. Estou ótimo.", mentiu Jack, suas mãos tremendo. "Só não posso ser visto por ela e..." Disse Jack enquanto fechava as cortinas e espiava o lado de fora pelas frestas, paranóico.
Schnee trocou um olhar com Drake, preocupados com a condição emocional de Jack.
"Claro, Jack. Você pode ficar aqui o tempo que precisar", disse Artemis, dando um sorriso gentil ao amigo.
Jack se sentou na cama, ainda tremendo. "Vocês aproveitem a cidade, só não esqueçam do compromisso na Prefeitura, por favor.... Nós nos vemos em breve."
Christof coçou a barba curioso com a situação. O cego se apoiou na bengala e falou para o resto dos Heróis. "Vamos deixar o jovem mestre Horner ter uma privacidade. Vamos nos dirigir para Rebimboca da Parafusseta, depois darmos umas voltas pela cidade, e nos enocntramos dentro de duas horas na prefeitura, tudo bem?" Ele dizia enquanto gentilmente guiava seus colegas de missão para fora do aposento. Já do lado de fora, ele se virou para eles e disse: "Esse jovem esconde muitas coisas, temos que ficar atentos com ele..."
Schnee soltou um riso alto, o som ecoando pelas paredes do corredor da hospedaria. "Atentos como magricelo tremendo lá dentro?" Ele coçou seus cabelos albinos enquanto seus olhos percorriam a estrutura do prédio. "Eu acho que tenho preocupações maiores."
Drake olhou para o companheiro cego com uma expressão de desaprovação. "Eu acho ele uma boa pessoa."
Artemis levantou uma sobrancelha em direção a Drake. "Você tá falando isso por que realmente confia nele ou por que ele tá pagando pelos nossos quartos?" Ela sorriu provocativa, o brilho em seus olhos deixando claro que ela estava gostando de provocar Drake.
Drake não se deixou abalar pelo sarcasmo da ruiva. "O que impede de ser os dois?" Ele disse enquanto seguia para saída da Estalagem.
Os heróis saíram da estalagem, caminhando pelas estradas de paralelepípedos da cidade tecnovapor de Paranes. A cidade era uma maravilha de engenharia, com grandes tubos de metal e vapor que se estendiam pelos céus e prédios que se erguiam para o céu, todos com uma aparência industrial e robusta.
Enquanto caminhavam, Drake e Schnee lideravam o caminho, guiando o grupo pelas ruas movimentadas da cidade, evitando as multidões de pessoas que se aglomeravam nas calçadas. O som do vapor sibilando e as engrenagens girando enchiam o ar, criando uma sinfonia mecânica que era tão onipresente na cidade quanto a fumaça negra que saía dos tubos de exaustão.
Após uma curta caminhada, o grupo chegou à frente da Rebimboca da Parafuseta. O prédio era alto e esguio, com uma fachada de tijolos de cor vermelha escura, que parecia ter sido construída há muito tempo. A entrada da frente era uma grande porta de madeira escura, com ferro trabalhado e um letreiro que pendia acima dela. O letreiro dizia "Rebimboca da Parafuseta" em letras grandes, brancas e elaboradas.
No topo do prédio, havia uma grande chaminé que expelia vapor, e em cima dela havia uma roda de engrenagem girando, alimentada pela energia que a Rebimboca da Parafuseta produzia. De uma das janelas do prédio, podia-se ouvir o som de um instrumento sendo tocado, um violino que emitia uma melodia nostálgica e ao mesmo tempo otimista.
Artemis respirou fundo e olhou para o prédio, apreciando a calmaria da Rebimboca da Parafuseta. "Bom, pelo menos é menos caótico do que o nome sugere.
"É um alívio ter um local tranquilo para variar nesta cidade." Completou Fransisco.
Foi nesse momento que um som estridente de violino encheu a sala. Todos os olhares se voltaram para a janela da taverna, onde viram através dela um homem magro em cima da mesa com roupas rasgadas tocava com fervor em seu instrumento. Enquanto as notas cacofônicas se chocavam umas com as outras, o rosto do homem se contorcia em uma careta de concentração.
"O que é isso?" perguntou Schnee, segurando suas orelhas.
"Eu acho que ele está tentando tocar uma canção", respondeu Drake com uma risada.
Artemis olhou com desespero para o grupo. "Realmente, Não dá para elogiar que piora!"
Mas antes que pudesse dizer mais alguma coisa, o violino saiu voando pela janela da taverna, seguido por uma chuva de vidro quebrado. Os Heróis olharam chocados para o buraco na parede, enquanto o homem do violino saía cambaleando da taverna com uma aparência chocada no rosto. "Eles não entenderam nada. Eu sou um visionário, um músico incompreendido em meu tempo. Mas um dia, o mundo vai ver meu talento!" E com isso, ele tropeçou em um paralelepípedo e caiu de cara no chão, desmaiando ao lado de seu Violino.
O violino que voou pela janela era um instrumento de aparência clássica, com corpo de madeira polida e cravelhas de ébano. No entanto, as alterações tecnovapor que foram adicionadas a ele eram notáveis. Um conjunto de engrenagens adornava o corpo do violino, conectado a um pequeno gerador a vapor. As cordas do violino também eram feitas de um material sintético resistente, que podia ser esticado e afrouxado por meio de pequenos válvulas embutidos no corpo do instrumento.
Após a queda, o violino ficou em um estado lastimável. O corpo de madeira estava rachado em vários lugares e as engrenagens estavam amassadas e emaranhadas. Algumas das cordas estavam frouxas e outras se partiram completamente. O pequeno gerador a vapor que havia sido conectado ao instrumento também estava em pedaços, espalhados pelo chão em torno do violino quebrado. Era uma cena triste para qualquer músico ver.
Artemis e Fransisco lançaram um olhar de desconfiança para a entrada da taverna, suas sobrancelhas franzidas enquanto olhavam para o caos que se desenrolava lá dentro. O aspirante a violinista jazia no chão, desmaiado e ignorado pelos Heróis em torno dele. Artemis virou-se para Fransisco, sua expressão endurecida.
"Talvez seja melhor irmos andando, Fransisco", ela disse, sua voz cautelosa. "Não podemos perder a biblioteca, afinal."
Fransisco suspirou de alívio, sabendo que escaparia de entrar na taverna. "Sim, é verdade. Vamos continuar."
Enquanto se afastavam lentamente da entrada da taverna, Christof se aproximou, parecendo apressado. "Na verdade, também não tenho tempo para isso", ele disse, sua voz carregada de urgência. "Estou atrasado para um compromisso em Sarconne."
Schnee, que parecia desfrutar do caos na taverna, interrompeu: "Podem ir, amarelões. Mas eu vou experimentar o que essa taverna tem a oferecer!"
Drake concordou e empurrou a porta enferrujada da taverna para abrir. O som das conversas animadas encheu o ar, seguido por Schnee, que parecia estar em seu elemento no meio da agitação. Os outros Heróis entraram lentamente, permanecendo na soleira da porta, seus olhares cautelosos enquanto observavam o que se desenrolava diante deles.
Ao entrarem na Rebimboca da Parafuseta, os Heróis se depararam com um ambiente completamente diferente do exterior desgastado e enferrujado do estabelecimento. O interior da taverna era iluminado por uma mistura de tochas, lampiões a gás e lâmpadas elétricas, lançando uma luz suave sobre o espaço.
O bar era o centro das atenções, feito de madeira escura com um acabamento brilhante, e tinha várias máquinas de tecno-vapor com tubos e válvulas conectados que produziam cerveja gelada para os clientes. Os trabalhadores habilidosos trabalhavam com afinco, trocando os barris e ajustando as válvulas conforme necessário.
Aos lados, havia mesas e cadeiras, algumas de madeira rústica e outras mais elegantes, com acabamentos esculpidos e estofados em couro. Garçonetes em trajes de época, com espartilhos e saias volumosas, andavam por entre as mesas, servindo cervejas em canecas de vidro e pratos de petiscos.
Entre as opções dos pratos estavam as tradicionais croquetes de carne, que eram fritas em um maquinário a vapor, acompanhadas de uma maionese especial de mostarda. Também havia as batatas fritas em óleo de sementes de girassol, que eram servidas com um molho de alho e ervas finas.
Outro petisco que fazia muito sucesso na taverna eram os espetinhos de carne grelhados em uma churrasqueira a vapor, com pedaços suculentos de carne bovina, linguiça defumada e legumes frescos, regados com um molho especial de tomate e vinho. E para quem preferia opções mais leves, havia ainda os pãezinhos recheados com queijo e ervas finas, assados em um forno a vapor e servidos quentinhos.
Os pratos eram preparados com ingredientes frescos e selecionados, e a tecnologia a vapor utilizada na sua preparação garantia um sabor inigualável e uma textura suculenta e macia. Os clientes da Rebimboca da Parafuseta sempre saíam satisfeitos e com vontade de voltar.
A música agora era tocada por um grupo de músicos em um canto da taverna, com um violoncelo tecno-vapor dando o tom. Era difícil não notar que alguns dos instrumentos eram atualizações tecnológicas, com válvulas e pequenas engrenagens a mais, mas ainda assim produzindo belas melodias.
O grande quadro do alcaíde Geppeto adornava a parede principal da taverna, chamando a atenção de todos que entravam. Com uma moldura majestosa e imponente, o quadro retratava o Velho alcaíde Geppeto em toda a sua glória. Seus cabelos brancos e bem cuidados pareciam brilhar na luz da taverna, contrastando com a pele morena e enrugada. O bigode do alcaíde era um símbolo de poder, crescido e torcido em uma forma tão impressionante que fazia os homens invejarem. Seus olhos castanhos brilhavam com uma intensidade que parecia enxergar através das almas das pessoas, e um sorriso sutil adornava seus lábios finos. Na mão direita, ele segurava uma caneta tinteiro, como se estivesse pronto para assinar algum importante documento a qualquer momento. O quadro era uma homenagem ao líder da cidade e uma lembrança constante do poder que ele exercia sobre a vida dos cidadãos de Paranes.
Apesar do ruído e da agitação, a taverna tinha um ar acolhedor e familiar. Havia clientes regulares conversando em voz alta, rindo e contando histórias, enquanto novos visitantes se misturavam com facilidade. Era um lugar que parecia convidativo e animado, e os Heróis se encontraram imersos naquele mundo completamente novo para eles.
Fransisco, Artemis e Christof permaneceram na soleira da porta da Rebimboca da Parafuseta, olhando para o interior da taverna com certa hesitação. Enquanto observavam o movimento, um segurança os abordou.
"Olá, olá, olá!", disse um gato preto de olhos amarelos, que usava um monóculo no estilo tecnovapor. "O que vocês estão fazendo parados aí? Entrem ou saiam, mas não fiquem parados na porta atrapalhando o fluxo da taverna!"
O Segurança gato da taverna, vestia um colete de couro marrom escuro, com pequenas tachas metálicas brilhantes adornando-o, combinando com a estética tecnovapor da cidade. Seu pequeno monóculo de lente transparente, preso por um suporte de couro, dava a ele um ar distinto e sofisticado. Uma pequena garrucha adaptada para seu corpo de gato estava presa em um pequeno coldre de couro preso em suas costas, também adornado com algumas tachas metálicas brilhantes. Ele usava botas de couro preto, com fivelas prateadas reluzentes. Sua pelagem preta brilhava no ambiente iluminado e agitado da taverna.
Fransisco, Artemis e Christof se entreolharam, incertos do que fazer.
"Desculpe-nos", disse Fransisco, "mas estamos apenas esperando nossos amigos e..."
"Ah, sim", disse o gato preto com desdém. "E vocês acham que são os únicos a esperar alguém aqui? A taverna está lotada hoje, meus caros. Entrem ou saiam, mas decidam logo."
Christof ouvia as palavras do gato com um sorriso educado, mas antes que pudesse dizer alguma coisa, Artemis interveio.
"Tudo bem, nós estamos entrando já", disse ela, puxando Fransisco pelo braço. "Não queremos causar problemas."
O gato preto assentiu com satisfação e voltou a sua atenção para outros clientes. Fransisco, Artemis e Christof seguiram em frente, sentindo o olhar julgador do segurança em suas costas enquanto entravam na taverna.
Drake Walker adentrou a Rebimboca da Parafuseta, o local mais agitado e barulhento da cidade. Sua curiosidade o impulsionou a entrar e descobrir o que se escondia por trás das paredes daquela taverna. O jovem mercenário, com seus cabelos loiros e barba por fazer, caminhou em direção ao balcão, onde um homem de barba ruiva e voz rouca estava cuidando dos copos.
"Boa tarde, viajante. Posso separar uma mesa pra você?" perguntou o homem com um sorriso simpático.
Drake olhou em volta, tentando absorver a atmosfera peculiar do local. Maquinários tecno-vapor zumbiam ao fundo, servindo cerveja e criando uma névoa que parecia flutuar pela taverna. Era uma mistura de tecnologia com a atmosfera aconchegante de um bar.
"Sim, por favor", respondeu Drake, curioso para descobrir o que mais o local tinha a oferecer. "Você é o dono da taverna?"
O gerente, Dennis Noffke, riu alto e sarcástico, como se Drake tivesse acabado de dizer a coisa mais engraçada do mundo. "O dono raramente aparece por aqui, sou o gerente responsável, meu jovem. Dennis Noffke à suas ordens. O que posso fazer por você?"
Drake coçou a barba rala, pensando em algo para beber. Foi então que Dennis o interrompeu novamente, apontando para uma área da taverna. "Pelo seu sotaque, você é de Luthia, estou certo? Olha, temos um desafio da mira aqui, valendo uma pinga-anã... Foi um amigo meu de Luthia que trouxe...", disse Dennis.
O sorriso de Drake cresceu em seus lábios, e ele começou a se sentir em casa naquela taverna peculiar. Mas antes que pudesse se mover, Dennis o alertou: "Ah, uma última coisa! Não faça carinho no gato".
Drake arqueou as sobrancelhas, vendo o gato preto segurança sentado ao lado de Dennis. O animal parecia desinteressado, mas Drake sabia que era melhor seguir as regras do local. Ele deu uma risada, concordando. "Eu sou mais fã de cães, na verdade."
Dennis riu, pegando um copo e enchendo com a cerveja tecno-vapor da casa. "Por conta da casa!", disse ele, passando a cerveja para o luthiano.
Drake provou a cerveja, sentindo o gosto exótico e único que parecia representar perfeitamente o lugar. Ele sorriu para Dennis, sabendo que ali estava a promessa de muitas histórias para contar.
A atmosfera densa e movimentada da taverna tecnovapor era quase palpável. O ar estava impregnado com o aroma forte da cerveja tecno-vapor, o som de maquinários trabalhando e o som alto de conversas animadas e gargalhadas. Artemis, Christof e Fransisco tentavam, sem sucesso, se manter juntos em meio à multidão. As pessoas se espremiam umas às outras, empurrando e se esquivando para alcançar os balcões de bebidas ou encontrar uma mesa vaga.
Fransisco, o jovem roceiro, se encontrou em um canto apertado, cercado de pessoas que se moviam rapidamente, empurrando-o para um lado e para outro. Foi então que seus olhos caíram sobre uma jovem, sentada em uma mesa no canto da taverna, com papéis e aparelhos espalhados diante dela.
Era uma figura notável em meio ao agito do local. Com seus cabelos cor de mel mal-penteados, presos em um coque simples, ela parecia perdida em meio a seus próprios pensamentos. Seus olhos estavam concentrados nos documentos e anotações que se espalhavam pela mesa, acompanhados por um olhar de determinação e curiosidade. Ela usava um vestido longo de linho branco, bordado com rendas delicadas nas mangas e no decote. Seu corpete era justo, marcando a cintura, e a saia ampla permitia que ela se movesse com facilidade, sem esbarrar nos equipamentos e ferramentas que estavam espalhados pela mesa.
A jovem vestia botas de couro, grossas e resistentes, que protegiam seus pés dos choques e do atrito do chão. Em sua mesa também se encontravam luvas de couro, que repousavam ao seu lado enquanto trabalhava com os aparelhos, dando-lhe uma aparência de engenheira habilidosa e experiente. Ao observá-la mais de perto, Fransisco notou que ela usava um óculos de metal, com diversas lentes circulares e finas, que aumentavam seu campo de visão e permitiam que ela enxergasse com mais precisão os detalhes do seu trabalho. Com suas vestimentas simples, mas práticas, e seus óculos incomuns, a jovem inventora se destacava entre a multidão, inspirando admiração e respeito por sua habilidade e inteligência.
No entanto, sua aproximação foi interrompida por um momento de azar. Ele perdeu o equilíbrio, e acabou por empurrar caneca de cerveja em cima da mesa, derramando o líquido sobre a mesa e em direção aos papéis. O coração de Fransisco disparou enquanto ele via os documentos destruídos em sua mente, mas a jovem foi rápida, erguendo os papéis e impedindo que fossem arruinados. "Não se preocupe, foi apenas um acidente", disse ela, seu sorriso tranquilo acalmando a vergonha de Fransisco.
Fransisco corou de vergonha, gaguejando um agradecimento. "Eu sinto muito, eu não queria causar problemas. Você está trabalhando em algo importante?"
A jovem olhou para os papéis espalhados e pareceu se encher de um orgulho brilhante. "Estou trabalhando em um protótipo de locomoção avançada individual. Eu quero que as pessoas possam se locomover com mais facilidade, sem precisar de cavalos ou carruagens", explicou ela, animada.
Fransisco estava impressionado. Ele nunca tinha ouvido falar de tal coisa, mas sua curiosidade foi piqued. "Isso é muito interessante..." Disse o rapaz, tentando acompanhar as palavras complexas da moça, mas sentindo-se intimidado. "Eu sinto muito, eu não queria causar problemas."
A jovem sacudiu a cabeça, rindo um pouco. "Não se preocupe, é só papel. E, de qualquer forma, eu consegui salvar tudo", disse ela, exibindo seus documentos protegidos. "Você está bem, por sinal. E você?"
"Eu estou bem... Novamente sinto muito." Disse o roceiro ainda corando de vergonha e se afastando do local.
Artemis se encontrou em um canto mais isolado da taverna, cercada por paredes empoeiradas e decorações envelhecidas que remetiam a décadas passadas. Artemis passou os olhos pelos cartazes que adornavam a parede da taverna, todos anunciando eventos, produtos ou serviços que estavam em alta na cidade. Um deles chamou sua atenção, com uma ilustração de um homem robusto e barbudo, segurando uma bigorna e um martelo, com a legenda "Forja do Ferreiro Heinrich, onde a qualidade é forjada com paixão".
Outro cartaz mostrava uma série de produtos, desde pólvora até medicamentos, com a marca "Farmácia dos Irmãos Vargas", que prometia a solução para qualquer problema. Havia também um anúncio para um torneio de esgrima no próximo mês, organizado pelo "Clube de Duelos da Nobreza". Artemis sentiu uma pontada de saudade do tempo em que ela própria treinava esgrima na Academia. Ela se perguntou se algum de seus antigos colegaas de classe estaria presente no torneio, e se ela ainda conseguiria vencer uma luta sem treinar há tanto tempo.
Mas dentre os cartazes o que mais chamou sua atenção, foi um anunciando o "Circo Pandemônio da Madame Agatha Vessante". Era uma imagem colorida de uma mulher de cabelos cacheados, vestindo um corset decorado com pérolas e um longo casaco de seda, com estampas exóticas. A mulher segurava uma bengala em uma das mãos e um chicote na outra, com um olhar desafiador.
A arte era feita à mão, com tinta a óleo sobre papel, e as cores eram brilhantes e ousadas, atraindo a atenção de qualquer pessoa que passasse por ali. O estilo era típico da arte barroca, com figuras dramáticas, curvas e ornamentos exagerados, representando perfeitamente o espírito extravagante e teatral do circo. A tipografia era elaborada, com letras em negrito e adornadas com floreios, dando um toque final ao cartaz. Era uma obra de arte impressionante e, com certeza, um convite tentador para qualquer um que desejasse experimentar a magia do Circo Pandemônio.
As palavras "o circo mais estranho do mundo" estavam escritas em letras garrafais embaixo da imagem. Artemis sentiu seu coração acelerar, imaginando o que poderia ser tão estranho nesse circo. Talvez tivessem animais exóticos ou algum tipo de magia que ela nunca havia visto antes. Com uma mistura de curiosidade e excitação, Artemis decidiu guardar o cartaz para uma possível visita no futuro. Ela guardou o cartaz na bolsa de couro e sorriu, pensando em como seria emocionante participar da corrida.
A multidão movia Christof em direção aos maquinários tecno-vapor, que rugiam como feras adormecidas. O explorador cego esticou os dedos para tocar as superfícies metálicas e sentiu a textura fria das engrenagens, enquanto ouvia o som ritmado das válvulas, como um coração artificial batendo.
A falta de visão não o impedia de visualizar, em sua mente, a complexidade dessas máquinas, que eram a base da sociedade tecnológica em que se encontravam. Cada peça era um quebra-cabeça, um enigma que Christof desvendava com destreza, e a cada peça descoberta, uma imagem nítida era pintada em sua mente, um retrato tridimensional da máquina em pleno funcionamento.
A multidão que o rodeava parecia indiferente ao espetáculo que acontecia ali, mas para Christof, a sinfonia de sons, cheiros e texturas era um concerto em constante evolução, que ele compunha em sua mente com maestria. Para ele, os maquinários eram mais do que peças de metal, eram a manifestação da criatividade e do engenho humano, e ele se sentia em casa no meio deles, como um peixe no oceano.
Após se encontrarem novamente, Christof, Artemis e Fransisco decidiram sair da taverna, deixando Drake e Schnee se divertindo por lá. Fransisco, com uma expressão de alívio, comentou: "Ufa, essa taverna é muito barulhenta".
Artemis concordou, acrescentando: "Na verdade, a cidade inteira é barulhenta. É o preço que pagamos pelo progresso e pela tecnologia".
Christof, que estava perto dos maquinários, se aproximou e disse com sua voz calma e ponderada: "É verdade, mas se vocês vão ficar aqui por um tempo, é melhor se acostumarem com o barulho. A tecnologia e a engenhosidade estão por toda parte nesta cidade, e é isso que a torna tão especial". Christof sorriu e disse: "Mas admito que foi uma experiência interessante.Pude sentir e ouvir as engrenagens e as válvulas, e posso imaginar a complexidade e a beleza dessas máquinas em minha mente. É uma prova da habilidade e do engenho humano".
Com isso, eles seguiram seu caminho, deixando a taverna para trás e imergindo na agitação e nas luzes da cidade.
Drake Walker se aproximou da área de jogo chamado: "Alvo e Arcabuzes", localizada no canto esquerdo do estabelecimento. Era um espaço amplo e aberto, cercado por uma cerca de madeira resistente para impedir que as balas perdidas atinjam os espectadores. No centro dessa área está o alvo circular, com cerca de um metro de diâmetro, suspenso por uma corda a uma altura de aproximadamente 2 metros do chão. O alvo é pintado com círculos concêntricos de diferentes cores, cada um com uma pontuação diferente. A partir do alvo, há uma linha demarcada no chão, que se estende a cerca de 20 metros de distância, onde os jogadores se posicionam para fazer seus disparos. Em frente à linha, há uma mesa com várias armas de fogo rudimentares, incluindo arcabuzes e pólvora, disponíveis para os jogadores usarem. A atmosfera é animada, com pessoas gritando e aplaudindo enquanto os jogadores tentam acertar o alvo.
Ele observou os outros jogadores por um momento, analisando suas técnicas de tiro e pontuações. Seu olhar se fixou no alvo circular com diferentes pontos de pontuação, localizado a cerca de 20 metros de distância. Ele decidiu que precisava testar suas próprias habilidades de tiro.
Há um homem alto e magro, com cerca de trinta anos. Ele tem a pele morena, olhos escuros e cabelos negros curtos e bem cuidados. Ele se veste com uma jaqueta de couro marrom-escuro com detalhes em cobre, adornada com diversos bolsos e engrenagens. Por baixo da jaqueta, ele usa uma camisa branca com babados na gola e nos punhos, e calças pretas justas ao corpo com diversos bolsos e compartimentos para guardar seus instrumentos de trabalho.
O que mais chama a atenção em seu visual é a prótese mecânica tecnovapor que ele tem no braço direito, que substitui parte de sua mão e antebraço perdidos em um acidente. A prótese é feita de metal escuro com detalhes em cobre, com engrenagens e cabos aparentes. Ela funciona com uma complexa rede de tubos e válvulas de vapor, que permitem que ele controle a abertura e fechamento de garras mecânicas na extremidade da prótese. Apesar de parecer pesada e incômoda, a prótese é incrivelmente ágil e funcional, permitindo que o organizador manipule objetos com destreza e precisão, além de ser uma marca registrada de sua habilidade e criatividade no campo da tecnologia vapor.
"Vamos ver se eu sou tão bom quanto esses caras", ele disse para si mesmo, enquanto se aproximava do jogo e pagava um Heller por uma tentativa.
O organizador se aproximou dele, oferecendo-lhe um arcabuz modificado. Drake aceitou a arma e a examinou com cuidado.
O arcabuz modificado que foi dado a Drake Walker tinha um aspecto peculiar, com muitos detalhes de bronze e prata adornando a madeira escura da arma. A coronha do arcabuz era bastante trabalhada, com entalhes e detalhes que lembravam a figura de um dragão. A parte metálica da arma era feita de um material que parecia ser uma liga de bronze e aço, que brilhava quando a luz batia. O cano era longo e fino, com uma ponta afiada no final para a saída do projétil. O arcabuz também possuía um mecanismo de segurança que parecia ser uma engrenagem de metal, que se movia quando o gatilho era pressionado. Todo o conjunto do arcabuz indicava uma tecnologia avançada e um cuidado minucioso na sua construção.
"Você já jogou antes?" o organizador perguntou.
"Não, mas eu aprendo rápido", Drake respondeu, confiante.
O organizador explicou as regras do jogo. "Para jogar, basta apontar seu arcabuz para o alvo e puxar o gatilho. Quanto mais próximo do centro, mais pontos você ganha. Mas cuidado, o recuo do arcabuz pode ser forte, então segure firme. Ah, e não se esqueça de carregar a arma com pólvora e vergalhões antes de cada tiro. Boa sorte, meu caro." Drake escutou atentamente, absorvendo todas as informações. Ele se posicionou diante do alvo e se preparou para atirar.
Ele apontou o arcabuz cuidadosamente, mirando no centro do alvo. Ele sentiu o calor da pólvora e o impacto do disparo enquanto o projétil de metal voava pelo ar. O som do tiro ecoou pela taverna, fazendo com que muitos dos frequentadores se virassem para olhar.
O projétil atingiu o alvo com um estrondo e um som metálico, deixando um pequeno buraco na borda do círculo. Drake sorriu satisfeito com o resultado, enquanto o organizador se aproximava dele para verificar a pontuação.
"Você marcou dois pontos", o organizador informou.
"Não é muito, mas é melhor do que nada", Drake respondeu, mantendo a confiança.
Ele continuou a jogar "Alvo e Arcabuzes", melhorando sua pontuação a cada rodada. Drake descobriu que gostava muito do jogo, pois lhe permitia relaxar e se divertir um pouco enquanto ainda mantinha sua habilidade de tiro em forma. Ele decidiu que jogaria mais vezes no futuro, talvez até se juntasse a um grupo de jogadores regulares. Mas por enquanto, ele estava feliz em continuar jogando sozinho e mostrando suas habilidades de tiro para quem quisesse ver.
Schnee estava animado assistindo seu amigo Drake jogar Alvo e Arcabuzes. Ele não conseguia resistir a fazer alguns comentários, caçoando quando Drake errava e menosprezando seus acertos.
"Ah, Drake, você é um desastre! Como você consegue errar um alvo tão grande? Até eu acertaria esse!", brincou Schnee enquanto ria.
Drake resmungou em resposta, mas Schnee sabia que ele estava se divertindo. Ele também podia sentir o olhar irritado do velho almofadinhas que estava sentado ao lado deles. Schnee podia ver o distintivo velho da vigília da cidade preso em sua jaqueta.
"O que você está olhando, velhote? Nunca viu um homem bonito antes?", provocou Schnee, exibindo seu sorriso feroz.
O velho resmungou alguma coisa ininteligível, claramente irritado com a presença de Schnee. Ele não parecia gostar muito dos profanos, mas Schnee não se importava. Ele sabia que seu amigo Drake precisava de um pouco de motivação, e ele estava feliz em fornecê-la.
"Vamos lá, Drake, você consegue! Quer que o papai vá aí te ajudar?", encorajou Schnee.
Drake respirou fundo e concentrou-se no alvo à sua frente. Ele segurou o arcabuz com firmeza, seguindo as dicas do organizador. Ele apertou o gatilho e, para sua surpresa, acertou o centro do alvo.
"Isso aí, Drake! Você não é um total fracasso!", exclamou Schnee, batendo palmas altas e estrondosas.
O Velho almofadinhas estava cada vez mais irritado com a presença de Schnee e suas caçoadas. Ele resmungava baixinho, mas era possível notar sua insatisfação. Quando Schnee soltou mais uma piada sobre o erro de Drake, o velho finalmente estourou.
"Já chega disso, seu maldito profano!", gritou o Velho, olhando diretamente para Schnee. "Não deveria nem estar aqui, sujando o ambiente com sua presença amaldiçoada."
Schnee apenas olhou para o Velho com desprezo, seu rosto impassível. Ele estava acostumado a receber preconceito por causa de sua linhagem demoníaca, mas ainda assim doía.
"Desculpe, o senhor disse alguma coisa?", disse Schnee, controlando sua raiva. "Acho que está precisando de uma cerveja."
O Velho riu com desdém. "Não dirija-se a mim, profano. Sua linhagem demoníaca o torna perigoso e instável. É só questão de tempo até você enlouquecer e começar a matar todo mundo."
Schnee apertou os punhos, sentindo a raiva borbulhar dentro de si. Ele queria responder ao Velho, provar que ele estava errado, mas sabia que não adiantaria. Em vez disso, ele se virou para Drake e falou com firmeza: "Sabe, Drake, tem gente que não consegue lidar com a evolução dos tempos. Ainda preferem viver na Idade das Trevas, onde a ignorância e o preconceito reinavam. É uma pena, realmente."
Artemis e Francisco se aventuravam pelas ruas agitadas de Paranes, imersos em uma multidão densa e frenética. O objetivo era encontrar a Biblioteca, mas a tarefa se provava cada vez mais difícil à medida que eles se afundavam no emaranhado de ruas e becos. Enquanto buscavam pela casa de livros, Artemis examinava ansiosamente a paisagem em busca de qualquer sinal de Geldriel. Ela chegou a vislumbrar uma figura que parecia ser a de sua amiga, mas rapidamente percebeu que não era mais do que uma moça parecida.
A frustração e o desânimo começaram a se instalar. "Não acredito que ainda não encontramos a Biblioteca", desabafou Artemis.
Francisco concordou, compreensivo. "Esta cidade é difícil de mais de se orientar. Em Kristadelle, é tudo tão mais fácil."
De repente, a multidão se intensificou e os empurrou em direções opostas. Artemis tentou chamar por Francisco, mas o barulho e o caos eram ensurdecedores e ela não conseguiu encontrá-lo. A sensação de pânico começou a tomar conta dela.
"Francisco! Francisco, onde você está?" gritou ela, mas não obteve resposta.
O coração de Artemis afundou, sentindo-se completamente sozinha no meio da multidão impiedosa. Ela respirou fundo e se concentrou na tarefa em mãos - a busca pela Biblioteca. Talvez lá ela reencontrasse de seu amigo. Enquanto caminhava, seu olhar ansioso varria a multidão, procurando por qualquer sinal de Geldriel. Mas não havia nada, apenas rostos desconhecidos e indiferentes.
Uma sensação incômoda começou a se instalar. Ela sentiu um arrepio subindo pela espinha, como se estivesse sendo observada. Artemis se virou rapidamente, mas não viu nada suspeito. Era apenas sua própria paranoia. "Acgi que estou ficando louca", pensou ela, forçando-se a continuar em direção à Biblioteca.
Francisco lutava para se orientar naquela multidão caótica e barulhenta. Ele buscava por Artemis, mas a cada empurrão e esbarrão que recebia, sua esperança se dissipava. As ruas de Paranes fervilhavam de atividade, com máquinas a vapor zumbindo e pessoas conversando em tons elevados. Francisco sentia-se perdido em meio àquele turbilhão de sons e movimentos.
Desesperado, ele gritava o nome de Artemis, mas sua voz era engolida pelo barulho ensurdecedor que o cercava. Ele apertava o passo, tentando se aproximar da onde acreditava que a Biblioteca estaria. Mas a multidão parecia empurrá-lo em direção oposta.
Então, num momento de clareza, Francisco se deteve por um instante, buscando um ponto de referência. Foi então que seus olhos caíram sobre uma placa de metal enferrujada presa em uma parede próxima: "Rue des lettres". Ele sorriu aliviado. Sabia que Artemis era astuta e seguiria em direção a esta rua se estivesse procurando a Biblioteca.
Francisco caminhou apressado, com um olhar atento a qualquer sinal de Artemis. Mas a multidão continuava a pressioná-lo, e ele se viu obrigado a desviar das pessoas e máquinas a vapor que cruzavam seu caminho. Ele olhava em volta, tentando encontrar uma saída desse tumulto, quando seus olhos caíram sobre um beco estreito que se abria entre dois prédios altos.
Uma sensação estranha envolveu Francisco, como se algo o estivesse observando. Mas, mesmo assim, ele decidiu investigar o beco em busca de pistas sobre Artemis. Ele se aproximou com cautela, adentrando no escuro e sombrio espaço. A medida que avançava, a escuridão aumentava, engolindo-o em seu abraço.
Francisco percebeu que estava se arriscando, mas sentia que era necessário. Ele lutava para enxergar o que havia à sua frente, quando um barulho repentino o fez saltar de susto. Ele se virou bruscamente, mas não viu nada além de sombras. Uma sensação de medo o invadiu, mas ele se esforçou para não demonstrá-lo.
O beco era longo e escuro, mas Francisco finalmente chegou ao final. Ele se deparou com uma área aberta, onde mendigos mal-encarados o encaravam com olhos arregalados. Suas roupas estavam rasgadas e sujas, seus corpos cobertos de pústulas e o cheiro era nauseabundo. Francisco sentiu um arrepio percorrer sua espinha, mas não recuou. Ele observou-os com cautela, percebendo que eles pareciam ter mais medo dele do que ele deles.
"Artemis?", ele perguntou em voz alta, esperando que sua amiga aparecesse. Mas o beco permaneceu em silêncio, exceto pelo som do vento que assobiava por entre as paredes.
Fransisco sentiu uma mão repousar em seu ombro e se virou abruptamente, o coração batendo forte no peito. Seus olhos se fixaram nos do homem de cabelos ruivos que, com um sorriso malicioso, fitava-o com malícia e provocação. Nunca havia visto aquele rosto antes, o que o deixou ainda mais aturdido.
O indivíduo parecia completamente à vontade naquele ambiente lúgubre, como se fosse o dono do pedaço. Uma sensação de vulnerabilidade e exposição tomou conta de Fransisco, que não sabia se podia confiar no estranho.
"Olá, amigo", disse o homem em um tom de voz suave e sedutor, como se tentasse hipnotizá-lo. "Vejo que você está perdido por aqui. Posso ajudá-lo?"
O coração de Fransisco bateu mais rápido. Ele olhou ao redor e percebeu os mendigos que se aproximavam, o que o deixou ainda mais inseguro. Mas sentiu que não tinha muita escolha.
"Sim, por favor", respondeu em um tom baixo e inseguro. "Estou procurando um Lugar. A Biblioteca de Paranes. Você sabe onde fica?"
O homem de cabelos ruivos soltou uma risada rouca, fazendo Fransisco se arrepiar. "Ah, Biblioteca", disse o homem com um ar zombeteiro. "Fonte interminável de todo saber, antro de sabedoria indescritível, o Coração dessa cidade que pulsa o conhecimento a todos que buscam... Sim, eu sei onde fica."
Um suspiro de alívio escapou dos lábios de Fransisco. Ele olhou para o homem, desesperado. "Ainda bem, você pode me levar lá? Senhor...", disse. "Senhor...?" deixando a palavra no ar, esperando que o estranho se apresentasse.
O homem de cabelos ruivos sorriu ainda mais, revelando seus dentes brancos e afiados. "João Honesto", disse ele, em uma reverência solene, retirando a cartola maltrapilha da cabeça. "E, é claro, que posso guiá-lo por essas ruas tortuosas, meu caro. Paranes é minha casa há algum tempo e a conheço como a palma de minha pat-... ou melhor, como a palma da mão."
João Honesto guiava Fransisco pelas ruas de Paranes, com sua bengala apontando para os pontos turísticos e curiosidades da cidade. O jovem roceiro, um tanto distraído, olhava ao redor com admiração enquanto o charlatão falava de forma eloquente, mas claramente desletrada.
"Aqui está a Praça do Relógio", disse João Honesto, orgulhoso, enquanto indicava um grande relógio de pêndulo no centro da praça. "Foi erguido pelos nossos antepassados para nos lembrar da passagem do tempo, que é algo muito precioso na cidade. Afinal, tempo é dinheiro, meu jovem, e nunca há tempo a perder na metrópole. No último andar do relógio fica o escritório principal da prefeitura, de onde se pode contemplar toda a cidade e sua grandiosidade."
Fransisco admirava o relógio, fascinado com a precisão dos ponteiros e a beleza da engenharia. "Nunca vi algo tão grandioso", disse ele, com os olhos brilhando.
"Ah, meu jovem amigo", disse João Honesto, satisfeito com a admiração de Fransisco. "Você tem muito a aprender sobre a cidade. Paranes é um lugar de grandes maravilhas, cheio de vida e movimento. E sabe qual é a essência da cidade?"
Fransisco olhava curioso para o charlatão, esperando ouvir mais. "O que seria?", perguntou.
"Conhecimento", disse João Honesto, apontando para a biblioteca em frente a eles, que parecia majestosa e imponente. "A Biblioteca de Paranes é o coração da cidade, o lugar onde todos os segredos e mistérios são guardados. É a fonte de poder e sabedoria, onde as mentes brilhantes buscam inspiração e conhecimento. E aqui estamos, meu jovem! Cumprindo a promessa que fizemos."
Fransisco assentiu, sentindo-se grato pela orientação do charlatão. "Obrigado, João. É um guia maravilhoso."
João Honesto sorriu, mostrando seus dentes afiados e brancos como marfim. "Eu sei, meu jovem, eu sei", disse ele, com um sorriso malicioso que indicava algo mais. Enquanto isso, Fransisco notou uma figura estranha atrás dele, que parecia ter acompanhado o percurso inteiro como uma sombra.
"Ora, Gideão!", disse João Honesto, erguendo sua bengala em direção ao pequeno comparsa que os seguia com olhos arregalados. "Não assuste o jovem turista, você pode causar uma má impressão da cidade." Dizia ele enquanto descia levemente uma pancada na cabeça de Gideão.
"Cidade", repetiu Gideão, como um papagaio, ainda olhando para Fransisco com um olhar estranho e ardiloso.
Fransisco se despediu de João Honesto e Gideão, agradecido pela orientação na cidade tecnovapor de Paranes. Seu coração pulsava de excitação, afinal, ele estava prestes a adentrar na Biblioteca.
No entanto, conforme caminhava pelas ruas de pedra, algo parecia estar errado. Um peso desagradável tomou conta de sua alma. Ao procurar por sua algibeira, percebeu que ela não se encontrava em lugar nenhum, revirou seus bolsos, procurou dentro de sua bolsa e até pelo chão. Fransisco rapidamente conectou os pontos e percebeu que fora enganado pelos dois aproveitadores.
Sem pensar duas vezes, Fransisco voltou em direção a João Honesto e Gideão, e teve a sorte de encontrá-los no meio do caminho. "Você roubou minha algibeira!" acusou ele, com raiva.
João Honesto, com uma expressão de desdém, respondeu: "O que está dizendo, jovem?"
"Minha algibeira, você roubou ela. Eu senti falta assim que me despedi de vocês", insistiu Fransisco, agora ainda mais determinado.
João Honesto suspirou e olhou para Gideão com reprovação. "Gideão, não acredito que tenha cometido outro furto."
"Furto." repetiu Gideão, claramente nervoso.
"Você foi muito indisciplinado. Eu já disse a você que não podemos roubar dos turistas. Devolva imediatamente para esse jovem a algibeira." disse João Honesto com um olhar malandro.
"Algibeira." repetiu Gideão, entregando-a com um olhar humilhado.
Fransisco pegou a algibeira, aliviado. "Obrigado", disse ele, mas não pôde deixar de se sentir frustrado por ter sido vítima de um esquema tão mesquinho.
João Honesto notou o desapontamento no rosto do jovem e se aproximou dele com uma expressão maliciosa. "Perdoe-me por isso, meu jovem. Gideão é um jovem inquieto e ainda tem muito a aprender." Com um gesto de sua bengala, ele acertou a cabeça do comparsa, repreendendo-o por seu comportamento inadequado. "Mas deixe-me assegurar-lhe que eu, João Honesto, sou um homem de palavra e confiança. Se precisar de ajuda em nossa cidade tecnovapor, pode contar comigo."
Fransisco apenas assentiu e se afastou, ainda um pouco chateado com a experiência. Ele se perguntava se poderia realmente confiar em alguém naquela cidade tecnovapor cheia de charlatões e vigaristas.
Artemis percorria as ruas movimentadas de Paranes com olhos atentos, buscando a Biblioteca que tanto ansiava encontrar. As pessoas ao seu redor pareciam apressadas e determinadas, caminhando em passos acelerados como se estivessem sempre atrasadas para algo importante.
A jovem tentava pedir ajuda para encontrar o caminho, mas suas palavras pareciam cair em ouvidos surdos. Ela se aproximava de um transeunte, gentilmente tocando em seu braço, mas a pessoa seguia em frente sem sequer olhar para ela.
Frustrada, Artemis tentava novamente, aumentando o tom de sua voz para se fazer ouvir acima do barulho das carruagens e do zumbido das máquinas a vapor. Mas as pessoas continuavam a ignorá-la, passando por ela como se fosse apenas uma mosca em seu caminho.
Artemis se sentia cada vez mais perdida em meio à multidão de rostos desconhecidos e pressa frenética. Ela se perguntava se conseguiria encontrar a Biblioteca sozinha, ou se estaria destinada a vagar pelas ruas de Paranes para sempre.
Por fim, a jovem se recolheu para um canto, encostando-se na parede de uma loja, observando a multidão passar diante de seus olhos. Ela sabia que precisava encontrar a Biblioteca, mas não fazia ideia de como chegar lá sem ajuda.
Ela já estava quase desistindo de encontrar a biblioteca quando a porta da loja atrás dela se abriu, chamando sua atenção. Ao se virar, ela se deparou com um homem de meia-idade. Eleinha uma estatura mediana e uma postura ereta. Seus cabelos castanhos e já grisalhos eram cortados curtos e bem arrumados, complementados por um bigode bem cuidado e aparado. Seu rosto tinha linhas marcantes, e seus olhos eram castanhos e penetrantes. Ele usava um avental branco sobre uma camisa de linho bege, com uma calça escura que ia até os tornozelos e botas pretas. Seu odor era de uma mistura agradável de fragrância de ervas e cera de abelha, que vinha da pomada que ele usava para arrumar o cabelo de seus clientes.
Artemis também tirou um momento para analisar loja em que se reencostava. Que possuía uma fachada de madeira envelhecida, que mostrava sinais de anos de exposição ao sol, vento e chuva. As tábuas de madeira estavam pintadas de um tom de marrom escuro, com as letras em dourado envelhecido pintadas acima da porta de entrada. A loja tinha duas grandes janelas com vitrines, que pareciam limpas e brilhantes, permitindo que as pessoas na rua olhassem para o interior da loja. Acima da porta principal, um grande letreiro de madeira esculpido à mão exibia o nome da loja "Carollus Encaracollus" em letras elegantes. A porta da loja, agora aberta, era de madeira maciça, com pequenos detalhes esculpidos em sua superfície. Ao homem empurrar a porta, um leve rangido poderia ser ouvido, indicando que a porta não era usada com frequência.
"Boa tarde, minha jovem. Posso ajudá-la em alguma coisa?", perguntou o homem com um sorriso amigável. Enquanto observava as madeixas ruivas de Artemis, ele sorriu e acenou para ela, convidando-a a entrar em sua barbearia. Artemis hesitou por um momento, mas sentindo-se grata por ter encontrado alguém disposto a ajudá-la, acabou cedendo ao convite.
A barbearia era iluminada por velas, e o som do barulho das tesouras, barulhos de navalhas e o cheiro de loções e cremes de barbear misturavam-se no ar. O homem indicou uma cadeira estofada de couro preto, onde Artemis sentou-se e explicou seu problema.
"Eu estou procurando a biblioteca. Você sabe onde fica?"
O cabeleireiro escutou com atenção, e depois de pensar um pouco, apontou na direção certa. "Não se preocupe, jovem. Eu conheço a Biblioteca, fica na rua do outro lado da cidade, perto do mercado. É uma bela e grande estrutura de pedra, você não pode errar", disse ele, apontando com a tesoura para a direção certa. "Mas antes que vá, deixe-me consertar essa franja um pouco. E já que está aqui, por que não deixar que eu corte suas pontas?"
Com um sorriso, Artemis concordou, e deixou o homem cuidar de seus cabelos. Ela se sentiu grata por ter encontrado alguém tão gentil e prestativo em uma cidade estranha e confusa.
O Homem sorriu para Artemis e disse: "O nome é Carollus Milady. É sempre um prazer receber cabelos vermelhos em meu salão, vocês são raros e preciosos". Ele acenou para um dos ajudantes e disse: "Traga uma bacia para lavar o cabelo da jovem senhorita e prepare a tesoura".
Enquanto Carollus saía para preparar as ferramentas, Artemis olhou ao redor da loja. O salão era decorado com elegância e bom gosto, com grandes espelhos adornando as paredes. Uma prateleira cheia de produtos para cuidados pessoais estava localizada perto da entrada, ao lado de um balcão. Cinco quadros de jovens nobres estavam pendurados em uma parede, todos com seus cabelos cortados em penteados impecáveis, um testemunho da habilidade de Carollus em seu ofício. Artemis sorriu ao olhar para os retratos, imaginando o que o cabelo ruivo poderia inspirar em Carollus. Ela se perguntou se ele teria alguma ideia interessante para um novo penteado que pudesse torná-la mais confiante ao enfrentar a cidade.
Artemis olhou para trás e viu a larga porta da qual Carollus emergiu, agora usando um aparato estranho em suas costas. Era uma mochila escura que, a partir dela, partiam quatro braços mecânicos. Cada braço possuía uma tesoura, uma navalha, um pente e uma escova. Os braços se moviam suavemente em direção ao cabelo dos clientes enquanto Carollus ajustava algumas manivelas e válvulas em sua mochila. Uma vez ativada, uma nuvem de vapor de água saía da mochila, envolvendo os cabelos dos clientes em uma névoa quente e úmida.
Carollus então se aproximou de Artemis. "Vamos começar". Ele pegou uma cadeira e a posicionou em frente a um grande espelho, apontando para Artemis sentar. Ele posicionou o aparato tecnovapor atrás da cadeira e começou a preparar seus instrumentos. Artemis sentiu os braços mecânicos se movendo suavemente em direção a seu cabelo, e a tesoura começou a cortar seus fios enquanto Carollus observava atentamente. Ele não perdeu nenhum movimento, suas mãos e braços se movendo rapidamente para garantir que cada corte fosse preciso. Artemis podia sentir o cheiro de óleos e produtos para cabelo enquanto Carollus trabalhava em seus fios. A atmosfera do salão era quente e úmida, com um leve cheiro de perfume misturado com o odor de cabelo queimado dos clientes anteriores.
Enquanto o pente afiado de Carollus deslizava pelos fios de Artemis, ele puxou assunto com a jovem turista. "E então, o que a trouxe a Paranes, minha jovem?", perguntou ele com um sorriso amigável.
"Estou só de passagem."Artemis respondeu em voz baixa, mas a curiosidade dela era evidente. Ela olhou para os cinco quadros que adornavam a parede do salão de beleza, cada um exibindo um jovem príncipe com um penteado único e sofisticado. "Esses são os herdeiros da família Farngomery, não é?", perguntou ela.
O orgulho brilhou nos olhos de Carollus enquanto ele confirmava. "Sim, sim", disse ele, ainda admirando as pinturas. "Foi há cerca de seis anos que preparei esses jovens príncipes para essas obras de arte. Eles são uma família exigente quando se trata de cabelos."
Com uma curiosidade aguçada, Artemis não pôde deixar de perguntar: "Eles têm cabelos tão diferentes, como você faz para lidar com isso?"
Carollus sorriu, como se estivesse prestes a contar uma história. "Henry tem cabelos pretos como a noite e tão lisos quanto um espelho. Adam tem cabelos castanhos escuros que são difíceis de domar. Eric tem cabelos pretos e curtos que exigem um corte preciso. Ambrose tem cabelos louros rebeldes que nunca ficam no lugar. E Lysander tem cabelos louros suaves que precisam de muito cuidado."
Enquanto ele falava, os braços mecânicos da mochila a suas costas trabalhavam em harmonia com suas mãos habilidosas, cortando e tratando o cabelo de Artemis com precisão cirúrgica. Ela observou com admiração o salão bem decorado e organizado, onde cada ferramenta parecia ter seu lugar.
Artemis não podia deixar de admirar a habilidade e o conhecimento de Carollus em lidar com cabelos tão variados e desafiadores. Ela sentiu-se atraída pela arte em que ele se especializou e pelo cuidado com que tratava cada fio de cabelo que tocava. Ela sabia que, se um dia voltasse a Paranes, faria questão de visitar aquele salão novamente.
Com as mãos habilidosas de Carollus trabalhando em seu cabelo, Artemis mal percebeu o tempo passando. Quando ela se deu conta, já estava terminando o corte.
"Voilà", disse Carollus, sorrindo enquanto retirava o avental de proteção que a cobria.
Artemis se levantou da cadeira e se olhou no espelho. Ela ficou impressionada como pequenas alterações em seu cabelo a faziam parecer tão diferente. O cabelo ruivo de Artemis parecia ter ganhado vida nova. As mechas brilhavam com um tom vermelho vibrante, iluminando seu rosto com um toque sutil de calor. As pontas estavam levemente repicadas, dando-lhe um aspecto moderno e jovial. As camadas cuidadosamente cortadas criavam uma sensação de volume, e sua franja curta e elegante acentuava seus olhos cor de esmeralda.
Ela sorriu para Carollus. "Eu adorei, obrigada."
"Eu que agradeço, minha jovem. Foi um prazer cortar esses lindos cabelos ruivos. E, como eu disse antes, hoje é por conta da casa", respondeu Carollus, com um sorriso amigável.
Artemis sentiu uma onda de gratidão pelo cabeleireiro. Ela estava muito feliz com o resultado e se sentia mais confiante para explorar a cidade. Ela se despediu de Carollus e saiu da loja, olhando para o céu e sentindo o vento fresco de novembro em seu rosto.
Fransisco seguia seu caminho, ainda perturbado pelo encontro desagradável com João Honeseto e Gideão. Foi então que, ao se aproximar da Biblioteca de Paranes, viu uma figura familiar acenando para ele na entrada. Era Artemis, sua amiga e companheira de viagem. No entanto, havia algo de diferente nela que Fransisco não conseguia identificar de imediato.
"Artemis? Você fez alguma mudança?", perguntou Fransisco, tentando entender o que estava acontecendo.
Com um sorriso radiante, Artemis respondeu: "Sim, mudei o cabelo. O que acha?"
Fransisco olhou para ela mais atentamente e finalmente percebeu. Seus cabelos ruivos agora estavam mais curtos e mais acentuados em um corte que realçava ainda mais sua beleza natural. Era uma visão encantadora que Fransisco não conseguiu deixar de admirar.
"Você parece...diferente. Seu cabelo está incrível", disse Fransisco, maravilhado.
Com um riso suave, Artemis agradeceu: "Obrigada! Visitei um salão chamado Carollus Encaracollus, e ele me ajudou a mudar um pouco o visual. Gostou?"
"Adorei!" Ainda um pouco surpreso, Fransisco concordou e percebeu que Artemis havia tido mais sorte do que ele naquele dia. Enquanto ele enfrentava a ameaça dos malandros, ela desfrutava de um tratamento de beleza em um dos salões mais renomados da cidade. Juntos, os dois amigos entraram na biblioteca, prontos para explorar todas as histórias e aventuras que os livros da cidade de Paranes tinham a oferecer.
Enquanto isso Christof Dior caminhava pelas ruas de Paranes, com passos lentos e cuidadosos. Ele havia deixado seus companheiros de viagem, Fransisco e Artemis, seguindo adiante para que pudesse ter um momento sozinho para refletir e aproveitar a cidade que um dia o acolheu como professor. Ele precisava se lembrar de quem era antes de todas as escolhas que o levaram a este ponto.
Enquanto caminhava, Christof podia sentir o aroma de pão fresco vindo de uma padaria próxima. Ele parou por um momento para respirar o cheiro doce e sentir a textura da casca de um pão quente em suas mãos. A sensação o transportou de volta a um tempo mais simples e feliz em sua vida, antes de todas as escolhas que o levaram a se tornar um explorador e, eventualmente, perder a visão em um naufrágio.
Com sua bengala branca, ele continuou sua jornada, sentindo o sol da tarde esquentando seu rosto. Ele passou por algumas ruas movimentadas, ouvindo os sons da cidade se misturarem em um zumbido constante. Christof se deteve por um momento quando escutou o som de uma música que lhe era familiar. Ele sentiu uma onda de nostalgia e tristeza quando percebeu que era uma canção que ele costumava ouvir sua esposa cantar.
♫ Navegando sem destino, no mar eu me perdi
Foi quando encontrei você, a minha luz no céu
Deixei meu coração nas ondas do mar azul
E tudo o que eu queria era ser seu amor fiel
Mas agora a última viagem ao mar azul
Foi a que fiz com você, meu amor, minha paixão
Eu nunca vou esquecer, sempre em meu coração
A última viagem ao mar azul
Os ventos mudaram, e você partiu
Deixando-me sozinho, sem ter a quem pedir
Agora eu navego sozinho, sem saber onde ir
E em cada onda quebrada, eu vejo você sorrir
Mas agora a última viagem ao mar azul
Foi a que fiz com você, meu amor, minha paixão
Eu nunca vou esquecer, sempre em meu coração
A última viagem ao mar azul
Eu continuo navegando, mesmo sem destino
Mas sinto sua presença em cada gota de brilho
E quando a noite chega, eu olho para o céu
E vejo você lá, como uma estrela azul
Mas agora a última viagem ao mar azul
Foi a que fiz com você, meu amor, minha paixão
Eu nunca vou esquecer, sempre em meu coração
A última viagem ao mar azul
E mesmo que eu nunca mais volte ao mar
Eu sempre vou me lembrar
Da nossa última viagem, do nosso amor
Que agora é uma estrela brilhante no céu. ♫
Ele continuou a caminhar, a música agora uma melodia distante em sua mente. Logo, ele se viu diante da velha faculdade onde costumava lecionar: Sarconne. As paredes de pedra se erguiam ao seu redor, as janelas altas e estreitas pareciam olhar para ele como se lembrassem do homem que um dia caminhava por seus corredores. Christof fechou os olhos e respirou fundo, sentindo a vibração da energia que emanava daquele lugar tão especial.
Enquanto ele estava perdido em pensamentos, uma jovem estudante o interrompeu para perguntar se ele precisava de ajuda."Olá, o senhor precisa de alguma coisa.
"Obrigado." Ele agradeceu a gentileza, "Mas estou visitando visitando a velha faculdade" Explicou o homem com convicção. A jovem sorriu para ele e se afastou, deixando Christof novamente em seus pensamentos.
Ele se aproximou da entrada principal da faculdade, sentindo a textura fria da pedra em suas mãos. Ele sabia que a vida que escolheu havia mudado tudo, mas ainda assim, ele amava esse lugar. Christof era grato por ter tido a chance de lecionar ali e tocar as vidas de tantos jovens estudantes. Ele sabia que ainda havia muito a ser feito, e talvez, um dia ele pudesse se redimir por suas escolhas passadas. Com a mão sobre a porta de entrada, ele inspirou profundamente, pronto para entrar e reviver memórias antigas.
A taverna Rebimboca da Parafuseta estava repleta de clientes animados, mas Drake e Friederich se destacavam. Eles estavam imersos em uma partida intensa de Necromante, com sorrisos nos lábios e uma confiança palpável em cada jogada. A sorte parecia estar do lado deles, e o dinheiro em sua frente só aumentava. Os outros clientes da taverna observavam com inveja e admiração enquanto os dois amigos jogavam com habilidade e estratégia.
Entre eles estava a jovem inventora que havia conversado com Francisco mais cedo. Ela estava fascinada com a destreza dos dois jogadores e não pôde deixar de admirá-los.
"Vocês são realmente bons nisso", disse ela, sorrindo para Drake e Friederich. "Eu nunca ganhei tanto dinheiro jogando Necromante."
Drake deu de ombros modestamente. "É tudo uma questão de sorte", ele disse. "Mas obrigado."
Friederich não conseguia resistir à tentação de se gabar. "E também ajuda que Drake esteja jogando com cartas marcadas e..." antes que pudesse terminar a frase, Drake o chutou discretamente por debaixo da mesa.
A menina concordou com a cabeça, admirada pela inteligência dos dois jogadores. "Você é um caçador de monstros de Zielkfrat, certo? É uma honra conhecer um pessoalmente. Sou Maxinne, Maxinne Laurent"
Friederich sorriu com satisfação. "O prazer é meu", ele disse.
Drake interveio. "Eu sou apenas um mercenário. Não tão nobre quanto um caçador de monstros, mas ainda assim útil."
"Você é mais do que útil", disse Maxinne, seus olhos brilhando enquanto ela olhava para Drake e ajustava o cabelo atrás da orelha.
Eles continuaram jogando e bebendo cerveja, mergulhados em seu próprio mundo de estratégia e diversão. Mas, em breve, Maxinne olhou para o relógio na parede e percebeu que estava atrasada.
"O almoço como papai! Desculpe, eu preciso ir", ela disse, levantando-se da mesa. "Foi ótimo conversar com vocês."
Drake e Friederich acenaram para ela enquanto ela saía, e então se entreolharam. "Ela é uma garota interessante", disse Drake.
"Interessada em mim, você quer dizer", disse Friederich, com um sorriso presunçoso.
Drake arqueou as sobrancelhas e riu. "Claro."
A faculdade de Sarconne, é um imponente edifício de pedra cinza situado no coração da cidade. É conhecida como uma das principais instituições de ensino do país. A faculdade foi fundada há séculos, com o objetivo de fornecer treinamento especializado em diversas áreas. Desde então, a faculdade vem produzindo alguns dos maiores nomes dos mais variados ramo em todo o país.
Ao contrário de muitas outras partes da cidade, a tecnologia Tecno-vapor ainda não se espalhou completamente pela faculdade de Sarconne. De fato, é uma das poucas construções na cidade que se recusa a usar a tecnologia Tecno-vapor, preferindo em vez disso continuar a confiar em práticas mais tradicionais. Isso faz com que a faculdade seja um lugar único na cidade, onde os visitantes podem sentir como se estivessem voltando no tempo.
Um outro fator que torna a faculdade de Sarconne única é a presença de gnomos. Essas criaturas mágicas são frequentemente encontradas pelos jardins e corredores da faculdade. Eles ajudam a manter a ordem e a segurança do campus, além de serem responsáveis por cuidar de muitas das plantas e animais que habitam a área. Os gnomos são muito valorizados pelos estudantes e professores da faculdade, e muitos deles acreditam que a presença dessas criaturas mágicas é o que mantém o espírito da faculdade vivo e vibrante.
Christof Dior entrou na sala do antigo colega, Professor Marvin Decateau, com passos confiantes e firmes, apesar de sua cegueira. A sala do Professor é um ambiente fascinante, repleto de livros, pedras preciosas e mapas antigos. O ar é denso com a poeira acumulada nos cantos e nas prateleiras de madeira escura que abrigam os inúmeros artefatos. A iluminação é fraca, proveniente de velas que queimam lentamente em candelabros de prata antigos.
Uma grande mesa de madeira está no centro da sala, coberta de livros empilhados e amostras de pedras preciosas. O Professor Decateau se encontrava sentado em sua poltrona de couro, por trás da mesa, examinando um diamante ou esmeralda com sua lente de joalheiro. As paredes são revestidas com um papel de parede floral envelhecido, e quadros antigos e poeirentos de antigos joalheiros e colecionadores de pedras preciosas decoram as paredes. Uma pequena lareira crepita no canto da sala, aquecendo a sala em dias frios.
Atrás da mesa, há uma grande estante de carvalho cheia de livros raros e manuscritos. Uma escada de madeira leva até o topo, onde livros de gemologia e mapas antigos são guardados. Em uma pequena mesa próxima à estante, há um pequeno microscópio e ferramentas para cortar pedras preciosas. Na sala do Professor Decateau, é possível sentir a história e a tradição da gemologia. O conhecimento e a paixão do professor pelas pedras preciosas são evidentes em todos os cantos da sala.
"Estou entrando." Disse Christof ao seu velho Amigo.
O professor ficou surpreso ao ouvir a voz do antigo amigo e se levantou da cadeira para recebê-lo. Seus dedos enrugados se fecharam em torno dos braços de Christof, enquanto ele o abraçava com força, a alegria evidente em seu rosto enrugado.
"Christof! É você mesmo?" exclamou Marvin, enquanto abraçava o amigo.
"Sim, sou eu", respondeu Christof com um sorriso. "Eu estava na cidade e decidi passar para te visitar."
Marvin olhou para Christof, lembrando das aventuras recentes que ouvirá sobre o Herói. "Eu ouvi sobre suas aventuras no último mês. Você é um herói agora, deveria ser chamado de 'Herói de Kristadelle'", disse Marvin com uma risada.
Christof pareceu não se importar com o título, mas sorriu ao ouvir a brincadeira do amigo. "Ah, Marvin, você sempre sabe como me fazer rir", respondeu Christof.
Marvin ofereceu uma cadeira a Christof e os dois amigos se sentaram. Por um momento, Christof hesitou em compartilhar uma descoberta em particular. Ele sabia que poderia mudar o rumo das coisas. Mas, por fim, decidiu falar.
"Marvin, eu encontrei algo que mudará tudo o que sabemos sobre a história antiga", disse Christof, com um ar sério.
Marvin ficou surpreso e curioso. "O que é isso, Christof? Conte-me mais", pediu ele.
Christof respirou fundo e começou a contar a história. "O que sabe sobre Feijões Mágicos?"
Marvin riu achando se tratar de uma piada. Mas logo reparou o semblante sério de Christof. "Estás a me caçoar?"
"Não..." Disse Christof. "Escute-me antes de me acusar de louco. Afinal, qual de nós dois viajou por essas terras encontrando todo tipo de objetos místicos?"
"Você." Respondeu Marvin enquanto se levantava para servir uma bebida forte para ele e seu convidado.
"E quem recuperou eles para os muses sem pedir nada em troca?" Continuou Christof.
"Sim, eu sei: Você. Já entendi... Prossiga." Disse Marvin se sentando e esperando para ouvir a nova descobertar de Christof.
Christof sorriu, feliz com sua vitória. "Marvin, eu conheci um nobre chamado Jack Horner, que afirmou ter em sua posse feijões mágicos. Ele me contou que esses feijões têm poderes incríveis e que, se usados corretamente, podem mudar o curso da história. Eu sei que parece loucura, mas eu acredito nele. E o mais importante, eu acredito que você pode fazer algo incrível com eles."
Marvin ficou surpreso e curioso. "O que você quer dizer, Christof? Eu sou um professor de Gemologia. O que eu faria com um feijão mágico?"
Christof sorriu e explicou a sua ideia. "Bem, Marvin, você é o homem em que eu mais confio nessa Acadêmia, e seu cargo lhe permite acesso há alguns laboratórios daqui."
Marvin ficou intrigado. "E o que você quer que eu faça, Christof?"
Christof se virou em direção da voz de Marvin. "Eu quero que você use seus conhecimentos, contatos e perícias para conduzir alguns experimentos com os feijões. Eu acredito que você pode encontrar algo incrível. E se conseguirmos desbloquear o segredo do diamante do tesouro, poderemos mudar o curso da história."
Marvin ficou em silêncio por um momento, ponderando as palavras de Christof. Ele sabia que as lendas antigas sempre tinham alguma base na realidade, mas nunca pensou que poderia ser possível desbloquear seus segredos com a ajuda de feijões mágicos. Ele finalmente olhou para Christof e disse: "Tudo bem, eu vou fazer isso. Mas, como eu vou obter esses feijões?"
Christof sorriu, sabendo que tinha convencido Marvin. "Eu vou falar com Jack Horner e ver se posso conseguir que ele envie alguns para você. E eu vou te ajudar com tudo o que você precisar. Nós vamos desbloquear esse segredo juntos, Marvin."
Marvin responde Christof com um sorriso sincero. "É ótimo ter você de volta, meu amigo. Sinto falta da nossa parceria como docentes." Marvin deixa escapar uma risada nostálgica, lembrando dos velhos tempos. "Só falta Gaètan para completar o nosso trio novamente."
O semblante sério de Christof chama a atenção de Marvin. "Há algo mais delicado que eu preciso discutir com você, Marvin. Eu troquei algumas cartas com Gaètan no mês passado sobre Lorenzini."
Marvin fecha a porta da sala e se volta para Christof com um olhar sério. "Precisamos ter cuidado ao falar sobre esse nome aqui. É perigoso demais."
Christof fica perplexo. "Ele não me contou muito, apenas que veio de uma família poderosa de príncipes mercantes em Lombardia e..."
Marvin o interrompe, respirando fundo. "Gaètan se demitiu e deixou a cidade por causa das ameaças que recebeu de Lorenzini."
A revelação deixa Christof ainda mais chocado. "Então é verdade? Lorenzini é um mestre do crime?"
Marvin confirma com a cabeça. "Sim, e é extremamente poderoso e perigoso. Gaètan teve que fugir para garantir sua segurança e a de sua família."
Christof fica em silêncio por alguns instantes, tentando assimilar a gravidade da situação. "Eu sabia que a situação era grave", ele finalmente diz. "Eu relatei em minhas cartas a Gaètan que tive um problema com um dos homens dele, chamado Hallux Wenthor. Gaètan relutou em compartilhar comigo o que sabia."
Marvin olha para Christof com expressão séria. "Lorenzini é um vilão implacável, meu amigo. Você precisa ter cuidado. Gaètan pagou um preço alto por se envolver com ele."
Christof assente, compreendendo a gravidade da situação. "Eu entendo, Marvin." Ele se levanta da cadeira. "Acho que devo ir agora."
Francisco e Artemis finalmente chegaram aos degraus da Biblioteca de Tassagase. A Biblioteca de Tassagase é uma construção imponente que se destaca no quarteirão da Universidade de Sarconne. Com uma entrada majestosa, suas portas duplas em mogno esculpidas à mão apresentam detalhes dourados que chamam a atenção de qualquer um que passa. Logo na entrada, duas estátuas de esfinges gregas com asas se encontram guardando a biblioteca, como se fossem sentinelas protetores do conhecimento que está por vir.
A escadaria para acessar a biblioteca é igualmente impressionante, com degraus amplos e robustos, cada um deles feito em mármore branco brilhante. As esfinges nas laterais da escadaria se assemelham às que estão na entrada, como se guiassem os visitantes para o interior da biblioteca.
Ao chegar ao topo da escadaria, Francisco e Artemis conseguem avistar os detalhes da fachada da biblioteca, que se estende por vários andares e é adornada com ornamentos em pedra esculpidos a mão. Cada janela é cercada por um frontão elegante, com colunas e arcos decorativos que dão a impressão de um palácio em vez de uma biblioteca.
Enquanto se aproximavam dos degraus da Biblioteca de Tassagase, o coração de Artemis batia mais forte, como se uma promessa de grandes descobertas estivesse à sua espera. Ela olhava em volta, maravilhada com a imponência do complexo e a beleza da entrada, guardada pelas duas estátuas majestosas de esfinges gregas.
Mas era o movimento constante de eruditos, estudantes e mestres que chamava sua atenção. Era como se cada um tivesse um papel a desempenhar naquele relógio perfeito, em um fluxo orquestrado que prenunciava uma grandeza de ideias que parecia inesgotável.
Enquanto isso, Fransisco sentia-se animado e intrigado. Uma visão noturna com a Dama Faérica ainda ecoava em sua mente, como um presságio do que poderia encontrar na biblioteca. O que significava aquela mulher mística? Como a história da cidade e de seus habitantes estavam ligados a ela? Fransisco mal podia esperar para explorar a biblioteca e encontrar as respostas para suas perguntas.
Juntos, Artemis e Fransisco atravessaram os portões da biblioteca, prontos para mergulhar em um mar de conhecimento e sabedoria, esperando que a viagem deles fosse recompensada com um tesouro inestimável de verdades reveladas.
Fransisco e Artemis ficaram impressionados assim que adentraram a Biblioteca de Tassagase. Era como se tivessem entrado em um mundo completamente novo, com livros e conhecimento em todas as direções. A construção era ainda mais impressionante por dentro, com corredores e mais corredores de estantes de livros enormes que iam até onde o olho alcançava. Era impossível não se sentir um pouco intimidado pela grandiosidade daquele lugar.
Enquanto se familiarizavam com o ambiente, os heróis perceberam algo inusitado: pequenos trilhos de metal que se estendiam por todo o complexo da biblioteca. Eles se cruzavam e se separavam, indo em todas as direções, como se fossem as veias que alimentavam aquele enorme coração de conhecimento. Fransisco e Artemis ficaram intrigados com aquela tecnologia tecnovapor, tão avançada para a época em que se encontravam.
Artemis e Fransisco caminhavam lentamente entre as estantes repletas de livros, admirando a grandiosidade da biblioteca. Enquanto observavam as pequenas trilhas de metal que se estendiam por todo o complexo, avistaram um gnomo sentado em sua cadeira alta, cercado por pilhas de livros e anotando algo em um pedaço de papiro apoiado sobre um pedestal.
Ele tinha cerca de um metro de altura. Seu rosto redondo e enrugado parecia uma uva passa branca, e seus olhos miúdos escondiam-se atrás de óculos com grandes lentes que ampliavam seu olhar curioso. Sua barba branca e densa tampava seu queixo, e seu cabelo era um emaranhado de fios grisalhos que caíam até os ombros. Ele usava um robe azul-claro, amarrado na cintura com um cordão de seda preta, e suas botas de couro preto eram surradas pelo tempo. Seu cheiro era uma mistura de mofo e poeira, mas também havia um aroma suave de ervas e especiarias, que indicava que ele estava acostumado com o ambiente da biblioteca.
Artemis e Fransisco se aproximaram, tentando não fazer barulho para não perturbar o gnomo que parecia muito concentrado em sua tarefa.
"Bem-vindos à biblioteca de Tassagase. Por favor, mantenham o silêncio e a ordem e procurem não danificar os nossos estimados livros!", disse o gnomo com uma voz fina e suave.
"Boa tarde", cumprimentou Artemis educadamente. "Nós estamos procurando por alguns livros específicos. Você poderia nos ajudar?"
"É claro", respondeu o gnomo. "Eu sou o bibliotecário daqui. Meu nome é Tracryn e estou à disposição para ajudá-los no que precisarem."
"Entendido", disse Fransisco. "Nós estávamos nos perguntando se você busca os livros para nós ou se podemos pegá-los diretamente nas estantes."
"Ah, vocês podem usar os Chercheurs à vontade", respondeu Baldo apontando para algo atrás dos Heróis no corredor de onde eles vieram. "Eles são projetados para ajudá-los a encontrar os livros que desejam. Basta digitar o título, palavra chave ou autor e eles guiarão a localização na estante. Por favor, mantenham a ordem e silêncio enquanto estiverem aqui."
"Entendido", disse Artemis. "Muito obrigada pela ajuda, Tracryn."
"Não há de quê", respondeu o gnomo com um sorriso amigável. "Aproveitem a biblioteca e qualquer dúvida, estarei à disposição."Enquanto conversavam com ele, Artemis e Fransisco perceberam que Tracryn era uma figura peculiar, com um jeito divertido. Ele falava com uma voz aguda, mas firme, e gesticulava muito com as mãos, como se estivesse regendo uma orquestra imaginária. Apesar de sua aparência idosa, ele se movia com agilidade e parecia ter uma energia inesgotável quando se tratava de cuidar da biblioteca.
Eles se dirigem até o 'Chercheurs'. Uma engenhoca impressionante, criada para ajudar os visitantes da Biblioteca de Tassagase a encontrar facilmente os livros que procuram. O Chercheurs é uma maravilha da engenharia tecnovapor, com um corpo dourado que lembra um inseto mecânico. Ele possui vários braços e patas terminados em pinças e agulhas, perfeitamente projetados para manipular livros e folhear páginas com delicadeza.
O Chercheurs se movimenta pela biblioteca em trilhos de metal que se cruzam e separam entre as estantes. Sua cabeça irregular e engrenagens aparentes parecem lhe permitir examinar e analisar cada prateleira da biblioteca em busca do livro que o visitante está procurando. Nas costas do Chercheurs, há buracos onde são depositados pergaminhos e outros documentos. Parece que a máquina pode carregar livros em sua parte inferior, que é um carrinho que desliza pelos trilhos.
No topo do carrinho, há várias peças com letras e números, que parecem controlar o movimento do Chercheurs e o conteúdo que ele carrega. Uma das maravilhas da engenharia tecnovapor é que o Chercheurs pode ser facilmente operado pelos visitantes. Basta digitar o título, palavra-chave ou autor do livro desejado em um teclado que fica em seu carrinho. Em seguida, a máquina se movimenta rapidamente pelos trilhos em busca do livro e o entrega nas mãos do visitante.
Enquanto isso, o bibliotecário Tracryn permanece sentado em sua cadeira alta, cercado por pilhas de livros e anotando algo em um pedaço de papiro. Ele olha com aprovação enquanto o Chercheurs ajuda os visitantes a encontrar seus livros. É importante lembrar que, embora o Chercheurs possa ser de grande ajuda, os visitantes devem manter a ordem e o silêncio na biblioteca e não danificar os estimados livros.
Seu funcionamento é baseado em um sistema mecânico de busca, utilizando engrenagens e alavancas para guiar o carrinho ao longo dos trilhos e encontrar a estante correta. Para identificar os livros solicitados, os Chercheurs possuem um sistema de indexação baseado em palavras-chave, autores e títulos, gravados em placas de metal que contém letras e números. Quando uma busca é realizada, as placas são selecionadas e montadas de maneira a formar uma sequência que corresponde ao item solicitado.
Ao encontrar o livro, os Chercheurs utilizam suas pinças ou agulhas para puxá-lo da estante e depositá-lo em seu carrinho. É importante ressaltar que os Chercheurs são projetados para trabalhar em conjunto com os bibliotecários, que supervisionam todo o processo de busca e retirada dos livros para garantir a integridade do acervo e a ordem na biblioteca.
Em resumo, os Chercheurs são máquinas tecno-vapor com tecnologia mecânica de busca baseada em indexação de palavras-chave e placas de metal com letras e números para identificação dos livros.
Fransisco olhou para Artemis com um olhar receoso antes de digitar as palavras-chave no painel do Chercheurs. "Canela e Fada", ele digitou lentamente, como se esperasse que alguma coisa fosse explodir a qualquer momento. Artemis incentivou o amigo a continuar. "Vai á Fransisco, não deve ser díficil".
Assim que Fransisco digitou a última letra, o Chercheurs começou a se mover. Ele se deslocou em um trilho, deslizando suavemente pelas estantes, até chegar a uma seção específica. Com um som metálico, o Chercheurs se estendeu, revelando uma espécie de braço mecânico com pinças afiadas. Lentamente, o Chercheurs pegou um livro, colocando-o em cima do carrinho que servia como seu corpo.
Fransisco ficou impressionado com a precisão do Chercheurs. Ele nunca havia visto nada parecido antes. E lá estava o livro, intitulado "Fadas e o aroma da Canela", bem na frente dele. Ele olhou para Artemis, com os olhos arregalados de surpresa e admiração. Artemis sorriu, sabendo que Fransisco estava assombrado com a tecnologia tecno-vapor da biblioteca.
O livro encontrado é encadernado em couro marrom escuro com uma textura envelhecida, dando a impressão de ter sido manuseado por muitos anos. As bordas das páginas estão amareladas e algumas estão um pouco rasgadas, indicando que o livro tem sido lido e relido por muitos leitores ao longo do tempo. A capa do livro apresenta o título em letras douradas, com uma fonte antiga e elegante, e uma ilustração de uma fada sentada em uma folha de árvore, segurando um ramo de canela. A ilustração é feita em tons de marrom e verde, com detalhes intrincados e precisos que revelam a habilidade do ilustrador.
Ao abrir o livro, é possível perceber que o papel é de alta qualidade, com uma textura suave ao toque. As letras são impressas com uma tinta escura, em uma fonte clara e fácil de ler. Algumas páginas possuem ilustrações coloridas de fadas, flores e plantas aromáticas, trazendo vida e beleza ao livro. No geral, a aparência do livro transmite uma sensação de antiguidade e sabedoria, com um toque de magia e fantasia, combinando perfeitamente com o conteúdo sobre fadas e o aroma da canela.
Fransisco sentou-se com reverência, suas mãos trêmulas acariciando a capa do livro empoeirado, como se estivesse acariciando o mistério que o aguardava. Ele deslizou os dedos pelos cantos da capa, sentindo a textura do couro gastado e do papel antigo, antes de abri-lo com cuidado.
As letras impressas na página se arranjaram em palavras, que formaram frases, que por fim responderam à pergunta que o havia levado até ali. Fransisco leu avidamente, absorvendo cada palavra com devoção e reverência, enquanto uma luzinha de entendimento se acendia em seu olhar.
Finalmente, ele compreendeu. O cheiro de canela, essa fragrância doce e picante que ele havia sempre associado com a cozinha de sua mãe, tinha uma conexão profunda e mágica com as fadas. Uma conexão que ele nunca havia imaginado antes, mas que agora parecia tão clara e evidente como o sol no céu.
"O aroma de canela está associado às fadas desde os tempos antigos, quando se acreditava que as fadas se escondiam dentro de canelas. Dizia-se que esses seres mágicos eram atraídos pelo aroma da canela e que este poderia ser usado para invocá-las. Na verdade, a canela era considerada uma erva sagrada pelas fadas, pois acreditava-se que possuía propriedades curativas e protetoras. Além disso, as fadas eram frequentemente retratadas carregando consigo pequenos saquinhos de canela, que eram usados como talismãs e amuletos para protegê-las de energias negativas e ajudá-las a manter sua magia forte e poderosa."
Artemis andava pelos corredores da biblioteca, fascinada pelos títulos dos livros nas prateleiras. Ela se distraiu tanto com a leitura das lombadas que nem percebeu o tempo passar. De repente, o som do velho relógio-cuco da biblioteca a fez pular. Ela olhou para o relógio e percebeu que já estava quase na hora de encontrar seus amigos na prefeitura. Artemis se virou para chamar Fransisco, mas o encontrou encostado em uma estante, lendo o livro.
"Fransisco, precisamos ir agora!" ela exclamou, puxando-o pelo braço.
O rapaz, surpreso, largou o livro de volta na estante e começou a seguir Artemis, que já corria pelos corredores em direção à saída da biblioteca.
"Perdemos a noção do tempo", disse ela ofegante enquanto corria.
"Eu percebi!", respondeu Fransisco, correndo ao lado dela. Os dois continuaram a correr até chegar à porta da biblioteca, saindo rapidamente e se dirigindo para a prefeitura.
Friedrich e Drake se sentavam em uma das mesas da Rebimboca da Parafuseta, bebendo cerveja e jogando cartas. O barulho animado das pessoas ao redor preenchia o ar, enquanto eles jogavam e bebiam sem se preocupar com o tempo.
O tempo parecia voar, e eles nem percebiam que já havia se passado uma hora desde que eles chegaram ali. Continuaram bebendo e jogando, gargalhando e fazendo piadas, enquanto a música alta e dançante tocava ao fundo. De repente, o barulho do relógio da cidade soou, fazendo Friedrich e Drake se sobressaltarem. Eles olharam para o relógio na parede e perceberam que já 14 horas.
"Friedrich, temos que ir embora!", disse Drake, levantando-se da mesa.
"O quê? Já? Mas a divresão mal começou!", protestou Friedrich, desapontado.
"Não podemos nos atrasar. Prometemos encontrar os outros na prefeitura dentro de uma hora", explicou Drake, puxando o amigo pela manga da camisa.
Friederich e Drake terminam sua bebida e se levantam para sair da taverna. Mas algo estranho começa a acontecer. Todos os indivíduos presentes parecem congelar no tempo como estátuas. Drake e Friederich olham em volta, perplexos. Os homens e mulheres ali parados parecem ter sido petrificados, suas expressões faciais e gestos estão congelados no tempo. A taverna fica em um silêncio ensurdecedor. Não há mais som de vida, apenas os maquinários tecno-vapor e os relógios emitem algum som. Friederich começa a se mover lentamente, tentando tocar em uma das estátuas, mas Drake o impede, fazendo um gesto de negação com a cabeça.
Enquanto Friedrich e Drake observavam a cena estranha, seus olhos se fixaram em alguns dos clientes que estavam congelados no tempo. Um homem idoso com barba longa estava sentado em uma mesa com um copo de cerveja na mão, mas sua expressão parecia tensa e preocupada. Uma jovem de cabelos negros estava inclinada sobre uma mesa, parecendo prestes a escrever algo em um pedaço de papel. Uma mulher com um vestido vermelho e sapatos de salto alto estava no meio de um passo de dança, seus braços levantados no ar.
Um homem de meia idade com um chapéu de feltro e um cachimbo estava sentado em um banco de madeira, olhando fixamente para a porta da taverna. Um casal estava em pé, com as mãos entrelaçadas, em um abraço apertado. Um jovem rapaz estava sentado em uma cadeira, sua mão direita esticada em direção a um prato vazio na mesa à sua frente.
Friederich e Drake observavam atônitos enquanto os clientes da taverna permaneciam congelados no tempo, como se estivessem em um museu de cera. Porém, o silêncio que pairava no ambiente foi abruptamente quebrado quando uma das pessoas congeladas começou a secreção de um líquido dourado. A pessoa congelada estava em uma posição estranha, com a boca aberta e os olhos arregalados. A princípio, parecia que estava apenas suando, mas então uma substância dourada começou a escorrer pelo rosto. Era líquida e brilhante, como se fosse feita de ouro líquido, e parecia pulsar com uma energia própria.
Os Heróis observavam em horror enquanto a substância escorria pelos ouvidos, nariz e boca da pessoa, deixando uma trilha dourada em seu rosto. Era como se algo estivesse tentando sair de dentro dela, algo que não deveria estar lá.
De repente, Os olhos da pessoa congelada se abriram e lentamente sua cabeça se virou em direção aos heróis, sua boca se abriu em um sorriso sinistro. Uma voz estranha e distorcida saiu de sua boca: “Uma boa tarde para vocês, Friederich Schnee e Drake Walker.” O líquido escorria pelo rosto e roupas da vítima, manchando o chão de um amarelo brilhante.
Drake e Friedrich permaneciam paralisados, seus olhos fixos nos corpos congelados na taverna enquanto a voz parecia trocar de hospedeiro, possuindo um a um os clientes que ali estavam.
Com uma destreza impressionante, a voz se projetava por meio de cada corpo, e a substância dourada fluía dos olhos, nariz, boca e ouvidos de cada um, como se fosse um rio brilhante.
"Eu vim oferecer um acordo imperdível para os grandes heróis de Kristadelle", disse a voz, vinda de um homem de barba longa e grisalha.
Drake e Friedrich se olharam em silêncio, sem saber o que fazer ou dizer diante daquela ameaça.
"Assinem esse contrato, fiquem LONGE DE JACK HORNER... Não o ajudem. Não falem com ele. Larguem esse serviço que eles lhe oferece AGORA!", continuou a voz, agora vinda de uma jovem mulher de cabelos escuros.
Uma aura malévola e ameaçadora envolvia o local, enquanto o ar pesava nos pulmões dos dois heróis. A mulher de cabelos escuros ergueu sua mão, e imediatamente uma folha de pergaminho apareceu em seus dedos, como se por magia. O pergaminho tinha um brilho dourado, e uma substância líquida e brilhante escorria dele. As palavras estavam escritas em uma caligrafia antiga e elegante, também em um tom dourado, quase como se fossem feitas de ouro líquido.
O documento era bem grande, com cerca de duas folhas de papel coladas juntas e continha várias cláusulas e condições detalhadas que os heróis não podiam ler devido à distância. Os heróis notaram que a mão da mulher estava coberta pela mesma substância dourada que escorria dos olhos e ouvidos dos corpos congelados na taverna, como se a tinta do contrato estivesse sendo produzida por ela.
"Mas o que é esse contrato? E quem diabos é você?", perguntou Friedrich, tentando se manter firme com a mão no cabo de sua espada embainhada.
"Meu nome? Bem, meu nome não é importante, por agora. Mas para facilitar nossa comunicação vocês podem me chamar de... Senhor R! Que tal?", respondeu a voz, agora saindo da boca de um homem idoso de óculos.
Drake e Friedrich trocaram um olhar rápido, surpresos com aquele nome familiar. Eles o reconheceram de sua aventura no mês passado.
"Não podemos assinar um contrato sem saber do que se trata. E por que devemos ficar longe de Jack Horner?", perguntou Drake, desconfiança clara em seu rosto.
A voz pareceu satisfeita com a resposta dos heróis, e então mudou para um tom mais ameaçador.
"Então essa é resposta final de vocês?", perguntou a voz, agora vinda da boca de um jovem rapaz de cabelos loiros.
Os heróis olharam um para o outro, sabendo que estavam em uma situação perigosa. Mas também sabiam que não podiam ceder a chantagem.
"Sim, é nossa resposta final", afirmou Friedrich, sua voz firme apesar do medo que sentia.
A voz pareceu frustrada e então desapareceu lentamente, deixando para trás os corpos congelados que agora começavam a se mover novamente, como se nada tivesse acontecido. Os heróis olharam em volta, aliviados e ao mesmo tempo perplexos com o que acabara de acontecer. Uma sensação de medo e desconforto permanecia no ar, mas eles sabiam que precisavam continuar sua busca por respostas.
A torre do relógio que serve como prédio para Prefeitura de Paranes é uma estrutura imponente e impressionante. Ela é construída em pedra e tijolos, com janelas arqueadas em cada andar. No topo da torre, há um grande relógio de bronze que bate as horas com precisão e pode ser visto de várias partes da cidade. A torre é decorada com detalhes em ferro fundido, que dão a ela um ar elegante e sofisticado.
Em cada canto da torre, há grandes estátuas de gárgulas que servem como guardiães da cidade, criando uma atmosfera macabra e imponente. Com suas asas abertas, presas ao corpo de pedra, elas pareciam estar prontas para voar em direção aos céus, caso algo ameaçasse a cidade. As criaturas eram feitas de pedra escura e desgastada, e suas feições grotescas pareciam ganhar vida quando a luz da lua iluminava a cidade. Seus olhos salientes e sua boca aberta pareciam convidar os incautos a se aproximarem, mas todos sabiam que era melhor manter uma distância segura.
Uma curiosidade que todos os cidadãos da cidade sabiam era que as gárgulas eram consideradas protetoras da cidade. Dizia-se que elas haviam sido criadas por um grande mago para ficar de vigília sobre um mal que foi enterrado abaixo da cidade. E mesmo que a cidade já tivesse sido poupada de grandes perigos, como invasões de exércitos inimigos ou desastres naturais, todos sabiam que as gárgulas estavam lá para protegê-los, caso algo acontecesse.
Christof Dior, estava impaciente em frente ao majestoso prédio da Prefeitura de Paranes. A torre do relógio, que se erguia imponente ao lado do prédio, indicava que os jovens heróis da equipe estavam quase meia hora atrasados para a reunião.
Enquanto esperava, Christof fitava, sem pode ver, com seus olhos brancos e cegos a grandiosidade da torre do relógio, que parecia ser a principal atração do centro da cidade tecnovapor. Mas a beleza do cenário não acalmaria a mente inquieta de Christof, nem se ele pudesse ver. Ele não conseguia evitar a preocupação com o atraso dos jovens heróis. Ele tentava imaginar as possíveis razões para o atraso, mas sua impaciência crescia a cada segundo que passava.
De repente, Christof ouviu o som de passos se aproximando, e logo as vozes ofegantes de Artemis e Francisco, correndo pela rua em direção ao prédio da Prefeitura. Christof suspirou aliviado ao perceber que eles finalmente haviam chegado, mas ao mesmo tempo ficou um pouco irritado com o atraso.
"O que aconteceu com vocês? Mais de vinte minutos de atraso!", disse Christof, seu tom de voz denotando sua impaciência. Seus olhos brancos pareciam chamejar com a fúria, fazendo-o parecer ainda mais imponente.
Artemis tentou começar a se justificar, mas Christof a interrompeu com um gesto impaciente. "Não importa agora. Precisamos nos apressar e ir para a reunião... Agora aonde estão Schnee e Drake?", disse Christof, seu ouvido aguçado buscando pela voz dos rapazes.
Drake e Schnee corriam pelas ruas movimentadas da cidade, suas respirações ofegantes ecoando no ar. Christof os esperava impaciente, seu rosto carrancudo denotando sua irritação com o atraso dos dois.
"Finalmente vocês chegaram. Onde estavam?", falou Christof com um tom duro e irritado.
Schnee sorriu de forma irônica, alfinetando seu colega. "Desculpe, professor. Perdemos a hora do intervalo?"
Mas a irritação de Christof não diminuiu, e ele continuou a repreender os dois atrasados. "Vocês sabem que não podemos nos dar ao luxo de atrasos. Jack Horner nos confiou a missão de buscar a documentação para a escuna."
Drake, então, interrompeu a bronca de Christof com um tom mais calmo. "Se o senhor tivesse visto o que nós vimos, não estaria tão irritado. Fomos visitados por alguém. Alguém que queria nos manter longe de Jack Horner." Drake parou por um momento, tentando racionalizar o evento sobrenatural que ele testemunhou alguns minutos atrás. "Ele usou alguma espécie de toxina na taverna, que fez com que os clientes ficassem estranhos e..."
Friederich Schnee, então, cortou o amigo. "Nada disso." Diferente de Drake, Schnee sabia sobre o lado oculto do mundo. "Foi feitiçaria, e das poderosas. Ele influenciou a mente de todos os clientes, se apossou de seus corpos para falar conosco."
Francisco fez o sinal da cruz enquanto Friederich continuava a narrar os eventos.
Artemis ficou surpresa com os relatos dos amigos e questionou. "E quem era essa coisa?"
Drake olhou temeroso em dar a resposta. "Ele se apresentou como Senhor R."
Os heróis se entreolharam, reconhecendo o nome das cartas que encontraram na última missão, um mês atrás. O vilão que estava maquinando o sequestro das crianças finalmente havia se revelado para eles.
Christof parecia um pouco preocupado diante da notícia, mas ainda mantinha uma expressão calma. "Isso é sério. Temos que discutir isso com Jack quando voltarmos. Mas agora temos algo mais urgente para lidar."
Enquanto os Heróis discutiam a respeito da aparição do Senhor R, um clamor agitado surgiu da praça central próxima. Ainda atrasados para seu encontro com o alcaíde Gepetto, eles correram em direção ao tumulto, ansiosos para descobrir o que estava acontecendo.
A Praça Central de Paranes é uma grande área aberta, cercada por construções altas e majestosas feitas de pedra e tijolo. No centro da praça, há uma fonte de água corrente com esculturas intricadas de criaturas míticas, uma sereia com a cauda em forma de peixe, segurando uma concha em uma das mãos e com a outra apoiada na borda da fonte. Ao lado dela, há uma figura alada com chifres de cabra, que parece estar prestes a decolar. Na outra extremidade da fonte, há uma escultura de um dragão, com as asas abertas e a boca aberta em um rugido silencioso. A água jorra da boca do dragão e das conchas seguras pela sereia, formando uma bela cascata que cai na bacia abaixo. Todas as esculturas são feitas de pedra cinza e têm detalhes intricados que parecem dar vida às criaturas místicas.
A água corre por canais ornamentados em direção aos quatro pontos cardeais. Os canais são cercados por bancos de pedra onde as pessoas podem sentar e apreciar a vista. Ao redor da praça, há muitas lojas e estabelecimentos comerciais. Há uma série de barracas e feiras de rua vendendo mercadorias variadas, como frutas frescas, pães, queijos, roupas e artesanato local.
A arquitetura das construções ao redor da praça apresenta elementos de influência gótica e renascentista, com detalhes ornamentais em relevo esculpidos em pedra. Algumas das construções são iluminadas por lâmpadas de gás, que lançam uma luz suave e brilhante sobre a praça à noite. A praça é um ponto de encontro popular para os habitantes de Paranes, que muitas vezes se reúnem aqui para conversar, socializar e apreciar a atmosfera vibrante e agitada da cidade.
Quando chegaram à praça, viram um grupo de homens e mulheres reunidos em torno de algo. Alguns dos presentes estavam chorando, enquanto outros gritavam e apontavam para o centro da multidão.
Os Heróis se aproximaram cautelosamente, tentando encontrar um espaço entre a multidão agitada. Quando finalmente conseguiram uma visão clara, viram a visão aterrorizante do final de um evento brutal. Uma jovem menina jazia no chão, sua barriga esfaqueada e seus dentes quebrados.
O grupo ficou horrorizado com a cena que se desenrolava diante deles. Os Heróis reconheceram a menina de mais cedo. Era Maxinne Laurent, a inventora que eles encontraram na Rebimboca da Parafusseta.
Maxinne Laurent estava deitada no chão, encolhida em posição fetal, segurando sua barriga com as duas mãos. Seus olhos estavam fechados e suas lágrimas molhavam sua pele pálida. A sua volta, as pessoas olhavam de longe, assustadas e com expressões de horror em seus rostos. A blusa que a inventora usava estava rasgada, deixando à mostra a ferida ensanguentada em sua barriga. Havia também marcas de sangue em seus dentes quebrados, sugerindo que ela havia sido espancada antes de ser esfaqueada.
Drake foi o primeiro a reagir, indo ajudar a menina agonizante enquanto os outros tentavam afastar a multidão. Schnee examinou a cena com um olhar afiado, tentando discernir o que tinha acontecido. Ele notou marcas na terra que indicavam uma luta violenta, e um rastro de sangue que levava até onde Maxinne estava caída.
Christof e Artemis tentavam interrogar a multidão agitada que se aglomerava em torno da jovem Maxinne Laurent, em busca de respostas sobre o que havia ocorrido. Enquanto isso, Francisco Herrera, com passos apressados, se aproximava da menina ferida, ajoelhando-se a seu lado. Com olhos atentos, ele observava a gravidade dos ferimentos que Maxinne apresentava, mas a jovem permanecia em um estado de choque, incapaz de proferir uma palavra sequer.
Francisco percebeu que as feridas da jovem eram graves e necessitavam de atenção imediata. Ele sentiu uma mistura de compaixão e preocupação, e rapidamente se empenhou em descobrir a causa daquela situação. A multidão em volta da jovem Maxinne estava tão agitada que era difícil obter informações claras, mas Francisco não desistiu de tentar ajudar a jovem em desespero.
Drake Walker se aproxima de Fransisco com olhos aflitos e inquisitivos, desesperado para entender a situação. Observando a jovem Maxinne tentando falar, Drake escuta atentamente enquanto ela sussurra com dificuldade: "Papai, perigo". Preocupado, Fransisco analisa a gravidade dos ferimentos da menina enquanto tenta entender as palavras que acabou de ouvir.
"Acredito que ela está tentando nos alertar que o pai dela está em perigo", responde Fransisco, olhando para Drake com uma expressão séria.
A preocupação estampada no rosto de Drake é evidente enquanto ele rapidamente coloca a segurança do pai de Maxinne em primeiro lugar. "Precisamos ajudá-la e encontrar o pai dela", diz ele, determinado em não perder mais tempo.
No entanto, Fransisco é mais cauteloso e sabe que a prioridade imediata é cuidar da jovem ferida. "Primeiro, devemos cuidar dela.", contesta Fransisco, consciente de que a saúde de Maxinne é crucial para salvar seu pai.
Maxinne, com dificuldade, tira uma chave do bolso e a entrega trêmula nas mãos de Drake. Ele a examina com curiosidade e pergunta: "O que é isso?". A jovem, com sua voz rouca e fraca, implora: "Por favor, ajudem meu pai!". O coração de Drake dispara ao sentir a urgência em sua voz e a determinação em seus olhos. Ele sabe que não pode falhar na missão de ajudar aquela garota e encontrar seu pai em perigo.
Fransisco não perde um segundo e se aproxima da jovem Maxinne com uma expressão preocupada no rosto. Ele examina a ferida com cuidado, buscando entender a extensão dos danos causados. Sua mente inquieta trabalha freneticamente, buscando soluções para a situação. Por fim, ele se vira para Drake e, em um tom de urgência, pede: "Drake! Traga-me um pouco de água e linho limpo, por favor. Preciso estancar o sangramento o quanto antes". Sua voz firme e determinada mostra que ele não tem tempo a perder e fará o que for preciso para ajudar a jovem em perigo.
Drake Walker olhou ao redor em busca de água e linho limpo para ajudar a jovem Maxinne. Ele viu uma fonte próxima e correu até lá, pegando um pouco de água fresca em uma tigela de bronze que estava ao lado da fonte. Em seguida, ele correu até a porta de uma loja de tecidos e pediu um pedaço de linho limpo para fazer um curativo. "Linho rápido! Preciso de linho, há uma pessoa ferida!"
O proprietário da loja, um velho de poucos cabelos, ficou surpreso ao ver o jovem herói entrando em sua loja em meio a tanta confusão na praça que comovido com a tragédia que havia ocorrido, rapidamente entregou a ele um pedaço de linho limpo para que pudesse ser usado como curativo. Drake correu de volta para onde Francisco estava cuidando de Maxinne, aplicando pressão na ferida.
Francisco começa a limpar a ferida com cuidado, usando água para lavar a área ao redor da ferida e vinagre para desinfetá-la. Em seguida, ele pega uma agulha e linha e começa a costurar a ferida cuidadosamente, aplicando uma compressa de ervas para ajudar a reduzir a inflamação e a dor. Francisco então busca em sua bolsa algumas folhas de uma planta chamada consolda, que ele sabe ter propriedades adstringentes e hemostáticas. Ele amassa as folhas e as coloca sobre a ferida, aplicando pressão com um pedaço de linho limpo para ajudar a parar o sangramento.
Enquanto Fransisco terminava de cuidar do ferimento de Maxinne, uma movimentação agitada tomou conta do local. O som dos cascos dos cavalos ecoava pelas ruas enquanto os guardas de Paranes chegavam. Um tenente se aproximou, ordenando que todos os civis presentes fossem retirados dali imediatamente. Drake e Schnee tentaram protestar, mas foram brutalmente arrastados para longe, mesmo enquanto se debatiam e gritavam.
Fransisco se aproximou do tenente, indicando para que ele olhasse para Maxinne que ainda estava deitada no chão, claramente abalada e sem condições de se mover. "Ela não pode fazer esforço", alertou Fransisco, mas o tenente ignorou a sua fala e ordenou que todos fossem levados para longe dali.
Christof e Artemis assistiam à cena chocados, sem poder fazer nada para impedir a situação. Era como se toda a cidade de Paranes estivesse trabalhando contra eles, tentando impedi-los de desvendar o mistério por trás do ataque a Maxinne e do paradeiro de seu pai.
O tenente se aproximou com passos firmes e rápidos, vestindo o uniforme impecável da Guarda de Paranes. Ele tinha uma expressão séria e austera no rosto, e seus olhos pareciam varrer tudo ao seu redor em busca de alguma pista ou suspeito.
"O que aconteceu aqui?" perguntou ele, olhando para Fransisco com desconfiança.
Fransisco levantou-se com dificuldade, limpando as mãos nas calças antes de responder. "Encontramos essa jovem ferida aqui. Parece ter sido atacada por alguém."
O tenente franziu a testa, observando Fransisco atentamente. "E quem é você? O que estava fazendo aqui?"
"Eu sou Fransisco", respondeu Fransisco, com um tom de voz firme. "Eu estava passando por aqui e vi a jovem precisando de ajuda."
O tenente fez uma pausa, olhando de Fransisco para Christof, que permanecia ao seu lado. "E você, senhor, quem é?"
"Eu sou Christof Dior, professor aposentado de Sarconne", respondeu ele com calma. "Estava caminhando com meu amigo Fransisco quando encontramos a jovem ferida."
O tenente parecia ainda mais desconfiado. "E vocês não viram nada suspeito?"
"Eu não vejo nada faz um tempo tenente. Mas lhe asseguro que esse jovem não é um suspeito.", respondeu Christof com um tom firme. "Apenas encontramos a jovem ferida e tentamos ajudá-la. Não temos nada a ver com isso."
O tenente continuou olhando para os dois homens por um momento, antes de se afastar e começar a fazer anotações em seu caderno. Fransisco e Christof trocaram um olhar aliviado, sabendo que haviam escapado de uma situação perigosa.
"Obrigado por ter me defendido, Christof", disse Fransisco, aliviado. "Por um momento achei que ele fosse prender."
"Não se preocupe, meu amigo", respondeu Christof com um sorriso reconfortante. "Eu não deixaria que isso acontecesse. Agora, vamos tentar encontrar Artemis, Drake e Schnee e ver se podemos ajudar de alguma forma."
"Onde eles foram?" Com a preocupação estampada em sua voz, Fransisco indaga Christof sobre o paradeiro dos amigos. Mas mesmo com seus sentidos aguçados, o cego explorador não consegue localizá-los. "Se você não consegue vê-los, imagine eu. Talvez estejam se escondendo", sugere Christof.
Enquanto isso, Drake, Artemis e Schnee deslocam-se sorrateiramente pelos becos sinuosos de Paranes, tentando evitar chamar a atenção da guarda. No entanto, a tensão palpável no ar é quebrada pelas palavras de Artemis: "Será que isso é uma boa ideia? Podemos acabar nos metendo em mais problemas".
Sem perder o ímpeto, Drake responde: "Se você quiser ficar para trás com Christof e Fransisco, pode ficar. Meus anos na rua me ensinaram que um crime não se resolve quando os guardas são envolvidos. Nós vamos descobrir o que está acontecendo aqui".
Artemis se cala e, mesmo insegura, segue seus companheiros determinada a ajudá-los a solucionar o mistério que envolve Maxinne.
Enquanto os Heróis se esgueiravam pelas ruas de Paranes, Drake sussurrou para Schnee: "Tente se recordar do sobrenome da Maxinne. Isso pode nos ajudar a localizar sua família".
Schnee franziu a testa, tentando desesperadamente recordar o sobrenome perdido. "Eu não consigo me lembrar... ela sempre se referia ao pai dela apenas como 'pai'."
Drake não se rendeu, sabia que a informação poderia ser a chave para solucionar aquele mistério. "Concentre-se, Schnee. É importante. Ela disse o sobrenome pra gente."
Schnee começou a murmurar uma série de possíveis sobrenomes em voz alta: "Lorenzo?, Laurier?, Lauzon?, Lorentz?" Até que, finalmente, em uma epifania, ele exclamou: "Laurent!"
Drake imediatamente concordou, "Sim, Laurent! É isso mesmo." Os três heróis agora tinham um fio de esperança para seguir, e talvez pudessem descobrir o paradeiro do pai de Maxinne. Eles vagaram pelas ruas estreitas de Paranes, procurando por informações sobre a família Laurent. Eles se aproximaram de um velho mendigo sentado na sarjeta, com a barba grisalha e maltratada.
"Desculpe incomodá-lo, meu senhor, mas estamos procurando informações sobre a família Laurent. Você sabe algo sobre eles?", perguntou Artemis.
O mendigo levantou a cabeça, com um olhar vago, e coçou a barba. "Laurent? Ah, sim, ouvi falar deles. Não sei muito, mas há um prédio com o sobrenome na porta, não muito longe daqui. Talvez possa ajudar vocês", disse ele, apontando na direção da rua principal.
Os heróis agradeceram e seguiram em frente, mas logo perceberam que havia mais de um prédio com o nome Laurent. Eles decidiram perguntar a outro cidadão.
"Com licença, senhor. Você poderia nos dizer algo sobre a família Laurent? Estamos tentando encontrá-los", perguntou Schnee.
O homem pareceu surpreso com a pergunta e coçou a cabeça. "Laurent? Ah, sim, me lembro deles. Eles costumavam morar aqui, mas se mudaram há alguns anos. Não sei para onde foram. Talvez possam tentar a sorte na praça central", disse ele, apontando na direção oposta da qual eles sabiam que era a da praça central.
Os heróis agradeceram novamente e seguiram em frente, frustrados. Eles perguntaram a mais pessoas, mas ninguém parecia saber ao certo onde a família Laurent poderia estar. Algumas informações eram irrelevantes, enquanto outras eram confusas e contraditórias.
Do outro lado da cidade, Christof e Francisco auxiliavam os guardas na remoção de Maxinne, que jazia ferida em seus braços. A jovem fora atacada e agora precisava de cuidados médicos urgentes. Os heróis se prontificaram a ajudar, mesmo sem saber ao certo o que havia acontecido com ela.
Com muito cuidado, levantaram a garota e a colocaram na parte de trás de uma carruagem que aguardava ali perto. O tenente agradeceu a ajuda e avisou "Ela sera levada para o aquartelamento da guarda, onde recebera os devidos cuidados médicos." Christof e Francisco se despediram da garota e dos guardas, ficando para trás na praça movimentada, cercados por uma multidão curiosa.
Em meio ao silêncio que se seguiu, Christof decidiu puxar assunto com o guarda mais próximo que fazia conteção do perimetro. "Esta cidade é bastante movimentada. Deve ser difícil manter a ordem em um lugar assim".
O guarda suspirou, concordando com a cabeça. "Realmente não é fácil. Paranes é uma cidade grande e diversificada. Há muitas pessoas e muitas coisas acontecendo aqui".
Christof assentiu com a cabeça. "E vocês parecem estar sempre atarefados".
"Infelizmente, sim", disse o guarda, olhando em volta como se esperando encontrar algum perigo oculto nas sombras. "Mas é o nosso trabalho. Temos que manter a cidade segura e garantir que os cidadãos estejam em paz".
Christof percebeu que não obteria mais informações dos guardas. Então, ele decidiu ficar em silêncio e apenas se voltou para Fransisco, refletindo sobre a cidade que agora os cercava. "É bom aqueles três não terem se metido em confusão. Essa cidade é mais perigosa do que aparenta", disse, enquanto apertava sua bengala.
Depois quase uma hora de busca, Artemis, Drake e Schnee finalmente encontraram um velho lojista que se lembrava da família. Era um homem de meia idade, com barba por fazer e um sorriso amigável. Ele usava uma camisa de linho marrom e calças de couro pretas, combinando com sua boina de couro marrom. Ele cumprimentou os heróis com um aceno de cabeça quando eles entraram na loja.
A loja em si era pequena e abarrotada, com prateleiras de madeira cheias de artigos tecno-vapor. Havia canos de metal, engrenagens, válvulas e outros itens misteriosos que os heróis não conseguiram identificar. Uma grande máquina de metal preenchia um canto da loja, zumbindo suavemente enquanto trabalhava em algum tipo de projeto desconhecido. O Velho lojista apontou para uma pequena rua lateral. "Essa é a rua. Eles têm uma casa-oficina bem ali. Boa sorte, jovens", disse ele, antes de retornar ao seu trabalho de arrumar as prateleiras.
A casa dos Laurent era uma das maiores daquela rua estreita e sinuosa de Paranes. Era elegante e imponente, de dois andares. A fachada principal apresentava um belo trabalho de pedra, com ornamentos em alto relevo que emolduravam as janelas e a entrada principal. A lateral da casa dava para um pequeno jardim, repleto de flores e plantas exóticas. Drake notou que a grama estava bem cortada e havia um pequeno banco de madeira próximo a uma fonte de água. Parecia um lugar perfeito para um momento de relaxamento.
As plantas no pequeno jardim na lateral da casa dos Laurent eram de uma beleza peculiar. Com suas folhas verdes e brilhantes, pareciam saudáveis e bem cuidadas. No entanto, uma inspeção mais próxima revelaria que elas eram na verdade feitas de metal e chumbo, uma técnica comum na cidade de Paranes para criar plantas artificiais que não precisavam de cuidados.As folhas eram esculpidas com precisão, cada detalhe minuciosamente trabalhado, e as flores eram pintadas à mão com cores vivas e vibrantes. Algumas plantas pareciam tão reais que era difícil distinguir se eram de verdade ou não.
Ainda observando a casa, Drake notou que havia uma pequena varanda no segundo andar, que dava para a rua. As janelas estavam abertas, e ele podia ouvir o som de uma música suave vindo de dentro da casa. Parecia que alguém estava acordado e aproveitando a noite.
Drake olhou para a chave que Maxinne lhe havia dado. Era uma chave de metal antigo, com um formato curioso, que parecia ter sido feita à mão. Era longa e fina, com cerca de quinze centímetros de comprimento e um centímetro de largura. A parte superior da chave tinha um formato arredondado, enquanto a parte inferior era afunilada em direção à extremidade. Mas o que mais chamava a atenção era o entalhe na ponta da chave, que parecia ser feito sob medida para encaixar na fechadura da porta principal da casa dos Laurent. Era como se a chave tivesse sido feita especialmente para aquela fechadura. O herói nunca havia visto nada parecido antes, mas podia sentir que ela era importante.
Sem hesitar, Drake se aproximou da porta principal da casa dos Laurents. A porta era grande e imponente, feita de madeira maciça e adornada com detalhes de ferro forjado. Drake inseriu a chave na fechadura e girou-a, ouvindo um leve clique. Para sua surpresa, a porta se abriu facilmente. Drake ficou impressionado com a chave e com a facilidade com que a porta se abriu. Ele sabia que era um sinal de que algo importante estava prestes a acontecer. Com cautela, ele entrou na casa e olhou ao redor.
Assim que Drake, Artemis e Schnee entraram na casa dos Laurent, foram recebidos por uma atmosfera sombria e empoeirada. A iluminação era fraca, com apenas alguns pontos de luz espalhados pelo espaço, destacando a decadência do local. O cheiro de mofo e de materiais enferrujados tomava conta do ambiente.
A primeira coisa que os Heróis notaram foi a quantidade de invenções tecnovapor espalhadas pela casa. Engrenagens, válvulas, tubulações e fios de cobre estavam por toda parte. Peças de metal retorcidas e amontoadas em pilhas, enquanto outras estavam suspensas no teto por correntes de ferro.
Havia uma bancada de trabalho no centro da sala principal, com ferramentas espalhadas sobre ela, incluindo um alicate, uma serra e um martelo. Em um canto, havia uma máquina estranha e complicada que emitia zumbidos e chiados constantes, e em outro canto, um grande tanque de metal com líquido borbulhante e fumaça saindo dele.
As paredes estavam repletas de prateleiras cheias de livros empoeirados, diários e cadernos com anotações de invenções, esboços e diagramas. Em uma estante, uma coleção de objetos estranhos, como lâmpadas de luz á gás, geringonças que emitiam vapores coloridos e relógios que pareciam ter mais de uma dúzia de ponteiros.
Apesar da desordem e decadência, era evidente que Laurent era um gênio tecnovapor. Sua casa era uma verdadeira oficina de invenções, com uma grande quantidade de invenções tecnovapor que, mesmo em estado de abandono, ainda eram capazes de impressionar os Heróis.
Os Heróis avançaram pela casa, subindo as escadas com cautela. Schnee, com seus músculos avantajados e porte imponente, liderava a equipe, oferecendo uma sensação de segurança para Drake e Artemis, que vinham logo atrás.
No topo da escada, um som crepitante chamou a atenção dos três. Schnee ergueu a mão, indicando para que os outros dois esperassem enquanto ele investigava. Cuidadosamente, ele avançou pelo corredor, seus passos lentos e precisos ecoando pelo ambiente silencioso, as mãos estendidas e prontas para agarrar qualquer coisa que pudesse representar uma ameaça.
O som crepitante se tornou mais alto e definido conforme eles se aproximavam, revelando uma luz azulada que pulsava como se estivesse respirando. A porta entreaberta, fonte da iluminação, chamou a atenção dos Heróis que, curiosos, se aproximaram. Schnee olhou para trás e acenou para que Drake e Artemis se aproximassem.
Com o coração acelerado, Schnee empurrou a porta lentamente, revelando o que havia do outro lado. A luz azulada iluminou o corredor com uma intensidade sobrenatural, pintando tudo em tons sombrios de azul. O som crepitante tornou-se mais alto, como se algo estivesse prestes a explodir.
Schnee, com sua postura imponente e seu rosto sério, ficou em posição de ataque, pronto para proteger seus companheiros. Com uma mão trêmula, empurrou a porta ainda mais, revelando um laboratório tecnovapor de alta tecnologia.
A sala era grande e mal iluminada, repleta de mesas cobertas de papéis, ferramentas e peças de metal. O cheiro de óleo e fumaça permeava o ar. Havia todo tipo de invenção tecno-vapor ali, desde pequenos dispositivos que emitiam luz e vapor até máquinas enormes que enchiam a sala com um som ensurdecedor.
Mas o que chamou a atenção dos Heróis não foram as invenções em si, mas sim a figura sem vida de um homem em uma das mesas. Era provavvelmente o Senhor Laurent, o dono da casa.
Os Heróis se aproximaram com cautela, examinando o corpo do homem. Ele estava pálido e frio ao toque, seus olhos sem vida olhando para o teto. A pele de sua garganta estava cortada profundamente, expondo a carne e deixando um rastro de sangue que se misturava com os documentos que ele segurava.
A expressão em seu rosto era de terror e angústia, como se tivesse sido pego desprevenido pelo ataque. As roupas que vestia estavam rasgadas e manchadas de sangue, e em sua mão esquerda ainda segurava um objeto quebrado, provavelmente uma tentativa desesperada de se defender.
Os Heróis se aproximaram com cautela, olhando para o corpo sem vida do homem que havia criado e amado Maxinne. Enquanto examinavam o corpo, a luz azulada que vinha da máquina Tecno-vapor parecia pulsar com mais intensidade. Drake se aproximou da máquina, examinando-a com cuidado. Era um modelo desajeitado, mas ainda assim impressionante, com engrenagens de bronze brilhantes e fios tecidos à mão. Ele imaginou o que o Senhor Laurent teria feito com tal tecnologia, e por que alguém o teria assassinado por causa disso.
A máquina de Eletromagnetismo Tecnovapor era uma visão impressionante. Ela ocupava quase todo o espaço da sala, com um suporte robusto que a mantinha firme no lugar. A máquina possuía uma série de engrenagens e polias de latão, algumas em movimento constante, outras paradas. Um grande dínamo, de metal reluzente, parecia ser o coração da máquina.
O que chamava mais atenção, no entanto, era a esfera de vidro oca que se encontrava no topo do suporte. A esfera pulsava com uma luz azulada, que parecia estar viva. Os Heróis se aproximaram da máquina, fascinados com o que viam.
Schnee tocou a esfera de vidro com a ponta dos dedos, sentindo uma sensação de formigamento. "Incrível", ele murmurou. "Como é possível?"
O Senhor Laurent havia encontrado uma forma de armazenar eletricidade na esfera de vidro. Ele usava uma técnica chamada "geração de eletricidade por atrito", que havia sido descoberta por William Gilbert em 1600. A máquina de Eletromagnetismo Tecnovapor utilizava uma série de rolamentos de esferas para gerar a eletricidade, que era então armazenada na esfera de vidro. O processo era complexo e exigia uma grande quantidade de energia para ser realizado, mas o resultado era surpreendente. Drake se aproximou da máquina, observando-a com atenção. Ele notou que havia um pequeno interruptor na lateral da máquina. Com um gesto rápido, ele o acionou, e a esfera de vidro começou a emitir uma luz ainda mais forte.
Artemis, por sua vez, examinou os documentos manchados de sangue que estavam espalhados pelo chão. Eles pareciam ser planos para a construção de uma nova máquina, mas com certeza eram inúteis agora, manchados com o sangue do homem que os escrevera.
Schnee ficou de guarda enquanto seus amigos examinavam a cena do crime. Ainda havia um assassino à solta, e ele não permitiria que seus amigos fossem pegos desprevenidos novamente.
Drake estava vasculhando a sala de invenções em busca de qualquer pista que pudesse explicar o que havia acontecido com o Senhor Laurent. Ele estava tão concentrado que quase não percebeu os sons vindos de fora da casa. Mas, de repente, ele parou de mexer nas coisas e franziu o cenho.
"O que foi?" perguntou Artemis, notando a expressão de preocupação de Drake.
"Eu ouvi vozes lá fora," disse ele, caminhando até a janela e olhando para a rua lá embaixo.
Artemis e Schnee se aproximaram para ver o que estava acontecendo. Lá embaixo, eles viram dois guardas com suas espadas desembainhadas. Os homens pareciam estar discutindo entre si, mas não era possível ouvir o que estavam dizendo.
"O que acha que eles querem?" perguntou Schnee, com uma mão no cabo de sua espada.
"Não faço ideia, mas não vai ser fácil explicar por que estamos vasculhando o escritório de um homem morto," respondeu Drake, preocupado.
Eles ficaram em silêncio por um momento, observando os guardas. Então, Artemis virou-se para os outros dois.
"O que vamos fazer?" perguntou ela, olhando para cada um deles.
Drake e Schnee trocaram um olhar, antes de se virarem novamente para a janela. Eles sabiam que tinham que ser cautelosos, mas também sabiam que precisavam descobrir sair dali o quanto antes. Os três heróis concordaram silenciosamente em sair da casa antes que os guardas os encontrassem. Eles rapidamente pegaram alguns documentos e se prepararam para sair pela porta dos fundos, mas Schnee se virou e correu de volta para a máquina de eletromagnetismo.
Sem consultar seus amigos, Schnee alcançou a esfera de vidro que continha a corrente elétrica e tentou removê-la do suporte. Mas, assim que ele girou a esfera, uma descarga elétrica brilhante disparou pelo ar, atingindo Schnee em cheio. Um som estranho e agudo ecoou pela sala de invenções. Era como um zumbido alto e crescente, misturado com uma série de estalos elétricos. O som ecoou pela sala, fazendo com que Artemis e Drake se sobressaltassem. O choque o jogou para trás e o fez cair no chão, inconsciente.
Ao encostar na esfera de vidro que continha a carga elétrica, Schnee se tornou parte do circuito elétrico. Como ele estava tocando a esfera e o suporte, que eram condutores, a corrente elétrica passou através do seu corpo, o que pode ter causado um choque elétrico. O choque elétrico pode ter danificado os tecidos de seu corpo, afetando os músculos, nervos e outros órgãos. Dependendo da intensidade e duração da corrente elétrica, Schnee pode ter sofrido desde queimaduras na pele até lesões mais graves, como paralisia ou até mesmo a morte.
Quando a corrente elétrica atingiu o corpo de Schnee, ele emitiu um grito agudo e estrangulado de dor. Era como se o seu corpo estivesse sendo puxado em diferentes direções ao mesmo tempo. O choque elétrico o deixou tonto e desorientado, fazendo com que ele perdesse temporariamente a consciência. Seus músculos se contorceram involuntariamente e seu corpo foi jogado para trás, longe da máquina.
Artemis e Drake correram até ele, preocupados com o que havia acontecido. Schnee estava caído no chão, tremendo e gemendo de dor. Eles tentaram acordá-lo, mas ele estava inconsciente.
"O que você fez, Schnee?" perguntou Drake, franzindo o cenho.
Quanto à máquina de eletromagnetismo, ela permaneceu ali, emitindo sua luz azulada enquanto a corrente elétrica circulava pela esfera de vidro oca. Sem o Senhor Laurent ou Schnee para estudá-la e entendê-la, a máquina permaneceria um mistério por muitos anos. Mas, para aqueles que a vissem, ela seria lembrada como um exemplo dos perigos da curiosidade humana e da busca pelo conhecimento a qualquer custo.
Os guardas lá embaixo ficaram alarmados quando ouviram o barulho da máquina e viram o clarão de luz vindo da janela do escritório. Eles imediatamente se aproximaram da casa, suas espadas ainda em punho. Os guardas subiam rapidamente para o segundo andar, Artemis e Drake desesperadamente tentavam acordar Schnee, mas só foi quando Artemis deu um forte tapa no rosto do Caçador-de-Monstros que ele se reergueu como se tivesse acordado de um sonho ruim.
Os guardas do lado de fora ficaram alarmados quando o estrondo da máquina ecoou pelo ar e um clarão ofuscante iluminou a janela do escritório no segundo andar. Eles não hesitaram em correr para a casa, espadas em punho e prontos para agir. Enquanto subiam rapidamente a escadaria, Artemis e Drake tentavam desesperadamente acordar Schnee, que permanecia inconsciente após seu contato com a máquina infernal. Foi somente depois que Artemis deu um tapa forte em seu rosto que o Caçador de Monstros se reergueu, como se tivesse sido puxado de um sono profundo e tumultuoso.
Drake rapidamente correu até a porta, trancando-a com uma cadeira para impedir a entrada dos guardas que já estavam a caminho. Quando os guardas finalmente chegaram e viram a porta trancada, um deles gritou: "O que está acontecendo aí dentro? Rendam-se imediatamente!" Drake e Artemis trocaram olhares de preocupação, pois sabiam que estavam em perigo.
Do lado deles o Caçador de Monstros estava com uma aparência cômica: Seus cabelos alvos agora estavam arrepiados em todas as direções, parecendo uma espécie de afro branco, e sua barba estava toda arrepiada e eriçada. Seus olhos amarelos, que normalmente pareciam serenos, agora estavam arregalados e brilhando com uma intensidade quase assustadora. Ele parecia estar tendo uma reação alérgica, com seu rosto inchado e vermelho, e sua pele formigando como se estivesse repleta de formigas invisíveis. Seu corpo musculoso vibrava como se estivesse prestes a explodir. Tentando falar, ele apenas emitia sons estranhos e descoordenados, como se tentasse falar várias palavras ao mesmo tempo.
Drake e Artemis não conseguiram conter o riso ao verem a aparência cômica de Schnee, mas rapidamente perceberam que a situação era séria e tentaram ajudá-lo. Eles sabiam que precisavam encontrar uma maneira de escapar dali o mais rápido possível, antes que fosse tarde demais. Foi então que ouviram os guardas arrombando a porta, e olhando para a janela, decidiram correr o risco e saltar do segundo andar, com o objetivo de fugir para longe da ameaça iminente.
Com os guardas batendo furiosamente na porta, Drake e Artemis perceberam que não havia tempo a perder. Com muito esforço, eles conseguiram erguer o corpo ainda cambaleante de Schnee, que parecia estar tendo dificuldades para se manter em pé.
Com passos apressados, os três correram em direção à janela aberta, prontos para saltar para a liberdade. Artemis foi a primeira a se jogar, seguida por Schnee, que ainda estava um pouco tonto e desorientado. Por fim, Drake saltou, fechando os olhos por um momento enquanto o vento batia em seu rosto.
Os heróis caíram no chão abaixo, machucando-se levemente na queda. Schnee parecia ter levado a pior, cambaleando por alguns momentos antes de recuperar o equilíbrio. Seus cabelos brancos pareciam ainda mais desgrenhados do que antes, e seu rosto ainda estava inchado e vermelho. Artemis estava com o cabelo vermelho chamativo em seu pico e com o rosto ofegante enquanto respirava rápido.
No momento em que o último deles aterrissou, os guardas finalmente conseguiram arrombar a porta do escritório. Eles entraram com espadas em punho, prontos para capturar os heróis, mas encontraram apenas uma sala vazia e silenciosa.
Os guardas saíram correndo da casa, olhando em todas as direções em busca dos heróis fugitivos. Mas os três já se encontravam longe dali, correndo pelas vielas e becos da cidade. Os guardas viram apenas os cabelos vermelhos chamativos de Artemis e o desastre ambulante que Schnee se tornou, cambaleando pelas ruas em direção à liberdade.
Christof estava de pé em frente à majestosa Torre do Relógio, sua expressão carrancuda mostrando a insatisfação com a situação. Ele resmungava para si mesmo, irritado com a falta de responsabilidade de seus companheiros de equipe. "Não acredito que eles simplesmente sumiram assim! Drake, Artemis e Schnee não tinham o direito de desaparecer dessa maneira. Eles têm um compromisso importante com o alcaíde Gepetto e agora vamos perder essa oportunidade!", disse ele, frustrado.
Fransisco,com sua tranquilidade costumeira, colocou a mão no ombro do cego, tentando acalmá-lo. "Eu entendo sua preocupação, Christof, mas vamos tentar manter a calma e pensar em uma solução. Talvez eles tenham tido um imprevisto, algo que não puderam evitar."
Christof suspirou, sabendo que Fransisco estava certo. Ele não queria deixar sua ansiedade afetar sua capacidade de raciocínio. "Você tem razão, Fransisco. Precisamos pensar em uma solução. Talvez possamos procurá-los pelas ruas, perguntar aos moradores se viram algo incomum."
Enquanto Christof e Fransisco conversavam, o coração dos outros três heróis palpitava com força, eles finalmente apareceram, ofegantes, com a aparência abatida após a fuga da residência Laurent. Fransisco sorriu aliviado quando os viu. "Graças a Deus! Lá estão eles!" Ele se aproximou de seus amigos esbaforidos. "Estávamos preocupados."
Artemis, ainda recuperando o fôlego, respondeu: "Desculpe pelo atraso. Tivemos um pequeno contratempo na residência Laurent. Mas estamos bem, não se preocupe."
Christof sentiu um cheiro incomum no ambiente. "Que cheiro de queimado é esse."
Drake explicou: "Schnee recebeu um choque elétrico durante a fuga. Ele ainda está se recuperando, mas está bem."
Fransisco se aproximou de Schnee, colocando a mão em seu ombro. "Um Raio caiu em você?"
Os quatro seguiram em direção ao majestoso prédio da prefeitura de Paranes, enquanto Christof perguntava sobre a fuga da residência Laurent. "O que aconteceu lá? Por que vocês tiveram que fugir?"
Artemis respondeu: "Descobrimos algumas coisas suspeitas lá! Tinha uma máquina estranha e..."
Christof interrompeu, preferindo não se envolver mais do que já estava. "Esqueça! Quanto menos eu souber melhor. Vamos nos focar em pegar os documentos da embarcação com o alcaíde e sairmos de Paranes antes que vocês, o Trio Maravilha, nos coloquem em problemas de novo."
Enquanto o grupo caminhava em direção à prefeitura de Paranes, Schnee avistou a Biblioteca de Tassegasse no caminho. Seus olhos brilharam de interesse, e ele se virou para Christof com um sorriso animado.
"Olha só, uma biblioteca! Será que podemos dar uma olhada rápida?" Schnee perguntou.
Christof riu suavemente em deboche, se virando para o companheiro. "Schnee, você não transmite exatamente a energia de um leitor ávido. O quê iria quere fazer em uma biblioteca?"
"Preciso de mais informações sobre os Laurent. Algo não me cheira bem nessa História toda." Diz Schnee fitando a biblioteca.
"Ora. Esse assunto de novo, já lhe disse que temos um compromisso como Alcaíde." Resmungou Christof. "E além do mais de nada adiantaria, essa informação muito provavelmente estaria numa área de acesso restrito para membros exclusivos."
"Membros exclusivos?" Schnee não sabia do que se tratava.
Christof explicou: "Sim, são pessoas como docentes, professores, liceus e outras que têm acesso a materiais mais restritos para pesquisa."
Schnee olhou para Christof, intrigado, e perguntou: "Pessoas como você?"
Christof assentiu, com um leve ar pomposo. "Exatamente. Pessoas como eu."
Antes que Christof pudesse dizer mais alguma coisa, Schnee já estava a caminho da recepção da biblioteca, decidido a tentar obter acesso aos materiais restritos. Christof ficou um pouco enfurecido e preocupado com o horário. Enquanto os outros heróis pareciam querer se afastar para explorarem a cidade, Christof apenas pigarreou em protesto, fazendo-os retornar sem jeito para perto dele.
"Que Deus me ajude", lamentou Christof, vendo sua tentativa de manter o grupo unido ser frustada novamente.
Dentro da Biblioteca, Schnee encontrou-se no mesmo ambiente que Artemis e Fransisco estavam anteriormente. Ele avistou Tracryn, o pequeno gnomo sentado na cadeira alta. Schnee se aproximou do balcão e, com seus imponentes quase dois metros de altura, olhou para o gnomo com seriedade.
"Boa tarde. Preciso de acesso aos registros dos moradores da cidade." Disse Schnee, fazendo questão de adotar um tom de voz sério e autoritário.
"Ah! Sim, sim... Eu entendo, senhor. Só vou precisar do seu nome para lhe dar o acesso a essa área." Disse o Gnomo, pegando um grande livro pesado e empoeirado, abrindo-o e fazendo a poeira voar.
"Christof Dior." Disse Schnee, mentindo com confiança, já colocando seu plano astuto em prática.
O Gnomo ajustou seus óculos em confusão ao ler no grande livro "Docente" ao lado do nome de Christof Dior, e olhou para Schnee com suspeita. "Você não faz exatamente o tipo de professor pra mim..."
Schnee não se deixou abater e, com um sorriso esperto, respondeu com um toque de ironia: "Ah, você sabe como é... o mundo é cheio de surpresas, meu caro. Nem todos os professores são iguais, assim como nem todos os gnomos têm barbas compridas."
O gnomo ficou momentaneamente confuso com a resposta, mas acabou rindo do jovem herói. "Você tem razão! Estou sempre surpreendendo os visitantes aqui também. Vou conceder o acesso aos registros. Boa pesquisa, Professor Dior!"
Schnee agradeceu ao gnomo com um aceno de cabeça, satisfeito por ter conseguido o acesso. Agora, ele tinha a oportunidade de buscar informações sobre os Laurent e talvez encontrar pistas que pudessem ajudar o grupo em sua jornada. Com um ar confiante, ele se dirigiu para a área de pesquisa, deixando o gnomo ainda sorrindo em seu posto.
Os quatro heróis esperavam impacientemente do lado de fora da biblioteca, cada um com seus pensamentos e preocupações. Christof estava especialmente impaciente, dando alguns passos de um lado para o outro. Drake, por sua vez, estava encostado na parede, perdido em pensamentos sobre o encontro com o misterioso ser na taverna da Rebimboca da Parafuseta, tentando desvendar os mistérios que envolviam aquele ser enigmático.
Enquanto isso, Artemis e Fransisco, que tinham concluído sua partida do jogo infantil, encontraram uma maneira de passar o tempo. Eles estavam jogando pedrinhas, tentando acertá-las em um pequeno alvo desenhado no chão. Era um jogo que ambos conheciam desde criança e os ajudava a distrair a mente enquanto aguardavam.
Nesse momento, Christof resmungou impaciente, olhando novamente para a porta da biblioteca. Drake notou sua impaciência e decidiu acalmar os ânimos.
"Não se preocupe tanto, Christof. Tenho certeza de que ele logo virá. E no fim do dia, o alcaíde ainda estará no gabinete dele. Vamos conseguir os documentos que precisamos", disse Drake com uma calma que contrastava com sua postura normalmente arrogante.
"Eu só estou preocupado com nossa imagem." retrucou Christof. "Que mensagem estariamos passando ao chegarmos no nosso próprio horário e termos?"
"Vamos ter paciência, pessoal. Tenho certeza de que Schnee encontrará o que precisa lá dentro, aquele Gnomo é muito simpático.", disse Artemis, sorrindo otimista.
Fransisco concordou com um aceno de cabeça e acrescentou: "É verdade. Já, já ele volta Senhor Dior."
Schnee adentrou os corredores Biblioteca de Tassegasse com determinação, mas logo percebeu que sua busca pelos registros dos Laurent não seria tão fácil quanto imaginara. A biblioteca era imensa, com prateleiras intermináveis repletas de livros empoeirados. Ele seguiu as indicações dadas pelo gnomo da recepção e se dirigiu à seção de registros históricos.
Porém, ao vasculhar os livros e pergaminhos da seção, Schnee não encontrava nada que pudesse fornecer informações sólidas sobre os Laurent e suas pesquisas. Muitos dos arquivos pareciam incompletos, como se páginas inteiras tivessem sido arrancadas ou deliberadamente removidas dos registros. Aquilo era estranho e aumentava a sua suspeita de que havia algo mais obscuro por trás da história dos Laurent.
Enquanto Schnee continuava sua busca nos registros exclusivos da biblioteca, alguns minutos se passaram, e Christof já estava impaciente do lado de fora. Ele havia ficado esperando por um tempo considerável, e a preocupação com o horário o deixava ainda mais inquieto.
Finalmente, não suportando mais esperar, Christof decidiu entrar na biblioteca para buscar Schnee. Ele se aproximou do gnomo bibliotecário na recepção com uma expressão séria.
"Com licença, preciso adentrar a área de Registros", disse Christof, tentando soar autoritário.
O gnomo olhou para Christof, um tanto surpreso. "Claro, senhor. Posso saber seu nome para verificar suas permissões?"
Christof respondeu: "Christof Dior."
O gnomo franziu a testa e coçou a cabeça, confuso. "Mas... você já... Eu digo ele.... Ele está.... O Senhor tem certeza que realmente é Christof Dior?"
Christof, já ficando irritado com a situação, respondeu com firmeza: "Mas que tipo de pergunta é essa? Claro que sou."
O gnomo parecia ainda mais perplexo, desconfiando que estava sendo tapeado. Antes que a situação pudesse piorar, Schnee retornou da área de registros, agradecendo ao gnomo pela permissão concedida. Schnee percebeu a tensão no ar e prontamente interveio.
"Desculpe pela confusão... Nós já encontramos o que precisávamos e estamos saindo", disse Schnee, pegando Christof pelo braço e puxando-o para fora da biblioteca.
O gnomo, ainda atordoado com a situação, apenas acenou em despedida enquanto a dupla saía apressadamente da biblioteca. Christof parecia um pouco surpreso com a intervenção de Schnee, mas não questionou. Ele sabia que o tempo estava passando, e não podiam perder mais tempo com mal-entendidos.
Os Heróis seguiram em direção ao imponente prédio da prefeitura, aliviados por terem escapado ilesos da situação perigosa na residência Laurent. Mas eles sabiam que havia muito a ser feito.para desvendar os mistérios que cercavam a cidade de Paranes.
Os Heróis adentraram o majestoso Prédio da Torre do Relógio e se encontraram no andar térreo. O ambiente estava repleto de assistentes, coordenados, escrivães, burgueses e vassalos, todos imersos em suas tarefas. O zumbido incessante das conversas e o movimento constante de pessoas deixava claro que ali era o coração da cidade.
As paredes altas e majestosas, feitas de pedra trabalhada à mão, pareciam contar histórias milenares de poder e autoridade. As grandes janelas permitiam a entrada de luz natural e proporcionavam uma vista impressionante da cidade, que parecia se estender até o infinito.
Cada detalhe do ambiente exalava eficiência e pragmatismo, como se a cidade fosse uma máquina perfeitamente projetada. A cada queixa e demanda apresentada pelos cidadãos, os assistentes e coordenadores trabalhavam incansavelmente para resolver os problemas de forma rápida e eficiente.
Os Heróis observavam tudo com admiração, impressionados com a organização da cidade e a dedicação de seus habitantes. Era impossível não sentir-se pequeno diante da grandiosidade daquele lugar, onde cada peça parecia se encaixar perfeitamente em uma engrenagem complexa.
Enquanto avançavam em direção ao objetivo de seu compromisso com o alcaíde Gepetto, os Heróis sentiam a grandiosidade da cidade envolvê-los, fazendo-os perceber o quão pequenos eram diante daquele magnífico cenário.
Os uniformes dos assistentes, coordenadores e escrivões de Paranes eram uma mistura única de tradição e tecnologia. Em um mundo em que a tecnovapor estava começando a se difundir, a cidade abraçava essa nova era enquanto mantinha seus valores antigos.
Os assistentes, responsáveis por ajudar os cidadãos em suas necessidades, vestiam trajes elegantes com coletes de couro e camisas de seda, adornados com botões de latão brilhante. Seus cabelos eram penteados para trás em um estilo clássico, enquanto uma pequena máquina a vapor escondida em seus coletes fornecia o ar necessário para mantê-los frescos durante o dia quente.
Os coordenadores, responsáveis por gerenciar os assuntos da cidade, vestiam ternos escuros de três peças com gravatas e chapéus de abas largas. Seus uniformes eram equipados com pequenos dispositivos a vapor que mantinham seus relógios de bolso funcionando com precisão e que os ajudavam a regular a temperatura corporal enquanto trabalhavam incansavelmente para manter a cidade em ordem.
Já os escrivões, responsáveis por manter registros e documentos da cidade, usavam uniformes mais simples com camisas de algodão e calças de linho. No entanto, suas canetas de pena foram substituídas por canetas-tinteiro e pequenos dispositivos a vapor foram incorporados a seus uniformes para secar a tinta mais rapidamente.
Em suma, os uniformes da cidade de Paranes refletiam a harmonia perfeita entre tradição e tecnologia, mostrando o espírito pioneiro da cidade em abraçar as novas descobertas da época.
Os Heróis aguardavam pacientemente em meio à agitação do andar térreo do Prédio da Torre do Relógio. Uniformizados assistentes, coordenadores e escrivães movimentavam-se freneticamente para atender às demandas e queixas dos cidadãos, dando vida à eficiência e ao pragmatismo da cidade de Paranes.
Um homem magro, com um bigode fino e uma expressão azeda, atendeu os Heróis com um tom de voz entediante e monótono, como se estivesse recitando um texto decorado "Bem vindos ao Prédio da Prefeitura de Paranes. Em que posso lhes ajudar?.". Seus óculos de lentes pequenas repousavam quase na ponta de seu longo e fino nariz, dando-lhe um ar ainda mais austero.
Christof, sempre pronto a agir com diplomacia, avançou em direção ao funcionário, esboçando um sorriso camarada. Com habilidade, retirou as cartas de Jack Horner de seu bolso e entregou-as ao assistente. "Estamos aqui para falar com o alcaíde Gepetto, a fim de buscar uns documentos referentes a uma escuna encomendada por Horner."
O homem analisou a correspondência com burocracia imprecável, fazendo Friederich Schnee se contorcer em agonia entediada. Mas, assim que verificou que tudo estava em ordem, esboçou um sorriso torto e falo: "Me acompanhem, vocês serão levados até o gabinete do alcaíde .". O grupo seguiu-o pelos corredores da torre, curiosos sobre o que os esperava na presença do líder da cidade.
O assistente conduz os Heróis por um corredor estreito e escuro, com uma iluminação fraca e enferrujada. Os heróis seguem atrás do homem, que se move com uma postura autoritária e determinada, até chegar a uma pequena sala quadrada. A sala era tão minúscula que mal comportava os cinco heróis. Não havia móveis, nem janelas, apenas uma porta simples que parecia um buraco quadrado.
O assistente empurra o portão gradeado que separa a sala do corredor, puxa uma alavanca e, de repente, tudo começa a tremer. O chão sob os pés dos heróis treme e estremece, e eles ficam confusos e apreensivos sobre o que está acontecendo. Fransisco, instintivamente, agarra uma das barras de metal enquanto grita em pânico: "Isso vai explodir?".
Mas, na verdade, eles não estavam correndo perigo, a sala estava sendo erguida para cima por um engenhoso sistema de roldanas e cabos tecnovapor. O pequeno transporte horizontal deixa para trás o andar térreo e começa a se mover lentamente pelos andares superiores do prédio. O som das máquinas e das engrenagens enche o ar, e os heróis ficam maravilhados com a habilidade técnica da cidade de Paranes. Era como se estivessem voando, subindo em direção ao topo da Torre do Relógio, onde finalmente encontrariam o alcaíde Gepetto.
Os Heróis se agarraram às barras de metal que a rodeavam, tentando se manter firmes enquanto subiam pelos andares. Conforme o pequeno transporte horizontal avançava, eles eram capazes de observar com curiosidade os salões e as pessoas que passavam pelos andares abaixo.
Um andar parecia ser dedicado a reuniões, com um belo quadro do conselho de Kristadelle pendurado na parede. Os Heróis reconheceram algumas ilustrações de membros do conselho, como a bela Princesa Ella em um vestido carmesim com detalhes azuis, o velho amigo deles, o Duque Marcel Tempete, o próprio alcaíde Gepetto e o Capitão da Guarda Amion Inanoryie, em sua postura séria, com seus longos cabelos escarlates meticulosamente retratados. Também viram algumas outras personalidades na pintura que não conseguiram identificar, embora uma delas se parecesse bastante com o Duque.
Em seguida, passaram por um departamento repleto de invenções e tecnologias a vapor, onde presenciaram uma cena de uma invenção explodindo na cara de um pobre gnomo que ficou coberto de fuligem. O homem tossiu, expelindo uma pequena nuvem de poeira de carvão.
Eles também avistaram uma sala com caixas e mais caixas de documentos, onde pessoas tristonhas catalogavam e arquivavam cada um deles.
A jornada pelos andares continuou, com os Heróis subindo cada vez mais alto até que o mecanismo finalmente parou. A porta gradeada foi aberta por um homem de porte atlético e intimidador, que portava uma garrucha e um florete. Ele disse com uma voz grave: "O secretário-pessoal do alcaíde está esperando por vocês. Ele os atenderá. Sigam em frente e entrem sem bater."
Eles se dirigiram a porta aonde o Grande Brasão da Cidade se encontrava esculpido em ouro. O Brasão da cidade de Paranes apresenta uma imagem de uma engrenagem central, representando o progresso e a inovação da cidade, circundada por uma coroa de folhas de carvalho, simbolizando a força e a longevidade. Acima da engrenagem central, há uma imagem de uma águia, com as asas abertas e pronta para voar, representando a liberdade e a independência da cidade. Abaixo da engrenagem, há um lema em latim "Innovatio Progredior", que significa "Progresso pela Inovação". Todo o brasão é cercado por uma borda dourada e elegante, dando um toque de sofisticação e prestígio à cidade.
A porta da sala de transporte horizontal se abre, revelando um escritório modesto, decorado com retratos e mobiliário simples. O ambiente é silencioso, exceto pelo som da fumaça que sai do que parece ser um cigarro na cadeira atrás da mesa de madeira de pinho. O sofá chamativo é acompanhado por duas cadeiras postas de frente para a mesa, convidando os visitantes a se sentarem e esperarem pacientemente. A parede oeste chama a atenção com uma porta elegante, dando a entender que ali, naquele escritório, é apenas um local de espera antes de entrar na verdadeira sala de audiências.
Tudo parece estar em perfeita ordem, como se aquele escritório fosse uma pequena ilha de tranquilidade em meio ao caos da cidade.
Com um sorriso ladino, uma criança vira a cadeira de couro e revela-se aos Heróis. O menino de 11 anos que recebeu os Heróis tinha olhos azuis brilhantes como o céu em um dia claro de verão. Sua pele branca e bem cuidada, sem sinais de acne ou barba em crescimento, denunciava a sua pouca idade. Embora seu rosto parecesse o de uma criança. Ele usava uma camisa de renda branca e um colete preto que contrastava com sua pele clara. Seu calção preto combinava com meias cinzentas e sapatos de fivela dourada. Ele parecia tão limpo e polido que as roupas pareciam ter saído diretamente da lavanderia. Em sua mão, ele segurava um charuto apagado, evidenciando que havia acabado de fumar.
Francisco arregalou os olhos com a cena, enquanto Artemis, mais contida, colocou a mão na boca para conter a surpresa. Christof e Friderich pareciam lidar com a situação com mais calma. Drake Walker, por outro lado, parecia indiferente.
"Quem é você?", perguntou Friderich, em busca de respostas.
"Eu sou Pinocchio Del Salvanni, assistente do alcaíde Gepetto. E acredito que vocês sejam os contratados do Jack, certo?", respondeu o menino, como se aquela situação fosse a coisa mais comum do mundo.
Enquanto falava, Pinocchio levantou-se da cadeira e foi até a escrivaninha, como se fosse o dono do lugar. Francisco não conseguia tirar os olhos daquela criança fumante. Ele nunca tinha visto algo assim antes. Friderich não parecia muito surpreso, talvez já tivesse visto coisas mais estranhas em sua época em Zielkfrat.
O menino ofereceu conhaque para os visitantes. "Aceitam?", perguntou ele, parecendo muito mais velho do que aparentava. Friderich prontamente aceitou indo em direção ao copo, enquanto os outros recusaram educadamente.
"Meu pai está meio indisposto hoje, então eu vou ficar no lugar dele", explicou Pinocchio, enquanto servia uma dose de conhaque para Friderich.
Pinocchio voltou a acender outro charuto, fazendo com que Francisco tossisse levemente, incomodado com o cheiro. Artemis, por outro lado, não parecia incomodada. Ela examinou a sala com interesse, enquanto puxava uma cadeira e se sentava, cruzando as pernas e olhando para a porta ao lado que levava a sala de Gepetto.
Christof, também não se incomodou com o cheiro do charuto. Ele simplesmente sorriu e disse: "Como o tempo mudou. Quando eu era jovem, as crianças nem sequer falavam palavrão, muito menos fumavam charutos."
Pinocchio riu, "Criança? Já não sou criança a pelo menos uns 13 anos... Não se enganem com o que veem, ou no meu caso, meu amigo cego: com o que ouvem!"
Artemis, que evitava olhar diretamente para o menino fumante, acabou cedendo e olhou diretamente para ele. Pinocchio aproveitou a oportunidade para dar uma cantada nela: "Tá olhando o que, boneca? Se continuar me olhando assim vou me apaixonar. Sabe como é, gracinha, a vontade é de 27 anos, mas o palitinho é de 11!"
Artemis arqueou uma sobrancelha, claramente não gostando do tom de Pinocchio. "Não me chame de 'gracinha'", respondeu ela secamente, "E eu não sou uma de suas bonecas."
Pinocchio sorriu com malícia e deu um trago em seu charuto. "Ah, não se preocupe, boneca",disse ele com um piscar de olhos, "eu gosto de mulheres com atitude."
Artemis franziu o cenho e cruzou os braços. "Isso é nojento", disse ela com desprezo, "você é uma criança."
"O que me falta em tamanho...", disse Pinocchio, "... Eu compenso em outras áreas."
Artemis revirou os olhos. "Você é nojento", disse ela novamente, antes de virar as costas e se afastar dali.
Christof, sempre o mais sensato do grupo, levantou-se da cadeira com a elegância de um cavalheiro e colocou uma mão amistosa no ombro de Pinocchio. "Se não se importa, podemos seguir com a nossa missão? Precisamos dos documentos para que possamos partir."
Pinocchio fez uma careta e deu um tapa no bolso do seu paletó. "Claro, claro. Aqui estão eles." Ele pegou um pequeno envelope e o entregou a Christof.
Christof pegou o envelope com delicadeza e o examinou cuidadosamente em suas mãos. "Está tudo aqui?", perguntou ele.
"É claro que está", respondeu Pinocchio, com uma pitada de irritação em sua voz. "Você realmente acha que eu não posso ser confiável?"
"Não duvido da sua confiabilidade", disse Christof com um sorriso gentil. "Mas você sabe como é importante que tudo esteja correto. Não podemos correr o risco de deixar nada para trás."
Pinocchio revirou os olhos e pegou outro charuto, acendendo-o com um acendedor de mesa. "Sim, sim, eu entendo", disse ele, soprando a fumaça em uma nuvem espiral. "Mas você pode relaxar. Está tudo aí."
Enquanto os demais heróis permaneciam em silêncio, Friederich Schnee levantou-se da mesa e dirigiu-se até onde Pinocchio se encontrava. O garoto mantinha-se tranquilo, fumando seu charuto com curiosidade diante da cena que se desenrolava.
Com um olhar desdenhoso, Friederich observou o boneco que se tornara um menino de verdade e, com a voz carregada de ironia, perguntou-lhe: "Então, você é o famoso Pinocchio? Aquele que, por meio de uma transfiguração arcana, se tornou um ser humano de verdade?". Pinocchio permaneceu calado, aguardando que Friederich despejasse suas palavras ácidas sobre ele.
"Falamos muito sobre sua história em Zielkfrat. Um caso tão infame que jamais cairá no esquecimento. Mas fala par amim, como é ser transformado de um simples fantoche de madeira em um ser humano? Seu desejo de se tornar um menino finalmente foi realizado?", continuou Friederich, a provocação evidente em suas palavras.
Porém, as palavras do caçador de monstros foram recebidas por Pinocchio com um sorriso irônico. "Vejo que está com um pouco de inveja, Profano. Será que não consegue lidar com o fato de que não tem o que eu tenho? Não se preocupe, estamos todos juntos agora, lado a lado, como heróis. Talvez, então, não devêssemos julgar uns aos outros por nossas origens, mas sim pelas escolhas que fazemos em nossas vidas", respondeu o garoto com astúcia.
A resposta insolente de Pinocchio deixou Friederich em fúria, mas ele sabia que não poderia fazer nada contra as palavras do garoto. Assim, ele se afastou, deixando para trás um clima tenso entre os heróis, que se mantiveram em silêncio diante daquela breve, mas intensa, troca de palavras.
Fransisco, o jovem roceiro, não conseguia conter sua curiosidade. Desde que conhecera Pinocchio, uma questão persistia em sua mente: como fora possível um boneco de madeira se tornar um menino de verdade? Movido pelo ímpeto, decidiu que era hora de esclarecer a dúvida que lhe afligia.
"Perdão pro perguntar, Senhor Pinocchio, mas preciso saber: como isso foi possível?" perguntou Fransisco, com o olhar ansioso.
Pinocchio, compreensivo, sorriu gentilmente para o jovem. "A história é longa e um tanto complicada" começou o boneco, evocando o passado com as lembranças que lhe vieram à mente "Meu pai, um velho carpinteiro solitário, esculpiu-me de um pedaço de pinho. Logo após, eu encontrei uma bela moça de cabelos azuis que me ensinou a ser um menino bom e obediente. Sua fragrância doce, agradável, jamais saiu de minha memória..."
Fransisco interrompeu o relato com um sorriso satisfeito, compreendendo doque se tratava a tal "moça de cabelos azuis". "Ah, Canela", comentou ele, sorrindo com satisfação.
"Sim, Canela" confirmou Pinocchio "Infelizmente, nem sempre segui seus sábios conselhos e acabei me metendo em muitos problemas. Porém, a bondosa dama azul concedeu-me um desejo e, finalmente, transformou-me em um menino de verdade."
Enquanto isso, Drake Walker ouvia tudo com uma postura cética e desconfiada, observando a interação de longe. "Bobagem", resmungou ele, em tom baixo.
Pinocchio, notando o olhar descrente de Drake, deu de ombros, ainda sorrindo. "Acredite ou não, não serei o primeiro nem o último a ser chamado de mentiroso" – concluiu, exalando alegria e boa vontade.
Sobre a mesa de Pinocchio, estava um estranho aparelho retangular, com madeira coloridas e uma série de válvulas. Era um dispositivo de música raro e bastante caro, que reproduzia sons através de um mecanismo de vapor. O aparelho consiste em uma estrutura de madeira finamente trabalhada, onde o vapor é canalizado através de uma série de tubos e válvulas. No interior do aparelho, há um conjunto de placas de metal que vibram de forma precisa e organizada, criando o som musical.
Para ligar o aparelho, Pinocchio precisa primeiro acender uma pequena fogueira em um compartimento específico do aparelho, onde a água é fervida para gerar vapor. Esse vapor é então canalizado para as placas metálicas através de uma complexa rede de tubos, criando as vibrações necessárias para produzir o som musical. O vapor começou a fluir através de um tubo, e a música encheu a sala, com uma qualidade de som incrível. O boneco sorriu de satisfação, balançando a cabeça no ritmo da música.
Os heróis assistiram com admiração a performance de Pinocchio. Francisco ficou boquiaberto com a habilidade do menino e não pôde deixar de sugerir que ele tentasse a vida no teatro. "Caramba, Mestre Pinocchio! Você é muito bom! Deveria tentar a sorte nos palcos, tenho certeza de que faria sucesso!", exclamou Francisco, empolgado.
Artemis por sua vez foi pega de surpresa pela apresentação de Pinocchio e, aos poucos, foi relaxando e se permitindo balançar ao som da música. Ela perdeu sua postura defensiva e, por um momento, sentiu como se estivesse em outro mundo. "Isso é incrível", murmurou Artemis, encantada.
Christof não conseguia compreender muito bem o que estava acontecendo, mas não contestou a situação. Ele apenas fechou os olhos e se deixou levar pelo som da música, tentando imaginar o que estava acontecendo à sua volta.
Drake Walker sentiu-se um pouco constrangido com a situação. Ele não sabia como reagir à apresentação de Pinocchio e, por um momento, desejou estar em qualquer outro lugar. "O que é isso?", pensou Drake, desconfortável.
Friderich Schee fingiu não gostar da apresentação, mas no fundo queria saber fazer os passos de dança elaborados de Pinocchio. "Ah, isso é bobagem", disse Friderich, desdenhando da performance do menino. Mas, por um momento, ele se viu tentado a tentar reproduzir os movimentos que acabara de ver.
Pinocchio, o jovem menino-rapaz travesso, agradeceu aos heróis com uma reverência. "Muito obrigado, pessoal. Fico feliz que tenham gostado", disse ele, sorrindo. Quando Fransisco sugeriu que ele tentasse a vida no teatro, Pinocchio riu. "Já tentei, amigo. Mas não deu muito certo", explicou ele, ainda sorrindo.
De maneira geral, os heróis pareciam ter se divertido com a performance de Pinocchio. Cada um reagiu de uma forma peculiar, mas todos puderam apreciar a habilidade e o talento do jovem menino. Por fim, Pinocchio agradeceu a todos pelos comentários e desejou-lhes uma boa tarde. Ele se despediu com um aceno e um sorriso travesso antes de se recolher em seu escritório. Os heróis então deixaram o prédio da prefeitura e caminharam em direção à Estalagem Ogre Borgne para falar com Jack Horner.
Cutscene Final 1 - Sombras Quentes.
João Honesto e Gideão caminhavam pelos becos sujos de Paranes, em busca do encontro com o Homem nas Sombras. O som das engrenagens e o vapor das máquinas preenchiam o ar, misturando-se com o cheiro de fumaça e sujeira. João Honesto parecia bastante confiante, enquanto Gideão mantinha-se calado ao seu lado, sempre atento ao ambiente.
Eles finalmente chegaram a um beco escuro e estreito, onde um vulto se escondeu nas sombras.
"Quem está aí?", perguntou João, colocando a mão na bengala.
"Quem você acha?", respondeu o vulto misterioso, a figura nas sombras se move lentamente para a frente, revelando um rosto na penumbra e uma postura confiante. Seus olhos são perfurantes e sua voz suave e intimidante. "Agora que vocês dois chegaram, vamos direto ao ponto. A garota está à procura de Geldriel. O que vocês descobriram?"
João Honesto olha de relance para Gideão, que está ao seu lado, antes de responder. "Eu ouvi que ela descobriu que o senhor tinha Geldriel sobre o seu domínio, mas não fui eu quem abri o bico, disso senhor pode ter certeza.."
"Certeza." Imitou Gideão.
A figura nas sombras mantém seu olhar fixo em João Honesto por um momento antes de responder. "Não insulte minha inteligência. Sei que vocês são mais covardes doque estúpidos. Jamais tentariam qualquer coisa contra mim."
João Honesto parece um pouco desconfortável agora. Ele olha para a figura nas sombras e depois para Gideão mais uma vez antes de responder.
"Bem, eu ouvi algumas coisas. Mas não sei se isso vai ajudar. O que eu ouvi é que a garota estava se dirigindo para uma missão com um tal de Jack, Jack Horner."
A figura nas sombras acena com a cabeça lentamente, antes de se inclinar para frente e retirar uma pequena caixa de prata do bolso do casaco. Ele abriu a caixa e revelou várias pimentas malaguetas em seu interior.
"Obrigado pela informação, João. Você e Gideão são dispensados por enquanto. Mas saibam que eu vou estar de olho em vocês.", disse o homem, pegando uma das pimentas malaguetas e colocando-a inteira na boca.
E com isso, a figura nas sombras se vira e desaparece nas sombras. João Honesto e Gideão trocam olhares confusos antes de sair dos becos da cidade.
Cutscene Final 2 - Ressaca Real.
O Duque Marcel Tempete acorda com uma dor de cabeça insuportável, sentindo como se sua cabeça fosse explodir a qualquer momento. Ele abre os olhos e vê que está em sua cama, com os lençóis amassados e as cortinas fechadas. Ele coça os olhos e olha em volta, tentando se lembrar do que aconteceu na noite anterior.
Então, ele sente algo macio e quente ao seu lado. Ele sorri e estende a mão, acreditando que é Lady Adelaide, com quem flerta incessantemente na tarde anterior. Ele acaricia a pele macia e sussurra em seu ouvido, pedindo para ela acordar. Mas, para sua surpresa, ele sente um cheiro de óleo e manteiga.
Ele abre os olhos e se assusta ao ver um pequeno leitão coberto de gordura ao seu lado. Ele se levanta rapidamente, assustado e confuso. Ele olha em volta, tentando entender o que aconteceu.
Então, ele se lembra da noite anterior, do festival da colheita que sediou em sua casa. Ele se lembra de ter bebido demais, de ter dançado, de ter jogado cartas e de ter flertado com várias mulheres. Ele se lembra de ter comido muito, mas não se lembra de ter comido um leitão.
Ele se sente envergonhado e derrotado. Ele pensa em como pode ter sido tão tolo e como pode ter acabado com um leitão ao seu lado em sua própria cama. Ele se levanta e tenta afastar o leitão, mas o animal se recusa a sair.
Então, o Duque Marcel Tempete desiste e decide rir da situação. Ele se joga de volta na cama e começa a rir alto, imaginando a reação de seus amigos e inimigos se descobrirem sua "conquista". Ele percebe que, apesar de ter tido a maior ressaca de sua vida, ele também teve a noite mais engraçada de sua vida.
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